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Uma falsa polêmica na sucessão estadual.

Escrito por Abdon Mar­inho


UMA FALSA POLÊMICA NA SUCESSÃO ESTADUAL.

Por Abdon Marinho.

POLÊMICA é o sub­stan­tivo fem­i­nino que sig­nifica dis­cussão sobre ideias ou pen­sa­men­tos que causa divergên­cias; alter­cação, con­tes­tação ou ainda, dis­cussão ou debate no mundo das ideias, con­forme con­ceitu­ação dos dicionários nacionais.

Uma falsa polêmica, logo, é uma dis­cussão sobre um pen­sa­mento que não causa qual­quer divergên­cia uma vez que não há moti­vação con­tra­ditória.

Ainda no fim de sem­ana que pro­duzo o pre­sente texto, vejo em alguns meios de comu­ni­cação ou mesmo gru­pos de con­versa por aplica­tivos, uma falsa polêmica em curso: a que trata de uma suposta ineleg­i­bil­i­dade do pres­i­dente da Assem­bleia Leg­isla­tiva por conta do afas­ta­mento do gov­er­nador Car­los Brandão para trata­mento de saúde em outro estado da federação.

Como o gov­er­nador era vice, o primeiro na linha sucessória seria o pres­i­dente da Casa de Manoel Bequimão.

Há cerca de quinze dias um jor­nal­ista me per­gun­tou o que achava.

Foi uma sim­ples per­gunta através de um aplica­tivo, que respondi de forma igual­mente sus­cita: — olha muito emb­ora respeite os que pen­sam difer­ente, ao meu sen­tir, a ineleg­i­bil­i­dade não pode ser atraída desta forma.

Esqueci do assunto e até pen­sava que o pres­i­dente da Assem­bleia Leg­isla­tiva estava em pleno exer­cí­cio da sua presidên­cia.

Só na sem­ana pas­sada soube que ele, o pres­i­dente, se encon­trava fora do estado, suposta­mente, temendo que se pisasse no estado ficaria inelegível.

E, não ape­nas ele, irmã, esposa e, até mesmo, um papa­gaio de esti­mação que pre­tende fazer incursão pela política.

Custei a acred­i­tar, aliás, custo a acred­i­tar que isso tenha se dado. Até porque, como pres­i­dente de um poder o pres­i­dente é asses­so­rado por com­pe­tentes advo­ga­dos e procu­radores, com con­hec­i­mento pro­fundo do dire­ito eleitoral.

Se, por um momento, chegaram a pen­sar ou a sug­erir que o pres­i­dente poder-​se-​ia tornar-​se inelegível pelo sim­ples fato de encontrar-​se no estado mesmo com o pres­i­dente do Tri­bunal de Justiça exercendo a interinidade plena do cargo de gov­er­nador, acred­ito que tenha se dado por excesso de cautela.

Seria uma espé­cie de bi ineleg­i­bil­i­dade: a do pres­i­dente da Assem­bleia e a do pres­i­dente do TJMA – e seus par­entes –, que estava (está) ocu­pando o cargo de gov­er­nador.

A suposta ineleg­i­bil­i­dade nunca ocor­reu e a dis­cussão em torno do tema, ao meu sen­tir, não pas­sou de uma falsa polêmica, den­tre tan­tas out­ras que povoam às vésperas de eleições.

Quando, mesmo de longe, assisto essas coisas invari­avel­mente lem­bro de uma aula do pro­fes­sor Alberto Tavares, min­istrada numa manhã de terça-​feira na Uni­ver­si­dade Fed­eral do Maran­hão.

Dizia o mestre, com out­ras palavras: —a lei e a inter­pre­tação jurídica devem ser de tal forma sim­ples que o homem médio seja capaz de com­preen­der e aceitar como razoável.

Uma lição que nunca esqueci e que venho apli­cando nestes últi­mos trinta anos.

Sem­pre que me deparo com uma situ­ação jurídica me per­gunto se o homem médio acharia razoável o encam­in­hamento dado a ela, tanto pela lei quanto pelos tri­bunais.

Claro que isso nem sem­pre é pos­sível, sobre­tudo, nos dias atu­ais em que, muitas das vezes, a lei nada mais é do que aquilo que pensa o juiz, o desem­bar­gador ou o min­istro, que ela seja.

Como a lei tornando-​se o que pensa os seus apli­cadores, os seus des­ti­natários, tam­bém, pas­saram a achar que podem interpretá-​la ou contorcê-​la aos seus desígnios e fil­i­ações ide­ológ­i­cas e políti­cas.

Daí os dias difí­ceis que vive­mos na atu­al­i­dade.

Voltando à falsa polêmica envol­vendo o pres­i­dente da Assem­bleia, li em algum lugar que o afas­ta­mento do gov­er­nador para trata­mento de saúde o estaria prej­u­di­cando, pois o mesmo não estava podendo fazer sua cam­panha ao cargo de dep­utado estad­ual.

Achei bisonha a colo­cação, mas não dei crédito.

Quando tra­bal­hei na Assem­bleia Leg­isla­tiva, de 1991 a 1995, lem­bro de ter acom­pan­hado um ou dois casos de escusas a assunção de cargo, nen­hum, claro de gov­er­nador, mas que pela sime­tria pode­ria ser apli­cada.

Em um dos casos, o cidadão era vereador da cap­i­tal e ficara numa das primeiras suplên­cias. Com o afas­ta­mento do tit­u­lar e suplente para assumir algum cargo ou por motivo de saúde, ele foi chamado a assumir o cargo de dep­utado e apre­sen­tou a escusa de assumir naquele momento para não perder o mandato de vereador, sem pre­juízo de assumir caso sur­gisse uma outra opor­tu­nidade ao tér­mino da leg­is­latura na Câmara Munic­i­pal.

Se não me falha a memória, o caso a que refiro deu-​se com o vereador José Joaquim Ramos.

Além do caso, lem­bro de mais um ou dois no mesmo sen­tido. Ou seja, já havia prece­dentes na própria Assem­bleia de como fazer.

O fato do dep­utado não ter assum­ido agora não lhe tirou o dire­ito de vir assumir noutra opor­tu­nidade, caso surja e se assim dese­jar.

Não existe aquela história das brin­cadeiras infan­tis de: “foi ao vento perdeu o assento”. Rsrsrs.

De igual modo não pre­cis­aria ausentar-​se do estado para furtar-​se a assumir, bas­taria, como parece que fez agora, comu­nicar sua impos­si­bil­i­dade de assumir para não ficar inelegível nas eleições que se aviz­in­ham.

O pará­grafo sétimo do artigo 14 da Con­sti­tu­ição esta­b­elece a ineleg­i­bil­i­dade moti­vadora da falsa polêmica: “§ 7º São inelegíveis, no ter­ritório de juris­dição do tit­u­lar, o côn­juge e os par­entes con­sangüí­neos ou afins, até o segundo grau ou por adoção, do Pres­i­dente da República, de Gov­er­nador de Estado ou Ter­ritório, do Dis­trito Fed­eral, de Prefeito ou de quem os haja sub­sti­tuído den­tro dos seis meses ante­ri­ores ao pleito, salvo se já tit­u­lar de mandato ele­tivo e can­didato à reeleição”.

Vejam que a Con­sti­tu­ição é clara ao esta­b­ele­cer quem são os inelegíveis em vir­tude da juris­dição do tit­u­lar do mandato ou de quem o haja sub­sti­tuído nos seis meses ante­ri­ores ao pleito. Diz clara­mente: “ou de quem os haja sub­sti­tuído den­tro dos seis meses ante­ri­ores ao pleito, salvo se já tit­u­lar de mandato ele­tivo e can­didato à reeleição”.

Emb­ora exista quase uma una­n­im­i­dade na crítica à redação da Lei das Ineleg­i­bil­i­dades, a Lei nº. 64/​1990, ela vem no mesmo sen­tido – e não pode­ria ser difer­ente: “§ 3° São inelegíveis, no ter­ritório de juris­dição do tit­u­lar, o côn­juge e os par­entes, con­sangüí­neos ou afins, até o segundo grau ou por adoção, do Pres­i­dente da República, de Gov­er­nador de Estado ou Ter­ritório, do Dis­trito Fed­eral, de Prefeito ou de quem os haja sub­sti­tuído den­tro dos 6 (seis) meses ante­ri­ores ao pleito, salvo se já tit­u­lar de mandato ele­tivo e can­didato à reeleição”.

Não tendo o pres­i­dente da Assem­bleia “sub­sti­tuído” o gov­er­nador não há que se falar em ineleg­i­bil­i­dade, para si ou para qual­quer um dos lis­ta­dos na Con­sti­tu­ição.

Não existe a “ineleg­i­bil­i­dade por pre­sunção” ou pelo fato do cidadão encontrar-​se legal­mente na ordem sucessória.

Nesta linha de raciocínio – e porque assim manda a Con­sti­tu­ição –, estão inelegíveis os par­entes até segundo grau ou por adoção do gov­er­nador Car­los Brandão, bem como, os par­entes na mesma situ­ação, do pres­i­dente do Tri­bunal de Justiça, desem­bar­gador Paulo Vel­ten.

Claro que toda esta falsa polêmica teria sido evi­tada se desde o primeiro dia o pres­i­dente tivesse feito um requer­i­mento de dois pará­grafos dizendo que não tinha inter­esse em assumir o cargo de gov­er­nador por motivo de força maior, sem pre­juízo de vir a fazê-​lo noutra opor­tu­nidade.

Mas, na política tudo pode acon­te­cer, inclu­sive nada, ou, como dizia Vitorino Freire, “no Maran­hão até boi ‘avoa’”.

Abdon Mar­inho é advogado.

Entre a cruz e a caldeirinha.

Escrito por Abdon Mar­inho


ENTRE A CRUZ E A CALDEIRINHA.

Por Abdon Marinho.

QUANDO mais jovem e, até, mesmo hoje, sem­pre que algo que não é pos­i­tivo ou que rep­re­senta uma con­trariedade, cos­tumo dizer: — só posso ter ati­rado pedra na cruz; ou, devo ter sal­gado a Santa Ceia.

Cer­ta­mente nen­hum dos meus antepas­sa­dos ou mesmo eu, em outra encar­nação, par­ticipou de tais even­tos. Dize­mos isso como forma de jus­ti­ficar as “marés de azar” que vez ou outra ameaçam nos­sos pro­je­tos ou son­hos.

Refle­tia sobre isso e pon­derei que os brasileiros não ape­nas estive­mos todos lá ati­rando pedras por ocasião da cru­ci­fi­cação de Nosso Sen­hor Jesus Cristo como, tam­bém, erramos a mão no tem­pero da Santa Ceia e, se duvi­dar, é capaz ter­mos sido nós a gri­tar por Barrabás diante de Pôn­cio Pilatos.

Ape­nas isso para jus­ti­ficar o atual quadro político nacional.

Imag­inem que no mesmo dia que ouvi (ou li) um pres­i­dente da República min­i­mizar ou tratar com menos importân­cia o fato de um brasileiro, com prob­le­mas de saúde, ter mor­rido um cam­burão da Polí­cia Rodoviária Fed­eral — PRF, trans­for­mada em câmara de gás, numa abor­dagem abso­lu­ta­mente desastrada, jus­ti­f­i­cando que “esse tipo de coisa acon­tece até nas Forças Armadas”, li, tam­bém, que um ex-​presidente da República que se ensaia can­didato ao retorno do comando da nação, fez críti­cas ao gov­erno amer­i­cano pelo fato daquele gov­erno – e a crítica deve se esten­der a out­ros líderes mundi­ais –, man­ter uma rede de ajuda mil­i­tar e human­itária ao gov­erno ucra­ni­ano e ao seu povo que resiste brava­mente con­tra uma invasão injus­ti­fi­cada, desproposi­tada e cruel que, em mais de cem dias, já deixou mil­hares de mor­tos, cidades inteiras destruí­das e mil­hões de refu­gia­dos.

Pois é, no mesmo dia, no inter­valo de min­u­tos, fiquei sabendo destes posi­ciona­men­tos de um pres­i­dente e de um ex-​presidente que dis­putam com chances reais de um dos dois coman­darem o país a par­tir do ano vem.

O pres­i­dente não tem a com­preen­são de um fato de tal gravi­dade, memo que os autores não ten­ham tido a intenção de causar o evento morte – e até acred­ito que não tiveram –, não é algo a ser min­i­mizado, pelo con­trário, é algo para ser recrim­i­nado e colo­cado como exem­plo daquilo que não deve mais acon­te­cer.

No mín­imo, é dev­ido à família da vítima um pedido de des­cul­pas, pois o cidadão/​vítima é filho de alguém, esposo de alguém, irmão de alguém, pai de alguém, etc., não pode se min­i­mizar uma situ­ação como aquela com o argu­mento tosco de que tal fato ocorre noutras cir­cun­stân­cias “até nas Forças Armadas”.

Ora, se ocor­rem, não dev­e­riam ocor­rer. Uma família não coloca um ente querido para servir a pátria para que o mesmo mor­rer em “aci­dentes” que pode­riam ser evi­ta­dos se as autori­dades respon­sáveis agis­sem com zelo e com­petên­cia.

Quer dizer que para “limpar” a imagem do país per­ante o mundo diante da ater­radora imagem de uma viatura da PRF trans­for­mada em “câmara de gás” o mel­hor que o chefe da nação elab­ora é uma des­culpa de que “a vítima não foi a primeira e não será a última” e que isso acon­tece noutros lugares, até nas Forças Armadas?

Deve­mos ter sal­gado a Santa Ceia.

Já a incursão do ex-​presidente pela política inter­na­cional não pode­ria ser mais infe­liz. Quer dizer, pode­ria, a des­graça no Brasil, sem­pre pode ir além do imag­inável.

Desde sem­pre alin­hado com o atual pres­i­dente, que às vésperas da invasão russa foi a Moscou hipote­car sol­i­dariedade ao “povo russo” e não aos ucra­ni­anos, o ex-​presidente todo esse tempo nunca se ocupou de apon­tar sua “artil­haria ver­bal” para o ver­dadeiro cul­pado pela tragé­dia human­itária que ocorre no leste da Europa.

Sem­pre que falou con­seguiu provar que em matéria de asneiras não fica devendo nada (ou muito pouco) ao atual ocu­pante da presidên­cia.

Lem­bram que chegou a agrade­cer a Deus o surg­i­mento do vírus da COVID que já ceifou quase 700 mil vidas no Brasil?

Em relação a invasão russa, já min­i­mi­zou a tragé­dia human­itária; já disse que resolve­ria a guerra em duas ou três rodadas de cerve­jas; já fez “grac­in­has” para o car­ni­ceiro de Moscou; e, prin­ci­pal­mente, sem­pre que pode, colo­cou a culpa na vítima, como fez na última intervenção.

Para o ex-​presidente, os ucra­ni­anos dev­e­riam ter se ren­dido diante das primeiras ameaças e entre­gado a nação à potên­cia inva­sora; pode­riam hoje, “em paz” estarem sendo admin­istra­dos pela mãe-​Rússia e de que­bra, pode­riam, até, terem entregue o atual gov­erno, as autori­dades estrangeiras para que fosse jul­gado pelo crime de ter resis­tido.

Este é o o pen­sa­mento do ex-​presidente e do seu entorno.

Há uma total falta de empa­tia pelas víti­mas dire­tas ou indi­re­tas de uma guerra que só tem um único cul­pado: o gov­erno russo.

Do ponto de vista da humanidade é injus­ti­ficável que em um con­flito onde a vítima esteja sendo ata­cada fique­mos do lado do agres­sor.

A crítica feita pelo ex-​presidente ao gov­erno amer­i­cano (e aos demais gov­er­nos) é um posi­ciona­mento a favor do agres­sor e con­tra a vítima.

E vai além, respon­s­abi­liza indi­re­ta­mente a vítima pela fome que a guerra provoca ao redor do mundo. A escassez de ali­men­tos, o aumento do preço das mer­cado­rias não foram provo­cadas pela Ucrâ­nia, que é a vítima (é bom que se afirme isso) mas por quem ini­ciou e man­tém a guerra, inclu­sive retendo os navios nos por­tos que tomou de assalto.

Imag­ino que nas brigas de escola o ex e o atual pres­i­dente se por­tavam do lado dos “grandões” quando aque­les estavam batendo nos coleguin­has menores.

Para eles, o Brasil dev­e­ria ter ficado “neu­tro” o que, em out­ras palavras, sig­nifica ter se ali­ado ao gov­erno russo con­tra a Ucrâ­nia, quando muito, dividir a respon­s­abil­i­dade pela guerra entre inva­sor e inva­dido.

Não deixa de ser curioso que tanto o atual quanto o ex-​presidente “nutram” tanta afinidade pelo diri­gente russo a ponto de nunca tê-​lo respon­s­abi­lizado pela guerra e sem­pre que se man­i­fes­taram tenha sido para menosprezar, min­i­mizar ou colo­car a culpa na vítima.

Pas­sa­dos mais de cem dias de guerra não têm uma con­de­nação firme à carnific­ina pro­movida pelo diri­gente russo, sequer existe uma clara man­i­fes­tação de apoio a resistên­cia ucra­ni­ana ou de sol­i­dariedade ao povo que sofre.

Não que estes posi­ciona­men­tos sejam sur­presa para ninguém. Infe­liz­mente, dos lábios de ambos já ouvi­mos coisas infini­ta­mente piores, seja em relação a vio­lên­cia, a tor­tura, pre­con­ceitos, nega­cionismo, mis­oginia e diver­sas out­ras sandices que vão muito além do atual con­flito.

São tan­tas colo­cações estapafúr­dias de ambos que chego à con­clusão de que o que sep­ara o atual pres­i­dente do ex-​presidente é menos que um “ded­inho”, e digo isso desprovido de qual­quer pre­con­ceito pelo fato de fal­tar o pro­longa­mento em uma das mãos de um deles.

O “ded­inho” que falo é mesmo no sen­tido diminu­tivo de medida.

No caso da invasão russa a Ucrâ­nia nem um “ded­inho” sep­ara ambos. Parece que enx­er­garam no líder russo o “macho alfa” que bus­cavam.

Essa pouca difer­en­ci­ação, tam­pouco, é uma novi­dade para aque­les que acom­pan­ham min­has ideias, desde sem­pre que chamo a atenção para a sin­er­gia entre eles no propósito de deixarem os brasileiros sem qual­quer outra opção de escolha.

Não rep­re­senta novi­dade, ainda, a pos­si­bil­i­dade da eleição ser deci­dida no primeiro turno.

Tal hipótese, não chega a ser de todo mal, pois nos livra de ter­mos que escol­her entre os dois can­didatos quem vai diri­gir o país – o que, con­fesso, para mim, seria algo muito penoso.

Os brasileiros que tiverem que fazer tal escolha, à luz do seu con­venci­mento pes­soal, deve fazê-​lo tendo por norte, não o que seja bom ou mel­hor para o país, mas o que seja menos ruim ou pior.

A menos que um cat­a­clismo acon­teça, se tiver­mos um segundo turno nas eleições pres­i­den­ci­ais de out­ubro, serão esses dois que estarão lá e temos vivên­cia o bas­tante para saber que não rep­re­sen­tam nada bom para o país.

Agora mesmo, ficamos sabendo que o atual pres­i­dente ded­ica ao tra­balho tempo igual –

ou um pouco supe­rior que ded­ica um estag­iário destes não muito apli­ca­dos –, se não me falha a memória, tal con­statação é basi­ca­mente um “remake” de um certo gov­erno do pas­sado.

Como não ficar­mos angus­ti­a­dos sabendo que pelos próx­i­mos qua­tro anos é isso que teremos?

Abdon Mar­inho é advogado.

Uma eleição federalizada.

Escrito por Abdon Mar­inho


UMA ELEIÇÃO FEDERALIZADA.

Por Abdon Marinho.

A ANÁLISE POLÍTICA não é con­tra ou a favor de ninguém.

Se ela se porta em bene­fí­cio de um ou con­trária a outro não se trata de análise, mas, sim, de uma peça pub­lic­itária ou de pro­pa­ganda.

A análise, tam­bém, não é um exer­cí­cio de adi­v­in­hação ou de achismo.

Se o indi­ví­duo, sem qual­quer base, diz alguma coisa, o que disse pode ser um desejo, uma von­tade, ou uma sug­estão do que gostaria que acon­te­cesse, mas, não uma análise política.

Como uma grande parcela dos jor­nal­is­tas e/​ou blogueiros do estado (e do país) encontra-​se vin­cu­lada aos can­didatos ou mesmo às pau­tas políti­cas desta ou daquela cor­rente, difi­cil­mente encon­tramos no que lemos no dia a dia análises políti­cas, mas, sim, opiniões – que até podemos achá-​las per­ti­nentes –, ou, na maior parte das vezes, sug­estões de pau­tas para os políti­cos incau­tos ou mesmo para a pop­u­lação.

O ver­dadeiro anal­ista (ou quem merece assim ser chamado), indifer­ente ao que gostaria que fosse e aos seus inter­esses e con­vicções pes­soais, exam­ina os fatos e faz sua pro­jeção para o futuro.

Pode errar, pode ser que não pos­sua infor­mações sufi­cientes, pode ser que o quadro político dê uma quinada.

São muitas as razões para que uma análise política deixe de acon­te­cer e elas inde­pen­dem da von­tade de quem as pro­je­tou.

Situ­ação diversa é daquela em que uma opinião, indução ou sug­estão não se con­fir­mou.

Pois bem, faço essa intro­dução pra dizer que o atual quadro político no nosso estado já havia sido pro­je­tado em nos­sos tex­tos há cerca de um ano. Para ver­i­ficar basta fazer uma sin­gela pesquisa.

Já em maio do ano pas­sado – e até mesmo antes –, assen­tava que o can­didato do grupo gov­ernista seria o vice-​governador e que os demais can­didatos seriam colo­ca­dos no espec­tro político do bol­sonar­ismo.

Em pelo menos três ou qua­tro tex­tos de mea­dos do ano pas­sado digo exata­mente isso.

Faço tal reg­istro ape­nas para dizer que uma mul­ti­dão de pes­soas que escreve para jor­nais e/​ou blogues ou sites con­tinua a não fazer análises políti­cas, mas a expres­sar o que gostaria que acontecesse.

O exem­plo mais claro assisti na última sem­ana ao acom­pan­har alguns gru­pos de aplica­tivos e mesmo blogues e sites de notí­cias a respeito do anún­cio da decisão de um dep­utado fed­eral e do seu grupo a cerca de quem iriam apoiar nas eleições deste ano.

Ficaram em clima de expec­ta­tiva, como se fica em final de Copa do Mundo, e trataram como “novi­dade” a decisão anun­ci­ada.

Fiquei pasmo ao perce­ber que mesmo políti­cos de “alto escalão” deu trata­mento de novi­dade a um fato por mim anun­ci­ado há mais de um ano.

Fiquei com sen­sação de que não leram o que havia escrito ou, que, na ver­dade, tanto políti­cos quando os cidadãos comuns, pas­sando por alguns for­madores de opinião, gostam de acred­i­tar naquilo que lhes “faz bem” ou que de alguma forma atenda aos seus inter­esses e con­vicções pes­soais, ainda que isso desafie a ver­dade e a lóg­ica.

Vamos aos fatos?

Leio que em muitos esta­dos da fed­er­ação os políti­cos ten­tam a todo custo “fugir” do ambi­ente de polar­iza­ção política que toma de conta do país.

No Maran­hão, como sabe­mos, dar-​se o oposto. A política estad­ual foi “cap­turada” pela polar­iza­ção entre o bol­sonar­ismo e o lulismo.

Desde a cam­panha de 2018 que o ex-​governador do estado e o atual pres­i­dente da República vêm con­stru­indo uma relação de ódio ple­na­mente cor­re­spon­dida.

Ambos eleitos, o ódio mútuo foi se con­sol­i­dando com o ex-​governador sem­pre que teve opor­tu­nidade – e ainda hoje –, fusti­gando o pres­i­dente e seu gov­erno e sendo respon­dido e/​ou ata­cado na mesma moeda.

Este “culto” ao ódio é per­feita­mente per­cep­tível entre os próprios – pres­i­dente e ex-​governador –, e entre os seguidores de ambos.

Logo, con­hecendo o pres­i­dente e o seu entorno e mesmo o bol­sonar­ismo, de uma forma geral, não é de duvi­dar – e os fatos elim­i­nam quais­quer dúvi­das –, que têm inter­esse e tra­bal­harão, “sem tomar chegada”, con­tra a eleição do ex-​governador.

Imag­i­nar que have­ria espaço político para o par­tido do pres­i­dente da República apoiar uma chapa tendo o ex-​governador como líder – ainda que não o apoiassem –, me parece ingenuidade ou tolice.

Acred­ito que, mesmo que o pres­i­dente do par­tido local resolvesse “com­prar” a briga para apoiar o atual gov­er­nador, can­didato a reeleição, não con­seguiria, pois, tomariam o par­tido dele.

Con­siderando que a dis­cussão deu-​se ape­nas entre o apoio a dois can­didatos e um já car­regava o óbice de ser o can­didato do “inimigo público número um” do bol­sonar­ismo, a opção óbvia seria, como foi, a outra can­di­datura.

Ainda assim, para “carim­bar o apoio” do par­tido do pres­i­dente o can­didato oposi­cionista ao gov­erno teve que “pagar uma prenda”, que foi declarar pub­li­ca­mente – difer­ente do que vinha fazendo até então –, que não mais apoiaria a can­di­datura ao Senado do ex-​governador, agora ex-​aliado desde sem­pre.

A declar­ação pública foi a “senha” para con­seguir o apoio do par­tido do pres­i­dente e do grupo político a par­tir das artic­u­lações feitas na cap­i­tal da República.

A análise política não admite juízo de valor sobre os fatos, ape­nas que os colo­que­mos com clareza.

É isso que procu­ramos fazer, inclu­sive, com a omis­são delib­er­ada dos per­son­agens. Pode­ria ser qual­quer um.

Os can­didatos, cada um no seu quadrado, pode­riam ser Pedrinho, Joãoz­inho e Huguinho, que não mudaria em nada os fatos pos­tos.

Imag­ino tam­bém tratar-​se de uma “estraté­gia” para enganar-​se a si e aos incau­tos, que, em uma eleição tão polar­izada quanto a atual, com pos­si­bil­i­dade de ser deci­dida no primeiro turno, exista espaço para uma “frente ampla”, com uma can­di­datura ao gov­erno “abrindo” palanque para diver­sas can­di­dat­uras presidenciais.

Não existe isso.

Ainda que o Maran­hão rep­re­sente muito pouco do ponto de vista do número de eleitores, como dito ante­ri­or­mente, em nen­hum outro estado existe tanto ódio entre dois can­didatos quanto o ódio reli­giosa­mente cul­ti­vado entre o pres­i­dente da República e o ex-​governador, bem como, entre o bol­sonar­ismo e o lulismo.

Não estran­haria se o próprio pres­i­dente viesse ao estado ou gravasse vídeos não ape­nas pedido votos para o “seu” can­didato a senador, mas, sobre­tudo, pedindo aos seus seguidores que não votem no seu “desafeto” de jeito nen­hum.

Diante disso, não me parece lógico imag­i­nar que o can­didato do PT aceite subir no palanque pedetista/​liberal, assim como, que o PL, par­tido do pres­i­dente e que dev­erá ter a can­di­datura a vice na chapa ou ainda que não seja, o maior destaque da can­di­datura, aceite esse tipo de “arranjo” ou que o ex-​governador, alvo do ódio recíproco do bol­sonar­ismo con­corde “de boa” que isso venha acon­te­cer – que o can­didato da col­i­gação PT/​PSB, suba em tal palanque.

Digo com pesar, que a política brasileira chegou a um nível de acir­ra­mento tal, que as posições de bol­sonar­is­tas e lulis­tas são inc­on­cil­iáveis. Mesmo nos seios das famílias já não os con­vi­dam para os mes­mos even­tos, pois a con­fusão é quase certa.

Se me dis­serem que bol­sonar­is­tas e lulis­tas estarão no mesmo palanque, muito emb­ora na política maran­hense, segundo lição de Vitorino Freire, “até boi avoe”, custarei a acred­i­tar.

O que me parece fac­tível que ocorra, ainda den­tro do já havia afir­mado desde o ano pas­sado, é que todas as forças bol­sonar­is­tas – as de raiz e as de ocasião –, estarão unidas con­tra a eleição do ex-​governador ao Senado – e este será o maior desafio –, unindo-​se no apoio a uma can­di­datura ao gov­erno no segundo turno, se, difer­ente do que imag­i­nam, não tiverem duas can­di­dat­uras bol­sonar­is­tas naquela dis­puta.

Já o con­sór­cio gov­ernista, imag­ino que tra­bal­hará com muito mais afinco para colo­car o carimbo de bol­sonar­is­tas nos opos­i­tores no intento de cap­i­talizarem para as suas can­di­dat­uras o apoio do lulismo – ainda muito forte no estado.

O ex-​governador e can­didato ao Senado, como ide­al­izador ou, no mín­imo, impul­sion­ador de tal “estraté­gia” pre­cis­ará de todo “jogo de cin­tura” e, prin­ci­pal­mente, utilizar-​se de todo prestí­gio que pos­suir para “fed­er­alizar” ainda mais a dis­puta, não ape­nas a seu favor, mas, prin­ci­pal­mente, em favor do seu can­didato ao gov­erno.

Fal­tando qua­tro meses para as eleições e fal­tando pou­cas definições, as peças estão prontas para serem mex­i­das no tab­uleiro da política.

Vamos ao jogo.

Abdon Mar­inho é advo­gado.