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A fome como arma política.

Escrito por Abdon Mar­inho

A FOME COMO ARMA POLÍTICA.

Por Abdon C. Marinho.

ESTA­MOS a menos de noventa dias do pleito eleitoral, este ano pre­visto para ocor­rer em 2 de out­ubro, con­forme a leg­is­lação eleitoral.

Este é o período que os espe­cial­is­tas chamam de “micro­processo” eleitoral, a reta final, daqui a pouco serão as con­venções par­tidárias para escolha dos can­didatos, o iní­cio da cam­panha pro­pri­a­mente dita, a uti­liza­ção do rádio e tele­visão para a pro­pa­ganda eleitoral gra­tuita e o voto, quando os eleitores poderão (?) livre­mente escol­her aque­les que irão con­duzir os des­ti­nos do país, dos esta­dos e exercer a rep­re­sen­tação do povo nas casas dos par­la­men­tos.

Pois bem, foi den­tro deste período del­i­cado do pleito eleitoral que o gov­erno e seus ali­a­dos no Con­gresso Nacional con­tando com a cumpli­ci­dade forçada ou não da oposição resolveu aumen­tar o valor do Auxílio Brasil — o ex-​Bolsa Família –, para R$ 600 reais, criar uma “bolsa-​caminhoneiro” de 1mil reais e uma bolsa-​taxista de R$ 200 reais e dobrar o valor do vale-​gás para R$ 120 reais a cada dois meses.

No Senado da República, onde o mod­elo de rep­re­sen­tação dev­e­ria servir para sal­va­guardar os inter­esses dos esta­dos e da própria União às intem­péries dos inter­esses eleitorais, vez que os mandatos são ren­o­va­dos de forma alter­nada de um e dois terços (nesta eleição será de um terço) ape­nas uma voz se ergueu e votou con­tra. Na Câmara dos Dep­uta­dos até que se teve um número supe­rior a esse, ainda assim, infini­ta­mente minoritário ao atro­pelo das nor­mas eleitorais e morais que dev­e­riam nortear as con­du­tas dos homens públi­cos de qual­quer lugar do mundo.

O que tive­mos, na votação desta PEC (pro­posta de emenda con­sti­tu­cional), tam­bém apel­i­dada de PEC kamikaze; PEC das bon­dades ou Pro­grama Eleitoral do Cen­trão — PEC, foi a classe política nacional — com raras e hon­radas exceções –, bur­lando a leg­is­lação eleitoral e votando, despu­do­rada­mente, na defesa dos próprios inter­esses.

Em out­ras palavras, frau­dando a eleição às por­tas do pleito.

A lei eleitoral, em vigên­cia de 1997, ou seja, há um quarto de século, é bas­tante clara: “§ 10. No ano em que se realizar eleição, fica proibida a dis­tribuição gra­tuita de bens, val­ores ou bene­fí­cios por parte da Admin­is­tração Pública, exceto nos casos de calami­dade pública, de estado de emergên­cia ou de pro­gra­mas soci­ais autor­iza­dos em lei e já em exe­cução orça­men­tária no exer­cí­cio ante­rior, casos em que o Min­istério Público poderá pro­mover o acom­pan­hamento de sua exe­cução finan­ceira e admin­is­tra­tiva”. Lei nº. 9.504÷1997, artigo 73.

Ainda que se alegue que o dis­pos­i­tivo acima foi inserido pela Lei nº. 11.300÷2006, já se vão dezes­seis anos em que os gov­er­nantes estão legal­mente proibidos de, no ano eleitoral, faz­erem o que, agora fal­tando menos de noventa dias para as eleições, os “donos do poder” no Brasil fiz­eram.

Pior do que isso. Fiz­eram com a “cumpli­ci­dade” de todos, políti­cos da situ­ação, da oposição, da imprensa, das enti­dades da sociedade civil, etc.

Ninguém – ou quase ninguém –, levantou-​se para dizer: — ei, isso não pode; isso é fraude eleitoral; não se pode mudar as regras do jogo com a bola rolando ainda mais para explo­rar uma neces­si­dade tão pre­mente da pop­u­lação quanto a fome.

Não tenho notí­cias nem mesmo de que o Min­istério Público Fed­eral – ou o que sobrou dele –, tenha “se lev­an­tado” para dizer que a PEC é fla­grante­mente incon­sti­tu­cional e que os seus partícipes dev­e­riam ser con­sid­er­a­dos inelegíveis.

Nada. Ninguém disse nada. O Brasil de forma acel­er­ada vai se tor­nando o país do vale-​tudo.

— Ah, Abdon, tu és con­tra aumen­tar os auxílios soci­ais com o povo pas­sando fome? Con­ceder bolsa a cam­in­honeiros e taxis­tas, com os preços dos com­bustíveis nas alturas? Aumen­tar o vale-​gás para impedir que o povo volte a coz­in­har na lenha?

Não, de forma alguma. O que sou con­tra é que os gov­er­nantes (exec­u­tivos e leg­is­ladores) que foram incom­pe­tentes na con­dução do país e nos levaram a isso, agora queiram tirar bene­fí­cios da própria incom­petên­cia explo­rando a fome e a mis­éria do povo.

E vejam que não fazem questão de dis­farçar o caráter eleitor­eiro da PEC e do “pacote de bon­dades”: os acrésci­mos e novos bene­fí­cios con­ce­di­dos encer­ram em 31 de dezem­bro de 2022.

Ora, quer dizer que até dezem­bro os brasileiros vão “resolver” suas vidas e não vão mais pre­cisar do auxílio Brasil “turbinado”, do vale-​gás; do vale-​caminhoneiro; do vale-​táxi e dos demais pen­duri­cal­hos?

Os dados sobre a fome no Brasil são ante­ri­ores ao ano eleitoral.

Desde o ano pas­sado – e até antes –, temos assis­tido as pes­soas faz­erem filas para rece­berem ou mesmo com­prarem ossos ou car­caças de fran­gos na intenção de suprirem a neces­si­dade de pro­teí­nas; há muito tempo as insti­tu­ições de pesquisas apon­tam para o empo­brec­i­mento da pop­u­lação, para o fato de con­seguirem pagar suas con­tas bási­cas; para o aumento do número de pes­soas vivendo nas ruas por não poderem pagar o aluguel ou vivendo da cari­dade alheia; há muito tempo que os podem ir ao super­me­r­cado com­prar o que comer voltam com o car­rinho cada vez mais vazio.

Ape­sar de todo instru­men­tal que pos­suem os gov­er­nantes só se deram conta da “emergên­cia” e da “calami­dade” que levaram o país agora, fal­tando menos de noventa dias para as eleições.

Mas, pas­mem, já sabem que a “emergên­cia” e a “calami­dade” ces­sarão no final de dezem­bro, cer­ta­mente Papai Noël ou o Ano Novo, trarão a solução para os prob­le­mas que cri­aram ou que não foram capazes de resolver.

Vejam que os políti­cos não se dão conta da enorme con­tradição do seu dis­curso pois à medida que se acham mere­ce­dores do voto da pop­u­lação pelo “belís­simo” tra­balho que fiz­eram à frente da nação, votam uma PEC recon­hecendo que esta­mos em emergên­cia e em estado de calami­dade com o povo mor­rendo de fome nas ruas e sem poderem aguardar mais três meses.

Os gov­er­nantes estão no poder há qua­tro, oito, doze, vinte ou trinta anos – muitos deles até mais do que isso –, pas­saram a achar que se não aprovassem uma PEC fal­tando menos de noventa dias para o pleito o povo brasileiro, pelo menos uma grande parcela da pop­u­lação iria mor­rer de fome.

Daí a urgên­cia. O povo não teria como esperar pelo pacote de bon­dades para depois das eleições sob o risco de pere­cer. Meu Deus! Como são gen­tis e pre­ocu­pa­dos.

Há anos no poder não foram capazes de atacar as causas dos prob­le­mas que nos afligem, mas, agora, se vestem de “valente” para, com o nosso din­heiro, atacar os efeitos – e, em seus próprios bene­fí­cios.

Sei per­feita­mente da grave situ­ação que passa o país, sei das neces­si­dades do povo brasileiro e nem pre­cis­aria que insti­tu­ições de pesquisas me dissessem, todos dias, todas as sem­anas, sou abor­dado co pedi­dos de cidadãos para com­prar comida, por um emprego, etc., como disse, desde muito tempo, os gov­er­nantes só desco­bri­ram agora.

Vejo gen­erais, coro­néis, juris­tas, políti­cos, min­istros, “todos” se dizendo pre­ocu­pa­dos com risco de fraude nas urnas eletrôni­cas – quando, desde 1996, não se tem notí­cia ou reg­istro de nen­huma incon­formi­dade e para qual exis­tem diver­sos mecan­is­mos de segu­rança –, mas que não se dão conta que a ver­dadeira fraude é aquela que acon­tece à vista de todos com a explo­ração da von­tade do povo a par­tir da neces­si­dade inadiável que tem o cidadão de alimentar-​se a si e a sua família.

Estes ilus­tres falas­trões emude­cem diante da fraude eleitoral mais man­i­festa e cruel e que não depende de sofisti­ca­dos pro­gra­mas de com­putação para serem com­pro­vadas: basta olhar em volta

A ver­dadeira fraude eleitoral se man­i­festa com a desigual­dade entre os com­peti­dores e é isso que esta­mos assistindo no Brasil.

Vemos aque­les que têm mandato dis­porem de mil­hões e mil­hões de reais do orça­mento da União e dos esta­dos para tocarem suas cam­pan­has – parte deles do chamado “orça­mento secreto” –, e dis­porem de bil­hões de reais dos recur­sos dos fun­dos par­tidário e eleitoral em detri­mento dos cidadãos comuns que tam­bém têm o dire­ito e a garan­tia con­sti­tu­cional de par­tic­i­parem dos negó­cios do país.

A explo­ração da fome da fome, da mis­éria e a desigual­dade finan­ceira dev­ido a uti­liza­ção de recur­sos públi­cos por uns em detri­mento de out­ros, são as prin­ci­pais e mais graves for­mas de fraudes eleitorais.

Os cidadãos de bem não podemos e não temos o dire­ito de se calar­mos diante delas.

Um der­radeiro acréscimo: não há que se falar em democ­ra­cia quando o processo eleitoral não asse­gura entre os que pleit­eiam mandatos ele­tivos qual­quer isono­mia.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

Recorte de mais uma década perdida.

Escrito por Abdon Mar­inho

RECORTE DE MAIS UMA DÉCADA PERDIDA.

Por Abdon C. Marinho.

UMA REDE SOCIAL, no último dia 4 de julho de 2022, informa que tenho fatos a recor­dar rel­a­tivos àquela data. Come­cei a rolar a tela e ver­i­ficar fotos, situ­ações, posta­gens até que me deparei com um “tex­tinho” daquela data escrito há dez anos. Achei-​o tão atual que o com­par­til­hei nova­mente.

O texto cujo título é “Real­i­dade”, narra uma das min­has via­gens pelo inte­rior do Maran­hão e a dis­crepân­cia exis­tente entre a pro­pa­ganda ofi­cial e o que obser­vava como a sendo a vida e as difi­cul­dades do maran­hense e do brasileiro em sen­tido mais amplo.

Em 2012 gov­er­navam o estado e o país, respec­ti­va­mente, as sen­ho­ras Roseana Sar­ney e Dilma Rousseff.

O meu “diário” de viagem afirma “no meu périplo pelo inte­rior, a con­statação de que o mundo real é bem difer­ente da pro­pa­ganda ofi­cial” para dizer “quando cheguei ao Cujupe não encon­trei pas­sagem de volta em nen­hum ferry-​boat. Con­segui fazer uma reserva no ferry das 21:10 horas. A dis­tân­cia do Cujupe a Pin­heiro é cerca de 100 km, você gasta mais 1:30 horas de trav­es­sia, fazendo todo per­curso em, no máx­imo, 3 horas. Pois é. Mas não é assim. Não temos ferry-​boat sufi­cientes. Isso em plena terça-​feira“.

Hoje, quase diari­a­mente, assis­ti­mos protestos dos usuários do sis­tema tanto do lado de Alcân­tara, no Cujupe, quanto de cá, São Luís, na Ponta da Espera. Quando voltei na quinta-​feira de uma viagem pela baix­ada, para pegar ferry-​boat das 17:30 horas, a fila de espera, mais uma vez, estava chegando na curva, o que sig­nifica tumulto quase certo pois não tem como aten­der com bre­v­i­dade quem deseja atrav­es­sar.

Na sem­ana ante­rior um amigo me disse que ficou mais de 8 horas na fila de espera – que já pode­ria chamar-​se de fila do deses­pero –, até con­seguir embar­car.

Ontem, sexta-​feira, um dos dias com maior movi­mento no sen­tido Cujupe-​Ponta da Espera, soube que havia um ferry-​boat em ativi­dade. Podemos imag­i­nar o grau de angús­tia dos que têm que esperar por uma vaga para atrav­es­sar.

Como disse em tex­tos ante­ri­ores não acred­ito em uma solução ráp­ida para o prob­lema da escassez de ferry-​boat para a trav­es­sia rumo à Baix­ada Maran­hense e vice-​versa. Essa solução demanda tempo uma vez que não temos esse tipo de trans­porte à dis­posição no “super­me­r­cado” e mesmo recu­per­ação dos que estão para­dos ou sucatea­dos é algo que demanda tempo.

Não ajuda, tam­bém, a explo­ração política que fazem em torno do tema até porque, a maio­ria dos críti­cos, nos últi­mos dez anos, uma década, só para me referir à data do texto de 4 de julho de 2012, nunca deram um pio sobre o prob­lema, des­ti­naram ver­bas para uma rodovia ou ponte que reduzisse o tempo dos “baix­adeiros” que pre­cisam deslocar-​se até a ilha e dos ilhéus que neces­si­tam deslocar-​se até a Baix­ada.

Acho, aliás, que esse tema nunca esteve entre as suas pre­ocu­pações. Há dez anos, repito, o sis­tema já apre­sen­tava prob­le­mas.

Agora, às vésperas das eleições, ten­tam tirar “casquinha” de um prob­lema para o qual nunca tiveram um momento de atenção.

Como já disse noutras opor­tu­nidades, amenizaria o clima de angús­tia e sofri­mento das pes­soas nas filas de espera do lado de cá e do lado de lá, se tivésse­mos uma inter­net de qual­i­dade a per­mi­tir durante as lon­gas esperas que as pes­soas pudessem tra­bal­har, divertir-​se ou mesmo, ape­nas se comu­nicar. Mesmo uma cober­tura de tele­fo­nia móvel já aju­daria.

Para angús­tia de cem por cento dos usuários do sis­tema deste trans­porte, tanto quem chega no Cujupe quanto os que chegam na Ponta da Espera, ficam inco­mu­nicáveis. São cri­anças, jovens e adul­tos que ficam por horas a fio sem qual­quer comu­ni­cação.

Acred­ito que o gov­erno estad­ual, dep­uta­dos fed­erais, estad­u­ais e senadores pode­riam, ao invés de estarem explo­rando o sofri­mento dos cidadãos, faz­erem algum tipo de gestão para ini­cia­rem a implan­tação do 5G no estado por estes dois locais (Cujupe e Ponta da Espera), são ambi­entes restri­tos que não deman­daria muito inves­ti­mento para fazer as insta­lações, já se tem até tor­res de comu­ni­cação que pode­riam ser usadas pelas diver­sas oper­ado­ras.

Há dez anos dizia que “finda a audiên­cia, decidi voltar por terra, sub­sti­tuído, no máx­imo, 3 horas por quase 6 horas. Aí a real­i­dade se torna mais pre­sente, não bas­tasse a decadên­cia das cidades por onde pas­samos, não se vê ao longo da rodovia pro­dução de nada, áreas imen­sas sem pro­dução alguma, homens, jovens sen­ta­dos embaixo de árvores, vendo o tempo passar”.

Pas­sa­dos dez anos vemos que pouco ou nada daquela real­i­dade se mod­i­fi­cou. Con­tin­u­amos com o estado mais pobre da fed­er­ação a despeito de pos­suirmos um solo fér­til, rios perenes com água em abundân­cia.

Por onde pas­samos, nas cidades ou nos cam­pos não vemos quais­quer sinais de ativi­dades econômi­cas, não exis­tem indús­trias, não existe pro­dução agrí­cola, as cidades estão deca­dentes e os cam­pos ociosos e aque­las mes­mas pes­soas que vi nos alpen­dres das casas ou sob as árvores con­tin­uam lá em pleno horário de expe­di­ente, aguardando dia após dia que caia auxílios da várias bol­sas, as aposen­ta­do­rias ou os salários dos servi­dores públi­cos.

Como podemos son­har com um estado desen­volvido se nunca fez-​se nada no sen­tido de explo­rar­mos as suas potencialidades?

Na mesma pas­sagem, informo que “a rodovia estre­ita apre­senta mar­cações de uma pos­sível reforma, entre­tanto não havia homens ou máquinas na pista. Ape­nas numa local­i­dade encon­trei uma meia dúzia de tra­bal­hadores tocando a reforma da MA-​014, nas prox­im­i­dades de Viana. Só. Nos cortes feitos se percebe a espes­sura do asfalto sug­erindo ainda muitas refor­mas nos anos vindouros”.

A mesma real­i­dade que se apre­sen­tava há dez anos con­tinua se apre­sen­tando hoje. Quan­tas refor­mas nestes dez anos não foram feitas na MA-​014? Não “adi­v­in­hei” que seria assim, ape­nas con­statei – e con­tinuo a con­statar –, que o poder público “joga din­heiro fora”, mil­hões e mil­hões todos os anos com obras de infraestru­tura feitas para não durar um inverno. A velha mis­são de enx­u­gar gelo ou as vel­has “estradas para morder”.

E con­tin­u­ava: “ao pegar a BR 135 em Miranda do Norte o caos se instala, com os veícu­los tendo que andar em com­boios e sendo sur­preen­di­dos com perigosas ultra­pas­sagens na estre­ita pista. Ora um carro tenta pas­sar na nossa frente, ora o veículo que vem na mão con­trária força uma redução de veloci­dade para evi­tar uma batida frontal”.

E não con­tinua a mesma coisa?

Há dez anos dizia: “leio que a refi­naria de Bacabeira foi can­ce­lada”. E me per­gun­tava: “Como adi­ada? Como can­ce­lada? Cadê os políti­cos do Maran­hão, tão poderosos e dili­gentes? Por que não cuidam dessas coisas ele­mentares que aten­de­riam os inter­esses da pop­u­lação? Que inter­esses defen­dem, os seus, dos seus familiares?”.

Pois é, meus ami­gos, há dez anos diziam que a Refi­naria de Bacabeira seria adi­ada. Alguns já dizia que seria can­ce­lada.

O pior acon­te­ceu, ficamos sem refi­naria, sem os mil­hares de empre­gos, com dezenas de pequenos, médios e grandes empresários que acred­i­taram nos gov­er­nos “que­bra­dos” e o Brasil, país autossu­fi­ciente em pro­dução de petróleo, tendo que pagar muito mais caro pelo com­bustível que uti­liza e sub­metido, mis­er­av­el­mente, as intem­péries do mer­cado, da oscilação do dólar e aos humores dos “sen­hores das guer­ras”.

Naquela opor­tu­nidade, há dez anos, me per­gun­tava: “Por que o Maran­hão não tem um plano de desen­volvi­mento real, den­tro de suas potencialidades?”.

Cadê o plano de desen­volvi­mento? Por que con­tin­u­amos, prati­ca­mente, sem ter­mos avançado quase nada nos índices de desen­volvi­mento humano e nos indi­cadores soci­ais – tendo, na maio­ria deles apre­sen­tado uma sig­ni­fica­tiva piora?

Fechava aquele texto com uma con­statação: “a sen­sação que temos é que os políti­cos do Maran­hão não têm ideia nen­huma de como desen­volver o estado. Tra­bal­ham ape­nas para se elegerem e elegerem os seus a cada dois anos. Falta seriedade. falta, sobre­tudo, ver­gonha na cara, essa mesma falta de ver­gonha se estende tam­bém a população”.

Hoje, dez anos depois, gostaria de estar errado nas min­has pre­visões, gostaria de pedir des­cul­pas a aque­les que de alguma forma se sen­ti­ram ofen­di­dos com min­has palavras, não ape­nas as palavras escritas naquele texto especí­fico de 2012 e que inspira este texto, mas de todas escritas antes e depois.

Infe­liz­mente isso é algo que não posso fazer. A situ­ação do país e estado, em par­tic­u­lar, é de imensa difi­cul­dade. O país volta ao Mapa da Fome da ONU, são mais de 33 mil­hões de brasileiros que não têm o que comer; são idosos, homens, mul­heres, cri­anças, vagando todos os dias atrás de um prato de comida ou de um pedaço de pão.

Ontem, mesmo, cortou-​me o coração as lágri­mas de uma sen­hora chorando ao dizer que só con­seguia fazer uma refeição por dia, só almoçava e por isso estava chorando. Mais difí­cil, ainda, é a situ­ação dos idosos, sen­horz­in­hos e sen­hor­in­has já pas­sando dos setenta, oitenta anos tendo que sobre­viver nas sel­vas das ruas jus­ta­mente na fase da vida que mais pre­cisam de cuida­dos e acol­hi­men­tos.

Que país é este que deixa seus idosos pere­cerem? Que des­graça nos acometeu?

Não, não devo des­cul­pas a ninguém, ainda mais con­siderando que estes mes­mos políti­cos do Brasil e Maran­hão em ape­nas uma década se tornaram mul­ti­m­il­ionários tendo como único emprego o mandato out­or­gado pelo povo, com pou­cas exceções.

E ninguém se per­gunta como enricaram, como ficaram ricos “bem novinhos”.

Pobre Brasil!

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

A CEGUEIRA POLÍTICA E A VIO­LÊN­CIA CON­TRA AS MULHERES.

Escrito por Abdon Mar­inho


A CEGUEIRA POLÍTICA E A VIO­LÊN­CIA CON­TRA AS MUL­HERES.

Por Abdon C. Mar­inho.

ENTRE os diver­sos assun­tos que pode­ria tratar nesta crônica domini­cal, tais como, as eleições pres­i­den­ci­ais, as eleições estad­u­ais, o efeito da “PEC kamikaze” nas eleições e na econo­mia, o retorno do gov­er­nador do estado ao cenário eleitoral local, as pesquisas e tan­tos out­ros, um assunto fora deste rol parece-​me bem mais urgente: falo das várias for­mas de vio­lên­cia con­tra as mul­heres que assis­ti­mos nos últi­mos dias.

O assunto é vasto e difi­cil­mente teria condições de ser esgo­tado numa crônica, por isso mesmo, a abor­dagem limitar-​se-​á aos casos que estão sendo expos­tos nas “mesas dos bares” da atu­al­i­dade e nas redes soci­ais.

Acho que cam­inha para duas décadas – ou mais –, o episó­dio ocor­rido em uma cidade da região sul ou sud­este em que, por ocasião do dia da secretária, um motel espal­hou pela cidade diver­sos out­door com a leg­enda: “Hoje é o dia da secretária”. Acred­ito que o respon­sável pela pub­li­ci­dade imag­i­nou que estaria fazendo uma grande coisa com a “hom­e­nagem”, quando na ver­dade estava era ofend­endo não ape­nas a cat­e­go­ria das secretárias, mas, tam­bém, todas as mul­heres, de uma forma geral.

Pas­sa­dos tan­tos anos, parece-​nos que a vio­lação dos dire­itos humanos em relação as mul­heres não retro­cedeu um milímetro, pelo con­trário, muitas das vezes, tam­bém por conta do aço­da­mento político, a vio­lên­cia só aumen­tou.

Achavam pouco todo tipo de vio­lên­cia de gênero que as mul­heres sofrem ao longo dos anos e resolveram que era hora de acres­cen­tar a elas o debate político/​ideológico e reli­gioso.

Primeiro veio a público o caso da cri­ança de dez anos que engravi­dou e foi exposta por conta de uma neg­a­tiva de aborto pre­vista na lei.

O episó­dio é cruel em todas suas dimen­sões, a começar pelo fato que uma cri­ança dev­e­ria ser mel­hor cuidada para que esse tipo de episó­dio não ocor­resse; depois pelo fato que o hos­pi­tal não pode­ria negar-​se a fazer a inter­rupção da gravidez, uma vez que pre­vista na lei; depois que o Estado rep­re­sen­tado por juíza e pro­mo­tora não pode­riam opor embaraços ao cumpri­mento da lei e mais, ainda, pegar uma cri­ança, diante dessa situ­ação tão dramática, e colocá-​la em um abrigo para “protegê-​la”– ao meu sen­tir uma das maiores vio­lên­cias já prat­i­cadas. E nem fale­mos no episó­dio da audiência/​tortura onde a mag­istrada, com a cumpli­ci­dade do MP, ten­tou impor suas con­vicções pes­soais – em detri­mento da lei –, para forçar o prossegui­mento da gravidez.

Imag­inem todo o sofri­mento pelo qual pas­sou – e passa –, essa cri­ança durante esse período – que cer­ta­mente –, ainda irá acompanhá-​la pelo resto da vida.

Mal os tri­bunais inquisidores das redes soci­ais “entraram em recesso” – se é que entram –, quando veio a público o episó­dio da gravidez e adoção legal envol­vendo uma atriz.

Um dia abro o celu­lar e vejo dezenas de pub­li­cações a respeito de uma jovem atriz. Eu, emb­ora recon­hecido nov­el­eiro, não con­hecia ou lem­brava da mesma.

Mas, o fato, fiquei sabendo depois, é que a jovem tendo ficado grávida depois de um estupro e tendo descoberto a gravidez tar­dia­mente optou pela con­tinuidade da mesma com pos­te­rior doação da cri­ança.

Todo o pro­ced­i­mento é pre­visto e amparado pela lei.

Indifer­ente a isso ou na busca de cliques alguns supos­tos jor­nal­is­tas trataram de levar o caso a público – para isso con­tando com a falta de com­pro­misso de servi­dores do hos­pi­tal –, expondo de forma inde­v­ida a vida da jovem, que repito, não fez nada fora do pre­visto na lei.

Não con­tentes com isso, pas­saram a “cobrar” mais exposição da vítima: que denun­ci­asse o agres­sor para que “a justiça fosse feita”.

No Brasil tive­mos um tempo em que só era recon­hecido como estupro a situ­ação em que a mul­her resis­tia, inclu­sive, a ponto de perder a vida, con­tra o ato sex­ual não con­sen­tido.

Se ela sac­ri­fi­cava a própria vida con­tra o abuso era porque, efe­ti­va­mente, não que­ria.

Parece-​nos que ainda hoje não nos livramos de tal con­ceitu­ação.

No caso da atriz ques­tionaram a falta do BO; ques­tionaram o fato de não ter denun­ci­ado e cobraram o nome do autor do crime, como a querer levá-​la a mais uma situ­ação de sofri­mento por algo que tudo que mais deseja é esque­cer.

Tudo isso porque resolveu dar a adoção o filho que fora fruto de uma relação não con­sen­tida. E, vejam que não estaria come­tendo nen­hum ilíc­ito caso doasse o filho para adoção inde­pende de ter sido ou não fruto de um estupro.

Por der­radeiro veio este caso de assé­dio moral e sex­ual em que não uma, mas diver­sas mul­heres – enfrentado seus medos por represálias –, denun­cia­ram o pres­i­dente e out­ros dire­tores da Caixa Econômica Fed­eral — CEF, por uma série de abu­sos e con­strag­i­men­tos que vin­ham sofrendo,

As nar­ra­ti­vas são nojen­tas e rev­e­lam um grau de degradação indizível no serviço público. Segundo algu­mas fontes, ao ouvirem os pas­sos do “garan­hão” muitas procu­ravam o ban­heiro mais próx­imo para ficar longe de suas vis­tas.

Imag­ino o que essas mul­heres, servi­do­ras públi­cas, não sofr­eram e a cor­agem que tiveram para denun­ciar as situ­ações absur­das pelas quais pas­savam.

Agora, assisto e recebo através de redes soci­ais e/​ou aplica­tivos “peças” de uma cam­panha para desqual­i­ficar as mul­heres que denun­cia­ram o que vin­ham pas­sando.

Além de exporem as denun­ciantes – fil­has de alguém, esposas de alguém, mães de alguém –, ques­tionam se efe­ti­va­mente foram asse­di­adas moral ou sex­ual­mente. Tudo na linha “você é tão feia que não te estupraria”.

Vejam a que ponto cheg­amos.

A cegueira da política parece não admi­tir qual­quer con­cessão, insis­tem em poli­ti­zar tudo.

Os três casos acima servem bem para ilus­trar toda vio­lên­cia, mis­oginia e abu­sos pelos quais pas­sam nos­sas meni­nas e mul­heres em pleno século XXI.

Sofrem, prin­ci­pal­mente, uma indizível vio­lên­cia política.

Desde os anos 40 do século pas­sado, que a leg­is­lação pátria con­sente na inter­rupção da gravidez em caso de riscos a vida da mãe ou em casos de estupros – e mais recen­te­mente o STF recon­heceu essa pos­si­bil­i­dade no caso de anence­fáli­cos.

Have­ria neces­si­dade de sub­mis­são de uma cri­ança a toda vio­lên­cia como vimos no primeiro caso?

A mesma coisa em relação ao caso da jovem atriz: qual a jus­ti­fica­tiva para toda vio­lên­cia con­tra uma pes­soa que não fez nada de errado, que seguiu a lei?

E o que dizer da situ­ação exposição e vio­lên­cia pelas quais pas­sam as fun­cionárias da Caixa que resolveram denun­ciar aos canais inter­nos – e depois pub­li­ca­mente –, os abu­sos e assé­dios que vin­ham sofrendo?

No caso das servi­do­ras, não expõem ape­nas elas mas, tam­bém, a esposa do próprio autor dos abu­sos em com­para­ções absur­das com o propósito de desqual­i­fi­cação das víti­mas.

Vejam que mesmo no caso de mul­heres que vence­ram na vida por seus próprios esforços – como no caso das servi­do­ras asse­di­adas ou da atriz –, são expostas como se não mere­cessem ocu­par as posições que alcançaram.

Na pre­sente crônica nem trato do episó­dio da procu­radora de um municí­pio que foi vítima de absurda e injus­ti­fi­cada vio­lên­cia por parte de um colega que, segundo dizem, não aceitava a colega em posição de chefia.

Deixei o episó­dio de fora para tratar dos out­ros onde clara­mente se iden­ti­fica uma vio­lên­cia de gênero por conta da cegueira política que con­t­a­m­i­nam as relações na atu­al­i­dade.

Se nos dois primeiros casos a poli­ti­za­ção pare­ceu como ele­mento secundário, no último, o que assis­ti­mos é uma vio­lên­cia “insti­tu­cional­izada” con­tra as mul­heres que denun­cia­ram os atos abje­tos a que foram sub­meti­das por alto fun­cionário do gov­erno e ali­ado de “primeira hora” dos gov­er­nantes.

A “mil­itân­cia” tem ido atrás de fotografias, vio­lam sig­i­los de pro­ced­i­men­tos e até o dire­ito de ima­gens para come­ter out­ras vio­lên­cias – igual­mente abje­tas –, con­tra as mulheres/​trabalhadoras, a começar por diz­erem que teriam sido elas as asse­di­ado­ras ou que seriam feias demais para serem asse­di­adas.

Esta vio­lên­cia pode e deve ser clas­si­fi­cada como vio­lên­cia política – além dos crimes referi­dos. O que os “mili­ton­tos” e crim­i­nosos estão dizendo é o seguinte: se denun­cia­rem “um dos nos­sos” nós ire­mos destruir suas vidas.

É isso que estão fazendo no momento.

Não estão nem aí se a vio­lên­cia é prat­i­cada con­tra uma mul­her que pode­ria ser sua irmã, mãe, esposa, avó, etc., tudo parece válido na guerra política.

Tudo isso em país que anual­mente já reg­is­tra mil­hares de estupros, mil­hares de fem­i­nicí­dios e mil­hões de out­ros atos de vio­lên­cia domés­tica, de gênero, etc.

Os cidadãos, não temos o dire­ito de nos calar e aceitar como nor­mais os atos abom­ináveis de vio­lên­cia con­tra as mul­heres, menos ainda quando estes que se revestem de vio­lên­cia política.

A todas essas mul­heres víti­mas ou não da vio­lên­cia minha irrestrita sol­i­dariedade.

Abdon Mar­inho é advo­gado.