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A fome, a doença, a ganân­cia e o crime.

Escrito por Abdon Mar­inho


A FOME, A DOENÇA, A GANÂN­CIA E O CRIME.

Por Abdon C. Marinho.

A FOME sem­pre me foi um tema per­tur­bador. Talvez ter sido cri­ado como “Deus cria batatas na beira do rio”, na inse­gu­rança da orfan­dade desde os cinco anos de idade, tenha influ­en­ci­ado neste sen­ti­mento.

Quando tra­bal­hei na Assem­bleia Leg­isla­tiva (1991÷1995) como chefe de gabi­nete do dep­utado estad­ual Juarez Medeiros, sem­pre me cha­gavam pedi­dos de toda ordem. Não sei se ainda é assim, mas no tempo em que a Casa do Povo fun­cionava na Rua do Egito e o acesso dos cidadãos era mais fácil, está­va­mos a dez met­ros de ser­mos sur­preen­di­dos com algum pedido. Uma indús­tria de ped­intes profis­sion­ais que viviam pas­sando de gabi­nete em gabi­nete ten­tando con­seguir alguma coisa.

Como chefe de gabi­nete, os pedi­dos chegavam para eu resolver, até já des­tiná­va­mos uma quan­tia todo mês com essa final­i­dade.

Certa vez, um cidadão que não con­hecia minha fama de pos­suir boa memória ten­tou aplicar-​me um golpe – e con­seguiu, ao menos em cinquenta por cento.

O indig­i­tado chegou no gabi­nete com uma con­versa “bonita”, porém, triste: pre­cisava ir a deter­mi­nado inte­rior porque sua mãe mor­rera naquele dia, que­ria o din­heiro da pas­sagem e ainda uma ajuda para o velório/​enterro.

Sen­si­bi­lizado diante de uma tragé­dia que con­hecia bem, não demorei a acudi-​lo, peguei o recurso do “fundo de reserva” e o ajudei.

Não se pas­saram seis meses – acred­ito que por ter­mos mudado de gabi­nete –, lá estava o mesmo cidadão diante de mim con­tanto a mesma história: — sabe, sen­hor, minha mãe mor­reu hoje, pre­ciso ir com urgên­cia para o velório, aju­dar no enterro, etc. Para ten­tar aumen­tar a empa­tia, ainda com­ple­tou: — sei que o dep­utado Juarez é uma pes­soa de bom coração, você é irmão dele, não é? Como gente feia é tudo pare­cida, na época cor­ria o boato que eu seria irmão do dep­utado.

Mal ter­mi­nou sua falação, o atal­hei: — meu amigo, não sei quan­tos pais você tem, se tem mais de um ou nen­hum, mas mãe só se tem uma e a sua, ajudei a “enterrá-​la” não tem seis meses.

O cidadão riu amarelo e saiu para ten­tar aplicar o golpe noutro gabi­nete ou para rua.

Já o mesmo tirocínio nunca tive quando o cidadão diz que pre­cisa de ajuda para com­prar comida, para si, ou para os fil­hos menores. Me “gan­ham” todas. Basta dizer: — oh, doutor saí de casa cedo a procura de tra­balho e não deixei nada para as cri­anças com­erem.

Muitas das vezes a con­versa tem “cara” de golpe, “cheiro” golpe e todos os demais pred­i­ca­dos de que se trata de um golpe, mas acabo “caindo”. Sem­pre penso: “e se for ver­dade, se de fato tem uma ou mais cri­ança pas­sando fome?”.

Agora com essa pro­fusão de redes soci­ais, méto­dos de paga­men­tos, os pedidos/​golpes vem pelo celu­lar e as trans­fer­ên­cias via pix.

Parto do princí­pio de que é prefer­ível ser o alvo dos pedi­dos de ajuda – golpes ou não –, do que pre­cisar da ajuda de out­rem.

Pois bem, feitas tais con­sid­er­ações, devo dizer – ou con­fes­sar –, que as ima­gens dos indí­ge­nas ianomâmis esquáli­dos, lit­eral­mente “mor­tos de fome”, já pas­sa­dos tan­tos dias desde que divul­gadas pela primeira vez, não me saem da cabeça.

São cen­te­nas – talvez mil­hares –, de indí­ge­nas mor­tos pela fome ou doenças cau­sadas por ela ou pela con­t­a­m­i­nação dos seus recur­sos nat­u­rais ren­ováveis. Crimes cometi­dos con­tra um povo que não poderão ficar impunes.

Nos últi­mos anos órgãos públi­cos, do próprio gov­erno, aler­taram aos man­datários eleitos para cuidar do povo, para o avanço dos garim­pos ile­gais em áreas indí­ge­nas.

Tais aler­tas apon­tavam para o acréscimo de mil­hares e mil­hares de hectares de garim­pos ile­gais. Out­ros aler­tas, para a con­t­a­m­i­nação dos rios pelo mer­cúrio e até mesmo para o fato dos indí­ge­nas já estarem mor­rendo em decor­rên­cia disso.

Não vejo como a Polí­cia Fed­eral terá difi­cul­dades em iden­ti­ficar os respon­sáveis, os lenientes e os omis­sos em tais situ­ações.

O INPE o IBAMA e out­ros órgãos, desde sem­pre aler­taram para o aumento do des­mata­mento, para o surg­i­mento de inúmeros garim­pos ile­gais e depois, out­ros órgãos, foram aler­tando para as con­se­quên­cias decor­rentes.

O que fiz­eram os “supos­tos” respon­sáveis? Demi­ti­ram os diri­gentes dos órgãos, proibi­ram a emis­são de mul­tas, proibi­ram o com­bate as ativi­dades ile­gais, “sucatearam” os órgãos públi­cos e fiz­eram pouco caso das con­se­quên­cias.

Foi assim desde o iní­cio do gov­erno que findou.

A cada denún­cia de crime ambi­en­tal cometido, uma enx­ur­rada de fake news para desqual­i­ficar os denun­ciantes – ainda que fos­sem infor­mações ofi­ci­ais de órgãos públi­cos, do próprio governo.

Agora mesmo, diante das ima­gens chocantes que mais se assemel­ham às fotografias em preto-​e-​branco tiradas nos abom­ináveis Cam­pos de Con­cen­tração da Segunda Guerra Mundial, ten­tam fazer pouco caso, igno­rar, dizer que são “índios impor­ta­dos da Venezuela”, poli­ti­zar e fin­gir que nada têm com o caso.

Agora mesmo, o site UOL traz a infor­mação de que doc­u­men­tos ofi­ci­ais já cobravam providên­cias para o Min­istério da Justiça e da Cidada­nia desde mea­dos de 2021 em relação a situ­ação nutri­cional dos povos indí­ge­nas. E não foi ape­nas uma única vez, mas diver­sas, e o que fiz­eram as autori­dades? Igno­raram.

E a denún­cia do site é mais grave: segundo ele (site), emb­ora sabendo o que se pas­sava o gov­erno “cor­tou” os ali­men­tos que dev­e­riam ser envi­a­dos aos povos ianomâmis.

Os respon­sáveis, as cadeias de comando dos crimes cometi­dos é de fácil com­preen­são e elu­ci­dação.

O que pre­cisa ser com­pro­vado de forma incon­tro­versa é se os atos crim­i­nosos cometi­dos con­tra os povos indí­ge­nas tiveram o propósito delib­er­ado de exterminá-​los, ou seja, se a ideia era come­ter o genocí­dio. Caso afir­ma­tivo, quem ide­al­i­zou, con­cor­reu, teve ati­tude comis­si­vas ou omis­si­vas em relação ao que estava acon­te­cendo.

Con­forme já ampla­mente divul­gado nos meios de comu­ni­cação, inúmeros “reli­giosos” com acesso aos cic­los do poder, “vagaram” por garim­pos ile­gais ofer­e­cendo van­ta­gens e cobrando qui­los de ouro em troca, fazendo o mesmo em relação a out­ros trâmites de gov­er­na­men­tais; é fato que nos últi­mos anos nen­huma ativi­dade ile­gal seja de des­mata­mento – em ter­ras indí­ge­nas ou não –, seja garim­pagem ile­gal, sofreu qual­quer repressão efe­tiva, tanto assim que cresceu mil­hares e mil­hares de vezes em ter­mos per­centu­ais; é fato, segundo o próprio gov­erno, que mais de um bil­hão de reais foram repas­sa­dos a enti­dades reli­giosas para ali­men­tar e cuidar da saúde dos índios e que medica­men­tos e ali­men­tos foram parar nos garim­pos ile­gais.

Não cabe qual­quer dúvida de que crimes (inúmeros) foram cometi­dos em decor­rên­cia da ganân­cia e que tiveram como con­se­quên­cia, as doenças, a fome e à morte de um povo,

Aos inves­ti­gadores caberá delim­i­tar a respon­s­abil­i­dade de cada um, o dolo de forma comis­si­vas e omis­si­vas dos vários agentes, públi­cos ou não.

O seg­redo é saber inves­ti­gar.

Aos que preferi­ram os “bez­er­ros de ouro” ao estrito cumpri­mento da palavra de Deus, a hora de prestar con­tas talvez chegue mais rápido do que pen­saram.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

Tem­pos de guer­ras, tem­pos de glória.

Escrito por Abdon Mar­inho

TEM­POS DE GUERRA, TEM­POS DE GLÓRIA.

Por Abdon C. Marinho*.

PAS­SA­DOS ALGUNS dias já me sinto à von­tade – e acred­ito ser dev­ido –, para com­par­til­har com os leitores que acom­pan­ham meus tex­tões há mais de uma década, uma exper­iên­cia que me mar­cou nos últi­mos dias, sobre­tudo, por ser uma primeira vez.

Desde muito cedo aprendi que a vida é uma guerra e que não podemos nos deixar abater diante das intempéries.

Longe de ser uma pes­soa frágil, considero-​me como as árvores da caatinga ou como o couro do “gibão” dos vaque­iros do sertão nordes­tino.

Acostumei-​me a ser assim: a não me deixar abater diante das difi­cul­dades ou a encon­trar graça ou motivo para piada onde os demais só enx­ergam tris­teza ou angús­tia.

Diante da pos­si­bil­i­dade de ter que fazer uso de uma cadeira de rodas para me deslo­car senti o “chão fal­tar”. Não foi a primeira vez, tam­bém, me senti mal quando os médi­cos da rede Sara de São Luís me recomen­daram o uso de uma ben­gala a cerca de duas décadas quando tive a segunda recidiva da poliomielite.

Agora, desta vez por imposição da neces­si­dade, deu-​se nova­mente, a mesma sen­sação de tris­teza e angús­tia quando tive, pela primeira vez, na vida tive que fazer uso de uma cadeira de rodas nos meus deslo­ca­men­tos.

Havendo a neces­si­dade de ir aten­der uma demanda na Paraíba e tendo o cliente exigido que fosse pes­soal­mente, não tive escolha: foi pegar fazer as malas, “pegar o Gua­n­abara”, e par­tir.

Con­forme já externei em tex­tos ante­ri­ores, atual­mente enfrento uma ter­ceira recidiva da poliomielite.

Há alguns anos, senti uma intensa fraqueza mus­cu­lar nos mem­bros infe­ri­ores e por último, tenho sen­tido que tornozelo dire­ito já não se encon­tra com a firmeza de out­rora, o resul­tado é que qual­quer sap­ato que use o pé vira, ou seja, o apoio na lat­eral do pé o que provoca dores inten­sas no tornozelo que para poupá-​lo evito car­regar qual­quer peso e o corpo tenta com­pen­sar forçando o uso da ben­gala o que tem provo­cado dores no cotovelo e ombro esquer­dos, lado em uso a ben­gala.

Há quase um ano que faço fisioter­apia pelo menos três vezes na sem­ana e tento man­ter uma rotina de exer­cí­cios diários. Essa neces­si­dade forçou-​me a mon­tar prati­ca­mente uma acad­e­mia com­pleta em casa.

Viagem inadiável é necessária aos negó­cios, sem pos­si­bil­i­dade de uma outra pes­soa ir no meu lugar, nada restava a fazer.

Com tan­tas “quizilas” já sabia que não teria qual­quer condição de per­cor­rer as lon­gas dis­tân­cias den­tro dos nos­sos aero­por­tos. É tudo muito longe. Os pré­dios públi­cos, tam­bém, são todos muito sun­tu­osos, difi­cul­tando ou inibindo o acesso de pes­soas com defi­ciên­cia ou mobil­i­dade reduzida.

Sobre tal situ­ação, aliás, se ainda não existe uma lei fed­eral, estad­ual ou munic­i­pal, é opor­tuno que se aprove uma garan­ti­ndo que todos os pré­dios públi­cos ou mesmo empre­sas pri­vadas man­ten­ham cadeiras de rodas disponíveis para as pes­soas com defi­ciên­cia ou mobil­i­dade reduzida. Você em algum órgão público ou mesmo empresa pri­vada e só avista os corre­dores a perder de vista e não encon­tra uma cadeira de rodas para facil­i­tar a vida do cidadão. Um hor­ror que cansa só de imag­i­nar.

Via­jei com o amigo Emer­son Pinto que já, ao com­prar as pas­sagens, infor­mou da neces­si­dade de sorte que ao chegar­mos no aero­porto de São Luís, assim como nos demais, já dis­puse­mos da cadeira de rodas para fazer os deslo­ca­men­tos inter­nos.

Muito emb­ora, exter­na­mente, tudo pare­cesse “cor­rer as mil mar­avil­has”, aprovei­tando para tirar fotos, reg­is­trar o momento, furar as filas e con­tar com o olhar com­pas­sivo das pes­soas e brin­cava com Emer­son enquanto ele empurrava a cadeira de rodas “pra cima e pra baixo” dizendo está­va­mos pare­cendo aquele filme Intocáveis, com François Cluzet e Omar Sy, que entrou em car­taz em 2011, inter­na­mente, nos vagares que só a mim perte­cem, estava “destruído”, lem­brava da primeira fase da pólio, quando os médi­cos diziam que não con­seguiria andar e que tive que apren­der a andar nova­mente; como tive uma infân­cia e ado­lescên­cia ativa ape­sar de todos os pesares, cor­rendo para todos lugares, par­tic­i­pando de quase todas as brin­cadeiras, pegando ônibus para ir para a escola ou fac­ul­dade (às vezes, até dando bico para acom­pan­har os cole­gas); depois veio a segunda recidiva impondo o charme cruel da ben­gala e agora, essa ter­ceira recidiva, impondo o uso da cadeira de rodas.

E agora, como será daqui pra frente, pre­cis­arei sem­pre de alguém para me acom­pan­har, pro­te­ger, levar aos lugares mais corriqueiros?

Difer­ente de um atleta – emb­ora insista em dizer que sou um –, que por um aci­dente ou uma outra cir­cun­stân­cia, tem que fazer uso de tal apoio, no meu caso é um pouco difer­ente, não sei o grau de seque­las que sobrarão desta vez.

Ten­ta­tiva me con­vencer que era momen­tâ­neo, que era dev­ido as dis­tân­cias a serem per­cor­ri­das e tan­tas out­ras des­cul­pas para jus­ti­ficar a situ­ação.

A tais angús­tias, somava-​se o fato da recidiva apare­cer jus­ta­mente nesta quadra em que estou implan­tando uma nova empresa que tem como ponto ful­cral a ideia de aju­dar tanta gente ou o fato de alcançar-​me jus­ta­mente quando decido colo­car o meu nome na dis­puta da vaga de desem­bar­gador pelo quinto con­sti­tu­cional, com lim­i­tações para vis­i­tar os cole­gas no inte­rior ou mesmo na cap­i­tal, sem lorde ir para o corpo a corpo nos vários colé­gios eleitorais.

No texto em que coloco-​me à dis­posição dos cole­gas na dis­puta pela vaga da advo­ca­cia já os alerto das difi­cul­dades que ter­e­mos e apelo para que cada um sinta-​se “dono” da “cam­panha” e con­siga os votos como para si próprio fosse.

Sem­pre que me deparo com tais situ­ações ou “prob­le­mas”, por assim dizer, fico me imag­i­nando que essa é mais uma guerra a ser enfrentada, como se Deus que creio estivesse, mais uma vez, tes­tando os lim­ites da minha resil­iên­cia e fé. Veio a pólio, a orfan­dade logo em seguida, a cri­ação como Deus cria batatas na beira do rio, a segunda orfan­dade, a segunda recidiva, a ter­ceira recidiva … o que mais?

Sou deten­tor de imensa fé em Deus. Tal cir­cun­stân­cia foi se cristal­izando ao longo dos anos quando pas­sei a perce­ber que os desafios que eram pos­tos diante de mim em cada etapa da vida, eram desafios para os quais estava pronto para encarar ou já pos­suía as condições necessárias para os seus enfrenta­men­tos. E, sem­pre com o máx­imo de dig­nidade, os enfrentei.

Não sei quan­tos desafios ainda terei pela frente, mas sei que tem­pos de guer­ras tam­bém podem ser tem­pos de glória.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

LULA REINA, BOL­SONARO AVANÇA DUAS CASAS.

Escrito por Abdon Mar­inho


LULA REINA, BOL­SONARO AVANÇA DUAS CASAS.

Por Abdon C. Marinho.

O BRASIL, segundo pesquisas abal­izadas, desponta como uma das nações mais polar­izadas no campo da política. Arrisco dizer que nem seria necessário pesquisa alguma pois essa é uma real­i­dade bem pre­sente por onde se passa, nos esta­dos, nas cidades, nas comu­nidades, ainda que peque­nas, nas empre­sas, repar­tições e den­tro dos lares.

Tal nível de polar­iza­ção faz com que opiniões ou análises políti­cas sejam tidas como pros­elit­ismo a favor de um ou con­tra outro e vice-​versa.

Esse estado de coisas leva à ignorân­cia ou a má-​fé – ou à ambas –, se se deparam com alguma opinião que con­trarie a sua “ide­olo­gia”. Um caldo de cul­tura que impede a leitura de opiniões dis­so­nantes das suas, fazendo com que se retroal­i­mentem a par­tir dos próprios (pré) con­ceitos ou a par­tir de ideias de um grupo bem exclu­sivo e con­cor­dantes com as suas.

Uma das car­ac­terís­ti­cas destes tem­pos de obscu­ran­tismo é colo­car deter­mi­na­dos autores em uma espé­cie de “índex” proibido.

Muito emb­ora essa seja uma prática da Idade Média dão um nome bem atual: “cancelamento”.

Faço tal reg­istro ape­nas para consignar que talvez tenha pas­sado desaperce­bido por muitos o alerta que fiz logo no iní­cio da pandemia.

Dizia naquela opor­tu­nidade – quando os desati­nos na con­dução da crise san­itária gan­hava corpo e termo “genocí­dio” se tor­nava cada vez mais pre­sente nos debates –, que, muito emb­ora o termo não se apli­casse à pop­u­lação brasileira como um todo, era per­feita­mente aplicável em relação ao trata­mento dis­pen­sado as povos indí­ge­nas, uma vez que se tratavam de gru­pos étni­cos menores.

Pon­tuando que o trata­mento inad­e­quado da pan­demia em relação a essas pop­u­lações pode­ria, sim, embasar uma con­de­nação do man­datário nacional, não ape­nas no Brasil, mas, prin­ci­pal­mente, nas cortes internacionais.

Com muito mais ênfase, inúmeras vezes, nas min­has análises, pontuei que o gov­erno do então pres­i­dente “tra­bal­hava” – não sei se por devaneios ou desvar­ios –, com per­spec­tiva de um golpe mil­i­tar que o entron­izasse no poder pelo tempo que achasse dev­ido.

Fiz tal análise política, acred­ito, pelo menos uma dúzia de vezes.

Inúmeras vezes, disse, tam­bém, que cog­i­tar ou ten­tar imple­men­tar uma ditadura mil­i­tar no Brasil em pleno século XXI era algo abso­lu­ta­mente sem nexo ou conexão com a real­i­dade mundial.

Em out­ras palavras, não havia “clima” para uma rup­tura insti­tu­cional e que ten­tar tal lou­cura seria con­duzir o país a uma guerra civil e a destru­ição da nação.

Entre muitas das análises sobre o cenário político escrevi um texto com o seguinte título: “Um can­didato entre o Planalto e a Papuda”, ilus­trava o texto uma charge col­hida da inter­net mostrando uma ampul­heta com o então pres­i­dente, na parte de cima, vestido de pres­i­dente, com faixa e tudo; e, na parte de baixo, já se for­mando no uni­forme de pre­sidiário.

Foi logo no iní­cio do processo eleitoral.

Soube que os “devo­tos” do ex-​presidente, sobre­tudo aque­les inca­pazes de enten­der, repito, que uma análise política “não é con­tra ou a favor de ninguém”, pois se o for, torna-​se pros­elit­ismo, “subi­ram” nas taman­cas de ódio e desejaram-​me o fogo do inferno pela eternidade.

O tempo – esse incon­testável sen­hor da razão –, pas­sou e com ele a certeza de que tudo (ou quase tudo) que afirmei (e que tenho afir­mado), eram ver­dades.

Com as sementes golpis­tas semeadas durante qua­tro anos – todas as vezes que ata­cou as insti­tu­ições, prin­ci­pal­mente, o Con­gresso Nacional, o Supremo Tri­bunal Fed­eral, a Justiça Eleitoral e o processo eleitoral –, após a der­rota nas urnas, no segundo turno, o man­datário entrou, para o público em geral, em uma espé­cie de mutismo, enquanto fazendo uso do que convencionou-​se chamar “apito de cachorro”, dire­ta­mente ou através de inter­postas pes­soas, insu­flava os seus seguidores a ocu­par as ruas, por­tas dos quar­téis mil­itares chamando para o golpe institucional.

Soube-​se, inclu­sive, de reuniões com os chefes mil­itares com tal intenção – tendo os mesmo se recu­sado a tal aven­tura –, e que o filho zero um fiz­era uma incursão espe­cial ao coman­dante do exército para sondá-​lo sobre tal pos­si­bil­i­dade, tendo sido rechaçado.

Prova maior de que engen­draram um golpe foi a min­uta do decreto com tal intenção apreen­dida pela Polí­cia Fed­eral na casa do ex-​ministro da Justiça – que se encon­tra preso.

Não sat­is­feitos com o fra­casso das ten­ta­ti­vas, por assim dizer, “insti­tu­cionais” do golpe, o pres­i­dente “foge” do país na antevéspera de pas­sar a “faixa”, após um dis­curso com lin­guagem cifrada, instando os seus “devo­tos” a con­tin­uarem as trata­ti­vas golpis­tas.

O ex-​ministro da justiça, agora feito secretário de segu­rança pública do Dis­trito Fed­eral, teve papel sig­ni­fica­tivo no triste evento de 8 de janeiro, quando deu-​se a bizarra ten­ta­tiva de “tomada do poder” pelo “povo”.

Ele (secretário) tomou posse, não desmo­bi­li­zou as forças de segu­rança pública (não fez isso soz­inho) e par­tiu de férias uma sem­ana após assumir o cargo, pre­tendendo com isso fazer crê que nada tinha com a patus­cada.

Mas é fato, sim, que tive­mos uma ten­ta­tiva de golpe, mas, como tudo que fiz­eram nos últi­mos anos, o golpe tam­bém era fake pois não tinha a menor chance de pros­perar.

Foi a der­radeira ten­ta­tiva de “con­vencer” as Forças Armadas a embar­carem na canoa furada do golpismo.

As cenas de van­dal­ismo e a certeza que se tem de quem engen­drou tal vex­ame, pro­duziu o efeito con­trário, dando ao pres­i­dente eleito com uma margem mín­ima de votos – a menor que temos notí­cia –, a legit­im­i­dade para que se sinta o “rei da cocada preta”, como se dizia na minha aldeia, e pas­sasse a gov­ernar como se não devesse nada a ninguém.

Como disse em um texto ante­rior, o atual gov­erno não teve iní­cio no dia primeiro, con­forme man­da­mento con­sti­tu­cional, ele começou, de fato, no dia 8 de janeiro, quando os atos “golpis­tas” o val­i­daram, dando-​lhe uma legit­im­i­dade que até então não tinha.

Foi ali, naquela ten­ta­tiva fake de golpe insti­tu­cional que o sen­hor Bol­sonaro avançou uma casa.

E vamos em frente.

Con­forme pontuei há quase três anos, os maiores diss­a­bores do gov­erno findo viriam da questão ambi­en­tal, notada­mente, da forma como con­duziriam a questão indígena.

Como a des­graça nunca nos decep­ciona – pois sem­pre vem pior do que se pode imag­i­nar –, as ima­gens de seres humanos, índios brasileiros, mor­tos ou mor­rendo de fome chocaram o mundo.

Muito emb­ora nada possa ou deva ser com­parado ao holo­causto judeu na Segunda Guerra Mundial, o que o gov­erno brasileiro fez com os ianomâmis só encon­tra para­lelo ao que a máquina de guerra nazista fez ao povo judeu – guardadas as dev­i­das proporções.

As ima­gens de cri­anças e adul­tos magér­ri­mos, só pele e osso, doentes, com enfer­mi­dades diver­sas, só se assemel­ham com as ima­gens do holo­modor, quando os comu­nistas soviéti­cos diz­imaram pela fome, mil­hares de ucra­ni­anos; ou grande fome chi­nesa ocor­rida depois da tomada do poder pelos comu­nistas de Mao Tse Tung, ocor­rida entre os anos de 1958 a 1961; ou maior de todas as tragé­dias, que foi o mor­ticínio de judeus, ciganos, homos­sex­u­ais, pela máquina de guerra nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Qual­quer cidadão brasileiro, com ver­gonha na cara, dev­e­ria sentir-​se pes­soal­mente ultra­jado pelo que o gov­erno brasileiro fez com os índios ianomâmis, uma ver­gonha, um hor­ror, uma bar­bárie, cujas ima­gens de fatos semel­hantes só encon­tramos em fotografias em preto e branco pois ocor­ri­dos antes do advento do “em cores”.

A nossa ver­gonha ocorre agora em pleno século XXI, em tem­pos de comu­ni­cação instan­tânea em todos os can­tos do país.

Como essa des­graça se deu? Quem são os responsáveis?

O Brasil não poderá ser con­sid­er­ado como um país sério se “pas­sar o pano”, tanto na bisonha ten­ta­tiva de golpe, como, prin­ci­pal­mente, na ten­ta­tiva geno­cida de elim­i­nação do povo ianomâmi.

Sim, a palavra genocí­dio, como disse há três anos, é cabível. Por ação ou omis­são – não foi ape­nas incom­petên­cia –, os gov­er­nantes brasileiros, pre­cisam ser respon­s­abi­liza­dos pelas cen­te­nas de mortes evitáveis daquele povo, pelo fato de tê-​los deix­a­dos para “mor­rerem” de fome, con­forme mostram, de forma incon­tável, as ima­gens, fotos, vídeos, etc.

A gravi­dade ímpar dos fatos não admite outra coisa senão a punição exem­plar de todos que con­cor­reram para o genocí­dio, inclu­sive, que sejam feitas prisões pre­ven­ti­vas – respei­tando o dev­ido processo legal –, dos respon­sáveis, antes que os mes­mos fujam para alguma ditadura amiga.

Ao meu sen­tir, não há paci­fi­cação pos­sível sem a punição dos crim­i­nosos.

O trata­mento da questão indí­gena ou a “solução final” dada a ela fez o sen­hor Bol­sonaro avançar a segunda casa.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.