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RETENÇÃO DE CELU­LAR NO DIA DAS ELEIÇÕES É NECESSÁRIA E CONSTITUCIONAL

Escrito por Abdon Mar­inho


RETENÇÃO DE CELU­LAR NO DIA DAS ELEIÇÕES É NECESSÁRIA E CON­STI­TU­CIONAL.

Por Abdon C. Marinho.

O BRASIL tornou-​se o país das fal­sas polêmi­cas e das guer­ras de vento. A última dar-​se em torno da Res­olução do TSE deter­mi­nando a retenção dos apar­el­hos celu­lares dos eleitores que estiverem votando.

Como virou moda acusações de que vive­mos sob uma “ditadura do judi­ciário”, recebi por men­sagens de aplica­tivos as man­i­fes­tações mais exdrúx­u­las e até mesmo declar­ação prévia de des­obe­diên­cia civil da parte de pes­soas que até então con­sid­er­ava esclare­ci­das.

Pois bem, no meu entendi­mento a res­olução ques­tion­ada – que na ver­dade não é nova, sem­pre exis­tiu em todas as eleições a proibição dos eleitores entrarem com celu­lares e out­ros equipa­men­tos eletrôni­cos nas cab­ines de votação –, é útil, necessária e con­sti­tu­cional, con­forme demon­strarei a seguir.

Sem­pre tra­bal­hei com o dire­ito eleitoral, mesmo antes de me tornar advo­gado há vinte e cinco anos já estava envolvido com eleições.

A primeira eleição que par­ticipei de forma mais ativa, quando ainda cri­ança, foi em 1982, ainda no tempo da sub­le­genda e nas cédu­las de papel.

Além disso, estu­dando o assunto, desco­bri que uma das for­mas uti­lizadas pelos “coro­néis”, líderes políti­cos ou can­didatos para frau­darem as eleições con­sis­tia no seguinte: mon­tada a seção eleitoral é ini­ci­ado o processo de votação, o primeiro eleitor envolvido na fraude tinha por mis­são dirigir-​se a seção eleitoral ape­nas para pegar uma cédula assi­nada pelo pres­i­dente e mesários. Com a cédula sub­traída e entregue a líder político esta era “votada” e entregue para o próx­imo eleitor que deposi­tava na urna e trazia outra em branco e assim suces­si­va­mente até que o último eleitor do esquema fosse votar e deposi­tar as duas cédu­las nas urnas para que a con­tagem das cédu­las “batesse”.

Esta era ape­nas uma das modal­i­dades de fraudes eleitorais do sis­tema de votação man­ual. Exis­tiam diver­sas out­ras.

Já no sis­tema atual uma fraude que tomei con­hec­i­mento con­siste na com­pra dos doc­u­men­tos pes­soais dos eleitores. A com­pra de voto reversa. Para impedir que o eleitor vote con­tra este ou aquele can­didato oferece-​se a van­tagem para que o eleitor não vá votar. Outra é a tradi­cional com­pra de votos.

A difer­ença entre uma e outra é que na primeira o “com­prador” do voto do adver­sário tem a garan­tia de que o eleitor não foi votar pois os doc­u­men­tos pes­soais estavam reti­dos; na segunda, para saber se o eleitor “entre­gou” o objeto da venda, este provava com a exibição de uma disc­reta fotografia ou fil­magem do momento da votação.

A res­olução do TSE visa impedir esse tipo de fraude e tam­bém garan­tir o sig­ilo do voto e a segu­rança dos eleitores.

Quando uma res­olução é edi­tada ela visa o con­junto dos eleitores do país. Ela não se volta ape­nas para os bens nasci­dos dos bair­ros nobres das cap­i­tais ou dos grandes cen­tros urbanos que acham cercea­mento da sua liber­dade indi­vid­ual porque ficará um min­uto ou dois sem está gru­dado no celu­lar. Ela se des­tina a todos, sobre­tudo, para aque­les mais vul­neráveis que são escrav­iza­dos pela mis­éria, pela fome e pela vio­lên­cia.

Os mauricin­hos e patricin­has pre­cisam com­preen­der que o mundo não giram em torno dos seus umbi­gos.

O código eleitoral, de 1965, já traz a tip­i­fi­cação do crime que se pre­tende coibir: “Art. 301. Usar de vio­lên­cia ou grave ameaça para coa­gir alguém a votar, ou não votar, em deter­mi­nado can­didato ou par­tido, ainda que os fins visa­dos não sejam con­segui­dos”. A pena para tal crime é reclusão até qua­tro anos e paga­mento de cinco a quinze dias-​multa.

Como sabe­mos, em todos os lugares do Brasil, mesmo nas grandes cidades (ou prin­ci­pal­mente nelas) temos comu­nidades inteiras dom­i­nadas pelo trá­fico, por milí­cias e por diver­sos tipos de crim­i­nosos.

Sem a garan­tia da parte do Estado de que o voto será man­tido sob sig­ilo e sem per­mi­tir que esse sig­ilo possa ser que­brado inclu­sive por eleitores sob chan­tagem e/​ou coação temos, ao menos, uma esper­ança que se está impe­dido o uso da força, da vio­lên­cia ou mesmo do poder econômico na escolha dos rep­re­sen­tantes do povo.

Os traf­i­cantes, mili­cianos ou crim­i­nosos de uma forma geral não terão como exi­gir o vídeo dos eleitores votando e puni-​los, inclu­sive lhes tirando a vida, por não cumprir suas deter­mi­nações.

Claro que a res­olução não previne total­mente a influên­cia do crime orga­ni­zado no processo eleitoral visto que em muitas comu­nidades todo o sis­tema encontra-​se sob o comando crim­i­noso, mas já é uma forma de inibir.

Com isso quero dizer que a res­olução tem por obje­tivo garan­tir o sig­ilo do voto que é pre­visto na Con­sti­tu­ição Fed­eral.

Está lá, na Con­sti­tu­ição, art. 14: “A sobera­nia pop­u­lar será exer­cida pelo sufrá­gio uni­ver­sal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos ter­mos da lei, mediante:”.

Ao esta­b­ele­cer medida que vise res­guardar o sig­ilo do voto o TSE está exercendo uma obri­gação con­sti­tu­cional e pro­te­gendo a própria democ­ra­cia.

Como sabe­mos, o TSE, exceto nos casos especi­fi­ca­dos na própria con­sti­tu­ição, é a autori­dade máx­ima em matéria eleitoral podendo expe­dir res­oluções para dis­ci­pli­nar o processo eleitoral e é o que faz ao longo dos últi­mos 90 (noventa) anos.

Logo, repito, é con­sti­tu­cional a res­olução expe­dida pelo tri­bunal, devendo, sim, os mesários negarem acesso à cab­ine de votação aos eleitores que se recusarem a cumprir a norma.

Durante a votação o cidadão/​mesário é investido na função de servi­dor público e pos­sui poder de polí­cia, con­sti­tuindo crime desacatar os mes­mos. Ele, mesário, pode/​deve chamar o juiz ou mesmo a polí­cia mil­i­tar para reti­rar o eleitor do local de votação se este recusar-​se a cumprir a norma imposta a todos.

Além do mais, con­sti­tui crime pre­visto no Código Eleitoral, “Art. 312. Vio­lar ou ten­tar vio­lar o sig­ilo do voto” com pena de detenção até dois anos.

Acred­ito que os cidadãos de bem não têm inter­esse em gerar tumulto nas seções eleitorais e não “custa nada” por um min­uto o celu­lar ficar com o mesário ou den­tro do carro ou com a esposa ou mesmo outra pes­soa de con­fi­ança. Blo­queia que ninguém verá os nudes.

Vou além, se o indi­ví­duo não tem a intenção de vio­lar o sig­ilo do voto por que faz tanta questão de entrar no recinto da urna munido de celu­lar ou de outro equipa­mento eletrônico?

Cabe esclare­cer que a repri­menda legal destina-​se a vio­lação e a ten­ta­tiva de vio­lar.

A minha opinião é que os fis­cais de par­tidos e can­didatos devem exi­gir e cobrar o fiel cumpri­mento da res­olução pois é uma garan­tia a mais de não serão víti­mas da famiger­ada com­pra de votos ou que os eleitores pos­sam ser coagi­dos pelo poder do trá­fico, das milí­cias ou do poder econômico a votarem em quem não querem pelo dever de com­pro­var o voto com uma fil­magem ou fotografia.

Como dito ante­ri­or­mente, a medida do TSE é acer­tada, chega em boa hora e não dev­e­ria ser objeto de tanta polêmica.

Um dos prob­le­mas que enfrenta­mos no Brasil atual­mente é que as pes­soas anal­isam os fatos a par­tir dos seus inter­esses e/​ou per­spec­ti­vas, assim é comum ouvir­mos, sobre a res­olução do TSE coisas do tipo: “meu celu­lar, min­has regras” ou “não sou obri­gado a entre­gar o meu celu­lar ao mesário” ou “o mesário não pode exi­gir que entregue”.

Entendo que este­jam equiv­o­ca­dos quanto a isso.

Nos ter­mos artigo 127 do Código Eleitoral, o pres­i­dente da mesa ou quem o sub­sti­tuir, no que inter­essa, poderá: “I — rece­ber os votos dos eleitores; II — decidir ime­di­ata­mente tôdas as difi­cul­dades ou dúvi­das que ocor­rerem; III — man­ter a ordem, para o que dis­porá de força pública necessária; IV — comu­nicar ao juiz eleitoral, que prov­i­den­ciará ime­di­ata­mente as ocor­rên­cias cuja solução deste dependerem; …”.

Ora, se há uma res­olução legí­tima e necessária a ser cumprida e cabe ao pres­i­dente da seção man­ter a ordem — dispondo de força pública para tal –, no que se baseiam os insur­gentes para faz­erem tamanho carnaval?

Outra praga que não dá trégua ao país é a imprensa mil­i­tante. Esta, tomou gosto por um lado e passa a desin­for­mar os cidadãos ape­nas para agradar seus ído­los ou porque foi con­t­a­m­i­nada pela ignorân­cia.

Estes mes­mos que hoje dizem que não vão cumprir a res­olução do TSE, sem ao menos saber nas razões e no que se funda a mesma, são os mes­mos que ontem con­de­navam a vaci­nação con­tra a COVID-​19 ou as medi­das de restrição de cir­cu­lação ori­en­tada pelos cien­tis­tas.

O desas­tre é o que teste­munhamos. Quan­tas vidas não foram per­di­das dev­ido as cam­pan­has anti-​vacinação?

Mais, o Brasil que sem­pre foi um exem­plo de errad­i­cação de doenças graças às suas efi­cazes cam­pan­has de vaci­nação, nos dois últi­mos anos, não con­segue atin­gir suas metas de pre­venção, até a infe­liz poliomielite, errad­i­cada há mais de 30 anos, temos aler­tas, que poderá retornar ao país dev­ido às baixas taxas de imu­niza­ção.

Encerro dizendo que enquanto sobra uma polit­i­calha rasteira, fal­tam com­pro­mis­sos mín­i­mos com a nação.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

A defesa da democ­ra­cia é com­pro­misso de todos — Parte I.

Escrito por Abdon Mar­inho

A DEFESA DA DEMOC­RA­CIA É COM­PRO­MISSO DE TODOS — Parte I.

Por Abdon C. Mar­inho.

POS­SUIR boa memória tem suas van­ta­gens – como lem­brar de acon­tec­i­men­tos que nos trazem momen­tos ale­gres –, e desvan­ta­gens, como lem­branças de out­ros tristes e sofri­dos que dese­já­va­mos esque­cer; traz-​nos, tam­bém, cer­tas respon­s­abil­i­dades e obri­gações, como as que somos obri­ga­dos a tratar no pre­sente texto.

Se a memória não me falha, no segundo semes­tre de 1984, foi per­gun­tado ao gen­eral João Figueiredo, o último dos generais-​presidentes do ciclo ini­ci­ado em 1964, o que acon­te­ceria após a eleição mar­cada para ocor­rer em 15 de janeiro do ano seguinte, que viria ser a última do Colé­gio Eleitoral.

A inda­gação, mas uma vez se não me falha a memória, ocor­rida no Sítio do Dragão, bem fiel ao seu estilo, à per­gunta for­mu­lada, o gen­eral respon­deu – não com estas palavras –, que após a eleição o eleito seria empos­sado e ele voltaria a cuidar dos seus cav­a­los.

O fato ocor­reu há 38 anos e na ver­dade repor­tava a uma outra garan­tia, outro fato histórico, ocor­rido em 1977, tam­bém numa entrevista.

Per­gun­tado sobre se faria e como faria a aber­tura política, o gen­eral Ernesto Geisel respon­deu de forma bem fiel ao seu estilo, e nas palavras pare­ci­das com as ditas aqui: “fare­mos a aber­tura política nem que seja na marra”.

Em 15 de janeiro de 1985 o Colé­gio Eleitoral reuniu-​se – con­forme a Carta Con­sti­tu­cional deter­mi­nava –, e elegeu a chapa de oposição aos mil­itares: Tan­credo Neves e José Sar­ney, do MDB que dis­putara con­tra Paulo Maluf, do PDS, par­tido que dava sus­ten­tação política ao régime mil­i­tar desde o tempo que ainda chamava-​se Arena.

Ape­sar do resul­tado adverso no Colé­gio Eleitoral não lem­bro (e não há reg­istro) de nen­hum ques­tion­a­mento ao cumpri­mento do resul­tado do pleito, ainda que tenha ocor­rido de forma indireta.

Mais, na véspera da posse o pres­i­dente eleito foi inter­nado tomando posse o vice-​presidente, José Sar­ney.

Mesmo a posse de Sar­ney, eleito como vice-​presidente, não oca­sio­nou qual­quer ques­tion­a­mento ou retro­cesso insti­tu­cional.

Quando sug­eri­ram a Ulysses Guimarães, o grande tim­o­neiro de todo o processo que cul­mi­nara com a vitória de Tancredo/​Sarney, que assumisse a presidên­cia, este refutou a ideia dizendo que dever-​se-​ia cumprir a Con­sti­tu­ição vigente.

De 15 de março a 21 de abril daquele ano, quando deu-​se o pas­sa­mento de Tan­credo Neves e mesmo depois, ape­sar de todas as tur­bulên­cias, ninguém cog­i­tou um retro­cesso insti­tu­cional.

A crise econômica durante o gov­erno Sar­ney foi a mais aguda da nossa história. Os planos econômi­cos que ten­tavam estancar a inflação e que cor­tavam os zeros da moeda se suce­diam sem alcançar êxito algum.

Basta dizer que no gov­erno Sar­ney a inflação alcançou os três dígi­tos men­sais. Era a hiper­in­flação. No último mês de gov­erno chegou a 287% (duzen­tos e oitenta e sete por cento). Há quem diga que ultra­pas­sou a bar­reira dos 500% (quin­hen­tos por cento).

Ape­sar de tudo, o país vivia clima de “nor­mal­i­dade”, ninguém falava ou sug­e­ria uma volta ao pas­sado.

Ainda em 1985 realizou-​se eleições para os prefeitos das cap­i­tais – até então eram nomea­dos – e, em 1986, eleições para o Con­gresso Nacional (que seria con­sti­tu­inte), para gov­er­nadores e dep­uta­dos estad­u­ais.

Em 1988 o país se redesen­hou através de uma nova Con­sti­tu­ição Fed­eral.

Em 1989, com a abre­vi­ação do mandato de Sar­ney, tive­mos a primeira eleição para a pres­i­dente da República, da qual par­ticipou todas as cor­rentes políti­cas do país.

E veio o gov­erno Col­lor de Mello que no primeiro dia decre­tou feri­ado bancário para lançar um pacote de medi­das sendo que a prin­ci­pal delas foi o “con­fisco” de todos os val­ores deposi­ta­dos em insti­tu­ições bancárias.

Fidel Cas­tro, o então dita­dor de Cuba, que veio para a posse saudou o surg­i­mento de mais uma república social­ista no con­ti­nente – na ver­dade estava fazendo chiste com o medida de Collor.

E vieram os anões do orça­mento e o PC Farias e a enx­ur­rada de cor­rupção e out­ros desati­nos prat­i­ca­dos na Casa da Dinda.

E por fim, veio o impeach­ment de Col­lor, com mil­hões de brasileiros nas ruas apoiando.

O primeiro pres­i­dente eleito pelo voto direto na “Nova República” pós ditadura mil­i­tar foi o primeiro a ser cas­sado den­tro das nor­mas legais.

E veio o Ita­mar Franco, vice-​presidente que assumiu, e com ele o Plano Real que esta­bi­li­zou a econo­mia e debe­lou a inflação ainda galopante.

Graças ao êxito do Plano Real, em 1994, elegeu-​se pres­i­dente o sen­hor Fer­nando Hen­rique Car­doso que “nadando” em pop­u­lar­i­dade e tam­bém por méto­dos poucos orto­doxos, con­seguiu, em 1997, aprovar uma emenda con­sti­tu­cional que que lhe garan­tiu a reeleição no ano seguinte.

Em 2002 quem elegeu-​se foi o líder do Par­tido dos Tra­bal­hadores — PT, sen­hor Luís Iná­cio Lula da Silva, primeiro pres­i­dente dito de esquerda a coman­dar o país.

E no gov­erno do sen­hor Lula apare­ce­ram os escân­da­los dos cor­reios, e o prin­ci­pal, o do “men­salão”, uma per­ver­são da democ­ra­cia car­ac­ter­i­zada pela com­pra de apoios políti­cos den­tro do Con­gresso Nacional que levou à con­de­nação diver­sos líderes par­tidários pelo Supremo Tri­bunal Fed­eral — STF.

O sen­hor Lula, ape­sar do escân­dalo con­seguiu reeleger-​se em 2006.

Em 2010, o PT con­seguiu man­ter a hege­mo­nia política e eleger a sen­hora Dilma Rouss­eff, primeira mul­her a coman­dar o país.

No gov­erno da sen­hora Dilma eclodiu um outro escân­dalo de pro­porções ainda maiores: o “petrolão”, cujo nome deve-​se ao fato de ter como prin­ci­pal foco de cor­rupção cen­tral­izado na Petro­bras e nas suas sub­sidiárias, com dire­to­rias par­til­hadas entre os par­tidos que davam sus­ten­tação ao governo.

Em 2013, eclodi­ram em todo país man­i­fes­tações pop­u­lares con­tra os “malfeitos” dos políti­cos e diver­sas out­ras pau­tas.

Ape­sar disso a sen­hora Dilma Rouss­eff acabou sendo reeleita, em 2014, sendo cas­sada em 2016, por supostas irreg­u­lar­i­dades cometi­das no seu gov­erno mas, prin­ci­pal­mente, porque deixara de ter sus­ten­tação política.

Quem assumiu o comando da nação foi o vice-​presidente, Michel Temer, que acabou sendo apan­hado em con­ver­sas pouco repub­li­canas com pes­soas menos repub­li­canas ainda.

Os escân­da­los dos gov­er­nos petis­tas tiveram as inves­ti­gações através da chamada “Oper­ação Lava Jato”, e bil­hões de reais foram recu­per­a­dos e muitos dos cor­rup­tores e cor­rup­tos pre­sos.

Quem tam­bém acabou sendo inves­ti­gado por “malfeitos” diver­sos foi o ex-​presidente Lula, que acabou sendo con­de­nado em diver­sas instân­cias e até preso durante mais de quin­hen­tos dias.

Antes disso, em 2018, tiver­mos nova­mente eleições pres­i­den­ci­ais, sagrando-​se vito­rioso o então obscuro dep­utado Jair Bol­sonaro, que às vésperas das eleições levara uma facada e acabou catal­isando votos em seu favor.

A análise dos últi­mos qua­tro anos deixo para a história.

Fiz essa breve ret­ro­spec­tiva – cujas fal­has devem ser per­doadas, pois feita de “memória” –, ape­nas para mostrar que desde 1985 o Brasil vem enfrentando e resol­vendo todas suas difi­cul­dades e e crises den­tro do arcabouço jurídico pátrio, tendo as insti­tu­ições fun­cionado e dado as respostas necessárias e aceitas por todos.

Em todos estes anos nen­hum dos eleitos ou perde­dores das diver­sas eleições chegaram a ques­tionar a legit­im­i­dade do processo político/​eleitoral brasileiro. Mes­mos as recla­mações, pedi­dos de ver­i­fi­cações, deram-​se den­tro das nor­mas legais e os seus deslin­des, pelas insti­tu­ições, aceitos e respeita­dos por todos.

E aí, cheg­amos a este momento, em que 38 anos depois da per­gunta feita por Glória Maria (?) ao então pres­i­dente João Batista Figueiredo, ouço um jor­nal­ista per­gun­tar ao atual man­datário se ele aceitará o resul­tado das urnas.

Ao ouvir tal per­gunta me veio a sen­sação de “dèja vu”, como se tivesse ingres­sando noutro grande sucesso dos anos oitenta, o filme “De volta para o Futuro”, sucesso de 1985. Me vi ouvindo a per­gunta feita ao general/​presidente no ano de 1984.

Pior do que ser uma per­gunta “cabível” quase quarenta anos depois de tan­tos “per­rengues” e sac­ri­fí­cios da sociedade brasileira foi a “enviesada” resposta obtida do man­datário que, em pleno século XXI, no jor­nal de maior audiên­cia do país, informa à pat­uleia condições para respeitar o resul­tado das urnas: desde que limpas e trans­par­entes.

Mas quem irá dizer que as eleições foram limpas e trans­par­entes? Ele? Seu grupo? Alguns gen­erais das Forças Armadas que esque­ce­ram seu papel e se tornaram partidários?

Como vimos, desde 1985 que a democ­ra­cia brasileira vem se con­sol­i­dando, enfrentando e resol­vendo suas difi­cul­dades sem a tutela de ninguém.

Só agora vemos, tam­bém, a inde­v­ida e injus­ti­fi­cada intro­mis­são das Forças Armadas em assun­tos civis numa ten­ta­tiva de res­gatar o pro­tag­o­nismo – ou por tolice –, que só tiveram no período ante­rior à rede­moc­ra­ti­za­ção do país.

Pas­samos quase quarenta anos sem saber­mos os nomes das prin­ci­pais autori­dades mil­itares do país – estavam onde é o seu lugar: os quar­téis –, agora dia sim, no outro tam­bém, estão nos jor­nais, nos rádios, canais de tele­visão ou na inter­net dando “pitaco” sobre tudo que não é da sua alçada; se avi­s­tando com autori­dades e ques­tio­nando sobre assun­tos civis.

A impressão que se tem é que o Brasil tornou-​se uma “republi­queta de bananas” latino-​americana ou dos con­fins da África.

Em nen­huma democ­ra­cia do mundo acon­tece isso – não naque­las que mereçam tal denom­i­nação.

O Brasil vive uma situ­ação de “anor­mal­i­dade” democrática con­forme demon­straremos próx­imo texto.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

Um pres­i­dente entre o Planalto e a Papuda?

Escrito por Abdon Mar­inho

UM PRES­I­DENTE ENTRE O PLANALTO E A PAPUDA?

Por Abdon C. Marinho.

ANTES que a mil­itân­cia ensande­cida venha ques­tionar o título, informo que o mesmo é fruto das colo­cações do próprio pres­i­dente que, por mais uma vez, infor­mou aos seus seguidores que na hipótese de não reeleger-​se, será preso. Segundo ele, caso isso ocorra rea­girá a tiros.

Faço essa colo­cação ini­cial para dizer que todas as ati­tudes, até ontem, pelo menos, do atual inquilino do Planalto têm sido moti­vadas por esse sen­ti­mento de medo. E, como já disse alguém mais sábio: a pior fera é o homem encur­ral­ado.

Ontem, pela primeira vez – tanto que virou notí­cia –, o pres­i­dente declarou que irá recon­hecer o resul­tado das urnas. Mais de três anos e meio depois da posse, ape­nas ontem, o pres­i­dente disse o óbvio: que irá recon­hecer o resul­tado das urnas.

A mudança de com­por­ta­mento talvez já seja reflexo da influên­cia de mar­queteiros ou das pesquisas que ates­tam que o povo brasileiro não aceita uma rup­tura insti­tu­cional, ou seja, exceto por uma mino­ria de lunáti­cos, ninguém aceita viver sob a égide de uma ditadura mil­i­tar ou tute­lada por mil­itares ou mesmo por qual­quer outro régime que não seja legit­i­mado peri­odica­mente através de eleições livres.

Mesmo entre os apoiadores do atual pres­i­dente aque­les que apoiam uma rup­tura insti­tu­cional são minoritários.

Outra hipótese é ter perce­bido – ou tê-​lo feito perce­ber –, que ao falar mal do sis­tema eleitoral brasileiro, notada­mente das urnas eletrôni­cas, estava falando soz­inho, ainda mais que suas colo­cações sem­pre foram à mín­gua de quais­quer provas, ou mesmo indí­cios e, quase sem­pre, colo­cações men­tirosas.

Ninguém – mais uma vez, a exceção para um grupo de fanáti­cos –, “com­prou” a falá­cia de que o Tri­bunal Supe­rior Eleitoral — TSE estaria mon­tando uma fraude, numa sala sec­reta para lhe tomar a eleição ou dar a vitória ao seu adver­sário.

A can­tilena de três anos e meio teve seu ápice quando o inquilino do planalto pro­moveu uma reunião em pleno Palá­cio da Alvo­rada que con­tou com a pre­sença de quase meia cen­tena de embaix­adores estrangeiros para falar mal do Brasil e do nosso sis­tema eleitoral.

A ousa­dia inédita – pois a todos pare­ceu que bus­cava “carta de seguro” inter­na­cional para um golpe –, foi o estopim para inúmeras reações con­trárias.

Mes­mos os gov­er­nos estrangeiros, sem­pre dis­cre­tos e pro­to­co­lares em se tratando de assun­tos inter­nos de out­ros países, deixaram trans­pare­cer pre­ocu­pação com qual­quer rup­tura insti­tu­cional e man­i­fes­taram con­fi­ança no nosso sis­tema eleitoral e na democ­ra­cia brasileira.

As reações inter­nas foram ainda mais claras.

Diver­sas enti­dades emi­ti­ram notas infor­mando con­fiar no TSE e no sis­tema eleitoral e insti­tu­ições como TCU, ABIN, Polí­cia Fed­eral, entre out­ras, dis­seram ates­tar a segu­rança das urnas eletrôni­cas.

Mais, foi reed­i­tada a Carta pela Democ­ra­cia, do pro­fes­sor Gof­fredo Telles Júnior, de 1977, desta vez cla­mando pelo Estado de Dire­ito Sem­pre, que con­tou com quase um mil­hão de assi­nat­uras; enti­dades patron­ais e sindi­cais, pux­a­dos pela Fed­er­ação das Indús­trias do Estado de São Paulo — FIESP, fiz­eram tam­bém um doc­u­mento exter­nando sua con­fi­ança nas insti­tu­ições e na democ­ra­cia; e, por fim, a posse da nova direção do Tri­bunal Supe­rior Eleitoral — TSE, que difer­ente das vezes ante­ri­ores, sem­pre foi um ato pro­to­co­lar, muitas vezes cir­cun­scrito ao mundo jurídico, desta vez foi o mais impor­tante ato jurídico/​político da história do país, con­tando a pre­sença de quase todos os ex-​presidentes da República, alguns inimi­gos entre si; de todos os min­istros do Supremo Tri­bunal Fed­eral — STF; min­istros e desem­bar­gadores de todo o país; quase todos dep­uta­dos fed­erais e senadores; quase todos os gov­er­nadores; todos os can­didatos a pres­i­dente; embaix­adores de mais cinquenta países e diver­sas out­ras autori­dades.

Durante a solenidade de posse em que todos os que falaram man­i­fes­taram con­fi­ança na democ­ra­cia e no sis­tema eleitoral, com exceção do pres­i­dente e sua trupe, todos aplaudi­ram com entu­si­asmo as colo­cações feitas, notada­mente do novo pres­i­dente daquela corte que arran­cou aplau­sos de pé de todos os pre­sentes.

Creio que o pres­i­dente e seu núcleo mais próx­imo devem ter perce­bido que não será pela força bruta que poderá se man­ter no Palá­cio do Planalto, daí a mudança de com­por­ta­mento em afir­mar, ape­nas agora, que recon­hecerá como legí­timo o resul­tado do pleito.

Até então, o pres­i­dente – e mesmo alguns chefes mil­itares, por sabu­jice ou falta de pulso –, estava querendo manter-​se no poder inde­pen­dente do recon­hec­i­mento das urnas ou não.

Para isso bus­cava demon­strar força, inclu­sive, junto aos mil­itares.

É sabido que o atual pres­i­dente é bem quisto entre os mil­itares e entre as forças aux­il­iares da segu­rança pública mas é abso­lu­ta­mente equiv­o­cado o envolvi­mento de mil­itares com política. Talvez o que ganhe com esse apoio nem de longe chegue a com­pen­sar as per­das político/​eleitoral que terá, caso per­sista na uti­liza­ção destes apoios como arma de intim­i­dação do con­junto da sociedade.

Agora mesmo, tomei con­hec­i­mento que o tradi­cional des­file mil­i­tar de 7 de setem­bro, jus­ta­mente no ano do bicen­tenário da inde­pendên­cia, no Rio de Janeiro, será sub­sti­tuído por um ato cívico público na praia de Copaca­bana.

A menos que se dê uma “última forma”, trata-​se de uma lou­cura que levará o der­radeiro prestí­gio das Forças Armadas para a lama.

Uma pesquisa recente rev­elou que as Forças Armadas do Brasil estão entre as menos con­fiáveis do mundo em relação à pop­u­lação do país.

Todos sabe­mos que o tal ato cívico que ocor­rerá no Rio de Janeiro, e em out­ras partes do país, são atos políti­cos con­vo­ca­dos pelo pres­i­dente para serem uti­liza­dos como atos de campanha.

A rigor os mil­itares irem à Copaca­bana misturar-​se a par­tidários de uma cam­panha eleitoral é o maior absurdo que as Forças Armadas irão praticar desde o golpe mil­i­tar de 1964 – claro que sem­pre existe a pos­si­bil­i­dade de pio­rarem o que já está pés­simo.

Desde 1985 que os mil­itares brasileiros têm se man­ti­dos dis­cre­tos e nos quar­téis, agora anun­ciam pre­sença em atos con­vo­ca­dos por um can­didato em cam­panha eleitoral.

A per­gunta que se faz necessária é: eles enlouque­ce­ram?

Esse tipo de evento não cabe par­tic­i­pação de mil­itares, nem mesmo à paisana e fora do horário de expe­di­ente.

O único ato que “cabe” par­tic­i­pação de mil­i­tar é des­file, de prefer­ên­cia marchando a passo de ganso. E só.

Mesmo que fosse um “ato cívico”, não caberia a pre­sença deles.

Não podemos esque­cer que esta­mos em plena cam­panha eleitoral e que um dos can­didatos fez a “con­vo­cação” para o ato em plena con­venção par­tidária.

Os mil­itares, sejam das Forças Armadas ou aux­il­iares, têm com­pro­mis­sos com a nação e com o con­junto da sociedade. Não podem darem ao des­frute de par­tic­i­parem de atos de cam­pan­has eleitorais desse ou daquele can­didato.

O mel­hor lugar para estarem é em casa ou nos respec­tivos quar­téis.

Noutro giro, caso insis­tam nesse tipo de ati­tude, ape­nas com­pro­vará que o pres­i­dente não falava sério ao dizer que respeitará o resul­tado das urnas caso venha a perder, tanto assim que não se importa em a arras­tar os mil­itares para a desmor­al­iza­ção insti­tu­cional ao utilizá-​los para demon­stração de força política na sua cam­panha eleitoral.

Engraçado que difer­ente do pensa o pres­i­dente e sua trupe, eu acho que ele poderá virar o jogo e gan­har a eleição den­tro da legal­i­dade.

O único desafio a ser ven­cido é reverter a rejeição que ele mesmo con­struiu ao longo dos anos.

Fora isso pos­sui uma rede política onde cada eleitor seu é um aguer­rido cabo eleitoral que aman­hece o dia fazendo cam­panha e anoitece fazendo cam­panha — isso é um baita difer­en­cial em relação as demais can­di­dat­uras. Mesmo o ex-​presidente Lula que se encon­tra à frente na dis­puta – segundo as pesquisas –, não pos­sui esse nível de enga­ja­mento político.

Aliás, muitos dos eleitores que man­i­fes­tam voto em Lula o faz por não quer­erem con­tin­uar com o atual gov­erno, é o voto pela falta de opção.

Esse eleitor, muito emb­ora odiando o atual gov­erno, não sai às ruas que­brando lanças pelos opos­i­tores. Bem difer­ente do eleitor con­victo do atual pres­i­dente que não se con­strange de só falar de política e defender seu can­didato – mesmo nos momen­tos mais inconvenientes.

Claro que tam­bém existe o voto anti-​PT nas hostes bol­sonar­is­tas, mas esses em menor escala.

Outra van­tagem do atual pres­i­dente diz respeito ao apoio e mil­itân­cia seg­men­tada como no caso dos mil­itares dos evangéli­cos e de alguns setores do agronegó­cio. São pes­soas diu­tur­na­mente em cam­panha, nos quar­téis, nas igre­jas, nos púl­pi­tos e nas redes sociais.

Ali­a­dos destes setores – que fazem política 24 horas por dia –, a esta­bi­liza­ção nos preços dos com­bustíveis e os vários auxílios econômi­cos à pop­u­lação mais vul­nerável e a deter­mi­na­dos seg­men­tos, pode sim, levar o atual gov­er­nante à vitória em out­ubro.

O desafio é come­ter menos equívo­cos ou falar menos besteiras que o prin­ci­pal adver­sário.

Outro desafio é a exces­siva polar­iza­ção – bus­cada por ambos –, que poderá levar a eleição a ter um des­fe­cho ainda no primeiro turno.

Abdon C. Mar­inho é advogado.