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A vitória e o pre­con­ceito reverso.

Escrito por Abdon Mar­inho


A VITÓRIA E O PRE­CON­CEITO REVERSO.

Por Abdon C. Marinho.

DEPOIS que me inscrevi para dis­putar a vaga de desem­bar­gador no critério do quinto con­sti­tu­cional – nos ter­mos da Con­sti­tu­ição um quinto das vagas dos tri­bunais devem ser des­ti­nadas alter­nada­mente aos mem­bros da Advo­ca­cia e do Min­istério Público –, alguns e queri­dos ami­gos têm me abor­dado com uma indagação:

—Abdon, quais são as “nos­sas” chances de chegar lá, de lhe ter­mos como desem­bar­gador?

A todos – até para evi­tar fal­sas esper­anças diante da com­plex­i­dade do processo: primeiro os advo­ga­dos escol­hem 12 (doze); depois o Con­selho do OABMA escolhe 06 (seis); aí o TJMA escolhe 03(três); e por fim, o gov­er­nador escolhe 01(um) –, tenho dito:

— A nossa maior vitória é ter­mos chegado até aqui.

Se algum mais “teimoso” ou curioso argu­menta que diver­sos out­ros cole­gas igual­mente capazes tam­bém chegaram “até aqui”.

Com­pleto a resposta com ver­são “standard”:

— Pois é, mas difi­cil­mente (ou descon­heço) algum fez o mesmo “cam­inho” que fize­mos para chegar onde chegamos.

Con­cluo dizendo que até esse ponto da cam­in­hada depen­deu de nós, já, daqui para frente, depende de out­ras pes­soas: do jul­ga­mento dos cole­gas advo­ga­dos e das cole­gas advo­gadas que, pela primeira vez, terão a opor­tu­nidade de escol­her livre­mente quem gostariam de ter como rep­re­sen­tante no Tri­bunal de Justiça; do Con­selho Estad­ual; dos mem­bros do próprio tri­bunal; e do governador.

É o grau de con­sciên­cia e de con­sci­en­ti­za­ção sobre a importân­cia do ato de escol­her que fará a difer­ença. E esse ato já não depende de mim – ou de qual­quer outro can­didato, mas, sim, dos “eleitores”: advo­gadas e advo­ga­dos.

Imagina-​se – e essa é a minha real expec­ta­tiva –, que antes de votar nos can­didatos à vaga disponível, esse eleitorado faça uma análise cri­te­riosa da vida de cada um, para escol­her aque­les que mel­hor possa desem­pen­har a mis­são que lhe será con­fi­ada.

Trata-​se de uma escolha impor­tante e, tam­bém, uma respon­s­abil­i­dade imensa dos advo­ga­dos e advo­gadas, pois, difer­ente de eleições comuns – de prefeitos, vereadores, dep­uta­dos, gov­er­nadores, senadores e até pres­i­dente da República –, que se sub­me­tem ao jul­ga­mento de rotina a cada qua­tro anos, escol­her­e­mos alguém que ditará a justiça de forma vitalí­cia, por anos, por décadas – muitas décadas, em alguns casos.

Acred­ito que todas essas questões serão sope­sadas na hora da escolha.

Não será um tap­inha nas costas, um “happy hour”, um almoço, um jan­tar ou uma visita que serão deter­mi­nantes para a escolha do futuro rep­re­sen­tante da advo­ca­cia nos tri­bunais, mas, sim, o que as e os pos­tu­lantes fiz­eram ao longo da vida – pelo menos imag­ino isso.

Nesse sen­tido que “con­tabi­lizo” como vitória ter­mos chegado até aqui – ainda mais quando lem­bro que há pouco mais de cinquenta anos, quando fui acometido pela poliomielite, os médi­cos dis­seram que não sobre­vive­ria, caso viesse a “escapar”, jamais iria andar –, cinquenta anos depois, sobre­vivi, andei, corri pra cima e pra baixo, e, ape­sar de tudo, sobre­vive­mos “sem um arran­hão” e aqui esta­mos como can­didato a desem­bar­gador.

Vez ou outra quando algum me per­gunta como estou. Respondo: — escapando. Rsrs.

Essa é a ver­dadeira vitória. Um filho de agricul­tores anal­fa­betos, que pas­sou por todas as difi­cul­dades da vida, nunca se deu por ven­cido e levou uma vida pro­du­tiva e respeitável.

Essa pos­tu­lação tem mostrado isso.

Tenho rece­bido diver­sas man­i­fes­tações de cole­gas advo­ga­dos.

Outro dia recebi uma men­sagem de apoio emo­cionada do Dr. Car­los Couto, que muito me ensi­nou; não faz muito li em um grupo de What­sApp uma declar­ação do Dr. Vini­cius César de Berrêdo Mar­tins, me colo­cando entre aque­les cole­gas que dig­nifi­cam a advo­ca­cia maran­hense – reg­istro que na nossa car­reira comum de advo­ga­dos, doutor Viní­cius e eu sem­pre estive­mos em lados opos­tos; doutra feita, há mais tempo, recebi uma declar­ação do pro­fes­sor doutor José Claú­dio Pavão San­tana, onde o mesmo dizia sen­tir orgulho por ter sido seu aluno.

Essas ape­nas algu­mas declar­ações já que as out­ras, igual­mente impor­tantes, por não terem sido dadas em ambi­ente público ou por não ter sido autor­izado, guardo reservas.

São essas coisas que me fazem vito­rioso inde­pen­dente do resul­tado dos vários escrutínios do processo eleitoral para o quinto: a certeza que não me afastei dos meus princí­pios.

Agora mesmo, sou colo­cado diante de uma questão.

Como sabem – informei isso no dia –, por ocasião do reg­istro da can­di­datura ao quinto não estava na cidade. Como decidi ser can­didato na undécima hora, deixei com amigos/​auxiliares a incum­bên­cia de jun­tar os últi­mos doc­u­men­tos (cer­tidões de atu­ação proces­sual e out­ros doc­u­men­tos), com a ori­en­tação de não deixar de jun­tar nada, bem como, de efe­t­uar o reg­istro já que estaria ocu­pado em diver­sos com­pro­mis­sos inadiáveis de tra­balho no inte­rior e que a inter­net, às vezes, sobre­tudo em perío­dos de chuva, nos deixa na mão.

Estava em uma reunião na Câmara de Vereadores de Luís Domingues, às 17:30 horas, quando recebo uma lig­ação da equipe. Do outro lado linha, o amigo Emer­son Pinto, que estava coor­de­nando o reg­istro informa: — pre­cisamos de uma fotografia 3×4, para jun­tar no reg­istro. Outra coisa, tu te declaras, branco, preto ou pardo?

A resposta veio automática, pois desde sem­pre foi assim que me iden­ti­fiquei: — Pardo.

E corri para prov­i­den­ciar a dita fotografia. Alguém empurrou-​me, numa cadeira de rodízio, para uma parede de fundo branco para que ficasse mel­hor, tiramos e encam­in­hamos para o reg­istro. Ato con­tínuo, seguimos com a reunião e no iní­cio da noite anun­ci­ava que fiz­eram o reg­istro de can­di­datura.

Esqueci do assunto e segui com a “cam­panha”, normalmente.

Na última sem­ana (terça-​feira) recebi da Comis­são Eleitoral um edi­tal para com­pare­cer a comis­são para identificar-​me, bem como, uma inti­mação sobre uma impug­nação da can­di­datura por haver me declar­ado pardo.

Não teria qual­quer con­se­quên­cia, caso não com­pare­cesse, bem como, a impug­nação seria jul­gada deserta se me RETRATASSE.

Aí surgiu uma questão de princí­pio e pre­con­ceito reverso.

Ora, não me declarei pardo para inte­grar qual­quer cota – muito emb­ora recon­heça a importân­cia das ações afir­ma­ti­vas –, no meu tempo não exis­tia essa política, pobres, ricos, pre­tos, bran­cos, par­dos, indí­ge­nas, amare­los ou de qual­quer cor, faziam o mesmo vestibu­lar e dis­putavam as mes­mas vagas nos vestibu­lares da UFMA ou da UEMA.

Quando, no calor do pedido de reg­istro disse que era pardo, o fiz por ser essa uma expressão da ver­dade.

Meus avós pater­nos eram negros; meus avós mater­nos, emb­ora não fos­sem “bran­cos”, eram mais claros; logo, meu pai era negro e minha mãe “branca”. E nós, seus fil­hos, por parte de pai, mãe e parteira, nasce­mos mul­ti­col­ori­dos, uns mais escuros, uns mais claros. Os mais escuros, aliás, até os chamamos de “nego”, o nego Goça, o nego Armando …

Muito emb­ora não tenha tido qual­quer intenção de con­cor­rer uti­lizando cota – se fosse uti­lizar alguma teria sido em relação a defi­ciên­cia, pois tal condição e o fato de ter que fazer fisioter­apia três vezes na sem­ana por conta da ter­ceira recidiva da doença, têm impe­dido de via­jar em cam­panha pelo inte­rior e até mesmo de vis­i­tar os cole­gas –, retratar-​me para dizer que sou “branco” seria/​será negar minha história, min­has ori­gens – e até meus doc­u­men­tos ofi­ci­ais –, e não posso fazer isso pois tenho orgulho delas.

Ninguém pode se retratar da ver­dade e das suas ori­gens.

Aliás, quando estudei no Liceu Maran­hense, tive uma pro­fes­sora extra­ordinária, Profª. Maria da Luz, ela lecionava Orga­ni­za­ção Social e Política Brasileira (OSPB), no Liceu e matéria sim­i­lar no Santa Tereza, dessa con­vivên­cia com real­i­dades tão dís­pares nos doava o mel­hor que podia.

Essa pro­fes­sora, uma “negra ret­inta”, como se dizia antiga­mente, uma autên­tica princesa da África, me dizia sem­pre: — Abdon, teus genes negros são mais acen­tu­a­dos que os meus, branco nen­hum tem esse for­mato de nariz que tens.

Mas essa é ape­nas uma digressão. Não pre­tendi de forma alguma con­cor­rer através de cota, mas retratar-​me para sat­is­fazer algum tipo de patrulha, negando min­has ori­gens e ances­tral­i­dade é algo que não posso aceitar. Não vou negar meus avós, negar os meus pais, negar meus irmãos. Jamais faria isso.

Como disse na defesa, aceitarei a decisão da comis­são, mas não posso me retratar da ver­dade. Não faço isso por uma questão de dig­nidade e princí­pio.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

A imo­lação dos inocentes na Paixão de Cristo.

Escrito por Abdon Mar­inho


A IMO­LAÇÃO DOS INOCENTES NA PAIXÃO DE CRISTO.

Por Abdon C. Marinho*.

CHOREI bas­tante e, enquanto fazia isso, a lem­brança de uma canção de Natal chamada Rei Pequenino, de Siba e Fuloresta – que usei no vídeo da cam­panha Natal Solidário 2022 –, assaltou-​me à mente pois na sua última estrofe ela pon­tua:

A todo instante

Que uma mul­her dá à luz

Vê-​se a feição de Jesus

Numa cri­ança inocente

Como a semente

já tem árvore guardada

Toda cri­ança é sagrada

Não pode ser diferente

É Natal diariamente

Pois, a vida não se cansa

E onde nasce uma criança

Nasce Jesus novamente”.

Ainda pro­fun­da­mente impactado com os acon­tec­i­men­tos da Quarta-​feira Santa, quando, em Blu­me­nau — SC, um ser dis­farçado de humano, inva­diu uma crèche e imolou qua­tro cri­anças de 04 a 07 anos e feriu out­ras tan­tas, lembrei-​me e me pus a refle­tir sobre a canção de natal que tanto me emocionou.

Imag­inei, então, em sen­tido reverso, que a imo­lação de cri­anças inocentes sig­nifica, a cada morte, a cada sac­ri­fí­cio de um inocente, a morte de Jesus nova­mente. Em Blumenau-​SC, em uma única manhã, mataram Jesus Cristo qua­tro vezes e o feri­ram infini­ta­mente mil­hares ou mil­hões de out­ras vezes – e não me refiro ape­nas aque­las cri­anças se feri­ram no ataque covarde, ou mesmo aque­las que estiveram próx­i­mas aos acon­tec­i­men­tos, e, cer­ta­mente, estão trauma­ti­zadas e com receio de irem à escola –, todas as cri­anças do nosso país.

Roubaram-​lhes a infân­cia, tiraram-​lhes o dire­ito de serem inocentes.

A vio­lên­cia injus­ti­fi­cada – e toda ela é injus­ti­fi­cada –, pas­sou a dom­i­nar os debates nas esco­las, nas mesas de bares, no seio das famílias.

Mesmo aqui, no norte e nordeste do Brasil, tão dis­tante do local onde se deu a tragé­dia, e que já vinha sendo noti­ci­ado pos­síveis atos de vio­lên­cia con­tra cri­anças e ado­les­centes, as famílias firam ansiosas em man­dar seus fil­hos para as esco­las.

Pos­suo, por for­mação, uma imensa de difi­cul­dade em aceitar qual­quer ato ou abuso con­tra pes­soas inde­fe­sas, idosos, defi­cientes, cri­anças, além das mul­heres, tan­tas vezes vio­ladas e abu­sadas sex­ual­mente, psi­co­logi­ca­mente, finan­ceira­mente, e tan­tas out­ras for­mas.

Já trata­mos tan­tas vezes disso.

O que acon­te­ceu um Santa Cata­rina é algo que, de tão absurdo, não con­seguimos com­preen­der. Uma vez me deparei com uma con­statação bem curiosa, a de que exis­tem coisas tão grandes, mas tão grandes, que não con­seguimos enxerga-​las. É dizer, são tão imen­sas que ocu­pam todo o nosso campo visual a ponto de não con­seguirmos saber do que se trata.

Um ato de vio­lên­cia – assim como tan­tos out­ros –, é algo que a mente humana nor­mal não pos­sui capaci­dade para “divisar”, não há como com­preen­der, sob qual­quer aspecto, que alguém pule o muro de uma crèche, e, com golpes de machado, tire a vida de cri­anças.

Uma situ­ação ou fato desses não é algo que “caiba” den­tro das nos­sas mentes.

Acho que na natureza pou­cas são as espé­cies capazes de destruir os seus semel­hantes. A raça humana ocupa o topo dessas exceções.

Sobre o fato especí­fico – e sobre out­ros acon­tec­i­men­tos dos últi­mos dias –, bem como, sobre os infini­tos boatos de que mais atos de vio­lên­cia irão eclodir a qual­quer momento e em qual­quer lugar, urge que as autori­dades de segu­rança, autori­dades médi­cas e, prin­ci­pal­mente, as famílias, inves­tiguem o que vem ocor­rendo no nosso país na quadra que vive­mos.

As famílias, prin­ci­pal­mente elas, pre­cisam acol­her e con­viver mel­hor com os fil­hos, procu­rando saber se efe­ti­va­mente estão bem ou se estão recebendo out­ros tipos de influên­cias que os tornem capazes de praticar atos insanos e incom­preen­síveis.

Soube que a mãe do assas­sino das cri­anças de Blu­me­nau teria dito que o mesmo não apre­sen­tava “condição” anor­mal, exceto pelo o uso de dro­gas. As primeiras infor­mações ofi­ci­ais sobre o fato davam conta que ele teria tido um “surto psicótico”.

Ora, a menos que ele tenha tido tal surto em casa, de onde saiu com machad­inha. Nesse meio tempo, antes de come­ter o ato inom­inável, teria repen­sado, ces­sado o surto? Ouvi de um del­e­gado que o plano do indig­i­tado seria imo­lar 30 (trinta) cri­anças.

Não me parece surto algum, mas uma ação plane­jada e exe­cu­tada, que não teve seu des­fe­cho com­pleto graças a ação das pro­fes­so­ras.

As autori­dades, por sua vez, pre­cisam “mer­gul­har” fundo no sub­mundo das redes mundi­ais de com­putares, a fim de desco­brir que tipo de crimes ou de plane­ja­mento de crimes estão em curso.

São muitas coin­cidên­cias entre os fatos ocor­ri­dos e a série de boatos surgi­dos nos últi­mos tem­pos. Talvez uma coisa não tenha nada a ver com a outra, talvez este­jam rela­cionadas e este­jamos diante de algo tão grande e ruim, como disse ante­ri­or­mente, que nem pos­suí­mos a capaci­dade de divisar ou com­preen­der.

Mas deix­e­mos isso, por enquanto, ao escrutínio das autoridades.

Esta­mos na Sexta-​feira Santa, a Sexta-​feira da Paixão de nosso Sen­hor e por isso, como falamos no iní­cio, nos­sas palavras devem ser no sen­tido de bus­car Nele, no seu sofri­mento por todos nós, o con­forto que tanto pre­cisamos, pois vive­mos um momento em que só a fé em algo bem maior é capaz de trazer um pouquinho de “refrigero” as nos­sas vidas.

Toda vio­lên­cia é inom­inável, a vio­lên­cia con­tra cri­anças inde­fe­sas, penso eu, não cabe numa definição, é algo que ape­nas dói muito, pois dói dire­ta­mente na alma.

É algo que nos faz duvi­dar, em um rasgo de revolta, da própria existên­cia div­ina. Pois, como pode Deus per­mi­tir, ante seus olhos, tamanha maldade?

O que dizer a um pai, uma mãe quando estes per­dem um filho? Que palavras os con­for­t­ariam? Cer­ta­mente nen­huma.

Quando perda se perde um ente querido, alguém que amamos, perdemos um pouco de nós mes­mos.

Lembrei-​me do pequeno Bernardo, órfão de mãe, assas­i­nado pelo pai em con­sór­cio com a madrasta e mais out­ros seres abje­tos, no Rio Grande do Sul, há alguns anos.

Numa triste e dramática coin­cidên­cia, uma das víti­mas da tragé­dia insana de Blu­me­nau tam­bém se chamava Bernardo, cer­ta­mente, em hom­e­nagem ao santo.

Em plena Sem­ana Santa e antes do dia da Paixão, mataram o Cristo nova­mente qua­tro vezes, e tan­tas vezes mais o fiz­eram antes.

Nós, os que cre­mos, temos a con­vicção de que Cristo ressus­ci­tará e com Ele ou Nele ressus­ci­tarão todas as cri­anças imo­ladas. Estarão elas, como anjos que são, ao lado do Sen­hor por toda a eternidade.

Uma Sexta-​feira Santa de reflexão para todos.

Abdon C. Mar­inho é advogado.

A NOS LIBERTA.

Escrito por Abdon Mar­inho

A NOS LIBERTA.

Por Abdon C. Marinho*.

AMANHÃ será Domingo de Ramos, o dia/​marco do iní­cio da Sem­ana Santa, o fim e um novo começo. No domingo Jesus Cristo aden­tra em Jerusalém mon­tado em jumento e sendo saudado por pes­soas com ramos de árvores, depois sobrevém a traição de Judas, a prisão, a negação de Pedro, o jul­ga­mento, a con­de­nação pela von­tade do próprio povo que no domingo o saudara, sabendo-​o inocente, Pilatos lava as mãos, entrega-​o às solenidades ofi­ci­ais da con­de­nação: a preparação com a coroa de espin­hos, o ras­ga­mento de suas vestes para que sinta bem mais peso da cruz enquanto até o calvário em cortejo público de humil­hação; sobrevém a árdua cam­in­hada, com seus diver­sos sig­nifi­ca­dos; a cru­ci­fi­cação com requintes de cru­el­dade; o pedido de perdão de Cristo; a promessa a Dimas, o bom ladrão; a entrega da vida ao Pai e Sen­hor; a morte; o sepul­ta­mento; a ressur­reição na Pás­coa; a Ascenção para vida eterna.

O sábado aman­heceu chu­voso – uma chuva fina e inter­mi­tente que vem desde a madru­gada. Após o café da manhã e ali­men­tar os peixes, enquanto obser­vava a chuva da varanda, pen­sava no quanto a Sem­ana Santa foi impor­tante para a minha vida – já disse isso aqui em um texto muito antigo –, mais impor­tante que o Natal, Ano Novo, aniver­sários, ou qual­quer outra.

A Sem­ana Santa, para mim, sem­pre teve esse sen­tido de propósito, de final­i­dade, que as coisas, as pes­soas e tudo mais, “acon­te­cem” na nossa vida com uma final­i­dade e ao cabo de tudo ter­e­mos a rec­om­pensa, aqui, neste plano, noutro plano, na eternidade.

A sequên­cia de acon­tec­i­men­tos da Domingo de Ramos à ressur­reição na Pás­coa teve uma final­i­dade. Quando Cristo aden­tra tri­un­fal em Jerusalém teve como propósito atrair a ira dos poderosos, sobre­tudo, daque­les que domi­navam a fé; a traição de Judas, por moti­vações políti­cas ou mon­etárias, teve sua razão de ser, Cristo já era sabedor disso, tendo anun­ci­ado a traição na última ceia; e veio com um beijo a traição no Monte das Oliveiras, quando o sen­hor anun­ciou: — Judas, com um beijo, tu trai o filho do Homem; a prisão sem reação – a caso, se não estivessem nos planos, Cristo e os seguidores não teriam reagido? Não pode­ria ter cla­mado por uma legião de anjos para impedir a prisão? Nada disso foi feito e Jesus Cristo ainda resti­tuiu a orelha decepada por um dos seguidores a dos sol­da­dos que o pren­deu.

A negação de Pedro, tam­bém anun­ci­ada por Jesus, serve para nos mostrar o quanto somos frágeis na nossa fé quando con­fronta­dos com o medo ou com out­ras cir­cun­stân­cias extremas. É nor­mal a nós, humanos, que fraque­je­mos algu­mas vezes e em algu­mas situ­ações. Até com Pedro deu-​se isso. Pedro, a pedra, a rocha sobre a qual ergueu-​se toda uma fé.

A mesma análise dar-​se em relação as demais “estações” de sofri­mento de Jesus Cristo até a ressur­reição, quando, por der­radeiro, o tri­unfo da vida se sobrepõe à escuridão da morte.

A Sem­ana Santa, ao longo dos anos da minha existên­cia, sem­pre teve esse propósito de pen­sar e repen­sar os planos de Deus para nossa existên­cia e para minha própria vida.

Nos meus primeiros anos, ainda pequenino, lem­bro que toda a sem­ana era Santa, se guar­dava todos os dias, e nunca fomos muito reli­giosos, morá­va­mos em um povoado onde não havia igre­jas. A fé que guardá­va­mos nada tinha a ver com a igreja, era fruto do cos­tume ances­tral de uma lig­ação “direta” com o próprio Cristo Jesus e pelo respeito ao seu sofri­mento em sua der­radeira sem­ana ter­rena.

Ao que me recordo, a sem­ana ia gan­hando ares de gravi­dade à medida que se aprox­i­mava do seu ápice, já a par­tir da quarta-​feira os ani­mais não pode­riam ser pre­sos, não se orden­hava as vacas, o que sig­nifi­cava que não teríamos leite. Na quinta-​feira e na sexta-​feira eram para jejum silen­cioso, não se ouvia rádio, não se falava alto, não se brin­cava, um silên­cio cor­tante reinava somente sendo que­brado no sábado da Aleluia, quando já se podia brin­car, os adul­tos se per­diam nos jogos de car­tas ou de dom­inó e das coz­in­has vin­ham o cheir­inho gos­toso de bolo de macax­eira ou de puba para com­er­mos com um café com leite.

O mesmo sen­ti­mento de respeito e reflexão sobre a Sem­ana Santa e a Pás­coa me foi com­pan­heiro de toda uma vida. Sem­pre servindo para a ren­o­vação da fé e que tudo que pas­sava, ao menos aos olhos do Sen­hor tinha e tem um propósito como o teve o sofri­mento do seu próprio filho.

Mesmo nos momen­tos dos maiores sofri­men­tos e aflições, mantive-​me firme e forte na fé, na certeza de que as provações tin­ham um propósito que mesmo não com­preen­dendo o seu sig­nifi­cado elas tin­ham uma sig­nifi­cação aos planos de Deus.

Muitas vezes – e ainda hoje –, em momento de difi­cul­dades me pus a per­gun­tar: —oh, Deus é mesmo necessário tudo isso? Livra-​me de todos os males e poupa-​me de mais esse sofri­mento.

Ao fazer tais ques­tion­a­men­tos ao pedir por livra­men­tos, trazia na lem­brança que tam­bém Jesus Cristo, o filho de Deus, ao ser preso, tam­bém pediu ao pai que o livrasse todos os males, mas que fosse feita a sua von­tade.

Tudo faz parte dos planos de Deus e se crermos nisso as nos­sas cruzes, os nos­sos far­dos são bem mais leves.

Outro dia um amigo me ques­tio­nou. Dizia ele que alguns tex­tos meus, aque­les que retratavam a minha cam­in­hada até aqui, era muito tristes e que não con­seguia lê-​los. Contra-​argumentei dizendo a ele que se não con­seguia ler, imag­ina eu que tive que vivê-​los.

Depois, com mais vagar, com­preendi o que que­ria dizer.

Vive­mos hoje em um mundo no qual as pes­soas “se entregam” com muita facil­i­dade, entram em crise, se angus­tiam e por vezes, infe­liz­mente, põem termo à própria existên­cia. Não foram “for­madas” para terem fé, para enten­derem que os sofri­men­tos de hoje fazem parte de um plano que nos torna mais fortes.

Nunca fui reli­gioso ou santo – e longe de mim querer sê-​los –, mas, con­forme dito acima, sem­pre tive muita fé. Foi essa fé que me fez aguen­tar todos os “tran­cos” até aqui e os que, cer­ta­mente, ainda virão – paciên­cia, faz parte do plano –, foi a fé que me fez enx­er­gar além, que me fez perce­ber que o bem que faze­mos ao próx­imo, ainda que per­dendo algo mate­r­ial, não nos faz perder e, sim, gan­har.

A fé me fez perce­ber que suces­sos, fra­cas­sos são cir­cun­stan­ci­ais, fazem parte da vida, da qual nada lev­a­mos e que não vale pena pas­sar a vida em sofri­mento por conta de bobagens.

Final­mente, posso dizer, sem qual­quer dúvida, foi a fé que me lib­er­tou e salvou.

Um Bom Domingo de Ramos uma boa Sem­ana Sem­ana Santa e até a Pás­coa da ressur­reição de Cristo, nosso Sen­hor.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.