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Um pân­tano das arábias.

Escrito por Abdon Mar­inho

UM PÂN­TANO DAS ARÁBIAS.

Por Abdon C. Marinho*.

SUS­PEITO – ape­nas sus­peito –, que mesmo os devo­tos mais ingên­uos do ex-​presidente já perce­beram que mito, em sen­tido fig­u­rado é “uma pes­soa ou um fato cuja existên­cia, pre­sente na imag­i­nação das pes­soas, não pode ser com­pro­vada; ficção”. É dizer, aquela pes­soa que a despeito de toda a vida pre­gressa foi “con­struída” como um cidadão de bem, bom pai de família, patri­ota, seguidor das leis e defen­sor da ética, efe­ti­va­mente é um mito, ou seja, não existe, é uma ficção.

Na história da nossa tão vilipen­di­ada República, não me recordo de nen­hum episó­dio envol­vendo um pres­i­dente no exer­cí­cio do cargo com con­tra­bando de jóias, com a uti­liza­ção da estru­tura pública, de Estado, para prática de crimes em série con­tra a nação brasileira.

Acho que nem mesmo a notória presidên­cia de Col­lor de Melo, com toda sua “lou­cura” chegou a tanto.

Inimag­inável que os generais-​presidentes, na longa noite da ditadura mil­i­tar que durou 21 anos, admi­tis­sem à incor­po­ração ao patrimônio pes­soal, um pre­sente dado por alguma nação ao pres­i­dente da república.

Há um episó­dio bem ilus­tra­tivo ocor­rido nos fins dos anos setenta, em que o penúl­timo general-​presidente, Ernesto Geisel, tomou con­hec­i­mento que um irmão seu rece­bera de pre­sente um veículo fusca de algum empre­it­eiro “doido” para agradar o poder.

O general-​presidente chamou-​o as falas: — e esse carro?

O irmão foi logo se expli­cando: — olha, foi um pre­sente, não pedi, não fiz nada por conta disso … mas se você quiser eu devolvo ime­di­ata­mente.

O general-​presidente: — que você vai devolver é algo que não se dis­cute. O que esta­mos tratando aqui é se você será preso ou não.

Vejam, um fusca, lá pelos fins dos anos setenta, dev­e­ria valer o cor­re­spon­dente hoje a 50 mil reais.

Não faz muito tempo a imprensa noti­ciou que o caçula do pres­i­dente gan­hara um veículo de uma marca qual­quer de uma empresa que tinha inter­esses em realizar negó­cios com o gov­erno pai, fun­cio­nando o filho como um “abri­dor de por­tas” nos min­istérios. Além do carro sabes de diver­sas out­ras van­ta­gens inde­v­i­das, divul­gadas à exaustão ou, de tão banais, igno­radas.

Não tive­mos notí­cias do pai-​presidente chamando o filho ou os fil­hos para dizer-​lhes que tais com­por­ta­men­tos eram incom­patíveis com o decoro do cargo que o pai ocu­pava.

São out­ras réguas a medi­rem o caráter e o decoro.

Meu pai, com sua sabedo­ria própria dos anal­fa­betos, cos­tu­mava dizer que só podíamos dar aquilo que tín­hamos.

Um pai sem moral não pode ensi­nar ou cobrar bons exem­p­los dos fil­hos.

Imag­ino que o gen­eral Geisel – aquele que deter­mi­nou a devolução ime­di­ata do pre­sente do irmão e ficou em dúvida dev­e­ria trancafia-​lo na prisão –, esteja a retorcer-​se no túmulo ao tomar con­hec­i­mento, do além, do caso de um ex-​capitão das forças armadas que chegou à presidên­cia da república e que rece­beu pre­sentes de ele­vadís­simo valor e, muito pior que isso, fez uso dos mil­itares que serviam a si e ao gov­erno para “con­tra­ban­dear” tais pre­sentes para o solo nacional, sem o paga­mento dev­ido dos trib­u­tos.

No caso em tela, o papel dos mil­itares brasileiros foi servir de “mulas” ao con­tra­bando.

Que triste papel.

O gen­eral deve perguntar-​se como con­seguiram chegar a tamanha degradação. Sim, as pes­soas que tiveram boa for­mação têm difi­cul­dades para come­ter ilíc­i­tos. Elas sabem que fazer a dis­tinção entre o certo é o errado.

No episó­dio dos pre­sentes ofer­ta­dos pelo dita­dor sau­dita, o almi­rante que chefi­ava à del­e­gação os rece­beu e, segundo o próprio, não procurou saber o que tinha nos pacotes. Os dis­tribuiu entre os mem­bros da del­e­gação que o acom­pan­hava para que os mes­mos os fizesse chegar ao des­tino: as mãos do pres­i­dente.

Um dos pre­sentes, no valor de quase meio mil­hão, chegou ao des­tino se se encon­tra com o pres­i­dente; o segundo foi apreen­dido pela alfândega.

O almi­rante das Forças Armadas, rece­beu os pacotes com os supos­tos pre­sentes e não per­gun­tou o que se tratava ou pediu qual­quer doc­u­men­tação para que apre­sen­tasse as autori­dades alfan­degárias brasileiras ou mesmo sau­di­tas, caso fosse per­gun­tado.

E, isso porque vin­ham em um voo de car­reira.

Ape­sar disso, o almi­rante não teve curiosi­dade ou procurou por alguma forma cumprir seu papel. E se fos­sem pacotes com dro­gas? E se fosse algum artefato radioa­t­ivo? Ou um corpo humano desmem­brado? Não deram sum­iço a um jor­nal­ista fazendo sumir seu corpo?

O almi­rante, sim­ples­mente, foi para o hotel e dis­tribuiu entre seus acom­pan­hantes, tam­bém mil­itares, os pacotes para que chegassem ao pres­i­dente.

Chegando ao Brasil, no aero­porto inter­na­cional, a comi­tiva, emb­ora tendo rece­bido pre­sentes que “descon­heciam o con­teúdo” não foi ori­en­tada a pas­sar pelo corre­dor dos que tem algo a declarar, mas sim, pelo con­trário, foi ori­en­tada a pas­sar pelo corre­dor do “nada a declarar”.

Pois bem, mas tendo um dos mem­bros da comi­tiva sido retido para ver­i­fi­cação da bagagem e se con­statando o valiosís­simo pre­sente, mais de 16 mil­hões de reais, com cer­ti­fi­cado de famosa joal­he­ria, o almi­rante ficou sabendo do que se tratava, mas, ao invés de infor­mar a alfân­dega que outro pacote con­tendo idên­tico pre­sente, ou chamado o outro inte­grante da comi­tiva que con­seguiu pas­sar sem ser molestado, nada disse ou fez, pelo con­trário, ten­tou foi lib­erar o pacote apreen­dido dizendo tratar-​se de pre­sente para a primeira-​dama.

Ora, um almi­rante, como sól­ida for­mação mil­i­tar e insti­tu­cional, diante de tal situ­ação não sabia que o seu com­pro­misso com a pátria era fazer o certo? Não sabia que era o caso de se aplicar o artigo 142 da Con­sti­tu­ição Fed­eral? Não con­hecem o artigo 142 de cor e salteado?

Ora, o artigo 142 diz que: “Forças Armadas, con­sti­tuí­das pela Mar­inha, pelo Exército e pela Aeronáu­tica, são insti­tu­ições nacionais per­ma­nentes e reg­u­lares, orga­ni­zadas com base na hier­ar­quia e na dis­ci­plina, sob a autori­dade suprema do Pres­i­dente da República, e destinam-​se à defesa da Pátria, à garan­tia dos poderes con­sti­tu­cionais e, por ini­cia­tiva de qual­quer destes, da lei e da ordem”.

Ao tomar con­hec­i­mento que nas baga­gens que estavam sob sua autori­dade con­tin­ham pre­sentes de alto valor e que dev­e­riam ser declar­a­dos à alfân­dega para incor­po­ração ao patrimônio nacional, não dev­e­ria ter chamado o outro inte­grante para que pas­sasse pela a alfân­dega e declarasse o outro pre­sente? Esse não é o com­por­ta­mento que se espera de alguém for­mado na mis­são de defender a pátria?

Pelo com­por­ta­mento demon­strado no episó­dio, sou ten­tado a acred­i­tar que o único lamento que deve ter exis­tido foi pelo fato da alfân­dega ter apreen­dido o pacote de maior valor (16 mil­hões) e não o outro avali­ado em meio mil­hão de reais.

O almi­rante Taman­daré deve ser outro que estar a revolver-​se no túmulo.

Na hora que o almi­rante e seus sub­or­di­na­dos mil­itares sou­beram o que con­tin­ham os pacotes e que acima de mil dólares dev­e­riam declarar e pagar o imposto ou preencher a guia de que per­tence­riam os bens a união e não fiz­eram isso, imag­ino que ten­ham se “desin­vesti­dos” do papel de defen­sores da pátria para investirem-​se no papel de con­tra­ban­dis­tas.

O pior estaria por vir. Com­pro­vando o inter­esse em apropriar-​se dos pre­sentes – pois se fosse para incor­po­rar ao patrimônio da união bas­taria preencher a guia própria, inclu­sive em relação ao outro “pre­sente” que entrou de forma clan­des­tina –, as maiores autori­dades do país, pres­i­dente da república, min­istros de Estado, pas­saram quase dois anos ten­tando desem­baraçar o con­tra­bando na base da pressão, sem pagar os impos­tos e sem preencher a guia de que o bem per­tence­ria a união, sendo que a última “investida” con­tra a alfân­dega deu-​se na antevéspera do ex-​presidente “fugir” do país.

Um fato rel­e­vante – não sei se ver­dadeiro –, que os envolvi­dos neste pân­tano chegaram a solic­i­tar que o “pre­sentes” apreen­di­dos fos­sem devolvi­dos ao doador.

Como assim? Não era mais fácil só incor­po­rar ao patrimônio da união? Ou a ideia de devolvê-​los seria para rece­ber por outra forma e em caráter pessoal?

Temos um pân­tano das arábias. Com diver­sas autori­dades do país aten­tando, de forma ver­gonhosa, con­tra os inter­esses nacionais.

Uma der­radeira per­gunta, para evi­tar qual­quer ques­tion­a­mento sobre a quem per­tence os pre­sentes apreen­di­dos se faz necessária: se o ex-​presidente não fosse o pres­i­dente no momento da doação, mas sim, um obscuro dep­utado escon­dido no fundão da Câmara dos Dep­uta­dos, ele rece­be­ria os pre­sentes de tamanha monta?

Se você acha que não então você sabe que os pre­sentes foram dados ao “pres­i­dente” e não a pes­soa e, por isso mesmo, perte­cem ao país.

O que ten­taram fazer, e feliz­mente não con­seguiram, foi pegar na “mão grande” algo que não lhes per­ten­ciam.

O código penal brasileiro deve ter alguma tipificação.

Cer­ta­mente, voltare­mos ao assunto.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

Um preto no teatro e o racismo no Brasil.

Escrito por Abdon Mar­inho


UM PRETO NO TEATRO E O RACISMO NO BRASIL.

Por Abdon C. Marinho*.

UMA FOTOGRAFIA. Vi a fotografia do amigo Soeiro (José Raimundo Pereira Soeiro), uti­lizada no seu per­fil de uma rede social ambi­en­tada no “nosso” teatro Arthur Azevedo. Quando ele me ligou para tratar de questões rela­cionadas aos tra­bal­hos que temos em comum, além de falar da sua cos­tumeira elegân­cia na foto de per­fil, comentei do alcance histórico que me des­per­tou aquela imagem, a ponto de moti­var a escr­ever um texto sobre o assunto.

Observei que a importân­cia histórica da sua pre­sença no teatro prendia-​se ao fato de, durante sécu­los, no Brasil – e, tam­bém, no mundo –, aque­les ambi­entes terem sido, essen­cial­mente, ambi­entes “bran­cos”.

Em out­ras palavras, em todo mundo, Brasil inclu­sive, o teatro sem­pre foi o “tem­plo cul­tural” da elite dom­i­nante, branca, empoada, abas­tada.

Pes­soas pre­tas no teatro, no máx­imo pas­savam na porta ou eram escal­adas para os serviços de limpeza, manutenção ou, quando muito, uma ponta em alguma peça, ence­nando os tipos des­ti­na­dos à cor da pele, como escravos, ser­vos ou empre­ga­dos domés­ti­cos dev­i­da­mente far­da­dos com uni­formes bran­cos.

As exceções, quando exis­tentes, ape­nas tin­ham ou têm o condão de jus­ti­ficar a regra.

Daí a importân­cia de se saudar e lou­var a pre­sença de um preto no teatro como plateia. Como um cidadão igual a todos os demais.

Na con­versa, Soeiro aproveitou para dizer-​me que fora ao teatro pres­ti­giar uma peça sobre a can­tora Alcione Nazaré, a nossa “mar­rom” e que, na peça, uma grande parte dos seus atores são negros.

Cer­ta­mente alguns leitores – ou não –, irão ques­tionar o fato de ter trazido para o tex­tão do fim de sem­ana a pauta do racismo. Alguns, até dirão, que estou sendo “racista” ao saudar como histórica a pre­sença de um preto no teatro, pois, não sendo o Brasil um país racista, qual o sen­tido da saudação ou “estran­hamento”?

O Brasil padece de alguns males, den­tre eles, a negação e/​ou o auto-​engano.

Uma negação ou auto-​engano, prin­ci­pal­mente, da parte de pes­soas que se dizem esclare­ci­das é essa, de negar o racismo exis­tente no país, inclu­sive, aquele racismo estru­tural, que “fun­ciona” como se fosse insti­tu­cional e que ten­tam escon­der ou escamotear todos dias como se ele não exis­tisse.

Certa vez um amigo me rela­tou que estando na acad­e­mia do con­domínio onde morava ainda recente, foi sur­preen­dido pela pre­sença do segu­rança no ambi­ente, suposta­mente, por está sem más­cara. Ele perce­beu, ainda que o segu­rança, que o con­hecia não lhe tenha dito, que na ver­dade aquela “viz­inha” achava que aquele ambi­ente não era para ele, que pode­ria ser “algum pen­e­tra” den­tro do con­domínio usando a acad­e­mia.

Tal situ­ação em muito se assemelha aquela de deter­mi­nada autori­dade, que, para dizer que não era racista, apre­sen­tou as empre­gadas domés­ti­cas de sua casa, pre­tas, como sendo “as donas da sua casa”.

Muitos podem até achar que não são racis­tas, mas ao tentarem colo­car as pes­soas den­tro de deter­mi­na­dos espaços soci­ais e de tra­balho estão sendo.

Ora, não sou racista mas acho muito estranho um negro na acad­e­mia do “meu” con­domínio; ou não sou racista, min­has domés­ti­cas são negras.

Mesmo o racismo que ocorre à vista de todos, como o caso daquela agressão de uma mul­her branca a uma mul­her preta, chamando-​a de fedida ou que seu cabelo “era ruim”, etc.; ou da outra preta que teve uma com­pra recu­sada em razão da dona da loja recusar-​se a vender a ela por conta de sua cor, além das diver­sas ofen­sas; ou os reit­er­a­dos casos ocor­ri­dos nos está­dios de fute­bol onde tor­ci­das orga­ni­zadas ou não agri­dem deter­mi­na­dos jogadores em razão da cor da sua pele, e tan­tos out­ros casos patentes de racismo.

Mesmo nesses exem­plo que des­per­tam repul­sam no momento em que ocor­rem, logo depois, começam a escamotear ou a “colo­car panos quentes” para livrar a cara dos racis­tas.

Durante muitos anos usaram o cam­inho da desqual­i­fi­cação do crime. Como o crime de racismo, nos ter­mos da Con­sti­tu­ição é impre­scindível e inafi­ançável, dizia-​se que os crimes, se ocor­ri­dos, teriam sido meras “injúria racial”, e diver­sos out­ros argu­men­tos de igual valia.

O Supremo Tri­bunal Fed­eral — STF, em boa hora, endure­ceu a inter­pre­tação, dando a tais crimes e a inúmeros out­ros o mesmo trata­mento, como no caso da homo­fo­bia, trans­fo­bia e tan­tos out­ros rela­ciona­dos à condição sex­ual da vítima.

Ape­sar disso – não sei se por conta da vis­i­bil­i­dade que os fatos pas­saram a ter com o advento dos celu­lares, inter­net, etc. –, não tem um dia, uma hora que não nos deparamos com um exem­plo de agressão racial ou em razão da condição sex­ual das pes­soas.

Vive­mos em uma sociedade doente em que tudo é motivo para descar­regar suas frus­trações e covar­dias. Quase sem­pre fazem isso con­tra pes­soas que jul­gam ser infe­ri­ores a elas ou que não dev­e­riam ocu­par o mesmo espaço que elas ou usando seus dis­cur­sos de ódio como fer­ra­menta de pro­moção pes­soal ou para gan­harem din­heiro. Sim, assim como existe um público de doentes que “con­somem” pornografia infan­til ou ped­ofilia, exis­tem o público con­sum­i­dor para os dis­cur­sos de ódio con­tra mul­heres, negros, judeus, homos­sex­u­ais, tran­sex­u­ais, etcetera.

O exem­plo de grande reper­cussão mais recente de dis­curso de ódio para fins políti­cos foi o pro­ferido por dep­utado fed­eral mineiro, o mais votado do Brasil, pro­ferido na Câmara dos Dep­uta­dos, no Dia Inter­na­cional da Mul­her, que, como dito acima, é tam­bém uma vítima pref­er­en­cial de uma série de vio­lên­cias.

No caso do dep­utado fed­eral, poder-​se-​ia ale­gar que sua vio­lên­cia con­tra os tran­sex­u­ais na tri­buna do par­la­mento é decor­rente de sua ignorân­cia por conta da pouca idade.

Na ver­dade, não é isso. O Brasil, nos últi­mos anos, tem vivido a cruel exper­iên­cia de cul­tuar diver­sos tipos de ódio pelos motivos mais banais, mas que ren­dem div­i­den­dos, sejam eles finan­ceiros, sejam eles políti­cos.

E retor­namos ao racismo explíc­ito ou estru­tural exis­tente no Brasil e que cor­rob­ora com a intenção de ganho finan­ceiro e/​ou político.

Ainda reper­cute na mídia, a oper­ação poli­cial que res­ga­tou cerca de 200 tra­bal­hadores de uma situ­ação análoga à escravidão.

Análoga é uma espé­cie de eufemismo para o que foi rev­e­lado. Soube-​se que os tra­bal­hadores eram man­ti­dos apri­sion­a­dos, sob sev­eras ameaças de morte e em condições abso­lu­ta­mente insalu­bres.

Destes tra­bal­hadores ficou-​se sabendo que mais 90% (noventa por cento) eram negros.

Vem cá, existe alguma difer­ença sig­ni­fica­tiva entre a real­i­dade destes tra­bal­hadores com a real­i­dade do régime escrav­ocrático vigente no país até 1888?

Ao meu sen­tir a difer­ença é que se pas­saram 135 anos desde a Abolição da escra­vatura, o que torna a prática, nos dias atu­ais, ainda mais abom­inável.

Mais infamante que as práti­cas relatadas acima, só mesmo o fato de haver pes­soas “do bem” cul­pando as víti­mas ou não fazendo qual­quer exame de con­sciên­cia sobre o ocor­rido, como fez o vereador do Municí­pio de Bento Gonçalves, ao tratar do assunto na tri­buna do par­la­mento munic­i­pal; ou os donos das viní­co­las muitas delas pre­mi­adas nacional e inter­na­cional­mente e estre­lasse pro­gra­mas de tele­visão, não dando “a mín­ima” para aque­las pes­soas que, com seu tra­balho, as colo­cam em destaque.

O Brasil pre­cisa se reen­con­trar com decên­cia. Não é con­ce­bível que ainda ten­hamos que con­viver com o racismo, com os pre­con­ceitos e com todo tipo de intolerância.

O respeito ao próx­imo dar-​se por sua condição humana (exten­siva, tam­bém aos ani­mais) e deve pre­ceder a todas as demais. Não é a cor da pele, o gênero, a condição física ou psi­cológ­ica, a condição sex­ual, etcetera que devem deter­mi­nar o espaço de cada um ou as opor­tu­nidades a serem dis­pen­sadas a eles.

Todos são iguais per­ante a lei, sem dis­tinção de qual­quer natureza, garantindo-​se aos brasileiros e aos estrangeiros res­i­dentes no País a invi­o­la­bil­i­dade do dire­ito à vida, à liber­dade, à igual­dade, à segu­rança e à pro­priedade, con­forme pre­ceitua a nossa Carta Magna no seu artigo 5º.

Por uma sociedade com mais igual­dade para todos.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

UM NOVO RECOMEÇO PARA O MARANHÃO

Escrito por Abdon Mar­inho


UM NOVO RECOMEÇO PARA O MARAN­HÃO.

Por Abdon C. Marinho*.

NUMA cidadez­inha pequena do nosso longíquo sertão nordes­tino, há muitos os dois gru­pos políti­cos se diglad­i­avam a cada eleição pelo comando da urbe. O grupo gov­ernista já havia per­dido as con­tas dos anos em que estava no poder.

Na oposição, emb­ora os can­didatos para a dis­puta se rever­sassem, con­tava com um “balu­arte” firme, que não arre­dava o pé. Estava sem­pre lá con­solando os der­ro­ta­dos e crit­i­cando o grupo gov­ernista.

Até que, quando ninguém mais acred­i­tava que pudessem vencer, a oposição sagrou-​se vito­riosa. Apu­ra­dos os votos é tida a vitória por inques­tionável, na casa do “chefe político” ou do prefeito eleito, a festa “troava”, muita comida, muita bebida e até mesmo um grupo de “forró de pé de serra” foi escal­ado para ani­mar a comem­o­ração que ameaçava não ter hora ou dia para acabar, depois de tão longo jejum.

Acabrun­hado em um canto da sala lá estava aquele velho “balu­arte” da oposição numa tris­teza de inco­modar a todos, a ponto de chama atenção até do can­didato eleito (pense numa coisa difí­cil de dar atenção depois de uma vitória). Mas, o “nosso” balu­arte, naquela tris­teza incô­moda, con­seguiu.

O eleito chegou pra ele para agrade­cer (outra coisa difí­cil de se vê): — muito obri­gado, meu com­padre. Vence­mos e parte dessa vitória deve­mos a você que sem­pre esteve firme, nunca arredou o pé da nossa luta é da nossa causa. Muito obri­gado, mesmo. Mas, me diga meu com­padre, por que você está tão triste depois de vitória tão bonita e sur­preen­dente quanto essa?

O velho balu­arte então respon­deu: —pois é, meu com­padre, final­mente vence­mos. E estou triste por causa disso, depois de anos jun­tos nessa luta con­struí­mos uma amizade e agora ter­e­mos que nos afas­tar pois o que eu sei mesmo fazer é oposição.

E foi para oposição tão logo o gov­erno ini­ciou.

Quem contou-​me, há décadas, a pre­sente história, com a riqueza de detal­hes que só os fatos verídi­cos pos­suem, foi o ex-​deputado Ader­son Lago. Deu os nomes dos per­son­agens e da local­i­dade onde passou-​se a nar­ra­tiva.

Dava-​se com o “balu­arte” oposi­cionista acima, basi­ca­mente o inverso do que ocorre com o nosso “cen­trão”, acos­tu­mado a ser gov­erno desde que Cabral por aqui chegou nos idos de 1.500, e de quem contaram-​me outra história deli­ciosa.

Rindo a não mais poderem, jor­nal­is­tas que “cobrem” a cena política nacional, relataram que logo depois da eleição ou da posse do novo gov­erno fed­eral, alguém indagou, em uma reunião de impor­tante leg­enda: — e aí pres­i­dente (citou o nome) vamos para o gov­erno? O pres­i­dente, que fora impor­tante min­istro do gov­erno der­ro­tado respon­deu: — não, vamos para oposição.

Com inco­mum sin­ceri­dade, outra lid­er­ança da leg­enda e que estava próx­imo obser­vou: — se vamos ficar na oposição ter­e­mos que fazer um curso inten­sivo rápido.

Um outro, com idên­tica sin­ceri­dade, acres­cen­tou: — sei não, mas sap­ato branco e oposição, acho que só fica bem nos out­ros.

As comen­taris­tas caíram na gar­gal­hada e eu mesmo, assistindo pos­te­ri­or­mente o pro­grama, não me con­tive no riso.

Narro as his­to­ri­etas acima para dizer – como faço ao longo dos anos –, que é desprovido do sen­ti­mento que nor­teou a vida do “balu­arte oposi­cionista” da primeira história e sem – nem de longe –, imag­i­nar que “sap­ato branco e oposição só fica bem nos out­ros” que traço as con­sid­er­ações sobre o “novo governo”.

O título, “um novo recomeço para o Maran­hão”, antes de ser um dis­curso ufanista é um chama­mento e um desejo.

Muito emb­ora o “novo” gov­erno seja uma con­tin­u­ação de um ini­ci­ado há quase um ano e, por derivação, do que se instalou em 2015, quero acred­i­tar que trata-​se de uma nova gov­er­nança, com um novo estilo de gov­ernar próprio, cor­re­lação de forças artic­u­ladas pelo próprio gov­er­nante e por aux­il­iares escol­hi­dos, na medida do pos­sível, para exe­cu­tar as políti­cas públi­cas imag­i­nadas e dese­jadas pelo atual gov­er­nador.

Por tudo isso, muito emb­ora já ten­hamos ultra­pas­sado a quadra car­navalesca, con­sidero que o novo gov­erno se ini­cia a par­tir de agora, da posse do novo sec­re­tari­ado e dos demais aux­il­iares, como “novo”.

A par­tir de agora, os acer­tos e erros, serão deb­ita­dos e cred­i­ta­dos na conta do atual gov­er­nador.

Achei alvis­sareira a ini­cia­tiva de empos­sar o sec­re­tari­ado na região tocan­tina, em Imper­a­triz, a nossa cap­i­tal do Maran­hão do Sul. Quiçá tal prática se torne uma rotina, que gov­erno e assem­bleia leg­isla­tiva deslo­quem, vez ou outra, suas ativi­dades para alguma região do estado, Bal­sas, Baca­bal, Barra do Corda, Timon, Cax­ias, Coroatá, Maraçacumé ou Zé Doca e tan­tos out­ros municí­pios com­por­tam tal “itin­erân­cia”.

Inte­ri­orizar as ações do gov­erno e dos poderes é uma neces­si­dade para tornar a ativi­dade gov­er­na­men­tal mais próx­ima dos administrados.

Claro que essa inte­ri­or­iza­ção não deve ocor­rer como uma espé­cie de “chegada das cortes por­tugue­sas”, tumul­tuando a vida das pes­soas e alterando suas roti­nas, mas de forma disc­reta e sem muitos cus­tos para o com­balido estado é pos­sível se fazer “presente”.

Nos anos de exper­iên­cia, aprendi que gov­ernar é con­duzir uma loco­mo­tiva em movi­mento. Inde­pen­dente do dia da sem­ana ou da data fes­tiva ou mesmo das posses de autori­dades, os prob­le­mas que recla­mam soluções estão ocor­rendo, o hos­pi­tal pre­cisa está aberto para rece­ber o paciente, o cura­tivo pre­cisa está à dis­posição, a merenda esco­lar pre­cisar chegar na hora do recreio das esco­las, a polí­cia pre­cisa ficar a pos­tos para evi­tar e com­bater a vio­lên­cia, os sindi­catos estão na outra ponta pres­sio­n­ando por mel­hores salários e condições de tra­balho – mas se aten­der o primeiro item já se dão por sat­is­feitos –, e por aí vai.

Quem assume um cargo público pre­cisa se doar e está preparado para “servir o público” todos os dias.

Outro dia, acho que na quinta-​feira, com pil­héria, um amigo aden­trou ao meu escritório e foi inda­gando: — ei, Abdon, não fos­tes con­vi­dado para tomar posse em alguma sec­re­taria do gov­erno lá em Imperatriz?

Sem perder o clima da piada e lem­brando da velha lição de Tan­credo Neves, respondi-​lhe: — rapaz, até o gov­er­nador me con­vi­dou, mas recu­sei, estou sem muito tempo, a saúde já não ajuda, achei mel­hor dec­li­nar. Rsrsrs.

Aproveita­mos para rir da situ­ação.

Mas, voltando ao assunto sério, sendo a gov­er­nança uma loco­mo­tiva em movi­mento, difi­cil­mente os execu­tores das ativi­dades “de ponta” têm o tempo necessário para pen­sarem muito além de man­ter a máquina fun­cio­nando, de man­ter o trem em movi­mento.

Como disse em tex­tos ante­ri­ores, acred­ito que o Maran­hão vive um bom momento, vive boas per­spec­ti­vas de futuro, são os por­tos, são as fer­rovias, é o pro­jeto aeroe­s­pa­cial, é tur­ismo nos vários pon­tos do estado, são os empreendi­men­tos agrí­co­las nas diver­sas regiões, etcetera.

E nem fale­mos da Zona de Expor­tação do Maran­hão — ZEMA, pro­jeto pelo qual o ex-​senador Roberto Rocha tanto se bateu nos últi­mos anos e que não pode ser deix­ado de lado ou esque­cido, ainda mais por “picuin­has” políti­cas.

Ainda espero que nos anos que me restam – e que serão muitos –, alcançar a nossa Baía de São Mar­cos com um movi­mento idên­tico à de Sin­ga­pura, ou de Hong Kong, ou Taiwan …

Daí ter achado de grande sig­nificân­cia a manutenção do ex-​governador José Reinaldo Tavares na sec­re­taria de pro­je­tos espe­ci­ais e, como já disse em outra opor­tu­nidade, tal sec­re­taria pre­cisa de mais “reforços int­elec­tu­ais e finan­ceiros” para fazer sair do plane­jado para a real­i­dade os grandes pro­je­tos que se desen­ham para o Maran­hão, fazendo com que os mes­mos se rever­tam em bene­fí­cio de todos os maran­henses e não como meros “enclaves econômi­cos”. O ex-​governador é a pes­soa certa, no momento certo, para tal mis­são.

Lá atrás, há uns trinta anos, quando o Ceará deixou de ser um “estadeco” de coro­néis e exper­i­men­tou grande desen­volvi­mento econômico, imag­inei o Maran­hão pode­ria seguir o mesmo cam­inho – o que ainda não acon­te­ceu.

O nosso estado é “uma anom­alia econômica” pois é ina­cred­itável que com tan­tos recur­sos nat­u­rais e uma posição geográ­fica única não tenha con­seguido romper as bar­reiras do atraso.

Esta­mos diante de uma nova grande opor­tu­nidade para o desen­volvi­mento do estado, os gov­er­nantes não têm o dire­ito de des­perdiçarem tal chance.

Que o novo gov­erno se torne, efe­ti­va­mente, “um novo recomeço para o Maranhão”.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.