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DESI­S­TIR NUNCA FOI OPÇÃO — Parte 1.

Escrito por Abdon Mar­inho

DESI­S­TIR NUNCA FOI OPÇÃO — Parte Um.

Por Abdon C. Marinho*.

CERTA VEZ um amigo que con­hece um pouco da minha história me fez a seguinte per­gunta:

— Pen­sastes alguma vez em desistir?

Não sei se a per­gunta era um implíc­ito pedido de socorro ou se faz parte do “roteiro” da existên­cia dos mais jovens: pen­sar em desi­s­tir diante dos prob­le­mas que os afligem como opção primeira.

Mas, de pronto, respondi-​lhe:

— Não. Desi­s­tir nunca foi uma opção.

Imag­ino, na ver­dade, que talvez a resposta não tenha sido a mais ade­quada. Talvez devesse ter dito: desi­s­tir para onde? Ou, desi­s­tir como?

Acred­ito que quando as pes­soas pensem em desi­s­tir diante um desafio, elas sim­ples­mente pas­sam a ignorá-​lo; voltar para casa do pai ou da mãe, da avó; ou mesmo, desi­s­tir de viver, entrando em depressão ou recor­rendo a um gesto extremo, pondo fim a própria vida.

Tais coisas nunca me pas­saram pela cabeça: nunca tive para onde voltar.

Na minha vida sem­pre só exis­tiu um cam­inho: seguir em frente.

Lev­an­tar cada dia e pen­sar em não come­ter os mes­mos erros dos dias ante­ri­ores – sem­pre temos muitos erros novos a serem explo­rados.

Quando a adoção de um recurso extremo, estes mes­mos que nunca povoaram minha cabeça.

Até cos­tumo dizer aos mais próx­i­mos: se algum dia apare­cer morto lá por casa, inves­tiguem. Não irei por von­tade própria e nunca usaria nada que me leve a isso.

Medica­men­tos ou out­ras dro­gas líc­i­tas ou ilíc­i­tas sem­pre pro­curei man­ter dis­tân­cia, exceder-​me, então, nem pen­sar.

A inda­gação, entre­tanto, me fez refle­tir sobre as situ­ações que me troux­eram até aqui.

E começamos pelo começo como deve ser.

Naquele domingo de out­ubro em que ocor­reu minha estreia no palco da vida, está­va­mos soz­in­hos (os adul­tos, estavam para as fontes ou para out­ros afaz­eres). Quando minha gen­i­tora começou a sen­tir as “dores” e pediu a algum dos menos para ir atrás da parteira, uma tia minha, esposa de tio Antônio Cal­heiro, não quis esperar e fui logo tratando de vir ao mundo.

Do que lem­bro, quando chegou, “ape­nas” teve o tra­balho de cor­tar o cordão umbil­i­cal me dar o banho do nasci­mento.

Já naquela oper­ação, o nascer apres­sado, pode­ria ter “sobrado”.

Escapei e vim ao mundo bonito, alvo e gordinho. Pela tradição de colo­car nomes ini­ci­a­dos pela letra “A”, exceção feita ape­nas no caso do irmão que me ante­cedeu, o Goça, bati­zado por Fran­cisco em hom­e­nagem ao santo com mesmo nome, recebi o nome de Abdon, apel­i­dado na primeira infân­cia de Bida.

O nome foi uma escolha da minha madrinha, D. Nazaré, da far­má­cia, esposa de Absalão, que por ser muito reli­giosa achou esse nome na Bíblia, den­tro das opções que começava com a vogal já referida.

Um ano e meio depois da estreia, no máx­imo dois, minha irmã Ana ainda não havia nascido, por ser gat­inho, alv­inho e gordinho, fui “achado” por uma tal de poliomielite. Ninguém por aque­las ban­das sabia do que se tratava, nunca tin­ham ouvido falar nela. Como, feliz­mente, ape­nas eu fui achado pela “mal­vada” acred­ito que tenha sido pelas car­ac­terís­ti­cas acima referidas.

Certa vez, em tom de pil­héria, um amigo me disse que Deus me fiz­era “alei­jado” para nunca me “perder de vista” – tam­bém é uma expli­cação.

A mal­vada andou perto de me levar. Dias e dias com febre, indo, não indo, pas­sando mal enquanto a molés­tia ia destru­indo meu organ­ismo, defor­mando meus mús­cu­los, me tor­nando alei­jado.

Meus pais, coita­dos, sem qual­quer instrução ou con­hec­i­mento, não sabiam o que fazer. O trata­mento era a base chás, ervas, rezas, orações e promes­sas para São Fran­cisco de Assis.

Uma “boca de noite”, não se sabe se por ouvir dizer que estava quase de par­tida ou por uma das coin­cidên­cia inex­plicáveis da vida, apare­ceu lá por casa o sen­hor Joaquim Rosa, que morava quase uma légua de dis­tân­cia da minha casa, entrando mato a den­tro.

Chegando a minha casa e vendo aquele “frejo” todo em torno da minha quase anun­ci­ada par­tida, disse aos pais: — meu com­padre, minha comadre, aqui ele não vai resi­s­tir. Devem levar o menino ime­di­ata­mente para Teresina.

Assim, parti – não desta para mel­hor –, mas para Teresina, no Piauí, para rece­ber atendi­mento médico.

Se ainda hoje é difí­cil andar pelas estradas do Maran­hão, imag­inem há mais de cinquenta anos. Não havia estradas. Minha mãe, já grávida, teria que fazer parte do per­curso em lombo de ani­mal, até um cen­tro mais evoluído onde pode­ria pegar um cam­in­hão para seguir viagem.

Arru­maram os ani­mais, malas e faneis para comer durante o tra­jeto e lá se foi minha mãe rumo à Cap­i­tal do Piauí, com um menino no colo, quase morto e com minha irmã na bar­riga.

Em Teresina, o diag­nós­tico da poliomielite não foi muito promis­sor, emb­ora não cor­resse mais o risco de mor­rer, ficaria par­alítico para sem­pre e, talvez, não voltasse a andar.

Foi a segunda vez que minha mãe me salvou.

Ao retornar de Teresina começou o duro apren­dizado para voltar a andar. Minha mãe foi minha primeira fisioter­apeuta. Gas­tou muito sebo de carneiro aque­cido em mas­sagens inter­mináveis nas per­nas, além de muitas promes­sas para São Fran­cisco.

Lem­bro de uma imensa colcha de veludo amarelo que minha mãe colo­cava na sala de terra batida para que pudesse voltar a engat­in­har e depois voltar a andar.

Não é que deu certo. Com três ou qua­tro anos já estava andando nova­mente. Minha mãe con­seguirá mais um vez.

Por esta graça alcançada tive que usar o hábito fran­cis­cano durante um bom tempo.

Engraçado que quando usava o hábito os coleguin­has do povoado ficavam provo­cando: — mul­herz­inha, mul­herz­inha!

Como sabe­mos, cri­ança é o cão em forma de gente.

Eu, já sabendo disso, não usava nada por baixo então lev­an­tava o hábito e mostrava os “doc­u­men­tos”: — olha aqui quem é mulherzinha!

A “vida boa” não durou muito tempo. Logo a barra da tem­pes­tade mod­i­fi­caria para sem­pre as nos­sas vidas.

Foi em agosto de 1973, tinha cinco anos, minha irmã, Ana Cleide, dois e pouco, atrás de nós uma escad­inha, até chegar na minha irmã mais velha, com vinte e um anos, já casada.

Minha mãe, pas­sando dos trinta e seis anos, estava grávida mais uma vez, a décima, se reti­ramos das con­tas os diver­sos abor­tos espon­tâ­neos.

Aos treze dias daquele agosto, em tenra idade e com tan­tos fil­hos para criar, minha mãe mor­reu após dá à luz ao nosso caçula.

Narro o episó­dio no texto “Dia de Ano”, já pub­li­cado no site e nas min­has redes soci­ais.

Na tarde/​noite do dia 12, quando já se prepar­ava para o tra­balho de parto – já estava com as primeiras dores –, falei com minha mãe pela última vez.

Engraçado que pas­sa­dos tan­tos anos (49, para ser exato), lem­bro de cada detalhe daquela noite/​dia, do momento em que estava no quarto com ela e tio Praxedes, irmão dela e já viúvo de tia Zefa, irmã de meu pai e que mor­rera no parto, acho que um ano antes, ou pouco mais que isso.

Fazia per­altices, colo­cava o ded­inho nas dobradiças de um cofre e ficava dizendo que não con­seguia tirar.

Neste clima de brin­cadeiras, enquanto meu tio con­ver­sava com minha mãe e eu a toda hora cobrando atenção, minha mãe chamou-​me para perto dela e disse: — meu filho vai ser um doutor para cuidar dos seus irmãos.

Foi a última vez que falei com minha mãe. Depois me levaram para dormir no quarto que dividia com minha vó paterna a quem chamá­va­mos de “titia” e tinha os olhos mais azuis que jamais alguém viu.

Quando acordei na madru­gada ou no raiar do dia, já foi com o barulho e o cheiro da morte tomando conta de todo o ambi­ente. Muito choro, muitas velas já ace­sas e queimando.

Minha mãe não resi­s­tira e mor­rera.

A minha vida, a nossa vida, já era outra, mudara para sem­pre. Eu per­dia meu pilar, minha pro­te­tora. Eu me tornara órfão.

Além de defi­ciente, órfão aos cinco anos de idade.

Durante muitos anos – e ainda hoje –, me per­gunto se minha mãe teria pressen­tido a morte ao me atribuir a respon­s­abil­i­dade de cuidar dos meus irmãos com ape­nas cinco anos ou se na ver­dade, ao me atribuir tal mis­são não estava, mais uma vez, cuidando de mim ao me obri­gar a nunca desi­s­tir até cumprir a mis­são que fora con­fi­ada.

Lá estava eu, órfão, defi­ciente e com uma mis­são a cumprir – com cinco anos de idade.

Os anos que viriam não seriam fáceis e, prin­ci­pal­mente, seriam bem solitários.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

P.S. No próx­imo capí­tulo nar­raremos os primeiros anos da orfan­dade e como me fiz ator.

(Texto extraído do livro “Memórias e out­ras crôni­cas”, de minha auto­ria, que, talvez, seja pub­li­cado algum dia).

A fome e as lágrimas.

Escrito por Abdon Mar­inho


A FOME E AS LÁGRIMAS.

Por Abdon C. Marinho.

DOMINGO pas­sado recebi um vídeo de um amigo através de um aplica­tivo de men­sagens. Primeiro “spoiler”: se queres me ocul­tar algo basta man­dar por áudio ou vídeo, rara­mente os abro. Segundo “spoiler”: quando abro a infor­mação prin­ci­pal deve ser a primeira pois rara­mente chego até o fim.

Mas, era domingo, aquele ócio domingueiro, nada para fazer, quem man­dou foi um querido amigo, senti-​me na obri­gação de abrir o tal vídeo.

Não me inter­es­sei pela “moral da história”, vi por poucos segun­dos, porém. até onde vi, teste­munhei um político maran­hense, com mandato há mais de uma década “se debul­hando” em lágri­mas ao dis­cor­rer sobre a fome, os indi­cadores de mis­éria que ator­menta o nosso povo desde sem­pre.

A impressão que tive, naquele começo de vídeo, foi que a excelên­cia estava tendo con­tato com dura real­i­dade do povo maran­hense pela primeira vez, que nunca sou­bera ou tivera con­tato com as neces­si­dades reais dos cidadãos; ou que acabara de “pousar” de Marte, quem sabe de um outro plan­eta ou mesmo galáxia mais dis­tante.

O pre­sente texto – assim como tan­tos out­ros que escrevi –, se pre­ocupa com os fatos não com as pes­soas, daí porque sem­pre que pos­sível, procuro omi­tir os nomes dos per­son­agens.

Os fatos são mais impor­tantes e falam por si.

O fato do pre­sente texto é que um par­la­men­tar, com mandato há mais de uma década, numa das casas do par­la­mento, em lágri­mas, dis­cor­reu sobre as condições de mis­éria e sofri­mento do povo do nosso estado como se estivesse tra­vando con­tato com tal real­i­dade pela primeira vez.

Os “cupin­chas” e adu­ladores puseram a escr­ever ou a dizer: como é sen­sível. Ele chora diante do sofri­mento do povo.

Os adver­sários foram na con­tramão: como é hipócrita, vive no luxo enquanto o povo amarga necessidades.

Tenho um marco tem­po­ral de quando ini­ciei a colo­car no papel o que penso sobre os fatos e acon­tec­i­men­tos e até mesmo arriscando-​me vez ou outra por out­ros ramos da escrita: o ano de 2010, quando perdemos o saudoso amigo e jor­nal­ista Wal­ter Rodrigues. Até então, como sem­pre con­ver­sar­mos e trocá­va­mos impressões sobre tudo, emb­ora muita vezes dis­cor­dando, sentia-​me con­tem­plado com suas análises.

Com seu desa­parec­i­mento pre­coce e com o jor­nal­ismo – ressalvando-​se raras e hon­radas exceções –, cam­in­hando para o hon­rado tra­balho de asses­so­ria de imprensa, senti-​me na obri­gação cívica de deixar o teste­munho destes meus anos escritos.

Neste tempo – só no meu site con­stam mais de mil tex­tos –, ape­nas eu escrevi, com certeza, mais duas cen­te­nas de tex­tos abor­dando a mis­éria maran­hense, os indi­cadores africanos, a fome do povo e sobre a neces­si­dade de faz­er­mos um enfrenta­mento con­sis­tente de tal situação.

Antes de mim, muitos out­ros fiz­eram isso.

Quase todos anos a ONU, o IBGE, e tan­tos out­ros insti­tu­tos e insti­tu­ições infor­mam os nos­sos tristes indi­cadores econômi­cos e soci­ais.

O empo­brec­i­mento do Maran­hão vem de décadas de equívo­cos políti­cos e de explo­ração dos recur­sos públi­cos e nat­u­rais do estado em detri­mento de uma imensa maio­ria que a cada dia que passa vai ficando mais pobre e mais depen­dente dos favores dos gov­er­nos e dos poderosos.

A real­i­dade nua e crua é que a medida a nossa elite política acu­mula cada dia mais riqueza, o estado e povo vai ficando cada vez mais pobre e mis­erável.

A mis­éria do nosso povo, por­tanto, sem­pre deve nos causar ver­gonha e indig­nação, mas não, sur­presa.

O que fiz­eram nos­sos políti­cos, legí­ti­mos rep­re­sen­tantes do povo para mudar a real­i­dade econômica e social do estado nas últi­mas décadas?

O que faziam enquanto o povo pas­sava (e passa) fome?

Gas­tavam os recur­sos públi­cos em mor­do­mias, com­pravam iguar­ias div­inas para os lau­tos ban­quetes palacianos?

Enri­cavam cada vez mais? Con­struíam man­sões? Com­pravam aparta­men­tões, car­rões, aviões ou emis­so­ras de rádio e tele­visão para fun­cionarem como instru­men­tos de manip­u­lação do povo sofrido e incauto?

Igno­ravam que quase tudo que se con­some no Maran­hão vem de out­ros esta­dos?

A mis­éria dos cidadãos maran­henses não é algo para ser igno­rada ou para causar sur­pre­sas nos “rep­re­sen­tantes do povo”, antes, dev­e­riam envergonhá-​los, fazer saírem de joel­hos dos palá­cios e irem se pen­i­ten­ciar per­ante São José, em Riba­mar.

Ao assi­s­tir um par­la­men­tar chorando como se estivesse sur­preso com a fome do povo que rep­re­senta, imag­ino o quanto estas pes­soas – mesmo os que vieram origem humilde –, se afas­taram da real­i­dade dos cidadãos.

É como se tivessem pas­sado a habitar outro mundo.

As denún­cias ou promes­sas de desen­volverem o estado não pas­sam de fig­uras retóri­cas, pois igno­ram a real­i­dade dos rep­re­sen­ta­dos.

Não sabem, por exem­plo, que muitas vezes, as mães ou os pais têm que escol­her entre ficar com fome ou ali­men­tar os fil­hos; não sabem as pés­si­mas condições habita­cionais ou de higiene em que são obri­ga­dos a viverem.

Mas, a cada dois ou qua­tro anos, lá estão eles com suas promes­sas vãs, seus dis­cur­sos boni­tos, dizendo que vão com­bater a fome, a mis­éria, desen­volver o estado.

Promes­sas, engo­dos, nada mais!

Entre as tan­tas vezes que falei sobre a situ­ação de pobreza, mis­éria e fome que acomete o nosso povo, uma me é espe­cial­mente cara – e decep­cio­nante.

Há quase oito anos, em 5 de out­ubro de 2014, escrevi uma carta pública aos futuros gov­er­nantes, que assumiriam no ano seguinte.

A carta, além de ser pub­li­cada no nosso site, foi pub­li­cada no Jor­nal Pequeno e, acred­ito, alguns blogues.

Na carta trato de todos “gar­ga­los” que nos colo­cam na “rabeira” de tudo, edu­cação, saúde, cor­rupção maze­las admin­is­tra­ti­vas, etc., especi­fi­ca­mente no ponto que tratei da mis­éria do povo, disse:

O Maran­hão, informa a pro­pa­ganda ofi­cial, fes­teja mais um recorde na pro­dução de grãos. Comemora-​se que a nossa pro­dução chegou a dois por cento da pro­dução de grãos do Brasil. É um dado que não nos serve, nem como piada. Não aceitável que um estado com tan­tos recur­sos hídri­cos, tão extenso, com tan­tas áreas agricultáveis pro­duza tão pouco. Não sei se sabes, ao longo dos anos foi destruída a assistên­cia téc­nica ao homem do campo. Isso, ali­ado a uma política pre­datória de assis­ten­cial­ismo tem pro­duzido, não pro­du­tos agrí­co­las, mas homens preguiçosos, cidadãos, que entra dia sai dia, vivendo de esmo­las. O Maran­hão não pode con­tin­uar a ser uma terra onde a maio­ria da pop­u­lação viva de esmo­las. Meu pai, com sua sabedo­ria de anal­fa­beto, cos­tu­mava dizer que esmo­las só eram dev­i­das a quem não tinha condições de tra­bal­har, aos que eram cegos ou alei­ja­dos. Hoje, a esmola é dev­ida a todos, é a primeira opção do cidadão. Pre­cisamos devolver ao homem o amor pelo tra­balho, à sat­is­fação de gan­har o próprio sus­tento, a não depen­der ninguém, a ser livre. Essa é a palavra, pre­cisamos devolver ao homem a sua liber­dade cidadã”.

O que con­sta­mos, quase oito anos depois, é que “não leram a carta”, nem aquela, nem as que fize­mos pos­te­ri­or­mente, aler­tando para os desac­er­tos ou as cen­te­nas de tex­tos tratando destes e de tan­tos out­ros assun­tos.

Se leram procu­raram fazer o oposto do recomen­dado ou ficaram na como­di­dade da real­i­dade para­lela.

O Maran­hão con­tinua pro­duzindo pouco e o que pro­duz é como “com­modi­ties”; o povo mesmo, a maio­ria dos cidadãos con­tinua vivendo de esmo­las, dos pro­gra­mas assis­ten­ci­ais; se habit­u­aram à humil­hação de viverem como ped­intes e o gov­erno parece sentir-​se bem no papel de prove­dor.

Vejo com tris­teza e desalento as mul­ti­dões que se for­mam para rece­ber uma cesta básica, uns qui­los de pescado; as enormes filas nos restau­rantes pop­u­lares em busca de um prato de comida a um preço módico para si e os seus famil­iares – mesmo nos menores municí­pios –, ou as filam que se for­mam diante dos CRAS — Cen­tro de Refer­ên­cia e Assistên­cia Social, em busca de um cadas­tro de um bene­fí­cio qualquer.

Como admi­tir que o estado tão rico viva com tamanha pobreza?

As úni­cas lágri­mas que com­por­tariam à classe política local diante de tão vex­atória situ­ação, diante da fome e da mis­éria e do triste legado des­ti­nado ao povo, dev­e­riam ser as lágri­mas da ver­gonha.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

A pátria dos que querem pátria.

Escrito por Abdon Mar­inho


A PÁTRIA DOS QUE QUEREM PÁTRIA.

Por Abdon C. Marinho.*

COMO os cor­pos celestes que vez ou outra se alin­ham, no Brasil de 2022 ter­e­mos um raro e fes­te­jado alin­hamento: daqui a um mês fes­te­jare­mos o bicen­tenário da nossa inde­pendên­cia da nação irmã Por­tu­gal; e, dali, nova­mente, a menos de um mês será a vez de escol­her­mos os futuros gov­er­nantes do país, pres­i­dente, gov­er­nadores, dep­uta­dos fed­erais e estad­u­ais; e um terço dos senadores da República.

São acon­tec­i­men­tos impor­tantes.

Muito emb­ora já con­te­mos com duzen­tos anos como nação inde­pen­dente, temos, ainda, uma democ­ra­cia frágil e vac­ilante onde muitos brasileiros, infe­liz­mente, con­fun­dem o sen­ti­mento de “per­tenci­mento” a este ou aquele grupo, com os inter­esses da própria nação.

Os inter­esses da nação são supe­ri­ores aos inter­esses de quais­quer gru­pos ou ver­tentes ide­ológ­i­cas.

Daí ser tão impor­tante por assim dizer, este “alin­hamento”, pouco depois de fes­te­jar­mos o nosso ingresso no bicen­tenário das nações livres, ter­mos a opor­tu­nidade de escol­her­mos através do voto livre, direto e secreto os nos­sos gov­er­nantes, aque­les que irão con­duzir os des­ti­nos do país em obe­diên­cia à Con­sti­tu­ição da República, às leis, aos trata­dos, jurando o respeito aos seus princí­pios fun­da­men­tais: sobera­nia, cidada­nia, dig­nidade da pes­soa humana, os val­ores soci­ais do tra­balho e da livre ini­cia­tiva e o plu­ral­ismo político. Tudo isso coroado pelo princí­pio de que “todo o poder emana do povo que o exerce através dos seus rep­re­sen­tantes ou dire­ta­mente, nos ter­mos da con­sti­tu­ição”.

Há cinquenta anos, em agosto de 1977, o pro­fes­sor Gof­fredo da Silva Telles Junior, no Largo de São Fran­cisco, lia Carta aos brasileiros, denun­ciando os abu­sos do régime mil­iar e con­cla­mando por uma nova ordem política nacional através do pacto de uma Assem­bleia Nacional Con­sti­tu­inte.

A par­tir do ano seguinte, 1978, começamos o processo de dis­ten­são política, com a Lei da Anis­tia de 1979, começamos a rein­tro­dução no país de mil­hares de brasileiros lev­a­dos ao exílio por dis­cor­dar do régime mil­i­tar.

Nas eleições de 1982, muitos dos anti­gos exi­la­dos já pud­eram con­cor­rer a mandatos ele­tivos para o Con­gresso Nacional, gov­er­nos estad­u­ais e Assem­bleias Legislativas.

Em 1985, em janeiro, tive­mos nossa última eleição indi­reta para pres­i­dente da República, no ano seguinte, 1986, elege­mos o Con­gresso Nacional com poderes con­sti­tu­intes e, em 1988, gan­hamos uma nova Con­sti­tu­ição Fed­eral, que neste ano fes­teja seu 34º aniver­sário.

Como bem disse Ulysses Guimarães, por ocasião de sua pro­mul­gação, trata-​se de uma con­sti­tu­ição cidadã e, talvez por isso, não é per­feita, tanto assim que admite, ela própria, revisões e emen­das, entre­tanto, durante todos estes anos, tem sido a garan­tia da esta­bil­i­dade nacional.

Desde a sua pro­mul­gação tive­mos as eleições pres­i­den­ci­ais de 1989; eleições para os gov­er­nos estad­u­ais e para o Con­gresso Nacional, em 1990; eleições munic­i­pais em 1992; eleições gerais, 1994; eleições munic­i­pais, em 1996; nova­mente eleições gerais, 1998; e assim, suces­si­va­mente, até os dias atu­ais.

A cada dois anos temos eleições locais ou gerais sem maiores prob­le­mas e, prin­ci­pal­mente, sem que as mes­mas sejam ques­tion­adas por fraudes eleitorais ou quais­quer coisas do gênero.

Desde as eleições munic­i­pais de 1996 que Brasil adota o sis­tema de votação através de urnas eletrôni­cas sem qual­quer com­pro­vação, por menor, que seja de que o sis­tema eleitoral tenha sido frau­dado. Mais, a cada ano (ou a cada eleição) o sis­tema eleitoral é apri­morado, gan­hando em transparên­cia e mecan­is­mos de con­t­role, sendo ates­tado pela Polí­cia Fed­eral, TCU, ABIN, uni­ver­si­dades e enti­dades diver­sas, do país e do estrangeiro, como seguro.

Logo, não há qual­quer sen­tido, a não ser os que guiam pelos cam­in­hos do retro­cesso, em, depois de 26 anos, vir ale­gar ou colo­car, sem qual­quer prova ou mesmo indí­cios, que as eleições nacionais são “fraudáveis”.

Com base em que ele­men­tos, em que provas, em quais indí­cios, dizem que as eleições brasileiras são frau­dadas ou fraudáveis?

Seria cômico se não fosse trágico, chegam a afir­mar que o sis­tema pos­sui um mecan­is­mos de fraude tão sofisti­cado quen­tão deixa qual­quer prova de que foi frau­dado.

Quer me pare­cer, que aque­les que lev­an­tam tais aleivosias agem com as mes­mas malévolas intenções dos seus con­gêneres do norte que à mín­gua de votos, ten­taram sola­par uma das robus­tas democ­ra­cias do plan­eta: a amer­i­cana.

As inves­ti­gações do con­gresso daquele país está lev­an­tando e provando até onde foram capazes de chegar para colo­carem suas pau­tas adi­ante dos princí­pios e dos inter­esses do país. Cer­ta­mente, por lá, os respon­sáveis pela infâmia, assim como seus ide­al­izadores e inspi­radores, serão punidos exem­plar­mente. Muitos do que invadi­ram o Con­gresso Amer­i­cano em 6 de janeiro de 2021, aten­dendo o apelo do líder para impedir a cer­ti­fi­cação do resul­tado eleitoral já estão recebendo suas punições – alguns deles, altas penas.

Por aqui, não é de hoje, alguns, com as mes­mas intenções – que podem ser tudo, menos democráti­cas –, ten­tam fazer um “remake” da patus­cada amer­i­cana, por isso é necessário atenção.

Em boa hora, inspi­ra­dos na Carta aos brasileiros, de 1977, mil­hares de cidadãos brasileiros, sub­screvem uma “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Dire­ito!” – eu assinei –, onde reafir­mam a con­fi­ança no nosso processo eleitoral eletrônico e na transparên­cia da Justiça Eleitoral; ques­tionam os infun­da­dos ataques as insti­tu­ições e ao processo político brasileiro con­cla­mando os cidadãos para que fiquem aten­tos a quais­quer manobras que visem levar o país ao retro­cesso político e insti­tu­cional.

O doc­u­mento acima referido será lançado, lido ofi­cial­mente, no dia 11 de agosto, no mesmo local que foi lido aquele de 50 anos atrás.

Na mesma linha é tam­bém um doc­u­mento lançado pela FIESP em con­junto com diver­sas fed­er­ações empre­sari­ais e de tra­bal­hadores.

O que resta claro em ambos os doc­u­men­tos é que os brasileiros não quer­e­mos uma situ­ação de retro­cesso insti­tu­cional para o país.

O que se quer é que os eleitos – como sem­pre foram nas últi­mas décadas –, assumam livre­mente os seus mandatos pois essa foi a von­tade do dono do poder orig­inário: o povo, o cidadão/​eleitor.

Não é um doc­u­mento con­trário ou a favor de ninguém, mas de uma pauta política que, pelo menos em tese, dev­e­ria (ou dev­erá) unir a todos: a pauta do respeito às regras pré-​estabelecidas, do não a qual­quer tipo de retro­cesso.

Este é o o ter­ceiro alin­hamento a somar-​se ao bicen­tenário da inde­pendên­cia do Brasil e às eleições de out­ubro: o respeito ao resul­tado eleitoral, orga­ni­zado como sem­pre foi pela Justiça Eleitoral há mais de oitenta anos, e a defesa intran­si­gente do Estado Democrático de Dire­ito.

Exceto por uns poucos esbir­ros de viés autoritário, o Brasil, em pleno século XXI, não com­porta retro­ces­sos insti­tu­cionais.

Ninguém (são) deseja um retorno à ditadura mil­i­tar ou qual­quer outro régime que não seja a livre e sober­ana man­i­fes­tação dos cidadãos/​eleitores na escolha dos seus rep­re­sen­tantes nas urnas, como tem sido feito ao longo das últi­mas décadas.

O com­pro­misso com o Estado Democrático de Dire­ito é uma pauta comum que deve unir, inde­pen­dente de inter­esses políti­cos e ide­ológi­cos, os brasileiros de bem, mesmo aque­les que em algum momento da vida tenha apoiado regimes de exceção, desde con­scientes dos seus equívo­cos e arrepen­di­dos, dev­e­riam manifestar-​se, neste ano tão sim­bólico, a favor do Brasil e do for­t­alec­i­mento da nossa democ­ra­cia.

A pátria não é exclu­dente. A pátria com­porta a todos que querem pátria.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.