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Bem Vindo a Pagina de Abdon Marinho, Ideias e Opiniões, Terça-feira, 30 de Junho de 2026



A palavra é o instrumento irresistível da conquista da liberdade.

Escrito por Abdon Marinho

A Tragédia da Ignorância e do Racismo

 

Por Abdon C. Marinho

 

Ainda repercute a divulgação de imagens de uma abordagem policial em uma escola infantil no Estado de São Paulo. O episódio já era conhecido desde que ocorreu, acredito que no final de 2025. Agora, com a divulgação das imagens capturadas pelas câmeras corporais dos próprios policiais, a discussão é reacendida – e é bom que seja.

 

O fato, para os que ainda estão “boiando” no assunto, é o seguinte: uma criança de tenra idade chegou em casa com um desenho que refletia a imagem de uma divindade africana. O pai da criança, policial, possesso, foi até a escola tomar satisfação com a professora. No dia seguinte, não satisfeito, pediu que um destacamento da Polícia Militar fosse até a escola infantil questionar a direção sobre suas diretrizes educacionais.

 

Assim chegamos às imagens agora divulgadas, nas quais a diretora da unidade escolar explica de forma didática aos policiais – em claro desvio de função – que o trabalho escolar fazia (e faz) parte do ensino sobre cultura afro-brasileira, sendo uma obrigação prevista em lei e incluída no currículo escolar de acordo com decisões dos conselhos estaduais e municipais de educação.

 

O episódio convida à reflexão sobre o nível de ignorância em que vivemos. O que leva uma dúzia de policiais a irem a uma escola infantil, fortemente armados, inclusive com metralhadoras, tomar satisfação sobre diretrizes educacionais? A ignorância. Pior: a ignorância cega. Entre os doze homens, nenhum se dispôs a questionar o comando sobre a inadequação daquele comportamento. Nenhum se perguntou se aquilo tinha relação com suas atribuições. Simplesmente acharam “da hora” irem à escola infantil atender à ignorância e ao preconceito do colega de farda.

 

Quantas vidas já foram desgraçadas pela ignorância, pela obediência cega e pelo preconceito? Quantas vezes ouvimos: “Fulano é gente boa demais, mas não pensou na hora de fazer a besteira?”.

 

O Brasil segue sendo um país essencialmente racista, ignorante e preconceituoso. O episódio dessa tentativa de intimidação policial contra o currículo escolar é uma prova disso.

 

O Brasil foi construído sobre terras roubadas dos povos indígenas, por pessoas roubadas de suas terras na África. Essa frase nem é minha, mas reflete exatamente o que penso. Os europeus aqui chegados trataram de oprimir os povos originários, dizimá-los e tentar escravizá-los. Conseguiram nas duas primeiras tarefas, mas não na terceira. 

 

Na escola fomos condicionados a aprender que os índios eram “indolentes”. Vejam a falsidade: recusaram-se a servir como escravos, refugiaram-se nas florestas, foram torturados, mortos e espoliados, e ainda assim aprendemos que eram “indolentes”.

 

Diante disso, os europeus foram à África roubar pessoas – homens, mulheres, crianças – para escravizá-las nas terras indígenas tomadas à força. Esses seres humanos eram capturados, acorrentados e trazidos para o Brasil como animais, em porões fétidos de navios. Aqui chegavam desumanizados: perdiam seus nomes, eram vendidos a senhores ricos, impedidos de professar sua fé, maltratados até perderem completamente sua essência e dignidade.

 

A maior parte desses abusos foram tolerados e acobertados pela fé cristã – para a qual os negros não sofriam pois eram desprovidos de alma. Esses mesmos padres e bispos que rebatizaram os escravos com os nomes de seus senhores e torturadores. 

 

Tudo ia bem nos banquetes da casa grande enquanto a tortura era praticada nas senzalas.  

 

A escravidão no Brasil durou 350 anos, de 1530 até 1888. Fomos o último país a abolir a escravidão, e ainda assim sem qualquer indenização às pessoas escravizadas. Apenas a partir de 1831 começou o processo de “desescravização” com a Lei Feijó, que declarava livres os escravizados vindos de fora do país – lei que “não pegou”. Vieram depois: a Lei Eusébio de Queirós (1850), que proibiu o tráfico transatlântico; a Lei do Ventre Livre (1871), que libertava os filhos de mulheres escravizadas; a Lei dos Sexagenários (1885), que libertava os escravizados com 60 anos; e, finalmente, a Lei Áurea (1888), que aboliu a escravidão no Brasil.

 

Nenhuma dessas leis foi aprovada sem resistência. Mesmo as que “pegaram” enfrentaram a cara feia dos donos do poder, que alegavam que o país iria quebrar. A Lei dos Sexagenários, por exemplo, libertava pessoas já exauridas por uma vida inteira de escravidão, sem qualquer indenização ou reparação. Ainda assim, diziam que quebraria o Brasil.

 

A história dos povos indígenas e negros no Brasil é de extraordinária luta. Apenas em 2003, quase 500 anos após o início da opressão, foi criada a lei que obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana (Lei 10.639). Em 2008, a Lei nº 11.645 incluiu também a temática indígena. Mesmo assim, um quarto de século depois, ainda, assistimos ao direito dessa população – que representa mais da metade do país – ser questionado.

 

Como assim? Povos espoliados por todas as formas de suas identidades e dignidade e que representam mais da metade da população brasileira não têm o direito serem e terem o ensino de suas origens ministrados nas escolas públicas e privadas? Qual a motivação? A caso uma “prorrogação” do status escravagista?

 

Não, nada disso faz sentido. 

 

Vivemos o teatro dos absurdos. Um direito que chegou tardiamente, quase cinco séculos depois, é tratado como doutrinação religiosa. Cultura não é religião, mas todos têm direito de conhecer as origens de sua fé e de seus antepassados. Negros, pardos e indígenas tiveram esse direito negado por 500 anos.

 

Quinhentos anos depois, acredito, já passa da hora de algumas denominações religiosas pararem de lucrar em nome de Deus e explorando a ignorância do povo. Não existe supremacia religiosa no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo – não aos olhos do Senhor. Não é aceitável que ainda hoje se tente impedir o direito de conhecer e professar a fé que cada qual deseja. 

 

Está mais que na hora de corrigir tantas injustiças. Reparação é direito não é favor de ninguém. 

 

As pessoas de bem precisam cerrar fileiras contra essa quadra de obscuridade que parece crescer no seio da sociedade.  Não temos o direito de sermos tolerantes com a intolerância. 

 

Abdon C. Marinho é advogado.