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Bem Vindo a Pagina de Abdon Marinho, Ideias e Opiniões, Domingo, 12 de Julho de 2026



A palavra é o instrumento irresistível da conquista da liberdade.

Escrito por Abdon Marinho


Os Desafios da Educação Brasileira

Por Abdon C. Marinho

 

Acredito que poucos duvidam do muito que já foi feito pela educação brasileira nas últimas décadas. Mesmo assim, os números mostram que ainda precisamos avançar e melhorar para alcançar níveis de excelência que nos tornem competitivos em um mundo cada vez mais globalizado e tecnológico.

 

Outro dia, o ex-ministro da Educação, ex-governador e ex-reitor da UnB, Cristovam Buarque, na coluna que assina na revista Veja, lançou um dado desolador: segundo ele, dos dois milhões e meio de crianças nascidas no país em 2025, apenas cerca de trezentas mil concluirão de forma adequada o ensino fundamental em 2043.

 

Fiquei triste e encabulado com a crueza dos dados e do espaço temporal. Uma regra de três simples aponta que apenas 11% (onze por cento) estarão em condições efetivas de continuar seus estudos no ensino médio e/ou profissional e superior, visando uma inserção no mercado de trabalho globalizado e tecnológico nas décadas seguintes.

 

Vejam a gravidade do quadro: o país está deixando pelo caminho 89% (oitenta e nove por cento) do seu capital humano. Trata-se de um absurdo, uma falta de compreensão do que a ausência de oportunidade para essas crianças significa para o futuro do país.

 

É um “funil” muito estreito, com o qual homens e mulheres de bem não podem concordar. A educação brasileira não precisa de milagres, mas de experiências exitosas ao redor do mundo e de um plano estruturado que vise à universalização de oportunidades de aprendizagem com equidade.

 

Não precisamos recorrer apenas a experiências educacionais de países ricos ou superpotências com resultados consolidados. Desde que me interessei pela educação brasileira (ou seja, desde sempre), chamou-me a atenção o sucesso, nesse quesito, dos chamados “tigres asiáticos”, que em poucas décadas, com investimentos maciços em educação, mudaram sua realidade. Eram nações pobres, subdesenvolvidas, sem grandes recursos naturais e enfrentando grandes turbulências internas. Em menos de quatro ou cinco décadas, transformaram para sempre suas sociedades.

 

De todos esses países, o que mais me chamou atenção em meus estudos foi Singapura. A cidade-estado possui uma área territorial de apenas 716,1 km² e, atualmente, 5,4 milhões de habitantes — para termos uma ideia de escala, a Ilha do Maranhão, onde se encontra a capital São Luís e mais três municípios, com população aproximada de 1,3 milhão de habitantes, possui área territorial de aproximadamente o dobro, 1.410 km². Em 1965, quando foi “expulsa” da Federação Malaia, era basicamente um entreposto comercial em um pântano.

 

Em bem menos de sessenta anos, Singapura tornou-se uma referência em desenvolvimento.

 

O que Singapura fez na educação para alcançar esse nível de desenvolvimento? Além de reforçar as bases do conhecimento, investiu no ensino de inglês e em educação tecnológica. Entendia que, para se tornar competitiva no mercado global, precisava dominar a língua que se tornou majoritária no comércio internacional e os fundamentos da tecnologia.

 

Esse é um “case” de sucesso ainda hoje copiado pelo mundo. A China, que se encaminha para ser a maior superpotência do planeta daqui a no máximo duas décadas, segue essa estratégia.

 

O Brasil não tem dado importância a esses setores educacionais. Apenas para se ter uma ideia, somente a partir deste ano, ou início do próximo, será obrigatória a inserção do pensamento computacional nos currículos escolares — que nada mais é do que ensinar as crianças, desde o ensino infantil, a pensar logicamente, a entender como as coisas funcionam e a disciplinar seus cérebros para absorver o conhecimento científico.

 

Quando se anunciou, ainda que tardiamente, a implementação da BNCC Computacional, muitos gestores se equivocaram e passaram a investir em computadores e robótica. Embora esses experimentos sejam importantes, neste primeiro momento o que precisamos é desenvolver o pensamento lógico e racional; depois, sim, avançar para outras etapas.

 

O Brasil, ainda hoje, negligencia o ensino de línguas. Nem mesmo o inglês, que é a língua do comércio internacional, é ensinado nas escolas de forma adequada. Tanto que, desde 1969, ele só é obrigatório a partir do sexto ano, quando as crianças já estão “fechando” as janelas cerebrais do aprendizado.

 

Parece-me que somos um país monoglota por opção e, portanto, orgulhoso de manter-se isolado do restante do mundo.

 

No início da atual década, pensando nessas dificuldades da educação brasileira, criamos uma empresa de tecnologia voltada para a educação. Seu objetivo: levar o mesmo nível de educação a todas as crianças, do campo ou das cidades, das periferias ou dos centros urbanos, indígenas ou ribeirinhas — em resumo, a todas, de forma indistinta.

 

Nesse contexto, a tecnologia é o fator que permite a universalização e a equidade, pois é algo que, na atualidade, encontra-se à disposição de quase todos. Dificilmente encontramos algum lar que não possua um mínimo de acesso à informação ou internet.

 

Inicialmente, seguindo o modelo de Singapura, formatamos dois projetos: o AME English, voltado para o ensino de língua inglesa para crianças a partir do ensino infantil (4 e 5 anos) até os anos finais do ensino médio; e o AME Tech, voltado para a implementação da BNCC Computacional como ela foi pensada e deve ser: ensinar as crianças o pensamento lógico e racional já no primeiro acesso à educação infantil.

 

Esses projetos vão muito além do conteúdo dos livros. São estruturantes e permitem a crianças e adolescentes uma experiência completa de aprendizagem de forma imersiva, universalizando o conhecimento para todos os estudantes do país.

 

Acredito que a chave para a construção de uma educação competitiva, que não deixe para trás 89% (oitenta e nove por cento) de nossas crianças, é investir em projetos educacionais que alcancem todos, permitindo acesso igualitário.

 

O Brasil vive uma emergência educacional e corre sério risco de sofrer um “apagão” de conhecimento nas próximas décadas, com consequências para as gerações futuras.

 

Não temos mais o direito de aguardar nem de acreditar que o Brasil é o país do futuro. Se não fizermos nada, ou se continuarmos a repetir o que temos feito até aqui, não teremos futuro.

 

O futuro da nação depende das sementes que conseguimos plantar hoje.

 

Abdon C. Marinho é advogado.