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Bem Vindo a Pagina de Abdon Marinho, Ideias e Opiniões, Quinta-feira, 04 de Junho de 2026



A palavra é o instrumento irresistível da conquista da liberdade.

Escrito por Abdon Marinho


A Elasticidade dos Princípios Éticos do Brasil

 

Por Abdon C. Marinho

 

Quando mais jovem, lá pela adolescência, era um “noveleiro” de mão cheia. Gostava muito de assistir e acompanhar aquelas histórias. Junto com a leitura de livros clássicos, era meu principal passatempo e uma janela de fuga para uma realidade, na maioria das vezes, difícil, muito difícil.

 

Certa vez, em uma trama qualquer, ouvi um personagem de um grande ator dialogar com o filho, bem mais jovem, nos seguintes termos: — “Isso significa, meu filho, que os seus princípios são bem mais elásticos que os meus.”

 

Tratava-se de uma disputa comercial em que o filho utilizara meios que o pai, que criara a empresa e a administrava, jamais utilizaria, pois os seus princípios éticos o impediriam.

 

O presente texto não se trata de uma obra ficcional – muito embora, de tão inacreditável, possamos pensar que sim –, mas de acontecimentos que permeiam a vida política do país e geram impactos em todos nós e no futuro da nossa nação – se ela continuar existindo –, e também do novo normal ético da sociedade.

 

Entre os anos de 1991/1992, a sociedade brasileira se mobilizou e foi às ruas exigindo o impeachment do presidente da república, Fernando Collor de Mello, eleito diretamente pelos cidadãos. Ele foi apanhado em um esquema de corrupção com o ex-tesoureiro de campanha Paulo César Farias. O símbolo maior das falcatruas presidenciais foi materializado em um veículo Fiat Elba, que a excelência teria recebido como propina.

 

O senhor Collor foi afastado e posteriormente cassado no segundo semestre de 1992. A “preço” de hoje, os seus desvios financeiros poderiam ser julgados por um Juizado Especial.

 

Aqui não estou minimizando os seus atos, até porque anos depois de sua reabilitação política, o indigitado parece que “aprendeu” o ofício e continuou praticando todo tipo de bandalha, a ponto de ser novamente apanhado, investigado, julgado e condenado, encontrando-se na atual quadra da história cumprindo pena domiciliar em sua cobertura na cidade de Maceió - AL.

 

Dois anos depois, em 1994, quem foi dragado por um escândalo de corrupção foi o deputado Ibsen Pinheiro, que presidiu a Câmara dos Deputados por ocasião do impeachment de Collor.

 

Ibsen Pinheiro foi “dragado” pelo episódio que ficou conhecido como “escândalo dos anões do orçamento”, apelidado assim devido à estatura da maioria de seus membros.

 

Esse seleto grupo de parlamentares estava “eternizado” na Comissão de Orçamento da Câmara. De lá, manipulava o destino dos recursos públicos, recebendo da parte de beneficiários, públicos e privados, gordas somas de recursos. Um desses “anões”, o deputado João Alves, justificou como sendo apenas fruto de miraculosa sorte, afirmando ter ganhado na loteria infinitas vezes. A maioria dos deputados da comissão foi cassada, sobretudo os denominados “anões do orçamento”.

 

O deputado Ibsen não fazia parte da Comissão de Orçamento, mas foi envolvido como tendo sido beneficiário daqueles esquemas. Um dos fatos mais marcantes utilizados para “comprovar” o suposto envolvimento do deputado foi uma foto do mesmo com alguns membros da comissão. A fotografia mostrava três ou quatro casais, dentre os quais Ibsen e a esposa jantando com os deputados “anões”.

 

A imprensa brasileira explorou a imagem à exaustão. Aquela fotografia era a “prova cabal” do envolvimento do deputado com a “máfia dos anões”, e isso o levou à cassação do mandato e à perda dos seus direitos políticos. Lá pelos anos dois mil, o deputado, após cumprir oito anos de inabilitação política, foi inocentado pelo STF.

 

Aquela fotografia foi determinante para a mobilização da sociedade e da Câmara dos Deputados para a cassação de um mandato parlamentar.

 

Refletindo sobre o que disse aquele personagem, os acontecimentos daqueles anos e a atual quadra política, vejo o quanto estão “elásticos” os princípios da nação brasileira.

 

Todos nós ouvimos os áudios onde apareciam tratativas de que um senador da república recebia uma “mesada” estimada entre 300 e 500 mil reais; que esse mesmo senador apresentava projetos de lei ou intermediava interesses em favor de banqueiros; que se hospedava em apartamentos de altíssimo luxo; que tinha férias custeadas; que participava de festas íntimas e tudo mais.

 

Sobre a foto que derrubou Ibsen Pinheiro, esse senador aparece em uma estância de inverno abraçando o banqueiro de tal forma que em nada ficaria devendo às cenas de filmes LGBTQIA+, apenas para ficar no tema cinematográfico. Isso sem contar o que ainda poderá surgir dos celulares e sistemas de câmeras em investigação.

 

Um outro senador, candidato à presidência da República, após negar peremptoriamente, foi flagrado chamando esse mesmo banqueiro de “irmão” e dizendo que estavam juntos para o que “desse e viesse” e, mais do que isso, pedindo-lhe muito dinheiro, supostamente para financiar um filme, mas que foi parar em um fundo estrangeiro, administrado por outro fundo ligado ao advogado do irmão nos Estados Unidos.

 

Esse mesmo senador achou que seria de bom tom visitar o tal banqueiro no dia seguinte após o mesmo ser solto e passar a cumprir medidas restritivas, segundo ele, para “encerrar a relação”; segundo o presidente do seu partido, para cobrar o restante do “financiamento” cinematográfico. Foi de Brasília para São Paulo às custas dos contribuintes.

 

Esses são apenas os fatos que já chegaram ao conhecimento da patuleia. Segundo o próprio senador, pode ser que ainda apareçam fotos, vídeos etc., com o indigitado ex-banqueiro, talvez nas mesmas condições ou mais gravosas do que as que já apareceram do colega senador anteriormente mencionado.

 

O indigitado ex-banqueiro, amigo, “irmão de alma”, companheiro de todas as horas, é ninguém mais, ninguém menos que um criminoso que deu um golpe de quase cem bilhões de reais no país, roubou aposentados, pensionistas e investidores do país inteiro.

 

E essas autoridades da república, inclusive ministros do STF, mantinham ou mantêm tratativas milionárias com essa pessoa, participaram de convescotes de milhões de reais no Brasil e no estrangeiro; de “festas íntimas” com garotas e garotos, em mansões, iates de luxo, etc.

 

O mesmo segundo senador e candidato à presidência manteve tratativas com governo estrangeiro em busca de apoios políticos para sua campanha eleitoral, que claramente são prejudiciais aos interesses do Brasil.

 

Assistimos a tudo isso e vemos o quanto se tornou elástico o padrão ético do nosso país. Não vemos uma movimentação no Congresso Nacional pedindo ou exigindo a cassação dos seus mandatos e dos demais envolvidos, que certamente surgirão no decorrer das investigações.

 

Pior que isso é a letargia da sociedade.

 

Os cidadãos não apenas estão achando tudo normal e conforme, como ainda temos uma parcela significativa da população brasileira cristalizada como eleitores desses cidadãos.

 

Se questionados, dizem como se fosse defesa: “É fulano?”, “E beltrano?” …

 

Ora, que espécie de mediocridade tomou conta da sociedade a ponto de não apenas não reagir, mas apoiar essas práticas?

 

Fico com a sensação de que não apenas os princípios dos cidadãos se tornaram elásticos; na verdade, eles deixaram de existir completamente.

 

O novo normal é senadores, deputados, ministros e até, quem sabe, o presidente da república se tornarem “sócios” de banqueiros que roubam velhinhos.

 

O novo normal é autoridades do país tramarem contra os interesses nacionais com nações estrangeiras e nada acontecer.

 

Será que tudo isso que vivenciamos é normal e eu estou absurdamente errado?

 

Vivemos o fim dos tempos ou de uma nação. 

 

Abdon C. Marinho é advogado, escritor e cronista.