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SUCESSÃO ESTAD­UAL: O QUE ACHO, ATÉ AQUI.

Escrito por Abdon Mar­inho


SUCESSÃO ESTAD­UAL: O QUE ACHO, ATÉ AQUI.

Por Abdon C. Marinho.*

A POLÍTICA, como dizia um político mineiro do século pas­sado, é como as nuvens: você olha está de um jeito, você baixa a vista, olha nova­mente e já está de outro jeito.

Outro dia um amigo me per­gun­tava como estava vendo a sucessão estad­ual.

Contei-​lhe que, emb­ora cuidando de out­ras pau­tas e acom­pan­hando o desen­ro­lar dos fatos “de longe”, na sem­ana ante­rior estava com uma espé­cie de over­book (excesso de assun­tos para tratar), entre eles um gan­hava mais destaque: a per­for­mance do ex-​prefeito de São Pedro dos Crentes, Lahé­sio Bon­fim.

Disse-​lhe que o texto não escrito até chegou a ter título: “Quem vai ao segundo turno com Lahé­sio Bonfim?”.

O título, claro, era uma provo­cação, uma vez que o ex-​prefeito, nas pesquisas eleitorais divul­gadas aquela altura, apare­cia com, prati­ca­mente, a metade das intenções de votos de qual­quer dos dois out­ros que estavam à sua frente, o gov­er­nador Car­los Brandão e o senador Wev­er­ton Rocha.

A leitura que fazia era que, dos três, ele era o único que vinha apre­sen­tando um cresci­mento con­sis­tente, podendo alcançar e ultra­pas­sar os demais, ainda mais levando-​se em con­sid­er­ação que difer­ente dos dois out­ros já estão em cam­panha há bas­tante tempo e sendo muito mais con­heci­dos.

Ao meu sen­tir – e con­tinuo com o mesmo pen­sa­mento –, o can­didato “garan­tido”, pelo poten­cial de cresci­mento, até então, seria o Bon­fim, deixando para Brandão e Rocha a “briga” pela outra vaga – não digo com isso que chegue em primeiro lugar.

Uma outra pesquisa – pos­te­rior aque­las até então, sem­pre apon­tando “empate téc­nico” entre os dois primeiros can­didatos –, mostrou um dis­tan­ci­a­mento entre Brandão e Rocha, mostrando o primeiro com uma boa van­tagem em relação ao segundo e já o can­didato Lahé­sio nos cal­can­hares de Rocha.

Não “brigo” com pesquisas, ape­nas examino-​as e observo as reações dos inter­es­sa­dos. Enquanto o grupo de Brandão fes­te­java vi o grupo de Rocha “tra­bal­hando” para desqual­i­ficar a pesquisa e o insti­tuto, colocando-​a sob a sus­peição de con­tro­ver­tidos prognós­ti­cos ante­ri­ores.

Esse tipo de com­por­ta­mento e con­tes­tação são nor­mais, assis­ti­mos a isso em todos os pleitos.

Ape­sar de con­testarem os dados da pesquisa senti o que o grupo de Rocha “deu recibo” aos dados apre­sen­ta­dos, tanto assim que muitos dos que o seguem, políti­cos, jor­nal­is­tas, etcetera, pas­saram a atuar em duas frentes: uma no ataque a Dino/​Brandão – e coloco assim, porque é assim que ref­erem ao gov­erno ante­rior e atual, colo­cando na conta dos dois todos os insuces­sos –, e na outra, no ataque ao can­didato Bon­fim, até então, tido por “inofen­sivo” ou um pos­sível ali­ado no segundo turno.

Ora, é público a existên­cia de um con­sór­cio político dos segui­men­tos oposi­cionistas no propósito de der­ro­tar as hostes gov­ernistas, prin­ci­pal­mente o can­didato ao Senado e ex-​governador, Flávio Dino, tanto assim, que acor­daram em apoiarem ape­nas um can­didato nesta dis­puta, o atual senador Roberto Rocha.

Não vejo sen­tido nos ataques vela­dos, nas not­in­has mali­ciosas, nas insin­u­ações sobre ocul­tação de patrimônio ou mesmo os fal­sos elo­gios, vin­dos da cam­panha de Rocha con­tra Bon­fim – con­siderando inte­grarem o mesmo “con­sór­cio”, e choveu delas nos dias –, se a cam­panha do primeiro já não se sen­tisse ameaçada pelo segundo.

Em tal con­texto, mesmo uma inques­tionável demon­stração de força política pode rev­e­lar frag­ili­dade.

Cria-​se um cenário político de potên­cia para intim­i­dar os demais adver­sários, mas que, na ver­dade não retrata o sen­ti­mento das ruas.

Cor­rob­ora com tal pen­sa­mento o fato do PDT, par­tido de Rocha, ter ido à Justiça (e con­seguido lim­i­nar) para obstac­u­lar a con­venção do par­tido de Brandão, o PSB.

Desde o surg­i­mento dos dois par­tidos no estado, ainda no iní­cio e mea­dos dos anos oitenta, os dois par­tidos – e mesmo o PSDB, um pouco mais dis­tante o PT –, sem­pre con­viveram como co-​irmãos, mesmo no período da rup­tura tem­porária, em 1994, havia espaço para dis­cussão entre suas lid­er­anças políti­cas e entre seus fil­i­a­dos e mil­i­tantes, tanto assim, que já em 1996, se ini­cia­ram as trata­ti­vas para o retorno às anti­gas parce­rias, o que só foi pos­sível nas eleições de 1998.

Em quase quarenta anos nunca tive­mos con­hec­i­mento de uma, sequer, ten­ta­tiva ou cog­i­tação de uma das leg­en­das para impedir ou obstac­u­lar a con­venção do outro. Aliás, não recordo deste tipo de ini­cia­tiva nem mesmo con­tra os arquir­rivais do grupo Sar­ney con­tra quem as duas leg­en­das sem­pre dis­putaram o poder.

Não dis­cuto o mérito da ação, até acred­ito na existên­cia de ele­men­tos, tanto assim que o mag­istrado con­cedeu lim­i­nar para inter­di­tar a par­tic­i­pação pop­u­lar no evento sob pena de multa pesadís­sima.

Muito emb­ora a con­venção do PDT/​PL tenha ocor­rido em um lugar for­mal­mente fechado, um está­dio de fute­bol, os mil­hares de par­tic­i­pantes, falam em dez, vinte, trinta mil e até mais par­tic­i­pantes, eram fil­i­a­dos aos par­tidos políti­cos que lá estavam? Mais, a Justiça Eleitoral ou mes­mos os par­tidos adver­sários estavam lá cobrando a “carteira de fil­i­ado” de cada um?

A ati­tude “histórica” de se ten­tar impedir ou impor obstácu­los a real­iza­ção de uma con­venção par­tidária, ainda mais quando o par­tido político “inter­di­tado” sem­pre foi um co-​irmão, ao meu sen­tir, repito, não “com­bina” com o dis­curso que se tenta propalar de que o can­didato encontra-​se muito bem, obri­gado, já “garan­tido” no segundo turno.

Se assim o fosse, deixaria a “bola rolar” para lá na frente con­quis­tar as lid­er­anças e os sim­pa­ti­zantes dos can­didatos que não foram para o segundo turno para o seu palanque.

Afi­nal, que mérito há em ten­tar impedir a par­tic­i­pação de pop­u­lares em uma con­venção? Pior ainda quando se sabe que estas pes­soas via­jaram dezenas, cen­te­nas de quilômet­ros para par­tic­i­parem do evento dos seus candidatos.

Imag­ino que as lid­er­anças do PSB e das out­ras leg­en­das que sem­pre estiveram jun­tas em tan­tos embates sentiram-​se “traí­das” diante da ati­tude do par­tido co-​irmão.

Bem antes de tudo isso, anal­isava para um amigo querido e quadro histórico do PDT que have­ria uma tendên­cia nat­ural da can­di­datura do seu par­tido vir a “min­guar”.

Dizia isso a ele com base na “teo­ria dos con­jun­tos”, que apren­demos lá no primário.

A análise é fácil com­preen­são: con­siderando que o can­didato Dino pos­suía mas de 50% (cinquenta por cento) do votos e que os dois can­didatos deriva­dos do seu grupo pos­suíam em torno de 25% (vinte e cinco por cento) cada um, a tendên­cia seria que um dos con­jun­tos perdesse ele­men­tos à medida que o con­junto da qual deriva se desloque em bene­fí­cio do outro.

Trata-​se de um raciocínio em cima de uma questão matemática – e política pos­suir razões que a própria razão descon­hece –, este amigo dizia discordar.

Emb­ora con­cor­dando que os votos dos can­didatos sejam deriva­dos do “mesmo campo” político, argu­men­tava que o papel do can­didato ao Senado, Flávio Dino, não seria (será) deter­mi­nante, dizendo, inclu­sive, que Dino já seria “freguês” de Rocha, citando como exem­plo as eleições de 2008, quando teria per­dido por conta da artic­u­lação do seu can­didato e a eleição de 2018, quando o seu can­didato teria tido mais votos do que ele, quando dis­putou o Senado e ele o Gov­erno Estad­ual.

Por tal raciocínio, Dino, ape­sar de fig­u­rar nas pesquisas eleitorais para o Senado com o dobro das intenções de votos do can­didato dele, para gov­er­nador, não pos­suiria a “capaci­dade” de tirar votos do mesmo em favor de Brandão.

Só saber­e­mos se o meu amigo estava certo no seu prognós­tico quando as urnas “falarem”, em 02 de out­ubro próx­imo.

A política é feita de gestos e ati­tudes que são ori­en­ta­dos por pesquisas inter­nas.

O fato da cam­panha do senador pede­tista “queimar a largada” e par­tir para o ataque con­tra os can­didatos Lahé­sio e Dino/​Brandão, não com­bi­nam com o con­forto dos que já estão à espera do adver­sário para o próx­imo round.

Mas estas são opiniões e pon­tos de vis­tas pes­soais – e de quem encontra-​se “dis­tante” do processo.

Até aqui, vejo que o can­didato Lahé­sio pode crescer muito mais do que cresceu até aqui; que o can­didato Rocha não con­seguiu con­quis­tar os votos do bolsonarismo-​raiz – ape­sar do,partido do,presidente inte­grar sua chapa –, que migraram para Lahé­sio e que pode, ainda perder, votos à medida que for fusti­gado pelo próprio Lahé­sio ou pela chapa Dino/​Brandão; que, para a vitória ou para der­rota, a can­didato Brandão depende do enga­ja­mento do can­didato ao Senado, Flávio Dino, para trans­ferir os votos que pre­cisa ainda vin­cu­la­dos ao can­didato Rocha pra ele (Brandão), noutras palavras, para Brandão avançar para a segunda etapa é necessário o “tra­balho her­cúleo” de “amar­rar” cada voto (ou a maio­ria deles) de Dino em Brandão e vice-​versa. De onde virão estes votos ou se virão, será a chave para saber­mos se Brandão vai ao segundo turno e/​ou se Dino é mesmo “freguês” de Rocha.
Uma dica: na minha opinião, a chapa de Rocha “ajuda” Brandão ao só se referirem ao gov­erno como Dino/​Brandão, ajuda a “amar­rar” os votos nos dois.

Os demais can­didatos, até aqui, não os vejo com poten­cial para irem para a segunda etapa da disputa.

Ressalvo, por fim, que o processo eleitoral ainda se encon­tra no iní­cio, a cam­panha mesmo só daqui a alguns dias, ou seja, temos muita água a rolar por baixo da ponte.

Aí, sim, será o momento, que se diz na política, de “vaca descon­hecer bez­erro”.

Abdon C. Mar­inho é advogado.

Proibido para deficientes.

Escrito por Abdon Mar­inho


PROIBIDO PARA DEFI­CIENTES.

Por Abdon C. Marinho.*

FERI­ADO DA ADESÃO do Maran­hão a Inde­pendên­cia do Brasil com quase um ano de atraso trouxe a lem­brança que um com­pro­misso profis­sional no iní­cio da sem­ana levou-​me a um edifí­cio público.

Lá chegando percebi que tinha uma rampa de acesso para facil­i­tar o acesso de pes­soas com defi­ciên­cia e/​ou mobil­i­dade reduzida. Os cinco ou seis degraus e existên­cia de cor­rimão me fiz­eram optar pelo cam­inho mais curto.

No saguão fui infor­mado que o com­pro­misso seria no segundo andar e que não have­ria um ele­vador para levar-​me ao local da reunião.

Na vez ante­rior que lá estive para tratar da mesma pauta a direção do órgão público e os téc­ni­cos gen­til­mente desce­ram para nos aten­der em uma saleta impro­visada no térreo. Con­fiando nas várias sessões de fisioter­apia que tenho feito nos últi­mos meses e con­siderando que na reunião have­ria a exibição de slides, tal qual o cav­aleiro errante D. Quixote impus-​me a tarefa de vencer os inter­mináveis qua­tro lances de escada até o local do compromisso.

As difi­cul­dades da subida me fiz­eram obser­var cada detalhe da empre­itada. Os degraus, emb­ora altos para os que têm difi­cul­dades de loco­moção, são lar­gos e, pareceram-​me, den­tro das nor­mas de con­strução; o cor­rimão, em madeira de lei, ao meu sen­tir, estava ade­quado, a ilu­mi­nação pés­sima.

Cheguei ao topo exausto e dando meu reino por uma cadeira.

Find­ada a reunião pus-​me ao desafio de fazer o cam­inho de volta. E, para quem disse que para descer todo santo ajuda, cer­ta­mente não con­hece o for­mato da escada e fato de que à dire­ita de quem desce não pos­sui cor­rimão e, os degraus altos, torna cada passo um risco de estatelar-​se lá embaixo.

Então, para descer pre­ci­sei do braço amigo do meu acom­pan­hante que fez às vezes de cor­rimão portátil.

Ape­nas assim con­segui chegar de volta ao térreo são e salvo.

Pois bem, se você chegou até aqui merece saber que o pré­dio que falo e que rep­re­senta um ver­dadeiro acinte à mobil­i­dade das pes­soas como difi­cul­dades de loco­moção é o Palá­cio Hen­rique de La Roque.

A con­sid­erar a aces­si­bil­i­dade, uma hom­e­nagem infame ao impor­tante político maran­hense.

Nunca tinha ido lá – e devo pas­sar tan­tos out­ros anos sem voltar.

Chega a ser ina­cred­itável que um edifí­cio público que já serve ao gov­erno do estado há mais de vinte anos seja um pré­dio proibido à pes­soas com deficiência.

Vejam, fui lá uma vez, e até que colo­quem um ele­vador, não desejo voltar. Fico imag­i­nando que exceto no térreo o edi­fico não admite que pes­soas com defi­ciên­cia tra­bal­hem nele. É desumano sub­me­ter qual­quer pes­soa com defi­ciên­cia à mis­são de, diari­a­mente, ter que subir e descer aque­las escadas. Só con­seguem com muito sofri­mento e risco de morte diário.

Cadeirantes e defi­cientes visuais, nem pen­sar.

Como deixei claro, a difi­cul­dade é maior – pelo menos no meu caso –, é para descer, vez que a escada não pos­sui cor­rimão à dire­ita de quem desce e a parede (irreg­u­lar) não per­mite qual­quer apoio, sem con­tar a altura dos degraus e a baixa ilu­mi­nação.

Disse que o edifí­cio serve ao estado há vinte anos, mas acred­ito que já se vão quase trinta anos, tempo em que serviu aos diver­sos tipos de gov­er­nos sem que ninguém, uma viva alma se desse conta que nós defi­cientes físi­cos, visuais exis­ti­mos, e mais, que somos sujeitos de dire­itos – e obri­gações.

Um dos prin­ci­pais dire­tos – garan­ti­dos a todos –, é o dire­ito de loco­moção, o de ir e vir, o de poder aces­sar as repar­tições e órgãos públi­cos.

Para o Estado do Maran­hão, durante todos esses anos, é como se fôsse­mos invisíveis.

A nen­huma das autori­dades estad­u­ais, secretários, ger­entes, inter­mediários ou mesmo puxa-​sacos, que sem­pre cerca o poder, sobrou um mín­imo de sen­si­bil­i­dade para perce­ber que qual­quer pes­soa com defi­ciên­cia não con­segue aces­sar o edi­fico além do térreo.

Cer­ta­mente a engen­haria daria um jeito de implan­tar um ele­vador, mas nada. Em quase três décadas, sei lá, ninguém ligou.

Mas nem falo de obras mais caras ou elab­o­radas – muito emb­ora um edi­fico público tenha o dever de asse­gu­rar aces­si­bil­i­dade para todos –, o que mais me chamou a atenção foi a ausên­cia de um cor­rimão. Um mísero de um cor­rimão para aju­dar a nós, des­graça­dos defi­cientes – que aos olhos do Estado deve­mos ser cul­pa­dos por nossa condição –, a subir e descer escadas de uma repar­tição pública.

Sem­pre que me deparo com situ­ações assim, nos momen­tos de raiva, frus­tração e humil­hação me passa pela cabeça man­dar fazer e insta­lar o c** do cor­rimão no local.

Qual­quer hora dessa ainda faço – e divulgo.

Outra ideia que me ocorre é fazer uma “vaquinha” pedindo a pop­u­lação doações para fazer e insta­lar o ben­dito cor­rimão.

Não é crível que o estado que gasta mil­hões com lagosta, canapés, tru­fas e out­ras gulo­seimas não con­siga, ao menos, tornar acessível a todos os logradouros públi­cos, suas repar­tições ou mesmo colo­car um cor­rimão numa escada.

Igual­mente ina­cred­itável que o Min­istério Público tão dili­gente – e que cer­ta­mente sobre­tudo quando o edi­fico fun­cionava como sede do gov­erno –, nunca tenha se dado conta e cobrado a aces­si­bil­i­dade para as pes­soas com defi­ciên­cia, não ape­nas naquele edifí­cio, mas, tam­bém, em tan­tos out­ros que nos são proibidos o acesso.

Tão ilus­tres e insen­síveis autori­dades são inca­pazes de imag­i­nar o quanto é frus­trante e por vezes humil­hantes não con­seguimos aces­sar os logradouros, repar­tições ou mesmo os meios de trans­porte público e pre­cisamos do socorro de ter­ceiros para fazê-​lo.

Tão ilus­tre quanto omis­sos talvez devessem “pagar pen­itên­cia” no milho por suas omis­sões.

É difí­cil imag­i­nar uma sociedade igual­itária quando mesmo os dire­itos mais bási­cos nos são nega­dos.

Diari­a­mente, em todos os lugares, nos deparamos com desafios a aces­si­bil­i­dade, mesmo quando ten­tam fazer, fazem de forma errada ou inad­e­quada, sem levar em conta a neces­si­dade de acesso de quem vai uti­lizar. Um exem­plo, pre­cisamos de ram­pas, tenho encon­trado algu­mas por onde ando que a elas preferiria uma escada com cor­rimão.

No caso do palá­cio proibido o que me chama atenção é o fato de que todos que o fre­quen­tou e fre­quenta ao longo dos anos, sobre­tudo, quando foi sede do gov­erno, cer­ta­mente perce­beram sua “defi­ciên­cia” mas fiz­eram questão de igno­rar.

O pré­dio não é inad­e­quado e inacessível porque não sabiam ou porque falte din­heiro (até para o cor­rimão) é por insen­si­bil­i­dade e desumanidade.

Repito: para eles é como se não existísse­mos.

Como na Inde­pendên­cia, na aces­si­bil­i­dade o Maran­hão tam­bém chega atrasado.

Abdon C. Mar­inho é advogado.

Sobre inco­erên­cias e oportunismos.

Escrito por Abdon Mar­inho

SOBRE INCO­ERÊN­CIAS E OPOR­TUNIS­MOS.

Por Abdon C Marinho.

PAR­TICIPEI da primeira eleição ainda menino. Foi em 1982, no meu municí­pio, os can­didatos, ainda lem­bro, eram os sen­hores Chico Dias e João Afonso. Perfilei-​me ao lado do primeiro e fui um mil­i­tante aguer­rido par­tic­i­pando de even­tos de cam­panha, comí­cios ou mesmo ape­nas expres­sando min­has opiniões a favor do meu can­didato e con­tra o can­didato adver­sário.

O som que embal­ava a cam­panha – e acho que cem por cento das cam­pan­has daquele ano –, era “morena trop­i­cana”, de Alceu Valença, lançada naquele ano, no disco Cav­alo de Pau, como bem pon­tuou o amigo Max Harley em uma das nos­sas via­gens; o carro de som ia na frente chamando e lá íamos para as passeatas e comí­cios. Em jogo um mandato de oito anos.

Perdemos a eleição, mas man­te­mos a coerên­cia.

Já em 1985, mudei-​me para a cap­i­tal – como tan­tos out­ros –, em busca de mel­hor edu­cação para o ensino médio e uma pos­sível fac­ul­dade. Estu­dando no Liceu Maran­hense e, depois de muito esforço e alguns vestibu­lares, ingres­sei na UFMA, onde fiz o curso de dire­ito.

Neste período ini­ciei pela mil­itân­cia estu­dan­til par­tic­i­pando ati­va­mente dos movi­men­tos pela cri­ação de grêmios estu­dan­tis – uma con­quista com o fim da ditadura –, e de inúmeras out­ras pau­tas como o movi­mento pela con­sti­tu­inte.

Em 1991 ingres­sei no PSB de onde sai no ano pas­sado (2021), depois de 30 anos. Alguns ami­gos, com certa maledicên­cia, dizem que bas­tou alguns “novos social­is­tas” ingres­sarem por uma porta para que saísse pela outra.

Ape­sar da coin­cidên­cia, uma coisa nada tem a ver com outra. Saí bem antes e por out­ras moti­vações que nada têm a ver com o quadro sucessório atual.

Pois bem, faço este ret­ro­specto ape­nas para dizer que desde o iní­cio da minha “mil­itân­cia” política sem­pre pro­curei man­ter um certo nível de coerên­cia.

Não que ache que opiniões sejam imutáveis ou que as pes­soas não pos­sam “mudar de lado”, não pelo con­trário, como dizia Ulysses Guimarães, “ape­nas os muitos tolos são inca­pazes de mudar”.

O que acho, entre­tanto, é que mudanças de rumos, alianças, devem guardar coerên­cia com o que sem­pre se pre­gou ou que se faça uma autocrítica admitindo-​se que a posição ante­rior estava equiv­o­cada.

A ausên­cia disso atende pelo nome de opor­tunismo.

Os últi­mos tem­pos na política estad­ual assis­ti­mos a incon­táveis exem­p­los de inco­erên­cias e opor­tunis­mos. Ás vezes, além do ato em si, mais inco­er­ente e opor­tunista é a crítica ao mesmo.

Vejamos um exem­plo que tem “ren­dido” comen­tários nos últi­mos dias.

O MDB leg­enda que abriga a família Sar­ney decidiu-​se por apoiar a reeleição do atual gov­er­nador e para o Senado da República, o ex-​governador Flávio Dino, que his­tori­ca­mente (?) fez car­reira com críti­cas ao grupo Sar­ney e con­tra quem a ex-​governadora Roseana Sar­ney com­petiu nas eleições ocor­ri­das qua­tro anos antes.

A decisão par­tidária tem “ren­dido edi­to­ri­ais” inter­es­santes.

As críti­cas mais con­tun­dentes, parece-​me, não têm sido ao par­tido por ter apoiado o grupo “adver­sário” mas ao grupo político out­rora crítico do grupo Sar­ney que agora fez aliança com o mesmo, como a dizer que os “apoia­dos” são traidores de uma “causa” por aceitarem o apoio dos “apoiadores”.

Muitos dos críti­cos, registre-​se, nas eleições de 2020, estiveram “sen­tando praça” atrás do apoio dos Sar­ney para os seus can­didatos.

Achei (acho) engraçada tal dis­cussão. Primeiro, por nunca ter visto em tan­tos anos de mil­itân­cia política, alguém recusar apoio de quem quer que seja por “amor a coerên­cia”. Segundo, porque a cobrança por coerên­cia política chega com, pelo menos, três anos de atraso.

Foi em julho de 2019 que escrevi o texto “Sar­ney & Dino e o acordo que não ousa dizer o nome”. Alguns ami­gos, com cerca malí­cia, dis­seram que o título seria uma cor­ruptela do poema “O amor que não ousa dizer seu nome”, cujo título orig­i­nal é Two Loves (Dois Amores), escrito por Lord Alfred Dou­glas, o amante do genial Oscar Wilde, em setem­bro de 1892.

No texto falava da aliança entre os dois gru­pos políti­cos até então rivais.

Antes e depois do texto que retra­tou pub­li­ca­mente a primeira tertúlia entre os líderes dos dois gru­pos já tinha nar­rado out­ros momen­tos políti­cos entre eles, como, em 198485 em que o “menino” Flávio, esteve prag­mati­ca­mente ao lado de Sar­ney por ocasião da cam­panha das “Dire­tas já” e votação da chapa Tancredo/​Sarney no Colé­gio Eleitoral ou a ten­ta­tiva frustrada de rein­gresso do então juiz fed­eral na política na virada e iní­cio dos anos 2000.

Já no iní­cio dos anos dois mil cogitou-​se uma aliança como esta que alguns acham “estranha”. E devo acres­cen­tar que se não deu certo foi porque o grupo Sar­ney não topou naquela opor­tu­nidade.

Mas a política é dinâmica, tanto assim, que hoje Sar­ney é um dos prin­ci­pais arti­c­ulista do Jor­nal Pequeno. Quem pode­ria imag­i­nar algo assim, há vinte, dez ou cinco anos? (Acho que tal assunto pede um tex­tão, não acham?).

Em out­ras palavras, os Sar­ney e os Dino sem­pre estiveram bem próx­i­mos – isso vem de lon­gas datas, ger­ações.

Quis o des­tino que o “debut” de Dino na política se desse pelas mãos e patrocínio de José Reinaldo Tavares quando este já estava rompido com o grupo Sar­ney – de quem se reaprox­i­mou nos últi­mos anos –, mas nunca cul­ti­varam posições inc­on­cil­iáveis.

As “tími­das” e raras vezes que Dino criti­cou o grupo Sar­ney – e não lem­bro de nen­huma, exceto as ditas nos calores das eleições –, ocor­reram quando Sar­ney era pres­i­dente e quando dis­putou as eleições de 2010, 2014, 2018. Já em 2019, repito, estavam em plena “tertúlia” de aprox­i­mação, como nar­rei no texto referido e em tan­tos out­ros.

Muitos não con­hecem ou con­hece pouco da história política do Maran­hão, por isso pinçam palavras para alardear as inco­erên­cias inex­is­tentes.

Ora, se estava cristal­ino o acordo cel­e­brado em 2019, como falar em inco­erên­cia agora quando ele se con­cretizou com a chapa for­mada?

A inco­erên­cia neste caso é daque­les que silen­cia­ram esperando tirar alguma “casquinha” do acordo Sarney/​Dino e agora sentem-​se frustra­dos por não terem alcançado seus inten­tos.

Estes mes­mos, tam­bém, nada dis­seram quando o gov­erno comu­nista pas­sou a tratar o con­glom­er­ado de comu­ni­cação dos Sar­ney bem mel­hor do que tratava o próprio gov­erno Roseana.

Foram três anos de obse­quioso silên­cio. Como falar agora em incoerência?

E assim se suce­dem os exem­p­los de inco­erên­cia e opor­tunis­mos.

Outro dia tomei con­hec­i­mento que deter­mi­nado can­didato, indig­nado com a fome do povo maran­hense, ingres­sara ou ten­cionava ingres­sar com ação na Justiça con­tra uma fausta lic­i­tação para abaste­cer a coz­inha do Palá­cio dos Leões.

Com os meus botões fiquei a pen­sar, mas esse (e out­ros) não é o mesmo que pas­sou os últi­mos anos (mais de sete) igno­rando inúmeras out­ras lic­i­tações para a comi­lança dos pala­cianos e, pos­sivel­mente, se far­tando delas tam­bém? Só agora percebe que o povo maran­hense passa fome? Nunca lhe ocor­reu que o fato de sessenta por cento da pop­u­lação não ter o que comer encontra-​se dire­ta­mente rela­cionado à far­tura e à riqueza dos seus rep­re­sen­tantes, muitos deles tendo “enri­cado” na vida pública?

Me socorre per­gun­tar onde estava este povo nos últi­mos anos que não viram tudo que vinha ocor­rendo e que agora, “do nada” pas­saram a enx­er­gar os “malfeitos” e a terem a solução para tudo.

Onde estavam? Por que de suas tri­bunas e trincheiras nunca abri­ram a boca para diz­erem nada con­tra a fome do povo, con­tra a falta de pro­dução, con­tra o atraso econômico, con­tra o excesso de impos­tos e tan­tas out­ras maze­las que nos ator­menta?

Um dos assun­tos da atu­al­i­dade – além da fome do povo –, que mais des­perta críti­cas é o sis­tema de trans­porte aqua­viário, os ferry-​boat.

As críti­cas são tan­tas – e não digo que não sejam jus­tas –, que não duvido se muitos esfreguem as mãos torcendo por uma tragé­dia.

Pois bem, con­forme res­gatei em um texto ante­rior, há mais de dez anos que o sis­tema apre­senta prob­le­mas, assim como as estradas (estad­u­ais e fed­erais) são de pés­sima qual­i­dade. Neste tempo, maio­ria dos que hoje criti­cam, estavam ou eram sócios do poder, por que nunca dis­seram nada? Por que fin­gi­ram que o prob­lema não exis­tia? Só agora pas­saram a enx­er­gar prob­le­mas que sem­pre estiveram à vista de todos?

Registre-​se, ainda, que se tivesse “vin­gado” a con­tinuidade da aliança que os levou ao poder em 2014 e que os man­teve no poder em 2018, os maran­henses con­tin­uar­iam a pas­sar fome, a sofrer todo tipo de maze­las enquanto estes mes­mos que recla­mam estariam, solen­e­mente, ignorando-​os e se far­tando nos ban­quetes ofer­e­ci­dos no palá­cio fruto dos nos­sos sua­dos impos­tos.

Como se diz, o que falta de coerên­cia sobra de opor­tunis­mos.

Abdon C. Mar­inho é advogado.