AbdonMarinho - Home
Bem Vindo a Pagina de Abdon Marinho, Ideias e Opiniões, Segunda-feira, 11 de Maio de 2026



A palavra é o instrumento irresistível da conquista da liberdade.

Escrito por Abdon Marinho

Eleições 2026: Os Desafios de Cada Um  

Por Abdon C. Marinho

 

Passei a semana inteira pelo interior – saí na segunda e retornei já na madrugada de sexta-feira –, visitei clientes e amigos, conversei com o povo. Por onde passava, escutava a mesma pergunta: — Doutor, e as eleições?

 

Os últimos tempos foram de muita ocupação: escritório, projetos, muitas coisas boas acontecendo e me tomando o tempo. Pouco tenho parado para examinar o quadro sucessório e sequer imaginava que, faltando ainda cinco meses para o pleito eleitoral, as pessoas já estivessem tão atentas ao tema – aliás, faz muito tempo que uma eleição não mobiliza tanto a população.

 

De tanto ser indagado e, também, pela conveniência de estar viajando, pus-me a analisar o quadro político estadual. O que senti segue na síntese abaixo.

 

A eleição encontra-se polarizada, no momento, entre dois pré-candidatos: o candidato da situação, Orleans Brandão, e o ex-prefeito de São Luís, Eduardo Braide. Vejo que os outros dois candidatos que ainda aparecem na disputa, Lhaésio Bonfim e o vice-governador Felipe Camarão, “brigarão” pela terceira posição e para não ficarem tão distantes dos dois primeiros.

 

Acredito que Felipe Camarão, mesmo com o apoio de um setor significativo do PT e mesmo se “vendendo” como o candidato do Lula, não é, no momento, capaz de disputar com os dois candidatos do primeiro escalão. Os eleitores de Lula, que aparece como o mais bem votado no estado na eleição presidencial, bem como os demais eleitores, votarão em Orleans ou em Braide, sem qualquer interferência externa. Acho, aliás, que esses dois candidatos nem deveriam se deixar “contaminar” pela disputa nacional.

 

Já Felipe precisa “casar” sua campanha com a de Lula e tentar colher os dividendos da guerra ideológica que toma conta do país.

 

Em relação ao pré-candidato Lhaésio Bonfim, que surpreendentemente ficou em segundo lugar na disputa de 2022, ele não apresenta a mesma “musculatura” do pleito anterior e não o vejo como beneficiário da disputa eleitoral nacional. A sensação que tenho é que ele perdeu o “timing” para se firmar como uma liderança estadual. Acredito que teria mais proveito político se conseguisse se viabilizar como candidato ao Senado ou como deputado federal e depois “remar” tudo novamente para se firmar numa disputa majoritária ao governo estadual.

 

Ressalto que digo isso a “preço” de hoje, pois as disputas políticas são como nuvens: hora você olha e estão de um jeito; olha de novo, já mudaram.

 

Em relação aos dois candidatos que, no momento, se encontram “polarizados” no cenário político estadual – e acredito que a disputa será renhida ou “cabeça a cabeça”, como se diz –, verifico as seguintes fragilidades:

 

O candidato governista leva para a disputa a “máquina” política estadual e, devemos reconhecer, nunca essa máquina esteve tão azeitada. Prefeitos, deputados, vereadores e lideranças políticas estão, em grande maioria, com o candidato oficial.

 

Por outro lado, se o candidato governista leva esse “bônus”, que não é desprezível, leva também o ônus de ser governo, que, dentre outros gargalos, apresenta alguns com capacidade de influenciar no pleito.

 

O primeiro gargalo é a saúde pública. Por onde se passa, ouvem-se queixas de que as consultas demoram, que pessoas passam meses à espera de uma cirurgia “de emergência” e que nos hospitais regionais “falta tudo”. Conversando com uma secretária de saúde de um município, ela nos informou sobre os sacrifícios que faz para conseguir “desenrolar” um atendimento mais especializado e que, na maioria das vezes, a rede municipal acaba auxiliando mais a rede estadual do que o contrário – um caso claro do “rabo balançando o cachorro”. Ela comentou que o estado deveria mudar o perfil de muitos hospitais regionais para atender às necessidades locais, principalmente em ortopedia, já que são recorrentes os acidentes, sobretudo de moto.

 

Nessa mesma conversa, a secretária disse-nos algo que até agora custo a acreditar e, caso seja verdade, o governo precisa intervir imediatamente: as companhias de ferryboat só estão admitindo duas ambulâncias por vez na travessia. Em sendo verdade, trata-se de algo de gravidade ímpar. Não se pode limitar a passagem de ambulâncias nos ferries, sobretudo no sentido interior–capital, quando os pacientes buscam socorro.

 

O segundo gargalo atende pelo nome de rodovias. As estradas do Maranhão, sejam federais ou estaduais, sempre foram “desafiadoras”, e o governo estadual, merecendo ou não, acaba “pagando o pato” pelas péssimas condições. Nesta última viagem fui até Carutapera: todas as rodovias apresentam problemas de conservação ou buracos. A rodovia que vai de Cujupe a Pinheiro, que o governo inaugurou recentemente, já começa a apresentar deterioração; de Pinheiro a Turilândia, que não foi reparada, os problemas continuam; de Turilândia a Governador Nunes Freire, pior ainda. Enfrentamos trechos ruins também na BR-316 e no caminho até Cândido Mendes. Indo a Cedral, recentemente, constatamos que a “nova” estrada de Bequimão a Central do Maranhão, que reduziu em mais de cem quilômetros a distância para o litoral, apresenta os mesmos problemas, sem contar que as cabeceiras da ponte sobre o Pericumã estão tão altas que podem causar acidentes graves. 

 

Essa mesma realidade se repete em outros pontos do estado. Com o inverno rigoroso que estamos vivendo, a tendência do eleitorado é ficar insatisfeito com o governo e, consequentemente, com seu candidato. Mesmo quando o governo responde rapidamente, como no caso do rompimento da MA-014, no meio da semana, o desgaste permanece. São quilômetros e quilômetros de chateação com o governo, e isso pode influir na hora do voto.

 

O terceiro gargalo chama-se ferryboat. Minha passagem estava marcada para o último ferry de quinta-feira, às 22h30. Como na quarta pela manhã já havíamos adiantado os compromissos, cogitei voltar mais cedo. Entramos em contato com um amigo para saber da possibilidade de antecipar a travessia. A resposta: — Doutor, isso aqui hoje tá um caos. Temos dois ferries quebrados, rodovia rompida, está uma loucura. Sem chance de alteração.

 

Quando chegamos ao Cujupe, na quinta, por volta das oito, vimos a extensão do problema: salvo engano, só dois ferries estavam operando e numa lentidão de fazer inveja. A internet sem qualquer sinal, muitas pessoas tensas sem saber se voltariam à capital, algumas sem comunicação e com risco de dormir nos veículos. E isso sem contar o atendimento de colaboradores já estressados.

 

Por que esse é um problema sério? O governador Brandão enfrentou essa questão na eleição de 2022 e, na reta final, conseguiu aliviar o problema com novos ferries, o que ajudou na vitória. Mas, se deixar para resolver isso na véspera da eleição, o risco é ser acusado de solução eleitoreira e não definitiva.

 

Um problema simples que o governo poderia resolver é a falta de comunicação no Cujupe: poderia exigir que as operadoras garantissem sinal permanente e estável naquele terminal.

 

Esses gargalos, juntamente com o inverno rigoroso, podem definir as eleições estaduais.

 

E o Braide?

 

Braide também tem seus gargalos. O primeiro atende pelo nome de General Inverno. As fortes chuvas que têm caído sobre a cidade administrada por ele até recentemente mostram que as “soluções definitivas” vendidas à população não eram tão definitivas assim.

 

Some-se o trabalho de “desconstrução de imagem” que a mídia aliada do governo vem promovendo enquanto os aliados de Orleans e o próprio buscam lideranças comunitárias para “virarem brandonistas”. Qual será a extensão dessa investida nas eleições ainda não sabemos.

 

O que é possível perceber, até aqui, é que Braide apresentou melhora nas intenções de voto desde que se lançou, mas ainda não sabemos os impactos da investida governista em suas bases, principalmente São Luís e região metropolitana.

 

O segundo gargalo atende pelo nome de “Braide é difícil”. Por onde passamos, ouvimos essa expressão: “Braide é difícil”, e as suas variações, seja porque não quer diálogo com a classe política, não procura ninguém, não se compromete com ninguém. Tanto é verdade que a primeira coisa que fez como pré-candidato foi fechar as portas para qualquer aliança. Enquanto muitos completam a chapa na reta final, ele, logo no início, escolheu sua companheira de chapa, como a dizer: “comigo não tem barganha”.

 

Até aqui, não se sabe quem serão seus candidatos ao Senado – são duas vagas – ou a deputado federal e estadual. Vejo que o pré-candidato não quer se comprometer com ninguém, não quer gastar com a campanha além do essencial e busca interlocução direta com o eleitor.

 

Esse estilo de fazer campanha será suficiente para consagrar uma vitória? Não sabemos, pois é a primeira vez que ele é testado no estado. Historicamente, quem mais se aproximou do “estilo Braide” foi Cafeteira em 1994.

 

Provocado pelos companheiros de viagem, comentei: — Rapaz, se ele conseguir o que pretende nesse formato de campanha, vou dizer que o cabra é macho. Um outro completou: — E bom. 

 

Como toda quinta série que se preza, seguimos viagem com a pilhéria do “macho e bom”.

 

Mas outubro é logo ali. Já, já saberemos quem vencerá seus gargalos.

 

Abdon C. Marinho é advogado.