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Bem Vindo a Pagina de Abdon Marinho, Ideias e Opiniões, Quinta-feira, 23 de Abril de 2026



A palavra é o instrumento irresistível da conquista da liberdade.

Escrito por Abdon Marinho


 

(Mariano Serejo, uma das vítimas dos ladrões de velhinhos, desde 2010/11 que me procurou para alertar sobre o que vinha sofrendo. Morreu em 2025). 

A República dos Ladrões de Velhinhos 
Por Abdon C. Marinho

 

Escancarou-se, ainda na primeira metade do ano de 2025, parte dos esquemas montados para roubar velhinhos, deficientes, enfermos e pessoas vulneráveis por diversos fatores.  

 

Os esquemas dos ladrões de velhinhos centravam-se – ou ainda se centram, pois não sabemos se já foram erradicados ou quanto tempo levará para serem retomados com mais força – em alguns pilares: descontos para supostas entidades de assistência ou sindicais; falsos empréstimos; empréstimos não solicitados; créditos rotativos permanentes; cartões de crédito não solicitados gerando dívidas sem fim; impotência e/ou ignorância das vítimas em se fazerem respeitar.

 

Já tendo se passado quase um ano, exceto por alguns “espasmos” de decência aqui e ali, o que vemos é a tentativa de ocultar os artífices da tramoia e de não revelar tudo que realmente se oculta nela.  

 

Conforme já disse em textos anteriores, há cerca de 15 anos amigos e clientes me alertam sobre descontos indevidos em seus contracheques: uma contribuição para uma entidade que nunca se ouviu falar aqui, um empréstimo nunca feito ali, um cartão que nunca chegou acolá…

 

No começo, cheguei a duvidar do que me diziam esses amigos, imaginando tratar-se de casos de roubo de dados, em que meliantes faziam empréstimos ou solicitavam cartões em nome dessas pessoas – modalidade de golpe que de fato existe. Jamais pensei que pudesse haver uma quadrilha dentro do serviço público em conluio com o sistema financeiro nacional para roubar velhinhos.

 

Faço questão de reforçar a ideia de que tratam-se de ladrões de velhinhos para que a sociedade compreenda o grau de degeneração moral a que chegou a nossa República. Sim, estavam – e talvez ainda estejam – roubando velhinhos, tirando-lhes o dinheiro do remédio, da conta de luz, das frutas, da alimentação.  

O chamado “escândalo do INSS” é apenas a ponta do iceberg de esquemas muito mais estruturados para roubar velhinhos e, por extensão, a população.

 

Alguém já se perguntou como o INSS defere uma aposentadoria ou benefício pela manhã e, à tarde, o aposentado ou beneficiário já começa a receber dezenas de ligações oferecendo benefícios, empréstimos etc.? Ou percebeu que, quando um precatório é formado, quase imediatamente surgem propostas para aquisição desse direito?

 

Existem na Justiça milhares – talvez milhões – de processos reclamando dessas fraudes e abusos. Por outro lado, há um volume ainda maior de pessoas que não procuram a Justiça, muitas vezes sentindo-se culpadas por terem sido enganadas, achando-se “tontas” ou ingênuas por aceitarem empréstimos com parcelas que ocupariam duas vidas.

 

Reparem que os efeitos deletérios causados pelos ladrões de velhinhos não se restringem ao aspecto econômico; eles afetam também o psicológico. O cidadão que recebe um benefício ou salário formal passa a levar uma vida pior e mais desequilibrada financeiramente do que antes de ter aquela “renda”.

 

Para aliviar essa “culpa”, oferecem-se saídas ilusórias, como as apostas conhecidas como “bets”, camufladas de diversão inocente.

 

Repito: trata-se de uma rede estruturada para roubar velhinhos e enfermos, que, além de lhes tirar recursos, afeta sua saúde mental e os empurra para vícios, perpetuando o ciclo de exploração.

 

O chamado “escândalo do Master” – que, como mencionei em texto anterior, é a outra face da mesma moeda do “escândalo do INSS” – revelou o modus operandi do esquema na outra ponta, em que, utilizando dinheiro ilícito, compram o silêncio e a cumplicidade de autoridades.  

 

O escândalo Master mostra o destemor de banqueiros de quinta ao “comprar” autoridades, bem como a suscetibilidade dessas autoridades em aceitar dinheiro para fazer vistas grossas ou até proteger os ladrões de velhinhos quando uma investigação se torna inevitável.

 

A falta de pudor das autoridades que deveriam zelar pela higidez da República não deixa nada a dever ao cartaz que certa vez vi em um cabaré da minha aldeia natal: “Pagando bem, que mal tem?”

 

As excelências se lambuzaram tanto no dinheiro roubado dos velhinhos que dificilmente podem alegar isenção em um processo judicial pelos crimes cometidos.  

Hoje, todos sabemos do rosário de crimes praticados contra os velhinhos por bancos e instituições, mas o que essas autoridades têm feito para estancar a sangria? Milhões de processos permanecem parados enquanto os ladrões continuam atuando livremente.

 

Devemos nos perguntar: essas autoridades que firmaram contratos faustosos com os ladrões sabiam do que se tratava ou vendiam proteção no escuro?

 

Encerrando este texto – sem prejuízo de voltar ao tema –, tenho convicção de que o Brasil só merecerá o título de República se for capaz de desvendar toda essa rede de corrupção.  

 

Os esquemas para roubar os remédios dos velhinhos e levá-los à deterioração da saúde mental não se limitam ao que foi revelado nos escândalos do INSS e do Master. Há outras instituições e autoridades envolvidas nos mesmos malfeitos.

 

Urge fazer uma autópsia desses esquemas, identificando todos que contribuíram, participaram ou foram beneficiados, direta ou indiretamente.  

É preciso determinar quando o esquema começou, quem iniciou, como se expandiu e quais suas ramificações.

 

Os candidatos aos cargos executivos e legislativos devem se comprometer com o desbaratamento dessas quadrilhas, afirmando claramente que todos os envolvidos serão expostos e punidos conforme a lei.  

 

O Brasil não pode conviver com a ideia de que é normal roubar velhinhos impunemente.  

Se não fizermos isso, não seremos dignos de sermos respeitados como nação.

 

Abdon C. Marinho é advogado.