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Bem Vindo a Pagina de Abdon Marinho, Ideias e Opiniões, Segunda-feira, 10 de Agosto de 2026



A palavra é o instrumento irresistível da conquista da liberdade.

Escrito por Abdon Marinho


A Eleição do Fim do Mundo  

Por Abdon C. Marinho

 

O Brasil se encaminha para mais um processo de eleições gerais – aquelas nas quais são eleitos presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. A sensação que fica é a de um filme de “sessão da tarde”, uma reprise do que já vimos no pleito anterior.

 

Certa vez, em 2018, afirmei que os extremos não poderiam vencer uma eleição no Brasil, pois o país seria – naquela época, na minha visão – “centrista”, não havendo espaço para o radicalismo de lado a lado. 

 

Oito anos depois, o que sentimos é que o Brasil tornou-se um país tão polarizado que quaisquer forças políticas que não paguem “pedágio” ao extremismo não conseguem avançar. A centro-direita racional e liberal, que poderia vencer as eleições (as últimas pesquisas apontam que o eleitorado brasileiro se identifica mais com ela), foi “sequestrada” pelo bolsonarismo mais obscuro, que na conjuntura atual se apresenta como “entreguista” e antinacionalista. A centro-esquerda, que também poderia surgir como alternativa, tem sido “empurrada” a vincular-se ao projeto petista, como contraponto ao outro extremo. Em meio a tudo isso, sobra o cidadão/eleitor como uma espécie de “pasto” a alimentar esses extremos.

 

Acompanho eleições desde 1982 e poucas vezes assisti a uma situação de tamanho desalento.

 

Outro dia, um amigo me perguntou:

— Doutor, o senhor acha que o atual presidente ganha as eleições?

 

Naquele momento, o presidente e candidato à reeleição havia se distanciado numericamente de seu principal rival (o outro extremo) na tragédia dos erros – como, aliás, ainda se encontra.

 

Respondi:

— Olha, fulano, esta eleição será decidida pela variável do ódio, e as pesquisas ainda não estão prontas para esse tipo de análise. Elas não quantificam o quanto um lado odeia o outro a ponto de perder completamente a racionalidade. Quando as pesquisas apontarem a “variável do ódio”, teremos maior clareza.

 

A variável do ódio é o reverso do fanatismo político ou a outra face da mesma moeda. Certa vez, o senhor Afrânio Mangueira, que trabalha comigo há um quarto de século, contou-me um episódio ocorrido em seu município de origem.

 

Numa eleição, um candidato tornou-se bastante popular, construiu a imagem de “homem do povo” e quase venceu. Após a derrota, envolveu-se no assassinato do próprio pai. Foi acusado, preso, mas, por conta da lentidão da Justiça, ainda não condenado definitivamente, o que lhe permitiu concorrer novamente. O curioso foi a justificativa de determinados eleitores para votar nele: — Olha, o candidato matou o pai dele, DELE, não o meu pai, por isso meu voto é dele.

 

Para a sorte daquela comunidade, o assassino, embora candidato, ficou bem atrás no resultado final.

 

Esse mesmo tipo de discurso, de lado a lado, serve hoje para justificar as escolhas de cada um, acreditando estar “salvando” o país.

 

O extremismo político não faz com que as pessoas se vejam como más ou que percebam estar causando mal ao país. Na cabeça de cada extremista, existe a convicção de que ele está certo e os demais, errados. Um extremista político, como muitos com os quais convivemos, perde a racionalidade sobre a própria vida. 

 

Outro dia, uma pessoa querida contou um episódio de radicalismo familiar: alguém até então de fino trato e bem-humorado recusou-se a participar de uma campanha estadual, com todas as benesses que a vitória poderia trazer, apenas porque a campanha, em nível federal, apoia o atual presidente.

 

Exemplos assim se repetem em todo o país, muitas vezes expressos em grupos de WhatsApp ou redes sociais. Um “viral” mostra um brasileiro dizendo que votará em determinado candidato porque pouco se importa com o país, sua lealdade é apenas ao político.

 

Vejam que chegamos ao mesmo nível de radicalismo que acometeu a Alemanha e a Itália antes do nazismo e do fascismo. E, também, do comunismo implantado na União Soviética e seus satélites. 

 

O surgimento desses movimentos sociais e políticos teve como principal combustível o ódio, disciplinadamente semeado e regado para suprir frustrações pessoais e fomentar a cultura de pertencimento de um grupo.

 

Ao estudar a história do Nazismo, por exemplo, constatamos que mesmo os responsáveis por crimes inomináveis eram cidadãos comuns, que acreditavam estar fazendo o bem para o país e a humanidade.

 

O mesmo raciocínio acometido pelos defensores do comunismo no período pré Segunda Guerra Mundial e depois na China , com a Revolução Cultural e em outras nações menos significativas. 

 

O mundo inteiro enfrenta esse ressurgimento autoritário: o ódio como instrumento político, a pregação deliberada do fim do Estado de Direito, a supressão dos direitos humanos e das garantias fundamentais.

 

O Brasil assiste ao mesmo fenômeno. Temos candidatos defendendo modelos políticos que, sequer, estudaram o que é e suas implicações para o povo. Vi, não faz muito tempo, um candidato numa sabatina passando o maior vexame: elogiou determinado político de um país e depois foi confrontado com suas políticas e confessou discordar de todas. O senhor é a favor disso? Não. O senhor concorda com isso? Não. O senhor acha que devemos fazer isso? Não. Então como é que senhor defende a implantação desse modelo político no Brasil? Aquele silêncio constrangedor. 

 

Os cidadãos de bem do Brasil e do mundo, que acredito serem maioria, ainda que mais inclinados para um lado ou outro, precisam examinar com clareza o que verdadeiramente importa para o país e para as futuras gerações, sob pena de sérios arrependimentos — se ainda houver tal possibilidade.

 

Quais são as propostas? São boas para o país ou atendem a outros interesses econômicos e/ou estrangeiros?

 

A eleição brasileira caminha para ser decidida pelo ódio, e não pelo que realmente importa para o país. Vamos permitir que isso aconteça?

 

Abdon C. Marinho é advogado.