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José Reinaldo colhe tâmaras. O Maran­hão perde oportunidades.

Escrito por Abdon Mar­inho


José Reinaldo colhe tâmaras. O Maran­hão perde oportunidades.

Por Abdon C. Marinho*.

NOTICIOU-​SE, não faz muito tempo, que o pres­i­dente do país, sen­hor Lula, agen­dara a inau­gu­ração do tre­cho der­radeiro da fer­rovia norte-​sul, per­mitindo, assim que uma carga possa sair do Porto do Itaqui, no Maran­hão até o Porto de San­tos, em São Paulo, um feito real­mente extra­ordinário na estru­tura do trans­porte no brasileiro.

Para a solenidade que acon­te­ceria no Estado de Goiás – acabou sendo can­ce­lada por algum motivo climático ou outro qual­quer –, foram con­vi­da­dos o ex-​presidente José Sar­ney, que pre­sidiu o país de 1985 a 1990, período que teve iní­cio a obra; e o ex-​ministro dos trans­portes da época, respon­sável por colo­car em prática o pro­jeto de interli­gar o Brasil por via fer­roviária, José Reinaldo Tavares, ex-​governador do Maran­hão.

Ao refle­tir sobre o assunto, lembrei-​me de um antigo ditado dos povos do deserto que diz: “quem planta tâmaras, não colhe tâmaras”, uma alusão ao fato de que as tamareiras para pro­duzirem seus primeiros fru­tos no deserto lev­avam de oitenta a cem anos – hoje com as novas tec­nolo­gias de pro­dução esse tempo foi bas­tante reduzido, mas ainda é con­sid­erável.

A lem­brança deveu-​se ao fato de que, quase quarenta anos depois de ide­al­izado, o pro­jeto da fer­rovia de inte­gração nacional, final­mente, tornou-​se uma real­i­dade – depois de uma demora injus­ti­fi­cada –, pos­si­bil­i­tando aos seus ide­al­izadores, tais quais os plan­ta­dores de tâmaras, a ale­gria de col­herem os fru­tos, ou seja, de teste­munharem a con­clusão do projeto.

Antes que algum desav­isado venha ques­tionar: — Ain, Abdon, dev­e­rias dizer no título que Sar­ney colhe tâmaras e não Reinaldo.

Esclareço que a opção por Reinaldo não se trata de uma ani­mosi­dade ou injustiça ao ex-​presidente, que à época pre­sidia o país e será muito rev­er­en­ci­ado como “pai” do pro­jeto. A opção pelo ex-​governador prende-​se ao fato deste vir ded­i­cando a vida a semear tâmaras, como, aliás, dev­e­riam fazer os demais agentes públi­cos do estado e do país. Não tenho notí­cias, se exis­tem, fazem questão de man­terem seg­redo, de outro político maran­hense, além de José Reinaldo, que esteja ide­al­izando pro­je­tos – e indo atrás de recur­sos para viabilizá-​los –, pen­sando nas ger­ações futuras, para daqui a vinte, trinta, quarenta anos …

Con­forme esclareci em tex­tos ante­ri­ores – e já foram diver­sos –, o ex-​governador não fez dos car­gos que ocupou – e ainda ocupa –, um tram­polim para a “feitura” de for­tuna, tanto assim que nunca se teve notí­cias de suas fazen­das, suas man­sões, seus aviões, suas mil­hares de “cabeças de gado”, muito pelo con­trário, não faz muito, o ex-​governador virou “notí­cia” ao acudir-​se em uma casa de crédito atrás de um emprés­timo ou nego­ciar uma dívida qual­quer – situ­ação bem difer­ente de tan­tos out­ros políti­cos, que emb­ora nunca ten­ham tido qual­quer uma ativi­dade profis­sional, indus­trial ou com­er­cial pri­vada, ficaram ricos nos exer­cí­cios de car­gos públi­cos e/​ou de mandatos ele­tivos.

A situ­ação de tão nor­mal sequer causa estran­hamento quando se noti­cia que algum fato deu-​se na fazenda ou man­são de algum imberbe dep­utado, senador ou sim­ples­mente de alguém que ocupou um cargo público qual­quer. Ninguém mais se dá o tra­balho de perguntar-​se: como assim?

Vejamos o próprio exem­plo da fer­rovia norte-​sul, durante anos foi tida como “maldita”, não porque as pes­soas esclare­ci­das não soubessem de sua importân­cia para o país e prin­ci­pal­mente para o nosso estado, mas, porque sem­pre foi fonte con­stante de escân­da­los e um sum­i­douro de ver­bas públi­cas.

Uma obra, como tan­tas out­ras, que os políti­cos mais anti­gos apel­i­dam de “obras para morder”, uma alusão ao fato de nunca ter­mi­nar porque os seus respon­sáveis têm inter­esse per­pet­u­arem “gan­hos” com as mes­mas.

Jamais, nunca, nunca mesmo, uma obra tão impor­tante para o país pode­ria levar quase quarenta anos para ficar pronta, até porque, a engen­haria para con­struir fer­rovias “não é coisa de outro mundo”, estando em prática há cen­te­nas de anos em todo mundo e o relevo do Brasil não deman­dar grandes obstácu­los.

Chega a ser ina­cred­itável que façamos “fes­tas de inau­gu­ração” para rece­ber uma obra que durou quase quarenta anos quando, pode­ria ter sido exe­cu­tada em qua­tro – ou mesmo que lev­asse uma década –, e fes­te­je­mos isso. É como se estivésse­mos fes­te­jando o nosso fra­casso.

E, mais ina­cred­itável ainda, que os políti­cos que nunca se deram o tra­balho de sequer inda­gar sobre tamanha demora, apareçam por lá fes­te­jando ou com cara de “pais­agem” e, pior, sem qual­quer con­strang­i­mento.

Temos um exem­plo até mais próx­imo a ilus­trar bem o que digo: a infind­ável dupli­cação da BR 135, único acesso ter­restre a cap­i­tal, já tem mais de uma de década que foi ini­ci­ada e ainda não avançou a casa dos 100 km.

Vejam, não avançamos cem quilômet­ros em mais de uma década, uma obra rodoviária, tam­bém, sem maiores com­pli­cações. É uma ver­gonha! Como diz certo jor­nal­ista.

Enquanto isso, como no mito do manto de Pené­lope, os con­tratos de manutenção da dita BR pare­cem ser uma “aposen­ta­do­ria” a décadas ali­men­tando seus felizes ben­efi­ciários.

E a grande novi­dade dos últi­mos dias é que o órgão que cuida das estradas vai con­tin­uar em “boas mãos”.

É com imensa tris­teza que “não vejo” os homens públi­cos do estado “brigarem” pelo pro­gresso do Maran­hão, pelo nosso desen­volvi­mento, por grandes pro­je­tos que tragam desen­volvi­mento e pros­peri­dade para todos, não con­seguimos assi­s­tir uma “hege­mo­nia” política a favor do estado, pelo con­trário, o que vemos são brigas, públi­cas ou ínti­mas, entre eles por espaços de poder, que para o con­junto da pop­u­lação brasileira e local, nada sig­nifica.

Não é fulano man­dar mais que sicrano que inter­essa ao cidadão na linha de pobreza extrema, no degrau mais baixo na escada de desen­volvi­mento, não é isso que impacta sua vida. Essa brigal­hada infe­liz só inter­essa aos próprios políti­cos sem nen­huma visão e aos pseu­dos escribas que “gan­ham” seus dias escrevendo sobre bobagens.

Quan­tas décadas de desen­volvi­mento econômico o Maran­hão não perdeu caso a fer­rovia norte-​sul tivesse sido con­cluída no tempo certo? Se por­tos no Itaqui ou em Alcân­tara tivessem fica­dos pron­tos? Se estivésse­mos com políti­cos empen­hados na real­iza­ção de grandes pro­je­tos de desen­volvi­mento ou invés de estarem nas eter­nas “brigas” pela emenda da prac­inha, da estrada vic­i­nal, etc? Qual seria a posição do Maran­hão nos índices de desen­volvi­mento econômico e social se estivésse­mos a pleno vapor na uti­liza­ção das nos­sas poten­cial­i­dades?

Agora mesmo, quando pos­suí­mos tan­tas posições de destaque na estru­tura de poder do gov­erno fed­eral, no leg­isla­tivo e até no judi­ciário, não temos notí­cias de uma “união” dessas autori­dades para o desen­volvi­mento do nosso estado, pelo con­trário, as noti­cias são que “estão de mal”, brig­ando pelo “car­rinho que­brado” ou por alguma “pan­ela furada”, quando dev­e­riam tra­bal­har pela implan­tação de grandes pro­je­tos econômi­cos como forma de “aliviar” o imenso sofri­mento do povo maran­hense, sem­pre ocu­pando as últi­mas posições em tudo que é indi­cador.

O MARAN­HÃO perde opor­tu­nidades mesmo quando as autori­dades não estão em cam­pos opos­tos ou dis­putando as mes­mas “raias da política”.

A impressão que tenho é que pade­cem de alguma dis­função que os deixam inca­pac­i­ta­dos a com­preen­derem que o pro­gresso, até do ponto de vista da política, seja local ou nacional, é fun­da­men­tal para suas ambições.

O Sar­ney, mesmo quando pres­i­dente, nunca deixou de levar con­sigo a “pecha” de ser ori­undo do estado mais atrasado do país, assim o foi, tam­bém, nas diver­sas vezes que foi senador da República e pres­i­dente do Senado.

Quase quarenta anos depois de Sar­ney ter ascen­dido ao cargo mais ele­vado país – não por culpa “só” dele –, o Maran­hão segue na mesma posição, na “rabeira” da fila de “tudo”. Os políti­cos do esta­dos rep­re­sen­tam o povo e o estado mais mis­erável da fed­er­ação.

Esse índice, que não é meu, mas do IBGE, dev­e­ria nortear o com­por­ta­mento de toda a classe política, faz­erem se per­gun­tar todos os dias ao se olharem no espelho enquanto esco­vam os dentes, o que estão fazendo ou farão para mudar tamanha ver­gonha.

Ver­dadeiros estadis­tas não se con­tentam em faz­erem algo com resul­tado ime­di­ato, pen­sando no amanhã ou na próx­ima eleição, mas, sim, tra­bal­ham no sen­tido traz­erem bene­fí­cios e pro­gresso para as ger­ações futuras, tal qual fazem os plan­ta­dores de tâmaras, eles têm con­sciên­cia que jamais com­erão o fruto daquela árvore que plan­tou, mas sabem que alguém, no futuro, vai comer e agrade­cer aquele que a plan­tou.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

BREVÍS­SIMO ENSAIO SOBRE A LIBER­DADE DE SE EXPRESSAR.

Escrito por Abdon Mar­inho


BREVÍS­SIMO ENSAIO SOBRE A LIBER­DADE DE SE EXPRES­SAR.

Por Abdon C. Marinho*.

SEM­PRE que escrevo algum texto mais inciso sobre a política local recebo do querido amigo Mar­cony Farias, ex-​deputado estad­ual e um grande con­ta­dor de cau­sos, um “meme” de uma frase céle­bre de autor que descon­heço: “semeia a ver­dade e colha inimi­gos”.

Tal frase/​meme, aliás, dese­d­uca aquilo que apren­demos nas aulas de cate­cismo, pois con­sta da Bíblia cristã: “Aquilo que o homem semear, isso tam­bém cei­fará” (Gl 6:7) ou, em II Corín­tios, 9:6, que diz: “E isto afirmo: aquele que semeia pouco pouco tam­bém cei­fará, e o que semeia com far­tura com abundân­cia tam­bém cei­fará”. Essa é a lei da semeadura bíblica: quem semear o bem col­herá o bem; quem semear o mal col­herá o mal; quem semear pouco col­herá pouco; quem semear muito, muito irá col­her.

Já com meu pai, homem sim­ples de Angi­cos, RN, anal­fa­beto por parte de pai, mãe e parteira, e, por isso mesmo, sem ser letrado ou con­hece­dor da escrit­uras sagradas, dizia com inco­mum sin­ceri­dade: “aquilo que está errado é da conta de todo mundo”.

Fazia tal afir­mação no intu­ito de nos ensi­nar que aquilo que encon­trá­va­mos de errado por onde passá­va­mos dev­eríamos con­ser­tar ou cor­rigi, impedir que algo pior viesse ocor­rer em vir­tude da nossa omis­são; ou, se não nos cabia cor­ri­gir que tomásse­mos a ini­cia­tiva de aler­tar aque­les que pode­riam cor­ri­gir tal falha.

E, citava como exem­plo, imag­ine que você passé por uma das nos­sas “quin­tas” (era assim que chamá­va­mos as divisões da pro­priedade, onde colocá­va­mos os ani­mais) e encon­tre uma cerca romp­ida, você deve procu­rar cor­ri­gir ou chamar quem possa fazê-​lo, de sorte a impedir que os ani­mais fujam ou aden­tre as roças dos viz­in­hos e destruam o seu sus­tento de um ano inteiro, dizia.

Órfão desde muito cedo – de mãe aos cinco e de pai com pouco mais de vinte –, aprendi a respeitar os ensi­na­men­tos dos meus pais e a tê-​los como dog­mas, regras a serem seguidas. Por vezes imag­ino que se fos­sem vivos talvez não respeitassem tanto os ensi­na­men­tos que recebi como os respeito na ausên­cia.

O certo é que me causa pro­fundo incô­modo teste­munhar algo que sei errado ou com o qual dis­cordo e ficar cal­ado, fin­gir que não vi ou, cini­ca­mente, aplaudir.

Essa inqui­etação deixa os ami­gos pre­ocu­pa­dos, sobre­tudo, aque­les que me esti­mam e querem o meu bem ou que seja recon­hecido por fazer algo de útil para a sociedade e não como “inimigo público número um” das autori­dades.

Com tris­teza, sou forçado a recon­hecer que a pre­ocu­pação dos ami­gos tem uma razão de ser e são per­ti­nentes, pois vive­mos tem­pos em que qual­quer um que detenha um frag­mento de poder, por menor que seja, investe-​se nos poderes abso­lutis­tas de Luis XIV, como se fos­sem a própria encar­nação do Estado: “L’État c’est moi”, O Estado sou eu, na frase atribuída ao rei Luís XIV (16381715).

Ao refle­tir sobre tal quadra política, ficamos com a impressão de que o tempo, no aspecto da intol­erân­cia, da falta de respeito a opinião de diver­gente, cam­in­hou em sen­tido con­trário, como se tivésse­mos retor­nado para a Idade Média, ou para outro período da história, de tristes reg­istros em que as pes­soas eram punidas, exi­ladas, queimadas em praça pública pelo crime de dis­cor­dar.

Mas, vejam, esta­mos em pleno século XXI, com as diver­sas tec­nolo­gias ao alcance de todos, com a ciên­cia pro­lon­gando vidas, curando doenças, per­mitindo que o con­hec­i­mento seja amplo, total e irrestrito.

Ape­sar disso, é como se estivésse­mos vivendo numa espé­cie de pen­sa­mento único em que qual­quer um pode sofrer as con­se­quên­cias por dis­cor­dar. Pior que isso, são tem­pos de pes­soas sen­síveis ao extremo, tudo as “melin­dram”; e per­son­alís­ti­cas, pois tudo que se diga ou se opine, mesmo uma coisa sin­gela, “elas” levam para o lado pes­soal.

Outro dia parei para ler o artigo de um arti­c­ulista local, pes­soa que prima por sua imor­tal rep­utação. O que mais me chamou a atenção no texto do intesti­nal de renome não foi o con­teúdo – com o qual con­cordo em grande parte –, mas, sim, o exer­cí­cio que fez seu autor “des­cul­pando” por dizer coisas tão óbvias.

Imag­ino que nem durante o régime de exceção, a longa noite da ditadura mil­i­tar que durou vinte e anos, algo semel­hante acon­te­cia.

O texto do int­elec­tual, assim me pare­ceu, foi posto como a “prova viva” do que pre­tendia expres­sar, ou seja, os males que podem causar as democ­ra­cias, os poderes hegemôni­cos. O mis­sivista, com “mil e um pedido de des­cul­pas” dire­tos, indi­re­tos e/​ou sub­lim­inares no texto, com­pro­vava tais males ou, talvez, o pior deles, o fato de ter que desculpar-​se por expor uma sim­ples ideia.

O MARAN­HÃO, terra de int­elec­tu­ais como Gonçalves Dias, Hum­berto de Cam­pos, Arthur Azevedo, Gomes Cas­tro, Coelho Neto, Silva Maia, Maria Firmina, Josué Mon­tello e tan­tos out­ros, em pleno século XXI, repito, pro­duz int­elec­tu­ais com medo de expor o seu … int­electo.

Esse mesmo estado, berço de tan­tos juris­tas ilus­tres – que me privo de nom­i­nar para não cor­rer o risco de ser injusto –, ao longo da história e que mesmo na atual quadra pos­sui nomes de grande relevo na advo­ca­cia, inclu­sive, alguns deles com assento par­la­men­tar e gozando das imu­nidades con­sti­tu­cionais, não conta com ninguém para fazer o “dis­tingue” entre o certo e o errado e que se expressem de forma clara e con­tun­dente sobre os temas de inter­esse de todos.

Não con­sigo me con­for­mar quando vejo advo­ga­dos, sobre­tudo, bons advo­ga­dos, talvez os mel­hores de uma ger­ação “fin­gindo” que não con­hecem a Con­sti­tu­ição ou, numa análise ainda pior, conhecendo-​a, como sabe­mos que a con­hecem, aqui­escerem em inter­pre­tações tor­tu­osas que não têm qual­quer outra sig­nifi­cado que não seja a burla ao desejo estatuído pelo con­sti­tu­inte orig­inário.

No ano pas­sado, em con­cor­rida solenidade pelo 209 anos do Tri­bunal de Justiça do Maran­hão, viu-​se hom­e­nagea­dos e “medal­ha­dos” repe­tirem como se um mantra fosse, a céle­bre frase de Rui Bar­bosa: “fora da lei não h’a sal­vação”. Mas, o que é a lei para tan­tos que igno­ram as regras legais, o sen­tido das nor­mas, o espírito da ética ou do decoro? O que é a norma diante de um silên­cio tão ensur­de­ce­dor?

O escritor e jor­nal­ista per­nam­bu­cano Nel­son Rodrigues (19121980) dizia que toda una­n­im­i­dade era burra. Antes de rece­ber tal frase como crítica ou agressão dever-​se-​ia bus­car o con­texto histórico do seu sig­nifi­cado. A divergên­cia não é ofensa, tem, prin­ci­pal­mente, o condão de trazer a lume um olhar difer­ente sobre aquilo que para os demais parece óbvio.

Na ane­dota o “rei nu”, foi pre­ciso que a inocên­cia de uma cri­ança fizesse a rev­e­lação daquilo que à vista de todos ninguém que­ria enx­erga, até o brado da cri­ança no meio da mul­ti­dão: — o rei está nu! Todo sabiam, todos estavam vendo. A con­veniên­cia, o medo, a covar­dia calava todos. A ninguém inter­es­sava dizer o estava óbvio: que o rei des­filava nu.

No apogeu Romano o Senado des­ig­nava alguém para repe­tir no ouvido dos imper­adores quando estes saiam nos seus des­files de vitória: “és ape­nas um homem”, “és mor­tal”, ou sen­tenças semel­hantes. Tudo isso para que o poderoso de plan­tão não perdesse a con­sciên­cia sobre a efe­meri­dade do tri­unfo.

Ditosa Roma que pos­suía tal cos­tume. Quem dera por aqui os poderosos tam­bém enten­dessem que razão para ocu­parem o poder é bem servir ao próx­imo deixando legado as futuras ger­ações pois é isso, efe­ti­va­mente, ape­nas isso, que fará a difer­ença para vida das pes­soas e que con­tará no jul­ga­mento da história. O resto não é nada. Somos ape­nas homens; somos mor­tais; logo mais ser­e­mos pó.

A com­preen­são sobre a fini­tude da qual nen­hum se livrará dev­e­ria nortear a ideia – que já foi muito pre­sente no pas­sado –, que mesmo aque­les que à mín­gua de nada terem a deixarem para as ger­ações futuras se pre­ocu­pavam em deixarem um bom exem­plo.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

O COM­BATE À DESIGUAL­DADE E AO RACISMO COMEÇA COM A EDUCAÇÃO

Escrito por Abdon Mar­inho

O COM­BATE À DESIGUAL­DADE E AO RACISMO COMEÇA COM A EDU­CAÇÃO.

Por Abdon C. Marinho*.

ALGUNS DIAS foi divul­gada uma pesquisa no jor­nal nacional, da rede globo, cujo dado prin­ci­pal apon­tava para o fato da edu­cação básica de pre­tos e par­dos encontrar-​se uma década de atraso em relação a edu­cação dos jovens bran­cos.

Já nesta sem­ana que finda, se não me falha a memória, na terça ou quarta-​feira, saíram dados do IBGE mostrando essa mesma desigual­dade ou dis­torções entre a edu­cação de cri­anças e jovens pre­tos ou par­dos em relação aos branco.

Além da notória, dis­crepân­cia, pesquisa traz out­ros dados desalen­ta­dores, como por exem­plo o fato de, ape­nas, em 2022, 40% (quarenta por cento) dos jovens deixarem o estudo por neces­si­dade de tra­bal­har; e que 7,4% dos brasileiros pre­tos e par­dos são anal­fa­betos, ou seja, segundo a pesquisa, o dobro de anal­fa­betos da pop­u­lação branca.

O dado, entre­tanto, que mais me chamou a atenção na divul­gação da pesquisa é a que trata do aban­dono esco­lar, quando temos que setenta por cento dos jovens que não com­ple­tam o ensino médio são pre­tos ou par­dos.

Uma outra pesquisa, essa de 2020 ou com dados ante­ri­ores à pan­demia, torna a situ­ação da edu­cação brasileira, sobre­tudo a edu­cação pública, ainda mais dramática – e que já tratei dela em tex­tos ante­ri­ores –, o fato da edu­cação brasileira encontrar-​se com um atraso de uma década em relação a out­ros países desen­volvi­dos ou em desen­volvi­mento. Trazendo ainda um dado bem mais alar­mante: que a cor­reção de tal dis­torção levará seis décadas.

Caso os dados con­ti­dos nos dois estu­dos cien­tí­fi­cos não sejam cumu­la­tivos, podemos dizer que a edu­cação de pes­soas pre­tas e par­das no nosso país encontra-​se duas décadas atrasada em relação aos out­ros países.

Ora, como podemos falar em mobil­i­dade social, em igual­dade entre os brasileiros e mesmo entre estes e os demais cidadãos do mundo, com tamanha dis­crepân­cia naquela que seria o motor propul­sor da ascen­são social?

A edu­cação, sabe­mos desde sem­pre, exceto por alguma rara exceção, é uma das pou­cas, senão a única fer­ra­menta capaz de per­mi­tir a ascen­são social de qual­quer cidadão pos­si­bil­i­tando que no exer­cí­cio profis­sional ou de suas vidas este­jam em condições de igual­dade com os demais cidadãos inde­pen­dente de cor, raça, etnia ou quais­quer out­ras condições.

Logo, para com­bat­er­mos os out­ros males que “assom­bram” a sociedade nos nos­sos dias, temos que começar pela edu­cação.

Somente ela é capaz de pro­mover a igual­dade de trata­mento e opor­tu­nidades a quem vida deu ori­gens e cam­in­hos dis­tin­tos.

O que essas pesquisas rev­e­lam não é nada difer­ente do venho afir­mando há quase quarenta anos – há cerca de uma década mate­ri­al­izando em tex­tos escritos para a pos­teri­dade.

Outro dia, em uma palestra a um par­tido político, dizia que desde que cheguei a ilha do Maran­hão, jus­ta­mente atrás de mel­hores condições de edu­ca­cionais – naquele período o inte­rior onde morava na pos­suía ensino médio –, que “brig­amos” em torno das mes­mas pau­tas: mel­ho­rias no ensino, na saúde, nas condições habita­cionais, no trans­porte, na urban­iza­ção, etc. e, não avançamos, ou avançamos muito pouco, em cada uma das pau­tas, a ponto de cheg­amos hoje, só no que­sito edu­cação, osten­tando a dis­crepân­cia reg­istrada nas pesquisas.

E vejam que nem pre­cis­aríamos de pesquisas pra ates­tar­mos isso.

Já nos anos oitenta, noventa, e sem­pre, bastá­va­mos olhar as relações de aprova­dos nos vestibu­lares.

Os jovens ori­un­dos dos mel­hores colé­gios pri­va­dos, encabeçavam as lista­gens dos aprova­dos nos cur­sos mais con­cor­ri­dos, como med­i­c­ina, dire­ito, engen­haria, ciên­cias da com­putação, con­tábeis, e out­ros.

Quando alguém ori­undo da escola pública con­seguia pas­sar em um desses cur­sos ou mesmo quais­quer out­ros, era motivo de comem­o­ração na escola e/​ou no bairro onde morava. E tín­hamos razão para comem­o­rar, pois aquele acesso, aquela pequena vitória era o coroa­mento, o fruto de horas e horas de esforço indi­vid­ual. Enquanto os jovens das mel­hores esco­las pri­vadas “pas­savam direto” do ensino médio para a fac­ul­dade, os seus con­gêneres das esco­las públi­cas pas­savam (e ainda pas­sam) meses, anos, fazendo cursin­hos pré-​vestibulares para alcançar a tão dese­jada vaga na fac­ul­dade.

A nossa falta de con­sciên­cia crítica era tamanha (e ainda é), que achá­va­mos nor­mal que aque­les jovens que tiveram condições de estu­darem a “vida toda” nas mel­hores esco­las pri­vadas ocu­passem as mel­hores vagas, nos cur­sos mais con­cor­ri­dos na fac­ul­dade pública.

E aqui não vai nen­huma crítica ao acesso de pes­soas ricas ou em mel­hores condições finan­ceiras aos mel­hores cur­sos das fac­ul­dades públi­cas, a crítica que se faz, e com veemên­cia, é ao fato do Estado não garan­tir as mes­mas condições de ensino a todos para que “todos” dis­putem em condições de igual­dade as mes­mas vagas.

Achá­va­mos – e ainda achamos –, nor­mal situ­ações de desigual­dade social entre os brasileiros e, tam­bém por isso, jamais ser­e­mos uma nação de cidadãos iguais.

Não lem­bro de algum dia ter visto algum daque­les ricos, bem nasci­dos que pas­saram “de primeira” nos vestibu­lares das uni­ver­si­dades públi­cas se ques­tio­nando ou ques­tio­nando a razão dele estar na fac­ul­dade pública enquanto aquele outro jovem ori­undo da escola pública teria que pas­sar mais alguns anos para ingres­sar naquela mesma fac­ul­dade, em um curso qual­quer, se não desis­tisse antes se achando “burro” ou tangido pela neces­si­dade de tra­bal­har, como ainda hoje apon­tam os dados do IBGE.

E, quan­tas vezes, nós mes­mos, na outra ponta da corda, não achamos “nor­mal” que aque­les jovens cidadãos que tiveram opor­tu­nidades que jamais son­hamos em ter, pas­sas­sem “de primeira” nos vestibu­lares das fac­ul­dades públi­cas, enquanto tín­hamos que esperar? E, ainda dizíamos: — fulano de tal é muito inteligente, é um gênio, etc.

Pois é, aque­les cidadãos, anos depois “viraram” os gov­er­nantes brasileiros e con­tin­uaram achando nor­mal a desigual­dade social, onde os ricos, os bem nasci­dos, tivessem mais dire­itos que os demais.

Com a mesma ignorân­cia que tin­ham na juven­tude, con­tin­uam sem saber de onde vem o racismo estru­tural, de onde vem a vio­lên­cia, de onde vem a pobreza dos cidadãos e dos esta­dos.

Não sabem, por exem­plo, que a grande maio­ria do público das esco­las públi­cas brasileiras é com­posta por pre­tos e par­dos e que, ao negar­mos um ensino de qual­i­dade na base, nos anos ini­ci­ais da vida esco­lar, essas cri­anças nunca terão, salvo as exceções, chance alguma de ascen­der social­mente, de serem grandes profis­sion­ais, de serem agentes públi­cos, etc.

Ao negar­mos, ainda nos primeiros anos de vida, que cri­anças pre­tas, par­das, pobres, ten­ham chance de ascen­der social­mente, pois os esta­men­tos soci­ais não per­mitem, esta­mos prat­i­cando aquilo que con­de­n­amos “da boca pra fora”, o racismo.

O jogador de fute­bol Vini­cius Júnior tem mobi­lizado o mundo con­tra o racismo. Esse jovem jogador ao par­tir para o enfrenta­mento con­tra os racis­tas e pre­con­ceitu­osos de todos os naipes presta um grande serviço à sociedade mundial. Temos vis­tos autori­dades de todo mundo con­de­nando o racismo no futebol.

As autori­dades brasileiras – tam­bém para tirar suas van­ta­gens –, têm avi­ado protestos diver­sos con­tra a situ­ação.

Acon­tece que o racismo sofrido pelo Vini­cius Júnior é ape­nas a face mais grotesca e escan­car­ada do racismo, a mais boçal e que tam­bém deve ser com­bat­ida e que ele, como um jogador de renome inter­na­cional tem feito um exce­lente tra­balho.

Por outro lado, não podemos esque­cer ou fin­gir que não sabe­mos do outro racismo estam­pado em números nas planil­has do IBGE.

Enquanto o hor­rendo racismo que vitima o Vini­cius Júnior ocorre durante as par­tidas de fute­bol, esse outro racismo que nos mostra o IBGE vitima mil­hões de brasileiros todos os dias, por anos, por décadas, por toda vida.

O com­bate ao racismo não se faz com revi­sion­ismo de obras literárias, de nov­e­las ou mesmo com o apoio e sol­i­dariedade de “cele­bri­dades” a jogadores de fute­bol ou de out­ros esportes víti­mas de racismo.

O ver­dadeiro com­bate ao racismo somente acon­te­cerá no Brasil e no mundo quando con­seguirmos ofer­tar as mes­mas condições edu­ca­cionais a todas as cri­anças.

Edu­cação de qual­i­dade, edu­cação igual­itária para todos é a chave para com­bat­er­mos o racismo e as desigual­dades soci­ais.

*Abdon C. Mar­inho é advogado.