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Nem oito nem oito­cen­tos: Reflexão sobre o futuro do Brasil.

Escrito por Abdon Mar­inho

NEM OITO NEM OITO­CEN­TOS: REFLEXÃO SOBRE O FUTURO DO BRASIL.

Por Abdon C. Marinho.

QUANDO do jul­ga­mento de Nurem­berg, depois da Segunda Guerra Mundial, con­sta que um dos juízes indagou a um dos gen­erais que estavam sendo jul­ga­dos sobre as atro­ci­dades cometi­das pelo régime Nazista ao que ele respon­deu com o máx­imo de impas­si­bil­i­dade pos­sível: — eu ape­nas seguia as leis do meu país.

Há muitos anos um pro­fes­sor contou-​me tal episó­dio – que nunca chequei, mas que atribuo veracidade.

Certa vez, tam­bém há muitos anos, quando ini­ci­ava o min­istério da advo­ca­cia, estava revoltado por haver per­dido um jul­ga­mento que, tinha certeza, era “imperdível”, afi­nal, a razão estava com a minha tese que era clara como a luz do dia.

Esbrave­java toda a justa revolta mil­i­tante con­tra as “sacan­a­gens” da Justiça, quando um colega, que já tinha mais anos de advo­ca­cia do que eu de vida, admoestou-​me: — Abdon, a primeira car­ac­terís­tica do bom advo­gado é acred­i­tar na Justiça. Se uma decisão não lhe é favorável, estude, faça o mel­hor recurso que pud­eres. Não desista da fé na Justiça pois quando perderes a fé não servirás como advo­gado.

O episó­dio nar­rado acima segu­ra­mente já tem mais de vinte anos. Ao longo destes anos tenho man­tido minha fé na Justiça e, sobre­tudo, apren­dido (ou ten­tado apren­der) como sep­a­rar o joio do trigo.

Outro dia um amigo me fez uma crítica por não ter feito nen­hum “tex­tão” sobre o que ele entende como a “ditadura da toga” instau­rada pelo Supremo Tri­bunal Fed­eral — STF, no Brasil. Dizia que o STF viola con­stan­te­mente a Con­sti­tu­ição; que insta­lara um sis­tema de cen­sura prévia; que pro­movera a aber­tura de inquéri­tos ile­gais; que man­dara pren­der ou con­fis­car bens ile­gal­mente; que tudo isso colo­cava a democ­ra­cia do país em risco.

Aliás, segundo ele, já estaríamos vivendo sob a égide de golpe insti­tu­cional dec­re­tado pelo STF à vista de todos.

Tenho visto muita “gente boa” comungando com tais pen­sa­men­tos, inclu­sive muitos ami­gos, pro­fes­sores, pes­soas por quem tenho enorme car­inho e apreço. Eu mesmo já me man­i­festei algu­mas vezes con­tra deter­mi­nadas decisões emanadas daquela Corte ou de algum dos seus min­istros. O caso do inquérito das “fake news” foi um deles, con­forme pode ser con­ferido no meu site ou nas redes soci­ais, entre diver­sos out­ros.

O que, na ver­dade, alguns se ressente, acred­ito ser, é de uma posição “mil­i­tante” cor­rob­o­rando críti­cas jus­tas com dese­jos autoritários de se banir as insti­tu­ições do país com a falsa des­culpa de que estão “pro­te­gendo” a liber­dade de expressão ou a liber­dade do povo, quando sabe­mos que isso não é ver­dade.

Estas foram as des­cul­pas de Hitler, de Stálin, dos irmãos Cas­tro, de Mao-​Tse Tung, de Chávez e de tan­tos out­ros.

Todos estes chegaram ao poder na esteira de garan­tir a ver­dadeira liber­dade para o povo, com­bater o opressão do poder estatal e garan­tir a pros­peri­dade de suas nações. O legado de todos foi a opressão, o mor­ticínio, a destru­ição do povo e de nações.

Todos os regimes total­itários implan­ta­dos no mundo con­taram com o apoio sig­ni­fica­tivo de ideól­o­gos – nem todos com­pra­dos –, que acred­i­tavam estarem numa luta justa con­tra o mal. Mesmo os regimes nazis­tas e comu­nistas con­tavam com “pes­soas do bem” que acred­i­tavam e apos­tavam – muitos ainda apos­tam –, que bus­cam o mel­hor para povo e que estão numa luta do “bem con­tra o mal”.

O Brasil vive um momento pecu­liar de sua história e divi­dido entre dois extremos.

Cada um deles se val­endo das armas que pos­sui para per­manecer ou con­quis­tar o poder. Não o poder nor­mal e saudável de qual­quer democ­ra­cia, mas o poder abso­luto que destrói a própria democ­ra­cia e a liber­dade dos cidadãos.

Ambos os extremos usam como armas uma plêi­ade de int­elec­tu­ais, artis­tas que, como inocentes úteis – ou não –, se deixam levar por (e para) pau­tas políti­cas que no último está­gio ter­mi­nam por suprimir aquilo pela qual dizem lutar neste momento.

Um jor­nal­ista que sem­pre acom­pan­hei – desde que me entendo por gente e que a escrita fácil e pre­cisa me inspira –, escreveu um artigo magis­tral onde colo­cou diver­sas críti­cas abso­lu­ta­mente ver­dadeiras e com as quais con­cordo, mas come­teu, ao meu sen­tir um erro que com­pro­m­e­teu toda a relevân­cia do artigo: logo no iní­cio do texto, no primeiro pará­grafo, colo­cou uma infor­mação men­tirosa.

Disse o mis­sivista que “o resul­tado das eleições pode ser mon­tado numa sala sec­reta do “TSE”, o braço eleitoral do STF”.

O artigo, como se diz atual­mente, se tornou “viral”. Vi pes­soas por quem tenho o maior apreço difundindo-​o como a der­radeira ver­dade nesta terra ninguém.

Um amigo provocou-​me: — viu o artigo de fulano? Disse-​lhe que sim, mas fiz min­has ponderações.

Ora, ainda que con­cor­dasse com tudo que lá con­tém – e con­cordo com quase tudo –, o texto con­tém o erro essen­cial referido acima.

A base da nossa democ­ra­cia são as eleições livres e dire­tas com resul­ta­dos que refletem a von­tade da maio­ria dos cidadãos aptos a votar.

Difer­ente do afir­mado o seu resul­tado NÃO pode ser mon­tado numa sala sec­reta do TSE, tri­bunal que difer­ente do afir­mado NÃO é o braço eleitoral do STF.

O processo eleitoral é trans­par­ente com par­tidos políti­cos e diver­sas insti­tu­ições podendo acom­pan­har todas as suas eta­pas.

Quando um mis­sivista do estofo daquele ques­tiona, com uma infor­mação falsa, a base da nossa democ­ra­cia, ainda que con­corde com todo o restante do que disse, passo a tê-​lo na conta de quem se tornou ideól­ogo de uma causa.

No caso, a causa dos que querem “elim­i­nar” o STF ou colo­car no seu lugar um cole­giado que o atual gov­er­nante possa chamar de seu – como, aliás, já faz com os dois min­istros que indi­cou.

Qual não foi minha sur­presa e/​ou decepção ao ver­i­ficar que muitas pes­soas que admiro e respeito – talvez cegos pelo alin­hamento ide­ológico –, não con­sigam fazer a dis­tinção do que real­mente se encon­tra em jogo no atual momento.

O debate que se trava no momento não é sobre o tipo de régime autoritário que, sobre­tudo, os dois can­didatos que se apre­sen­tam como mel­hores colo­ca­dos nas pesquisas de intenção de votos pre­ten­dem implan­tar no Brasil, mas, sim, quem deles reúné as condições de fazê-​lo.

O golpe de estado de que tanto se fala, não foi e não será lev­ado a cabo pelo STF como pregam alguns ideól­o­gos.

Com eleições livres e os demais poderes con­sti­tuí­dos e insti­tu­ições fun­cio­nando reg­u­lar­mente, temos como impedi-​los.

O golpe, muito menos terá condições de pros­perar, numa even­tual vitória do ex-​presidente Lula. Ainda que ele queira e já tenha dado diver­sos motivos para acred­i­tar­mos que pre­tende suprimir liber­dades indi­vid­u­ais, restringir a liber­dade de expressão, cen­surar a mídia e os demais veícu­los de comu­ni­cação.

Con­tra tais arrou­bos ter­e­mos o Poder Judi­ciário, o Con­gresso Nacional e demais insti­tu­ições para contê-​lo.

Quem, ao meu sen­tir, reúné efe­ti­vas condições para pro­mover uma rup­tura insti­tu­cional, muito emb­ora só fale em “garan­tir a liber­dade do povo” é o atual pres­i­dente da República.

Enquanto aponta as intenções “golpis­tas” dos demais, con­strói as condições para ele próprio pro­mover a rup­tura insti­tu­cional, prin­ci­pal­mente, se sen­tir que o resul­tado eleitoral não lhe será favorável.

Faz isso através da coop­tação de seg­men­tos impor­tantes das Forças Armadas e das forças de segu­rança aux­il­iares — todas sim­páti­cas as suas teses –, e dos seg­men­tos mais con­ser­vadores da sociedades a par­tir de ameaças, total­mente descabidas, da implan­tação de gov­erno comu­nista no Brasil.

Neste con­texto é que soa de forma pre­ocu­pante o enga­ja­mento político de pes­soas, até então tidas por sérias, fazendo coro a pau­tas anti­democráti­cas a par­tir de infor­mações fal­sas ou indifer­entes à elas, por conta da suas próprias incli­nações pes­soais.

Este é o ver­dadeiro cerne da questão.

Acom­pan­hado as inves­ti­gações do Con­gresso Amer­i­cano sobre os tristes fatos acon­te­ci­dos em 6 de janeiro de 2021, com depoi­men­tos, vídeos e diver­sas out­ras provas, vimos o quanto aquela nação, uma democ­ra­cia con­sol­i­dada há mais de duzen­tos anos, andou perto de sucumbir aos dese­jos e engo­dos de um único homem, o seu pres­i­dente de então.

No Brasil assis­ti­mos ao mesmo enredo. Em mais de trinta anos, desde a rede­moc­ra­ti­za­ção, nunca tive­mos quais­quer ques­tion­a­men­tos quanto à legit­im­i­dade dos pleitos eleitorais e/​ou o papel da enti­dades pro­mo­toras ou par­ticipes das eleições.

Na atual quadra política é o que mais assis­ti­mos, inclu­sive com pro­tag­o­nismo inusi­tado e inde­v­ido das Forças Armadas – que desde que deixaram o poder depois do golpe de 1964 em 1985 –, se man­tinham nos quar­téis cumprindo suas obri­gações con­sti­tu­cionais.

Agora “resolveram” que é seu papel fis­calizar urnas e o processo eleitoral. Não é o seu papel. A esta intro­mis­são inde­v­ida se soma a da Polí­cia Fed­eral, tam­bém fug­indo do seu papel.

Se o golpe não deu certo nos EUA, por falta de condições obje­ti­vas, o mesmo não podemos dizer que não ocorra aqui, pelas condições acima elen­cadas.

E o pior de tudo isso, com o apoio de “pes­soas do bem” que não con­seguem enx­er­gar com clareza o ver­dadeiro sen­tido de nação ou que acha que a rup­tura insti­tu­cional é o mel­hor cam­inho.

Ape­sar do respeito que tenho por algu­mas destas pes­soas, de todas elas, ouso dis­cor­dar.

Abdon Mar­inho é advogado.

Os reis, os ladroes e a pis­tola de Cristo.

Escrito por Abdon Mar­inho


OS REIS, OS LADRÕES E A PIS­TOLA DE CRISTO.

Por Abdon Marinho.

EM 1655, há 367 anos, na Mis­er­icór­dia de Lis­boa, o padre Antônio Vieira fazia a pre­gação do seu “Ser­mão do Bom Ladrão”. E já ini­ci­ava por dizer «Este ser­mão, que hoje se prega na Mis­er­icór­dia de Lis­boa, e não se prega na Capela Real, parecia-​me a mim que lá se havia de pre­gar, e não aqui. Daquela pauta havia de ser, e não desta. E por quê? Porque o texto em que se funda o mesmo ser­mão, todo per­tence à majes­tade daquele lugar, e nada à piedade deste”.

Ainda no primeiro pará­grafo sen­ten­cia: «Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar con­sigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar con­sigo os reis”.

Antes de tal sen­tença Vieira coloca o exem­plo do Rei dos Reis, Nosso Sen­hor Jesus Cristo, que antes do sus­piro der­radeiro na cruz prom­e­teu a Dimas, o ladrão cru­ci­fi­cado ao seu lado, que ainda naquele dia estaria com Ele no paraíso.

Vieira foi um dos per­son­agens mais influ­entes de sua época, um gênio pelos dons da filosofia, da escrita e da oratória, tendo se desta­cado mais ainda como mis­sionário da Com­pan­hia de Jesus em ter­ras brasileiras. Como poucos con­hecia a Bíblia e toda a obra clás­sica.

Cer­ta­mente Vieira ficaria escan­dal­izado com um gov­er­nante que nega o cris­tian­ismo na sua essên­cia mais sagrada: a paz e a boa von­tade entre os homens para solução dos con­fli­tos.

A ideia de Jesus Cristo com pis­to­las pro­fes­sada por alguém que se diz hon­rado cristão só não é tão grave quanto o silên­cio e aqui­escên­cia de pas­tores evangéli­cos que vivem ofi­cial­mente de pre­gar sua palavra diante de tamanha blas­fêmia.

Com uma lorota o “bom cristão” negou, diante dos pre­gadores, mais de dois mil anos de cris­tian­ismo.

No fundo o gov­er­nante repetiu, segundo muitos, o entendi­mento de Judas Iscar­i­otes que ao trair Cristo imag­i­nou que este pode­ria invo­car exérci­tos celes­ti­ais para por fim a opressão judaico-​romana daque­les dias.

Mas, Cristo, entre­tanto, era só amor e bon­dade e mesmo no momento de maior aflição o que fez foi entregar-​se ao Pai, con­forme ensina o Evan­gelho de Mateus 2639: “Indo um pouco mais adi­ante, prostrou-​se com o rosto em terra e orou: ‘Meu Pai, se for pos­sível, afasta de mim este cálice; con­tudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres’”.

Vejam que Jesus mesmo no momento de maior deses­pero o que fez foi pedir ao Pai, se pos­sível, o afas­ta­mento do cálice da amar­gura, do sofri­mento, mas, mesmo assim que fosse feito con­forme sua von­tade, a von­tade do Pai.

E naquela mesma noite de angús­tia e sofri­mento, por ocasião da sua prisão, mais uma vez, Jesus Cristo con­dena a vio­lên­cia.

Falo do episó­dio da restau­ração da orelha de Malco relatada nos qua­tro Evan­gel­hos (João 18:1011, Mateus 26:51; Mar­cos 14:47 e Lucas 22:4951).

No momento da prisão um dos que acom­pan­havam Jesus – existe divergências/​omissão se foi o dis­cípulo Pedro –, lançou mão da espada e dece­pou a orelha do servo do sac­er­dote Caifás.

Seguimos com Mateus 2651, 52: “Então Jesus disse-​lhe: Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada mor­rerão. Ou pen­sas tu que eu não pode­ria agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?”.

Como vemos, o repú­dio à vio­lên­cia é intrínseco ao cris­tian­ismo a par­tir dos ensi­na­men­tos e exem­plo do próprio Jesus.

Quando se fala na “paz de Cristo” não esta­mos falando palavras desprovi­das de sen­tido.

A ideia de um Cristo se val­endo do uso de pis­to­las – quem sabe uma sub­me­tral­hadora sob o manto sagrado –, é a negação do cris­tian­ismo, é uma proposição infamante e vil, pois negada de pronto pelo próprio Jesus, con­forme nar­rado em qua­tro evan­gel­hos.

A opção dos cristãos, seguindo o exem­plo de Cristo é pela não vio­lên­cia.

Jesus Cristo não deixou de com­prar pis­to­las porque elas “não exis­tiam naquela época”, mas, sim, por rejeitar a vio­lên­cia, ainda que no pre­juízo da sua vida ter­rena. Ou pen­sas tu que eu não pode­ria agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?, disse Jesus.

Vive­mos dias tão estran­hos no Brasil que é bem pos­sível que deter­mi­na­dos cristãos, mesmo pas­tores, reneguem os ensi­na­men­tos bíbli­cos. Talvez, pelo anseio da adu­lação, imag­inem que a Bíblia nada vale e o que tem valia mesmo sejam as asnices pro­feri­das pelo ídolo.

Aliás, tenho um amigo que ao vê deter­mi­na­dos pre­gadores imer­sos em peca­dos, cos­tuma dizer que eles, sim, são os ver­dadeiros ateus, pois mesmo con­hecendo a Palavra optam pelo pecado.

Deix­e­mos, entre­tanto, tais digressões de mão e volte­mos aos ensi­na­men­tos de Vieira, que é, efe­ti­va­mente, o objeto do pre­sente texto.

Quando o padre diz que «Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar con­sigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar con­sigo os reis”, ele está, na ver­dade, atribuindo ao gov­er­nante as respon­s­abil­i­dades pelos “negó­cios” do Estado.

Se um gov­erno não garante a segu­rança dos seus cidadãos e alguém perece em vir­tude disso, o gov­er­nante pode até ale­gar que não teve culpa. Não foi ele, pes­soal­mente, que man­dou matar o cidadão, mas ele tem respon­s­abil­i­dade pelo fato ter acon­te­cido por diver­sos motivos.

A figura do gov­er­nante “irre­spon­sável” é incom­patível o poder que lhe foi con­ce­dido pelo povo para a solução dos seus prob­le­mas.

Se trans­porta­mos tais con­ceitos para a real­i­dade atual do país, não ter­e­mos como desvin­cu­lar a respon­s­abil­i­dade dos gov­er­nantes dos diss­a­bores dos cidadãos.

Nos últi­mos anos o gov­erno fed­eral, de forma delib­er­ada ou não, “criou as condições” para o aumento da vio­lên­cia no norte do país, notada­mente na região amazônica.

Estas condições encontram-​se pre­sentes na diminuição da fis­cal­iza­ção com a redução do número de fis­cais; com a leniên­cia ou pouco caso com que per­mite a explo­ração de garim­pos ile­gais em ter­ras indí­ge­nas, do des­mata­mento da flo­resta e venda ile­gal da madeira para out­ros países e a própria redução da fis­cal­iza­ção nas fron­teiras, o que coloca em risco a segu­rança nacional.

O gov­erno omisso ou em muitos casos colocando-​se ao lado dos ”grileiros”, explo­radores de madeira, minérios e de out­ras riquezas nacionais atua como fer­mento que deságua na vio­lên­cia em seu estado bruto.

Quando o cidadão vai abaste­cer o carro e desco­bre que terá que vender o veículo para con­seguir colo­car o diesel, do mesmo modo, a respon­s­abil­i­dade é do gov­erno.

Assisto, só para citar o exem­plo mais recente, o gov­erno delib­er­ada­mente cul­par a Petro­bras pelo aumento dos preços dos com­bustíveis, inclu­sive cau­sando pre­juí­zos bil­ionários a empresa – foram 30 bil­hões na sexta-​feira e já anun­ciam mais trinta bil­hões de pre­juí­zos para a empresa na sem­ana seguinte com a insta­lação de uma CPI –, para fugir das próprias responsabilidades.

Con­forme aler­ta­mos desde o ano pas­sado – e até antes –, incon­tinên­cias ver­bais e incom­petên­cia, desval­orizaram a moeda brasileira bem acima da média das out­ras moedas. Este é um dos motivos para o nosso com­bustível ter subido tanto.

Outro motivo é o fato do Brasil, com uma guerra anun­ci­ada, e sendo majoritário no comando da Petro­bras, não ter ado­tado qual­quer medida aprovei­tando os lucros da empresa para ter um estoque reg­u­lador diante da crise anun­ci­ada ou mesmo ter din­heiro em caixa para ban­car, se necessário, algum sub­sí­dio durante a crise ou mesmo para incen­ti­var o uso de out­ros com­bustíveis não fós­seis.

O gov­erno tem feito reverso disso. Pensa que “que­brando” a empresa vai fazer os preços dos com­bustíveis baixarem. Vai acon­te­cer o con­trário. Ter­e­mos, neste caso, os reis levando a todos para o inferno.

Falta ao gov­erno plane­ja­mento estratégico de Estado. Não é levando tudo que é assunto para a lóg­ica política e eleitoral que saire­mos da atual crise, muito menos fug­indo das respon­s­abil­i­dades para as quais foram eleitos.

Quando o gov­erno propôs a alíquota única do Imposto sobre a Cir­cu­lação de Mer­cado­rias e Serviços — ICMS, sabia-​se que a medida não teria o condão de resolver o prob­lema da alta de preços – pode até dar um alívio –, mas nunca solu­cionar, pois o prob­lema dos preços não é ape­nas as alíquo­tas de impos­tos, tanto assim, que nem foi implan­tada e pelos novos aumen­tos nada vai rep­re­sen­tar de redução do preço na bomba.

O gov­erno e seus próceres ado­taram a medida para ter­ce­i­rizar com esta­dos a respon­s­abil­i­dade por um prob­lema que não pos­suía e não pos­sui capaci­dade para solu­cionar.

Vejam o resul­tado: privou-​se esta­dos e municí­pios de receitas que a União terá que com­pen­sar, ou seja, mais recur­sos saindo dos cofres públi­cos, e os preços dos com­bustíveis con­tin­uam os mes­mos … e aumen­tando.

Uma das mais impor­tante e antiga lição diz que você não resolve um prob­lema ata­cando os efeitos sem atacar a causa.

O atual gov­erno, talvez, imag­ine que possa solu­cionar os prob­le­mas nacionais fazendo o con­trário disso, quem sabe ajude fazer “arminha” ou usando a pis­tola que Cristo não teve a opor­tu­nidade de com­prar.

Assim, os ladrões vão levando os reis aos infer­nos ou invés destes os levarem ao paraíso.

Abdon Mar­inho é advogado.

Política com solidariedade.

Escrito por Abdon Mar­inho

POLÍTICA COM SOLIDARIEDADE.

Por Abdon Marinho,

COMO SABEM, sou ser­tanejo. Mais que isso, tive uma edu­cação sertaneja.

No sertão – pelo menos era assim –, apren­demos que se deve respeitar os mais vel­hos. Sim, o respeito é dev­ido não ape­nas aos idosos, mas aos mais vel­hos que a gente.

Aprendi, tam­bém, a man­ter uma pos­tura de pro­teção àque­les que, por alguma razão estão impe­di­dos ou são frágeis, ainda que momen­tanea­mente, em relação a nós, como cri­anças, idosos, defi­cientes ou enfer­mos.

Por conta desta edu­cação “ser­taneja”, apren­dida com os pais e com os mais anti­gos da comu­nidade, estran­hei e con­tinuo a estran­har o trata­mento dis­pen­sado pelos políti­cos locais – e não ape­nas os que lhe fazem oposição –, mídia e puxa-​sacos de toda espé­cie ao atual gov­er­nador e can­didato à reeleição, Car­los Brandão, PSB.

Imag­inem que desde que o gov­er­nador ausentou-​se do estado para trata­mento de saúde – que suponho ser sério, uma vez que pela lóg­ica alguém recém-​empossado em um gov­erno de estado e com uma reeleição ren­hida pela frente, pre­cisando colo­car sua marca de gov­erno, não sai do cargo para tratar uma unha encravada ou reti­rar uns pés de gal­inha do rosto –, lhe tratam com tanto desre­speito e falta de empa­tia que inco­moda, não ape­nas aos que, como eu, tiveram uma edu­cação ser­taneja, mas a todos que se con­sid­erem cidadãos “de bem” ou que tragam algum sen­ti­mento de cri­stan­dade e solidariedade.

É bem ver­dade que todo período eleitoral é tempo de “vaca descon­hecer bez­erro”, mas, vamos con­vir, os ataques sofri­dos pelo atual man­datário estad­ual – a começar pela forma como se ref­erem a ele –, além de gros­seiros descon­hecem lim­ites entre o razoável e o desejo per­verso de reti­rar o outro, por qual­quer forma, do cam­inho.

Muito emb­ora e em uma situ­ação abso­lu­ta­mente difer­ente, uma vez que se tratava de um pres­i­dente eleito, quando da doença de Tan­credo Neves – que cul­mi­nou com o seu pas­sa­mento –, havia um sen­ti­mento de comoção, respeito e tor­cida para que tudo acabasse bem. Os mais vel­hos acom­pan­haram aquele calvário e devem lem­brar.

Na atual quadra política no Maran­hão, repito, não vemos qual­quer empa­tia ou sol­i­dariedade, seja pelo gov­er­nador, seja por seus famil­iares ou ami­gos – que sofrem junto com ele.

É como se o inter­esse eleitoral de “fazer” o can­didato de cada um vito­rioso se sobre­pusesse acima de tudo e de todos e de quais­quer sentimentos.

O gov­er­nador, entre a posse e o afas­ta­mento, deve ter ficado pouco mais de um mês no cargo e, assim mesmo, já sentindo os achaques da enfer­mi­dade.

Diante disso, penso que nem teve tempo de for­mar com­ple­ta­mente a equipe de gov­erno e mesmo que tenha for­mado, com ela não teve tempo sufi­ciente de traçar um plano de tra­balho e de ação – pois a saúde vem em primeiro lugar, a vida vem em primeiro lugar.

A despeito disso, o trata­mento rece­bido de quase todos tem sido o mais duro pos­sível – mesmo no período de inter­nação –, atribuindo-​lhe a respon­s­abil­i­dade por todos os desac­er­tos e malfeitos gov­er­na­men­tais que já vêm de anos.

As estradas esbu­ra­cadas? Culpa do atual gov­er­nador. O ferry-​boat não está aten­dendo a con­tento? Culpa do atual gov­er­nador. O Maran­hão aparece como o estado mais mis­erável da fed­er­ação? Culpa do atual gov­er­nador.

Ora, vice na Roma dos césares, a respon­s­abil­i­dade do atual gov­er­nador é a mesma dos demais que apoiaram o gov­erno ante­rior – e dele se ben­efi­ciou –, desde a sua insta­lação.

Aliás, diante da crise no trans­porte através do ferry-​boat, das estradas esbu­ra­cadas ou dos indi­cadores soci­ais africanos, dizia a um amigo, em data recente: —olha, todas as críti­cas que se faz à situ­ação do Maran­hão são dev­i­das. O prob­lema não são as críti­cas. O prob­lema que vis­lum­bro é que a maio­ria das críti­cas partem de pes­soas que não pos­suem qual­quer legit­im­i­dade para fazê-​las, pois estiveram no gov­erno – e até ainda estão mesmo que por inter­postas pes­soas –, desde o seu iní­cio, em 2015, e acharam mais cômodo calar-​se e usufruir das benesses enquanto se mostravam indifer­entes ao sofri­mento do povo. Estes mes­mos críti­cos, caso a escolha do grupo gov­ernista tivesse recaído sobre eles ou os seus, estariam na defesa do gov­erno e não apon­tando desac­er­tos para os quais estiveram “cegos” por sete anos e meio. Em resumo, as críti­cas podem e até são legí­ti­mas, os críti­cos, não.

Mas, retor­nando ao calvário do atual gov­er­nador, sinto que os seus adver­sários, dire­ta­mente ou através dos cos­tumeiros xerim­ba­bos, ao demon­strarem tão pouca empa­tia e falta de sol­i­dariedade por alguém enfermo, têm “errado a mão” ou a pop­u­lação não tem se deix­ado levar pela insidiosa cam­panha.

Vejam que as pesquisas de opinião pública sobre as eleições vin­douras, mesmo com o gov­er­nador “amar­rado” a um leito de hos­pi­tal por mais de trinta dias e sofrendo todo tipo de espec­u­lação sobre sua saúde, insin­u­ações sobre uma saída da dis­puta e até da vida, não rev­e­lam um pre­juízo sig­ni­fica­tivo em votos e apoios. Acred­ito até que tenha deix­ado de gan­har alguns pon­tos, mas não perdeu os que já tinha.

Mesmo a pesquisa Exata, que o apre­senta em ligeira desvan­tagem, não é “exata­mente” bené­fica aos seus adver­sários, caso se con­sidere o atual con­texto.

Enquanto o atual gov­er­nador encontra-​se hos­pi­tal­izado, repito, “amar­rado” a um leito, com suas per­nas amar­radas em dois ferry-​boat e na sua conta sendo deb­ita­dos a sec­u­lar mis­éria maran­hense, os seus adver­sários estão per­cor­rendo o estado em cam­panha eleitoral aberta, fazendo acor­dos e recebendo apoios de diver­sas lid­er­anças – muito emb­ora a leg­is­lação só per­mita a cam­panha a par­tir de mea­dos de agosto.

Ainda assim, não existe, até aqui, “um pre­juízo” sig­ni­fica­tivo à cam­panha do atual gov­er­nador, muito emb­ora se diga há quase um mês que ele não será o can­didato, que o can­didato a vice vai ou já assumiu a can­di­datura.

Se com todos estes “per­rengues”, emb­ora não tenha subido, não perdeu pon­tos, sig­nifica que os seus adver­sários já este­jam bem próx­imo do teto que poderão atin­gir, ainda mais se con­sid­er­amos que já estão em cam­panha há tanto tempo, alguns, há mais de qua­tro anos.

É bem ver­dade que gov­erno tem um poder de atração quase irre­sistível, mas mesmo com todas espec­u­lações sobre a saúde do gov­er­nador e até mesmo, certa tor­cida per­versa, para que o pior acon­teça, não se assiste a um clima de “fim de festa” nos Leões, como assis­ti­mos nos meses que ante­ced­eram ao pleito de 2014, muito emb­ora, naquela época, a atual gov­er­nadora estivesse em palá­cio e gozando de per­feita saúde.

Outro fato a ser con­sid­er­ado é que o ex-​governador e can­didato ao Senado, aparece com uma aceitação quase igual à soma dos dois can­didatos ao gov­erno que estão à frente nas pesquisas e que são orig­inários do seu grupo.

Tal fato, leva-​nos a acred­i­tar que os mes­mos ainda divi­dam o mesmo “espólio eleitoral” restando saber se haverá migração de votos para o can­didato que o ex-​governador apon­tar como “legí­timo herdeiro” do grupo ou se segurão divi­di­dos ape­sar dos pro­je­tos antagôni­cos que pas­saram a rep­re­sen­tar.

Espe­cial­mente sobre as pesquisas na mesa tratare­mos em um texto especí­fico.

De mais a mais, a mídia já anun­ciou a alta médica do gov­er­nador, que esper­amos, como cristãos solidários que somos, que volte logo e ple­na­mente reesta­b­ele­cido para cumprir a sua mis­são de gov­ernar o estado e enfrentar as batal­has que escol­heu enfrentar.

À todos um apelo: a política pre­cisa de sol­i­dariedade. Se o cidadão não con­segue ser solidário ao sofri­mento do seu próx­imo, jamais será capaz de enten­der as dores e o sofri­mento dos demais cidadãos.

Mais sol­i­dariedade é o que pre­cisamos.

Abdon Mar­inho é advo­gado.