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Todos con­tra Dallagnol?

Escrito por Abdon Mar­inho


TODOS CON­TRA DALLAGNOL?

Por Abdon C. Marinho*.

CHEGAVA a Pin­heiro, no começo da noite de terça-​feira, 16, quando fui alcançado pela notí­cia de que o Tri­bunal Supe­rior Eleitoral — TSE, dera provi­mento a recurso ordinário em pedido de reg­istro de can­di­datura para inde­ferir o reg­istro de Deltan Dal­lagnol, dep­utado fed­eral pelo Podemos-​PR.

Fora do habit­ual, por conta da eleição do quinto con­sti­tu­cional da Ordem dos Advo­ga­dos do Brasil, Sec­cional do Maran­hão — OAB/​MA, na qual con­corri e fui fragorosa­mente der­ro­tado pela segunda vez, deixei a Ilha no ferry-​boat das 16 horas, antes do resul­tado do cer­tame, mas a tempo de não chegar muito tarde na região do alto Turi, onde teríamos com­pro­mis­sos durante todo o dia.

As duas notí­cias chegaram jun­tas e antes mesmo que tivesse tempo de “lam­ber” as feri­das da der­rota no cer­tame da OABMA, os ami­gos já estavam querendo saber minha opinião sobre a cas­sação do Dal­lagnol ou instigando-​me a escr­ever sobre o assunto.

Muitos destes ami­gos, con­forme a própria incli­nação política, com a própria opinião ou “acórdão” for­mado à espera de um aval da minha parte.

Segundo os lulis­tas, o TSE agiu na estrita obe­diên­cia da Lei da Ficha Limpa (LC 1352010), sendo o pedido de reg­istro inde­ferido com justiça.

Já para os bol­sonar­is­tas, aquela corte, notada­mente o min­istro Bened­ito Gonçalves, rela­tor do acórdão, agira como o menino baiano da piada muito pop­u­lar, segundo a qual o baian­inho grita para a mãe: — mãi­inha, mãi­inha, temos remé­dio para pic­ada de cobra? —por que, menino? Você foi pic­ado? Per­gunta à mãe. Ao que o guri responde: — não, mãi­inha, mas a cobra já está vindo acolá, na minha direção.

Ainda segundo esses críti­cos, inclu­sive, alguns juris­tas reno­ma­dos, o TSE teria apli­cado uma penal­i­dade com base no “nada jurídico”, na suposição do que pode­ria vir a acon­te­cer.

Algo bem assemel­hado ao que assis­ti­mos no filme Minor­ity Report — A Nova Lei, clás­sico de 2002, dirigido por Steven Spiel­berg e tendo Tom Cruise como pro­tag­o­nista. No filme, para os que não lem­bram, um depar­ta­mento espe­cial­izado da polí­cia chamado “Pré-​Crime” prende as pes­soas basea­dos no con­hec­i­mento prévio fornecido por três videntes de que aque­las pes­soas come­te­riam crimes no futuro.

Para estes críti­cos a Corte Eleitoral se afas­tou do expresso comando legal pre­visto na Lei Com­ple­men­tar nº. 64/​1990, com as alter­ações trazi­das pela LC 1352010: “q) os mag­istra­dos e os mem­bros do Min­istério Público que forem aposen­ta­dos com­pul­so­ri­a­mente por decisão san­cionatória, que ten­ham per­dido o cargo por sen­tença ou que ten­ham pedido exon­er­ação ou aposen­ta­do­ria vol­un­tária na pendên­cia de processo admin­is­tra­tivo dis­ci­pli­nar, pelo prazo de 8 (oito) anos”.

Em uma nação polar­izada entre o “nós con­tra eles” com o clima de “fla-​flu” na final de campe­onato brasileiro, dire­cio­nando as emoções, faz-​se necessário um pouco de água na fer­vura ou, como diziam os anti­gos, “nem tanto aos céus, nem tanto à terra”.

Sou advo­gado há mais de vinte e cinco anos e com atu­ação no ramo do dire­ito eleitoral há mais trinta (tendo ini­ci­ado a fre­quên­cia assí­dua ao TRE/​MA nas eleições de 1992, como estag­iário), o que me obriga a ten­tar enten­der as decisões dos tri­bunais – ainda que delas dis­corde, sem os aço­da­men­tos das mil­itân­cias políti­cas –, sobre­tudo, quando elas são unân­imes.

A Justiça Eleitoral é uma justiça espe­cial­izada cri­ada por decreto, em 1932.

Desde então inte­gra a estru­tura judi­ciária brasileira com rel­e­vantes serviços presta­dos a nossa democ­ra­cia. Por sua natureza, nos ter­mos da Con­sti­tu­ição, art. 119, é com­posto por, no mín­imo, sete juízes, sendo três, den­tre os min­istros do Supremo Tri­bunal Fed­eral — STF; dois, den­tre os min­istros do Supe­rior Tri­bunal de Justiça — STJ; e dois, por nomeação do Pres­i­dente da República, den­tre seis advo­ga­dos de notável saber jurídico e idonei­dade moral, indi­ca­dos pelo STF.

Vejam que são sete jul­gadores (na atual com­posição: seis homens e uma mul­her) vin­dos de tri­bunais dis­tin­tos e da advo­ca­cia, ori­un­dos de esta­dos difer­entes da fed­er­ação, escol­hi­dos para seus tri­bunais de origem por pres­i­dentes diver­sos, den­tre os quais, três escol­hi­dos pelo ex-​presidente Bol­sonaro, um do STF e os dois juris­tas, e den­tre os seis, nen­hum deles opôs qual­quer reparo, ou pediu vis­tas para mel­hor exam­i­nar, ou dis­cor­dou, ainda que pon­tual­mente, do voto do rela­tor, Bened­ito Gonçalves, rela­tor do processo.

Estavam jul­gando o reg­istro de can­di­datura de um dep­utado fed­eral, con­hecido e recon­hecido nacional­mente por seu tra­balho como mem­bro do Min­istério Público no com­bate à cor­rupção e como “líder” da Oper­ação Lava Jato, que teve a maior votação (344.917 votos) para o cargo em que con­cor­reu no Estado do Paraná.

Mesmo assim, como dito acima, nen­hum dos demais jul­gadores teve qual­quer dúvida ou fez qual­quer objeção ou mesmo pediu vis­tas para exam­i­nar mel­hor o processo, emb­ora, sem nada a ver, nem mesmo aque­les juízes indi­ca­dos pelo ex-​presidente Bol­sonaro, encon­trou dúvida ou viu obstácu­los que os impedis­sem de acom­pan­har o rela­tor do processo no seu voto, o que afasta a ideia de que o min­istro Bened­ito Gonçalves seria o menin­inho baiano que avis­tou a cobra acolá e induziu que seria pic­ado por ela; ou o Tom Cruise do filme Minor­ity Report, chefe do depar­ta­mento de Pré-​Crime, pren­dendo os crim­i­nosos antes dos crimes serem cometi­dos; ou mesmo alguém que age com base na con­ju­gação dos ver­bos no futuro do pretérito.

A propósito, o min­istro Gonçalves é car­i­oca.

Bem difer­ente das con­tro­vér­sias surgi­das a pos­te­ri­ori, o jul­ga­mento deu-​se na tran­quil­i­dade de uma noite de natal em maio, com todos os jul­gadores con­cor­dando com o voto do rela­tor, e o jul­ga­mento se encer­rando em menos de dez min­u­tos.

Ora, cas­sar o reg­istro de um dep­utado fed­eral, pes­soa pública recon­hecida nacional­mente, mais votado no seu estado – e, em decor­rên­cia disso, torná-​lo inelegível por oito anos –, sem um mísero fiapo de dis­cordân­cia, como pode?

Obriguei-​me a fazer uma leitura min­u­ciosa do voto do min­istro Gonçalves. Ele tem 37 pági­nas, das quais, 4 pági­nas são con­sum­i­das só com a ementa.

Um jul­ga­mento tão rel­e­vante, capaz de des­per­tar tan­tas paixões e com uma matéria tão con­tro­ver­tida, para ser con­cluído em menos de dez min­u­tos imag­ino (só imag­ino) que o voto tenha sido dis­tribuído antes aos demais jul­gadores (que con­cor­daram, imag­i­nação minha, mais uma vez), deixando para o jul­ga­mento, pro­pri­a­mente dito, ape­nas a leitura da ementa, isso é comum.

Se isso, de fato, ocor­reu, sig­nifica que mesmo con­hecendo o voto ante­ci­pada­mente, nen­hum dos jul­gadores viu motivo para dis­cor­dar do rela­tor.

Em lin­has gerais, a cas­sação do reg­istro de Deltan Dal­lagnol deu-​se com base no dis­pos­i­tivo já referido acima (art. 1º, I, q, da LC 6490), tendo o TSE enten­dido, de forma unân­ime, que ele (Deltan) ten­tou frau­dar a “lei da ficha limpa”, ante­ci­pando o pedido de afas­ta­mento do Min­istério Público Fed­eral quando encontrava-​se na eminên­cia de ter con­tra si proces­sos admin­is­tra­tivos dis­ci­pli­nares (PAD’s) aber­tos.

Diz o rela­tor: “é inequívoco que o recor­rido, quando de sua exon­er­ação a pedido, já havia sido con­de­nado às penas de advertên­cia e cen­sura em dois proces­sos admin­is­tra­tivos dis­ci­pli­nares fin­dos, e que, ainda, tinha con­tra si 15 pro­ced­i­men­tos diver­sos em trâmite no Con­selho Nacional do Min­istério Público (CNMP) para apu­rar out­ras infrações funcionais”.

Mais adi­ante, após citar o Tratado de Dire­ito Pri­vado de Pontes de Miranda – e qual­quer voto que cite Pontes de Miranda merece respeito –, afirma: “Em out­ras palavras, o objeto da con­tro­vér­sia em apreço não é, como quer fazer crer o recor­rido, a pos­si­bil­i­dade ou não de se con­ferir inter­pre­tação amplia­tiva ao termo “processo admin­is­tra­tivo dis­ci­pli­nar”. O que aqui se tem é uma con­duta ante­rior e con­trária ao Dire­ito para evi­tar a instau­ração desses proces­sos, ou seja, fraude à lei”.

O voto do min­istro Gonçalves é muito bem fun­da­men­tado – e nisso reside uma das belezas do dire­ito –, não se trata de algo ter­a­tológico como muitos tem divul­gado, trata-​se de um voto con­sis­tente – tanto assim que con­tou com o apoio unân­ime dos seus pares –, e que difi­cil­mente será rever­tido.

Para os fiéis devo­tos da Lei da Ficha Limpa, entre os quais o próprio Deltan Dal­lagnol, temos ela aí na sua mais fiel con­cepção, como, aliás, declarou, já a respeito deste mesmo processo, um dos seus ide­al­izadores.

Não sei se cabe aqui qual­quer juízo de valor, se foi justo ou injusto o jul­ga­mento – ainda mais quando temos tan­tos cor­rup­tos nos mais ele­va­dos car­gos em todas as instân­cias da República –, mas, sim, se houve o amparo legal na decisão Corte.

Na esteira do voto que li – e que salvei para uti­lizar em situ­ações futuras –, a Lei da Ficha Limpa entra em um novo está­gio, e, diante disso, sim, houve amparo jurídico na decisão.

Não sei se isso é motivo para fes­te­jar ou nos inqui­etar­mos.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

P.S. O jul­ga­mento de Deltan Dal­lagnol, pela sua com­plex­i­dade jurídica, soci­ológ­ica e política é algo que deman­dará out­ros tex­tões. Cer­ta­mente, voltare­mos a ele.

O fra­casso de todos nós.

Escrito por Abdon Mar­inho

O FRA­CASSO DE TODOS NÓS.

Por Abdon C. Marinho*.

SEXTA-​FEIRA, 5 de maio, o expe­di­ente já ia avançado (uma vez que ini­ci­ado por vota das sete horas) quando recebo uma lig­ação: — doutor Abdon, é o Gil, do PDT, o sen­hor pode me rece­ber? Chamado pela curiosi­dade, respondi-​lhe: — tudo bem, daqui a uma meia hora ou quarenta min­u­tos estarei livre, pode pas­sar no escritório.

Con­tin­uei a cuidar dos afaz­eres, aten­dendo um e outro e vendo out­ros assun­tos rela­ciona­dos aos múlti­p­los tra­bal­hos até que o rapaz chegou. Após alguns min­u­tos de con­versa – que a curiosi­dade fez pare­cer mais lon­gos –, veio a infor­mação sobre o real motivo da visita: — doutor, hoje é o Dia Nacional do Líder Comu­nitário, durante toda a sem­ana o par­tido fará ativi­dades rela­cionadas ao tema, cul­mi­nando com algu­mas palestra no ence­ra­mento da sem­ana, na próx­ima sexta-​feira, con­ver­sei com o líder do par­tido, com o pres­i­dente estad­ual, out­ras lid­er­anças par­tidárias e con­cor­damos que o seu nome é impor­tante para uma das palestras do evento. Além das lid­er­anças comu­nitárias da ilha, con­tare­mos com a pre­sença de lid­er­anças de out­ras partes do estado.

Emb­ora sur­preso e sur­preen­dido com o con­vite, disse-​lhe que ten­taria remane­jar ou pedir para um colega fazer uma audiên­cia suposta­mente mar­cada para o dia da palestra, mas que faria o pos­sível para com­pare­cer ao evento, con­fir­mando ainda naquele dia minha par­tic­i­pação.

Após sua saída e durante toda a sem­ana fiquei pen­sando no que pode­ria dizer aos líderes comu­nitários do PDT.

É bem ver­dade que desde cheguei na Ilha do Maran­hão, em 1985, tenho par­tic­i­pação na vida da comu­nidade. Já naquele ano, ao ingres­sar no ensino médio, no Liceu Maran­hense, e com a recolo­cação dos movi­men­tos estu­dan­tis na legal­i­dade, fun­damos os grêmios estu­dan­tis do Liceu, da Escola Téc­nica, do Gonçalves Dias, do Barce­lar Portela; ini­ci­amos as trata­ti­vas, na Casa do Estu­dante, na Rua do Pas­seio, para a fun­dação das enti­dades estu­dan­tis no âmbito munic­i­pal e estad­ual.

Para­le­la­mente a isso, par­tic­i­pamos da orga­ni­za­ção das enti­dades comu­nitárias de toda área do Turu, do con­junto habita­cional, Div­inéia, Santa Rosa, Mir­i­tiua, Sol e Mar, Litorânea, etc.

Depois, nos anos seguintes, a luta pela con­sti­tu­inte, os debates políti­cos para que a mesma rep­re­sen­tasse os anseios do povo; o movi­mento estu­dan­til uni­ver­sitário; a par­tic­i­pação já den­tro do Par­tido Social­ista Brasileiro — PSB (onde filiei-​me em 1991 e saí no final de 2021), por mais democ­ra­cia, por uma sociedade mais justa, por mel­ho­ria nas condições de saúde, edu­cação, sanea­mento básico, acesso aos dire­itos humanos fun­da­men­tais, fim da vio­lên­cia no campo, con­tra a cor­rupção e tan­tas out­ras pautas.

Nos últi­mos anos, mas pre­cisa­mente, desde 2010, minha par­tic­i­pação, mais efe­tiva, tem sido através dos arti­gos que escrevo, das min­has crôni­cas de finais de sem­ana, nem sem­pre com­preen­di­das, mas cujo o obje­tivo é chamar a atenção para os reais prob­le­mas brasileiros e do estado.

Pas­sei a sem­ana pen­sando sobre o que falaria aos pede­tis­tas, no encon­tro mar­cado para o dia 12, na histórica sede da Rua dos Afo­ga­dos.

Não cheguei a uma con­clusão ou pauta. Alguém do par­tido ligou para per­gun­tar sobre o assunto que falaria e se pre­cis­aria de algum suporte, disse-​lhe que o micro­fone seria sufi­ciente e que faria uma abor­dagem sobre os movi­men­tos pop­u­lares, sem entrar em detal­hes. Pen­sei em falar das min­has exper­iên­cias.

Nos dia e horário apraza­dos cheguei à histórica sede do par­tido, no cen­tro da cap­i­tal, para a palestra com­bi­nada sem saber, até aquele momento, que tipo de abor­dagem faria sobre assunto pro­posto. Emb­ora ten­ham me ofer­e­cido uma sala para ficar enquanto os líderes do movi­mento fariam a aber­tura do evento, preferi ficar no auditório.

Foi ao ouvi-​los, naquela meia hora, que defini a abor­dagem que daria ao tema.

Os primeiros comu­nitários ao falar, colo­caram as difi­cul­dades que enfrentam no dia a dia por mais edu­cação, por creches onde as mães pos­sam deixar os fil­hos em segu­rança para poderem tra­bal­har e assim con­quis­tar a igual­dade de gênero, por trans­porte público de qual­i­dade, por saúde, as difi­cul­dades que os cidadãos enfrentam por um trata­mento médico de qual­i­dade, por medica­men­tos e até mesmo, na hora da morte, para con­seguirem aviar um caixão ou o custeio de um enterro para uma pes­soa mais neces­si­tada – quase toda a pop­u­lação do estado.

Chamado ao cen­tro da mesa para minha exposição de quarenta min­u­tos (que depois foi esten­dida para muito além), come­cei por dizer-​lhes da minha ale­gria de, nova­mente, par­til­har de um momento de debates políti­cos sobre os assun­tos rela­ciona­dos ao nosso estado e as pau­tas políti­cas que afligem o Brasil e por ver­i­ficar em um auditório lotado, o vivo inter­esse, prin­ci­pal­mente dos mais jovens, em debater tais assun­tos.

Em seguida disse-​lhes que as min­has palavras seguintes seriam de des­cul­pas por ter­mos fra­cas­sa­dos mis­er­av­el­mente na mis­são que nos incumbi­mos lá atrás: de deixar­mos para as ger­ações seguintes um estado com out­ras pau­tas, pois ali, está­va­mos dis­cutindo, naquela manhã, aque­las mes­mas pau­tas de quarenta anos.

E pior – o que realça ainda mais o nosso fra­casso –, esta­mos dis­cutindo as mes­mas pau­tas, por mais saúde, mais edu­cação, mais dire­itos soci­ais, mais sanea­mento, mais trans­porte público de qual­i­dade, mais dig­nidade humana para os cidadãos, sem qual­quer con­sciên­cia crítica.

Quando lutá­va­mos por estas mes­mas coisas em mea­dos dos anos oitenta e noventa, tín­hamos acabado de sair de uma ditadura, onde, sequer, se podia opinar, onde a crítica era con­sid­er­ada ofensa.

Dizia a eles que con­tin­u­amos com as mes­mas pau­tas e sem con­sciên­cia crítica porque fes­te­jamos que mesmo os gov­er­nos que elege­mos para mudar a real­i­dade do estado e do país, tratem a dis­tribuição de ces­tas bási­cas, pro­gra­mas assis­ten­ci­ais e/​ou de dis­tribuição de renda como políti­cas públi­cas, ao invés de ter­mos tais coisas (necessária, é ver­dade) como a prova de que fra­cas­samos na mis­são de dar­mos uma vida digna aos cidadãos, para que estes não pre­cisem mendi­gar por uma cesta básica, um bene­fí­cio ou se humil­har nas datas históri­cas para rece­ber um ou dois qui­los de peixe.

Dizia-​lhes mais: os gov­er­nos estad­u­ais que elege­mos, os dois anos do PDT, com Jack­son Lago; os quase oito do PCdoB, com Flávio Dino; e este que agora ini­cia do PSB (par­tido onde estive por trinta anos), com Car­los Brandão, além de não revert­erem as pau­tas de décadas – ou por falta de tempo ou de visão –, “nor­malizaram” como mérito aquilo que dev­e­ria nos enver­gonhar.

Mostrava-​lhes que é assim, por exem­plo, com as “inau­gu­ração de ces­tas bási­cas”, pois é, temos isso, as autori­dades sobem no palanque, erguem a cesta básica e dizem que irão dis­tribuir mil­hares delas aos fam­intos; ou com as inau­gu­rações de restau­rantes pop­u­lares, onde as autori­dades, só fal­tavam (falta?) con­tratar banda de forró, para fes­te­jar o fato de aque­les cidadãos que não têm o que comer poderão se ali­men­tar bem com um real ou o que o valha.

Dizia aque­les jovens líderes comu­nitários, que enten­dessem bem, não estava crit­i­cando um ou outro pro­grama, pois con­hecendo cada palmo do estado, sei que são necessários, mas sim o fato de esta­mos “can­tando” van­tagem ou com “gabo­l­ice” encima dos nos­sos fra­cas­sos.

Dizia que tal situ­ação muito me lem­brava ati­tude de deter­mi­nado secretário de estado de um gov­erno ante­rior que diante da agudeza da falta d’água na cap­i­tal, pois em “revista” dezenas de carros-​pipas para “resolver” o prob­lema.

Pois, em ver­dade, o que cidadão quer é não pre­cisar de uma cesta básica ou de ficar ao sol de meio-​dia na fila do restau­rante pop­u­lar para se ali­men­tar a um real, ele quer é tem sua própria renda, sua própria dig­nidade, para com­prar ou pro­duzir seu sus­tento e acen­der o fogão da sua casa três ou qua­tro vezes por dia para fazer sua comida.

O que cidadão anseia é por não ter que deixar sua família para ser explo­rado como mão de obra escrava nos out­ros esta­dos da fed­er­ação.

Essa é a grande con­tradição que pre­cisamos reverter: os gov­er­nos estad­u­ais ou fed­eral – ape­nas esta­b­ele­cido o marco/​corte de 1985, por conta da rede­moc­ra­ti­za­ção do país –, a despeito de ter­mos uma con­sti­tu­ição cidadã, não ape­nas não nos garan­ti­ram os dire­itos bási­cos, pelos quais luta­mos há quase quarenta anos, como “empurrou” a pop­u­lação para aceitar viver de esmo­las.

No Maran­hão tal real­i­dade é ainda mais pre­sente pois a “nor­mal­iza­ção das pau­tas menores” não des­perta a revolta de quase ninguém (ou aque­les que se revoltam se calam).

Um outro exem­plo disso, citado na palestra com os pede­tis­tas, foi assi­s­tir­mos um gov­erno inteiro mobi­lizado (desde secretários, adjun­tos, dep­uta­dos, prefeitos e toda sorte de gente) em torno da escolha, pela cat­e­go­ria dos advo­ga­dos, de um rep­re­sen­tante para com­por o TJMA.

Foram sessenta dias (e con­tinua) de movi­men­tação para que o escol­hido ou a escol­hida seja da prefer­ên­cia dos “donos do poder”.

E eu me per­gunto: qual a relevân­cia de tal fato para os inter­esses maiores do estado? Para as políti­cas públi­cas, tão necessárias, para o nosso povo? Nen­huma, pelo con­trário, abre-​se um prece­dente gravís­simo para a nossa democ­ra­cia. Em out­ras palavras, é uma ver­gonha.

Há um ano, escrevi um texto inti­t­u­lado “O fra­casso da ger­ação Pira­pora”, em alusão ao local onde ini­ci­amos tan­tas lutas pelo nosso estado.

As palavras ali con­ti­das e as pro­feri­das por ocasião do debate com os líderes comu­nitários do PDT, não terão qual­quer eco, ninguém se impor­tará com elas, mas fica o reg­istro de alguém que não se con­for­mou e não se con­forma com esse tipo de coisa, alguém que tem con­sciên­cia que fra­cas­samos.

Abdon C. Mar­inho é advogado.

O desafio da eleição virtual.

Escrito por Abdon Mar­inho


O DESAFIO DA ELEIÇÃO VIRTUAL.

Por Abdon Clementino de Marinho*.

TRÊS ANOS está­va­mos em plena pan­demia. Aten­dendo as recomen­dações san­itárias, em 17 de março daquele ano sus­pendi as ativi­dades pres­en­ci­ais no escritório e me isolei no sítio, na zona rural de São José de Riba­mar, onde moro desde o ini­cio dos anos 2000.

Nos cem dias de solidão (uma refer­ên­cias a uma obra clás­sica), no iso­la­mento imposto pela neces­si­dade e pelo receio de ser acometido pela COVID, ten­tei man­ter, na medida do pos­sível, alguma rotina: lev­an­tar, tomar café, fazer alguma ativi­dade, como ali­men­tar os peixes, “dar expe­di­ente” no escritório que man­tenho em casa; ao meio dia par­ava para almoçar, des­cansar um pouco após o almoço e retomar o expe­di­ente até as 17 horas, quando par­ava nova­mente para ali­men­tar os peixes e andar um pouco pelo sítio.

Além de reforçar o hobby da escrita, leitura e ouvir música, “inven­tei” uma outra ativi­dade: criei um pro­grama de debates pela inter­net para tratar os assun­tos do nosso estado e do país, era o que chamei “segunda opinião”.

Naque­las segundas-​feiras solitárias em que tinha na inter­net uma “janela” de comu­ni­cação com o mundo exte­rior, bati lon­gos papos com diver­sos ami­gos, com­pan­heiros de jor­nadas; dis­cu­ti­mos assun­tos da política, do cotid­i­ano, a respeito da pan­demia e das eleições, uma vez que 2020 teríamos – como de fato tive­mos –, eleições munic­i­pais, ainda que com algum atraso.

O entre­vis­tado da segunda-​feira, 11 de maio de 2020, na live sobre as eleições munic­i­pais de 2020, foi o colega Daniel Blume, con­sel­heiro da Ordem dos Advo­ga­dos do Brasil — OAB e ex-​juiz eleitoral do TRE/​MA, na cat­e­go­ria de juris­tas.

O colega apre­sen­tara recen­te­mente (em 2020) à OAB uma pro­posta de eleições vir­tu­ais ou seja, pela inter­net, sug­erindo que tal pos­si­bil­i­dade fosse dis­cu­tida pelo Con­gresso Nacional.

Na live/​entrevista/​bate-​papo con­ver­samos sobre a via­bil­i­dade de tal pro­posta em um país que ainda enfrentava e, ainda, enfrenta, o desafio de se com­bater as fraudes eleitorais man­i­fes­tadas em diver­sas modal­i­dades.

Os inter­es­sa­dos poderão encon­trar esse mate­r­ial no nosso canal no YouTube.

O tempo pas­sou e é fato que muitas enti­dades uti­lizam a modal­i­dade de eleições vir­tu­ais em seus proces­sos de escolhas.

A nossa OAB/​MA, que pela primeira vez efe­tua uma eleição direta entre os advo­ga­dos e advo­gadas para escol­her entre seus inte­grantes doze rep­re­sen­tantes – sendo seis do gênero mas­culino e seis do gênero fem­i­nino –, para que sejam sabati­na­dos por seu con­selho sec­cional e for­mar uma lista sêx­tu­pla para ser encam­in­hada ao tri­bunal de justiça que escol­herá três advo­ga­dos ou advo­gadas que terão os nomes envi­a­dos ao gov­er­nador para nomear den­tre eles um novo desem­bar­gador para o TJMA no critério con­sti­tu­cional do quinto, optou pelo processo vir­tual.

Real­izada a primeira con­sulta em 24 de abril, verificou-​se algu­mas fal­has – que a rigor não podem ser cred­i­tadas a empresa ou à modal­i­dade de escolha –, o que levou a decisão do con­selho da ordem a anu­lar o pro­ced­i­mento, con­tratar uma nova empresa e remar­car o pro­ced­i­mento para o próx­imo dia 15 de maio – por coin­cidên­cia, quase na mesma data daquela dis­cussão com o colega Blume sobre a segu­rança do processo eleitoral em um país em que na arte de frau­dar eleições não fica a dever nada a ninguém.

A nossa inqui­etação já man­i­fes­tada naquela época não tinha relação com a empre­sas respon­sáveis pela coleta do voto ou total­iza­ção dos mes­mos.

A nossa pre­ocu­pação era (e é) se voto deposi­tado na “urna” é fruto da von­tade livre e con­sciente do cidadão eleitor.

Se não me falha a memória, naquele bate-​papo con­tei ao entre­vis­tado, e aque­les que nos assis­tia, o episó­dio ocor­rido no tempo em que os “coro­néis” da política brasileira con­duziam o processo eleitoral – e essa lem­brança sem­pre me faz lem­brar das cam­pan­has que fazem con­tra a nossa Justiça Eleitoral.

Vou recor­dar a história para os leitores na even­tu­al­i­dade de não ter con­tado anteriormente.

Conta a lenda que aquela seção eleitoral fun­cionava na sede da fazenda do “coro­nel” fulano de tal. Fila for­mada com fun­cionários e agre­ga­dos da fazenda, o coro­nel ia entre­gando a cédula dev­i­da­mente votada com a recomen­dação de que a deposi­tasse na urna. Ia seguindo tran­quil­a­mente a votação: o coro­nel pegava a cédula, votava, entre­gava ao “eleitor” para que o mesmo a deposi­tasse na urna e assim con­sol­i­dasse a democ­ra­cia brasileira. Lá pelas tan­tas um dos eleitores ao rece­ber a cédula dev­i­da­mente dobrada a abriu e olhou. O coro­nel que assis­tia a cena espan­tado disse: — o que que é isso, “cabra”? O cabo­clo virou-​se para ele e disse: —nada não, seu coroné, só estava olhando em quem “eu votei”. O coro­nel então retru­cou: — e que novi­dade é essa, você não sabe que o voto é secreto?

Como disse há três anos e já aqui nesse texto, a ideia do voto vir­tual ainda que formidável pois facilita a vida dos eleitores, reduz a quan­ti­dade de pes­soas que se abstém de votar por prob­le­mas diver­sos, ao nosso sen­tir, traz-​nos a pre­ocu­pação com relação a higidez do voto nas eta­pas antecedentes.

Agora mesmo no pro­ced­i­mento da OAB, um público seleto, esclare­cido de cerca de, ape­nas, 14 mil eleitores, que podem votar em até 12 can­didatos, as noti­cias que nos chegam e, tam­bém, as que lemos diari­a­mente nas várias mídias dig­i­tais é que toda sorte de abu­sos e vio­lações à livre e sober­ana von­tade dos eleitores/​advogados estão ocor­rendo.

Na minha condição de can­didato e cidadão respeita­dor das regras, eu reluto em acred­i­tar – e torço para sejam fakes news, men­ti­ras, ilações –, que autori­dades estad­u­ais dos três poderes con­sti­tuí­dos do estado este­jam pres­sio­n­ando os advo­ga­dos a eles sub­or­di­na­dos ou não para que estes escol­ham aque­les candidatos/​advogados de suas prefer­ên­cias; que autori­dades ou mesmo cole­gas advo­ga­dos quando da primeira votação ten­ham retido os tokens de seus cole­gas e votado, eles próprios, nos can­didatos de suas prefer­ên­cias – lem­bram do causo da cédula votada?

Pes­soal­mente, talvez por uma questão de tem­pera­mento, me recuso a acred­i­tar que algum advo­gado ou advo­gada tenha sido desre­speitado ao ponto de ter tido vio­lado um dire­ito tão impor­tante e tenha aceitado tal coisa; do mesmo modo que me recuso a dar crédito as noti­cias que falam de com­pra de votos de quais­quer espé­cies inclu­sive envol­vendo altas somas em din­heiro, cav­a­los, aluguel de token, etc.

Emb­ora há mais de três anos já tenha lev­an­tado a hipótese de pos­síveis vio­lações da von­tade do eleitor que vota em “ambi­ente pri­vado” e sem qual­quer fis­cal­iza­ção, ainda que no recesso do seu escritório, do seu lar, etcetera, me recuso acred­i­tar isso possa ocor­rer numa eleição envol­vendo um público tão seleto e que his­tori­ca­mente dev­e­ria dar exem­plo de con­sci­en­ti­za­ção política.

E essa minha recusa em acred­i­tar nas notí­cias que dia sim e no outro tam­bém são difun­di­das pelas várias mídias dig­i­tais tem uma outra razão: eu não posso aceitar como advo­gado e como cidadão que ten­hamos algum advo­gado se dispondo a dizer a justiça como desem­bar­gador, por anos ou mesmo décadas, aceite chegar ao tri­bunal fazendo uso de tais artifí­cios.

Enten­dam, os fins não jus­ti­fi­cam os meios.

O dragão da con­sciên­cia jamais dará o sossego necessário para jul­gar, como se deve, sabendo que para chegar aquela posição, vio­lou – ou foi cúm­plice ou aceitou –, as regras da ética, da decên­cia ou da moral e do decoro.

Aque­les que pecam pelo silên­cio ou pela omis­são são tão ou mais pecadores que os comis­sivos. Ainda que o poder dos car­gos ou os sta­tus das posições façam ren­der defer­ên­cias a ninguém é dado poder de fugir da própria con­sciên­cia.

Logo no iní­cio do processo para escolha do quinto con­sti­tu­cional – que decidi par­tic­i­par já na undécima hora –, chamei os meus aux­il­iares e disse: — vamos lê o edi­tal para saber­mos o que podemos fazer – e não ire­mos nos afas­tar dele.

Mesmo sabendo que um dos desafios da nossa can­di­datura seria os cole­gas me con­hecerem ou mesmo saberem da nossa história e can­di­datura (quem con­hece Abdon Mar­inho, vota em Abdon Mar­inho, rsrs), recu­sei inúmeras pro­postas para adquirir “malas-​diretas”, para orga­ni­zar jantares, almoços, happy hour, etcetera, até mesmo coisas que vi todos fazendo como normal.

A minha posição é muito clara: não me inter­essa chegar onde quer seja bur­lando as nor­mas legais impostas a todos ou devendo a própria honra.

Aque­les que quis­erem alguém que pense e aja assim, podem con­tar comigo

Abdon Clementino de Mar­inho é advo­gado.