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O REVÓLVER DE VITORINO E A PACIÊN­CIA DE D. CREUSA.

Escrito por Abdon Mar­inho


O REVÓLVER DE VITORINO E A PACIÊN­CIA DE D. CREUSA.

Por Abdon C. Marinho*.

ADER­SON DE CAR­VALHO LAGO FILHO, ex-​deputado estad­ual, engen­heiro civil de for­mação e o não his­to­ri­ador que mais con­hece da história política do Maran­hão e seus cau­sos – isso, graças ao fato de per­tencer a uma tradi­cional família de políti­cos, a quem o dileto e saudoso amigo, ex-​deputado Bened­ito Fer­reira Pires Ter­ceiro, com finís­sima iro­nia, referia-​se como “os Sar­ney que não deram certo”; e, por pos­suir uma memória de “ele­fante” –, contou-​me, certa vez, um causo que envolve­ria Vitorino Freire (19081977), o político orig­inário de Pedra — PE, que foi proem­i­nente, por décadas, na política maran­hense, a ponto de denom­i­nar um movi­mento político: o vitorin­ismo, até ser sub­sti­tuído por outro político, esse maran­hense, José Sar­ney (1930 — …), em 1965.

O vitorin­ismo foi respon­sável direto pela eleição/​nomeação de três gov­er­nadores maran­henses: Sebastião Archer, de 19471952; Eugênio Bar­ros, de 1952 a 1956, que “bati­zou” o Povoado Cen­tro dos Boas com o nome Vitorino Freire; e, por último, já como uma hom­e­nagem a sua vida política, con­seguiu com, o gen­eral Ernesto Geisel, a nomeação de Osvaldo da Costa Nunes Freire, de 1974 a 1978.

Já não me recordo em qual dos três gov­er­nos acima referido o “causo” que me foi relatado por Ader­son teria ocor­rido – pode­ria ser qual­quer um deles –, isso não é rel­e­vante, muito emb­ora acred­ite que tenha sido no de Eugênio Bar­ros.

Pois bem, o fato é que como todo líder político que se preza, Vitorino Freire tinha diver­sos ali­a­dos, cor­re­li­gionários e ami­gos vivendo nas sinecuras dos gov­er­nos e a eles servindo e se servindo – muitos deles, como é nor­mal, com mais afinidades com quem indi­cou (Vitorino) do que o chefe ime­di­ato (o gov­er­nador).

Como a residên­cia de Vitorino Freire no estado era “pro forma”, tal qual a residên­cia de José Sar­ney no Amapá, diz-​se que ficava hospedado – pelo menos durante os gov­er­nos dos seus ali­a­dos –, na área res­i­den­cial do Palá­cio dos Leões.

Aí vem o nosso “causo”. Diz-​se numa dessas “itin­erân­cias” pelo Maran­hão, andando pelo palá­cio, encontrou-​se com um cor­re­li­gionário que “alo­jara” para tra­bal­har com o próprio gov­er­nador, no gabi­nete deste.

O cor­re­li­gionário começou a falar do gov­er­nador: — ah, senador, o homem é um bruto, me trata muito mal, vive me humil­hando e me desre­spei­tando. Nem sei como é que con­tinuo no gabi­nete, acho que só em respeito ao sen­hor. E por aí vai.

Vitorino que tudo ouvia com acu­rada atenção, retru­cou: —é mesmo, meu amigo, ele está fazendo tudo isso com você? Pois saiba que tens todo meu apoio e sol­i­dariedade. Já sei o que deves fazer.

O cor­re­li­gionário indagou: — sério, senador!? O que devo fazer?

Então, Vitorino, que car­regava o revólver no bolso interno do paletó, o sacou e entre­gou ao cor­re­li­gionário com uma recomen­dação: —pegue meu revólver. Na hora que você entrar gov­er­nador o descar­regue todo na cara dele.

Foi então que o cor­re­li­gionário, empalide­cido, diante da “solução” encon­trada pelo senador bal­bu­ciou: — mas o que é isso, senador? Talvez não seja pra tanto.

Vitorino vira-​se para ele diz: — ah, meu filho, você me conta uma série de coisas graves, humil­hações sofridas, etcetera, eu lhe sou solidário, o apoio e até minha arma pes­soal lhe empresto, mas a cor­agem tem que ser com você.

Muito emb­ora fos­sem out­ros tem­pos, é provável que o “causo” relatado acima seja ape­nas mais um fol­clore da nossa história política, como tan­tos out­ros que se sabem e tan­tos out­ros já per­di­dos bru­mas do tempo.

Mas, ape­sar disso – ver­dade ou não –, serve-​nos para lem­brar o quanto que é precária a relação entre aquele que se acha chefe ou líder político e aquele que se encon­tra no exer­cí­cio do mandato. Mesmo as amizades mais próx­i­mas e “doces” ten­dem a azedar, ainda mais quando os “entornos” que cer­cam a ambos, movi­dos por inter­esses próprios ou mesmo incon­fessáveis “tra­bal­ham” nesse sen­tido.

A ambos, aos que teimam em não “des­en­car­nar” do gov­erno que não é seu e aquele que luta para imprimir a própria marca de gestão, a recomen­dação é ape­nas uma: paciên­cia.

O “causo” suposta­mente envol­vendo o ex-​senador Vitorino Freire me veio à lem­brança após lê em alguns veícu­los de comu­ni­cação (blogues, prin­ci­pal­mente) e lê em out­ros tan­tos, os des­men­ti­dos à respeito de uma pos­sível rup­tura política entre o atual gov­er­nador e o ex-​governador, senador da república investido cargo de min­istro de estado.

Ver­dade ou não, esse não é o assunto do texto.

Em todo caso, sendo ver­dade, acho que seja uma grande “bobagem” e falta de inteligên­cia polit­ica, uma vez que não são adver­sários (pelo con­trário) e con­cor­rem, politi­ca­mente, em faixas total­mente dis­tin­tas.

Quais­quer divergên­cias ou dis­cordân­cias entre ambos, um no poder estad­ual e outro no poder fed­eral é de fácil solução.

No poder tudo é fácil de se resolver, é como car­regar melan­cia no cam­in­hão: você pensa que não vai dá certo, mas depois elas se “encaixam” e não cai uma.

Difí­cil é resolver divergên­cias fora do poder.

Há uma sen­tença que sem­pre digo por onde passo: no poder, só os tolos arran­jam motivos para brigar.

Em outra opor­tu­nidade, se instado, farei tal análise.

Antes porém que algum tolo afoito vá em busca do revólver de Vitorino, recomendo a leitura do resto do texto.

Na minha já longeva car­reira jurídica – advo­gando para municí­pios há mais de vinte e cinco anos –, uma das políti­cas mais argutas que con­heci foi a sen­hora Creüsa Braga Queiróz, ex-​prefeita de Luis Domingues, um municí­pio pequenino, menos de dez mil habi­tantes, no noroeste do estado.

E não digo pelo fato dela já ter nos deix­ado em 2020, vítima de um câncer agres­sivo.

Há mais de 20 anos, desde que come­cei a tra­bal­har com ela, que a citava como exem­plo para out­ros gestores.

Imag­inem uma mul­her que mal con­cluiu os anos ini­ci­ais do ensino fun­da­men­tal, dona de casa, mãe de seis fil­hos, esposa de ex-​prefeito, con­seguir admin­is­trar seu municí­pio sem per­mi­tir a intro­mis­são de nen­hum deles, ela con­seguiu.

Emb­ora o marido, o amigo e saudoso Didi, tenha sido prefeito, ela que era a ver­dadeira política da casa. Acol­hendo um e outro sem­pre que podia; con­ver­sando com quem apare­cesse na sua coz­inha para con­ver­sar, almoçar ou tomar um café.

O marido foi prefeito no quadriênio de 1989 a 1993 – antes da reeleição –, depois uma dis­puta sem sucesso, em 2000, elegeu-​se prefeita.

Quando assumiu, em janeiro de 2001, uma das primeiras aquisições foi uma agenda onde ano­tava de tudo: desde alguma coisa que pre­cisava lem­brar ou instrução que pas­sava aos sal­dos das con­tas do municí­pio.

Tinha tudo ano­tado e con­trolava a admin­is­tração como poucos prefeitos vi fazer, não deixando que o marido ex-​prefeito ou qual­quer um dos fil­hos desse qual­quer “pitaco”.

Assim, con­seguiu a reeleição em 2004, eleger e reeleger o suces­sor nos dois mandatos seguintes e depois, eleger o filho, atual prefeito, em 2016.

Ela entre nessa crônica porque, como política, con­seguiu, como poucos admin­is­trar essa precária relação entre ex-​gestor e lid­er­ança política com o suces­sor, sem colo­car os inter­esses políti­cos maiores sub­mis­sos a inter­esses menores ou pes­soais.

Nos mais de vinte anos em pri­va­mos de uma amizade sin­cera, me tornei uma espé­cie de con­fi­dente. Sem­pre que o suces­sor a con­trari­ava ou fazia alguma coisa que não gostava ou mesmo quando ia alguém à sua coz­inha fazer alguma recla­mação ou se queixar de algo, ela me lig­ava para con­ver­sar ou desaba­far.

Na máx­imo, depois de con­ver­sar­mos, se res­ig­nava: —pois é, doutor, temos que atu­rar esse tipo de coisa.

Quando muito zan­gada já sabia, ela falava o nome do prefeito e com­padre dela, dizia: — ah, doutor Abdon, o “homem” fez isso ou aquilo.

Já sabia: ela estava zan­gada.

Mesmo assim nunca “dava recibo”, não sei se com mais alguém, além de mim, expres­sava suas contrariedades.

Foi assim durante os oito anos do suces­sor, ao tér­mino do qual elegeu o filho prefeito.

Em situ­ações de con­fli­tos reais ou imag­inários entre ex e atu­ais gestores sem­pre recomendo que antes de se fazer uso do revólver de Vitorino que se adote a serenidade e paciên­cia de Creüsa.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

O candidato.

Escrito por Abdon Mar­inho


O CANDIDATO.

Por Abdon C. Marinho*.

UMA DAS lições mais impor­tantes da minha car­reira jurídica aprendi com o colega e decano da advo­ca­cia maran­hense, Car­los Augusto Macedo Couto, pro­fes­sor Car­los Couto, para os próx­i­mos. A lição não me foi dada como pro­fes­sor, mas, como colega e como cidadão.

Con­forme já disse algu­mas vezes, come­cei a minha car­reira jurídica pelo Dire­ito Eleitoral, primeiro pelo fato de, desde muito cedo, pos­suir envolvi­mento político: mil­itân­cia estu­dan­til e par­tidária ini­ci­ada ainda criança/​adolescente e depois por gostar, efe­ti­va­mente, daquela movi­men­tação.

O ingresso na fac­ul­dade de dire­ito, alcançou-​me, em 1991, quando já tra­bal­hava com o dep­utado Juarez Medeiros na Assem­bleia Leg­isla­tiva, fazia admin­is­tração noturno e tra­bal­hava durante o dia. Aprovado para o curso de dire­ito, tran­quei o curso de admin­is­tração para seguir a car­reira jurídica.

Em 1992 já estava par­tic­i­pando da minha primeira cam­panha eleitoral; em 1994, jun­ta­mente com Roberto Paula, Chico Branco, estava na coor­de­nação da cam­panha eleitoral do ex-​governador Epitá­cio Cafeteira ao gov­erno estad­ual, atuando como coor­de­nador e como uma espé­cie de estag­iário do Dr. Laplace Pas­sos, que era o advo­gado da cam­panha.

Tendo con­cluído o curso de dire­ito em 1996 e rece­bido a carteira da OAB/​MA em 1997, já nesse ano e até as eleições do ano seguinte, 1998, atuei nova­mente como coor­de­nador da cam­panha eleitoral do ex-​governador e senador Cafeteira ao gov­erno estad­ual.

Esse breve histórico para dizer que desde “menino” que tenho atu­ação no ramo do dire­ito eleitoral, prin­ci­pal­mente, atuando como advo­gado junto ao Tri­bunal Regional Eleitoral — TRE. Antes da pan­demia – e de alguns per­calços já relata­dos em tex­tos ante­ri­ores –, não tinha sessão, mesmo as admin­is­tra­ti­vas, que não me fizesse pre­sente, gan­hando dos cole­gas o car­in­hoso apelido de “oitavo mem­bro da corte” e de “decano do tri­bunal”, com dire­ito a “cadeira cativa” e tudo mais, com os cole­gas mais novos, quando chegava, por excesso de defer­ên­cia, levantar-​se para que pudesse sen­tar.

Foi nos primeiros anos como advo­gado atu­ante no TRE – quando mil­i­tava mais do que advo­gava –, que recebi a lição do mestre Couto, referida acima.

Era uma eleição ren­hida e o resul­tado de um jul­ga­mento, que achava abso­lu­ta­mente injusto, como tan­tos out­ros que vieram depois dele que me tirou do sério e me fez perder a com­pos­tura, a ponto de fazer comen­tários duros a respeito dos jul­gadores.

Vendo meu com­por­ta­mento, Couto chamou-​me e me disse: — meu caro doutor, se não acred­itares na Justiça, serás eter­na­mente frustrado e infe­liz com min­istério que escol­h­estes seguir. Não adi­antas esbrave­jar ou ten­tar “resolver no grito”. Preparas o teu recurso, vais atrás de out­ras instân­cias. Um advo­gado não tem o dire­ito de não acred­i­tar na Justiça. Algo mais ou menos assim.

Com mais meio quarto de século de profis­são e mais de vinte anos da lição rece­bida do mestre, mesmo com uma “car­rada de decepções” no cur­rículo, nunca perdi minha fé na Justiça.

Vendo a par­tir das visão e exper­iên­cia que tenho hoje – e já tendo con­hec­i­mento de tan­tas decepções –, a lição do mestre Couto “me salvou”, pois, já imag­i­naram alguém pas­sar um quarto de século (até aqui) ou a vida toda fazendo algo em que não acred­ita? Imag­i­nando que a Justiça apren­dida na vida ou nos ban­cos esco­lares não passa de uma ficção? Que tudo são “esque­mas” ou cor­rupções?

Ao meu sen­tir, pelo menos para este escriba que vos fala, seria uma vida de extrema infe­li­ci­dade. E a razão da nossa existên­cia é ser­mos felizes.

A minha profis­são de fé é acred­i­tar na Justiça, ape­sar de tudo.

Não abro mão, abso­lu­ta­mente, deste credo, pois, se assim o fizesse, estaria dizendo que toda a minha vida profis­sional foi inútil, seria tra­gado pela infe­li­ci­dade.

Como tra­bal­har, fazer algo que não acred­i­tas? Qual o sen­tido de levar uma vida sabendo que o fruto do teu tra­balho não é bené­fico a ninguém?

Agora pus-​me can­didato ao cargo de desem­bar­gador na vaga des­ti­nada, pela Con­sti­tu­ição da República, para advo­ca­cia no critério do Quinto Con­sti­tu­cional.

Um amigo muito próx­imo e querido lis­tava as difi­cul­dades da empreitada:

— Abdon, tu não és “fidalgo”, ou seja, não és filho de gente impor­tante, não nasceu no seio da elite; levas uma vida de “Cas­murro”, não fre­quenta os “salões” de even­tos; não és amigo íntimo (ou não íntimo) dos con­sel­heiros da ordem ou dos desem­bar­gadores e, muito menos, do gov­er­nador, que dá a cane­tada final.

Retru­cava aos argu­men­tos dizendo que pos­suía a prin­ci­pal cre­den­cial: a fé ina­balável na Justiça.

O fato de não ser “fidalgo” ou de não ter nascido no seio da elite, tam­bém, não pode­ria servir como critério; e, muito emb­ora, leve uma vida de “Cas­murro”, sou con­hecido por todos e tenho ideias claras e públi­cas sobre todos os temas com os quais terem que me debater na even­tu­al­i­dade de “chegar lá”.

E quanto ao fato de não poder “fazer cam­panha” dev­ido às lim­i­tações que pas­sas por conta da poliomielite? Indagou.

Pon­derei, em relação a tal assertiva, que não era o que pode­ria ter feito nos últi­mos meses ou que pode­ria fazer no tempo que resta para o primeiro escrutínio, o fator deter­mi­nante para a escolha, mas sim, o que fiz ou como me com­portei ao logo de toda uma vida.

Como tive que via­jar – con­forme relatei na crônica da sem­ana pas­sada –, deixei ao encargo dos meus colab­o­radores a incum­bên­cia de efe­t­uar o reg­istro da can­di­datura – o que fiz­eram em tempo hábil –, entre­tanto, uma inter­pre­tação equiv­o­cada que deram ao edi­tal, acabou por deixarem de fora alguns doc­u­men­tos, o que só foi suprido no prazo de 48 horas, con­forme pre­visão editalícia.

Cheguei a ficar tenso com a situação.

Muito emb­ora saiba das difi­cul­dades que ter­e­mos ao longo da cam­in­hada: primeiro, ser escol­hido pelos advo­ga­dos e advo­gadas aptos a votarem na eleição direta, no total de 12 (doze); segundo, ser escol­hido entre os 06 (seis) pelo Con­selho Estad­ual da OAB; ter­ceiro, fig­u­rar na lista trí­plice, for­mu­lada pelo TJMA; e, por fim, ser escol­hido pelo gov­er­nador.

Dizia aos cole­gas e colab­o­radores que inde­pen­dente do resul­tado de cada uma das eta­pas, o que me impor­tava era poder ser can­didato, dizer a todos: — ei, eu estou aqui.

Ao poder dizer isso – somente isso –, estou dizendo a todas as cri­anças pobres ou ricas, fil­has de cam­pone­ses ou de abas­ta­dos, pre­tas, bran­cas ou de quais­quer das cores do arco-​íris, de qual­quer religião ou credo, que elas tam­bém poderão chegar onde quis­erem, pois o filho de D. Neuza e de seu Van­der­lino, agricul­tores, anal­fa­betos por parte de pai, mãe e parteira e for­agi­dos da seca, chegou até aqui.

É isso que move. Gan­har, ser escol­hido são os obje­tivos, mas o que me move para par­tic­i­par de tal processo é a ideia de que estou sendo o fanal para alguém, sobre­tudo, para aque­les nunca tiveram nada na vida além da força de von­tade.

Sou de uma família grande. Meus avós tiveram mais de uma dúzia de fil­hos e com eles vieram para o Maran­hão, para viver da agri­cul­tura na região do médio Mearim; meus pais tiveram mais de uma dezena de fil­hos.

Destas duas ger­ações, fui o primeiro a con­cluir um curso supe­rior, ape­sar de todas as difi­cul­dades que enfrenta­mos: a pobreza, a seca, a pólio, a orfan­dade na primeira infân­cia e todas as demais situ­ações já relatadas em diver­sas out­ras oportunidades.

Hoje, na nossa família imensa, com diver­sos doutores, pro­fes­sores, todos bem for­ma­dos e podendo se esta­b­ele­cer onde quis­erem, ouvi de um sobrinho a declar­ação que mais me tocou e emo­cio­nou: — tio, o sen­hor foi a minha inspiração.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

Crôni­cas da estrada com Max Harley.

Escrito por Abdon Mar­inho


CRÔNI­CAS DA ESTRADA COM MAX HARLEY.

Por Abdon C. Marinho*.

CHEG­AMOS em Luis Domingues por volta de 1:30 horas da quarta-​feira, dia 15 de março. Emb­ora ache agradável via­jar à noite pois as estradas estão geral­mente vazias e a pas­sagem por nos­sas cidades remeta-​me às lem­branças da infân­cia e ado­lescên­cia, há muito tempo deixei de fazer isso. As condições das estradas e a vio­lên­cia, cada vez mais pre­sente por onde quer que passé, acabou por me fazer preferir as via­gens diur­nas, só via­jando à noite, e, assim mesmo, cer­cado de caute­las, quando abso­lu­ta­mente necessário.

Surgiu a neces­si­dade. Uma sem­ana antes, aprox­i­mada­mente, Max me per­gunta se não que­ria ir a Luis Domingues, pois em razão de um com­pro­misso dele em outro municí­pio aproveitaríamos para fazer uma viagem só.

Achei bom. Como há algum tempo a prefeitura munic­i­pal encontra-​se em refor­mas já fazia um bom tempo que não ia lá, sendo que ami­gos e servi­dores do municí­pio já estavam lig­ando e per­gun­tando que dia iria.

Max tam­bém tinha que ir em razão do “fechamento” das prestações de con­tas para encam­in­har para o TCE.

Dois dias depois ele me liga: — doutor, o com­pro­misso que tinha agen­dado para o outro municí­pio, em razão do con­gresso de prefeitos pro­movido pela FAMEM, foi deslo­cado de quarta-​feira, 15, para a sexta-​feira, 17.

Tive­mos que reor­ga­ni­zar a viagem.

As pas­sagens já com­pradas para o domingo, à tarde, com retorno na quarta-​feira, final do dia, tiveram que ser remar­cadas para terça-​feira à noite (após o encon­tro dos prefeitos) com retorno para a sexta-​feira, no fim da tarde.

Por sorte, sem­pre tenho uma ou duas pas­sagens “sobrando” na pasta, o que facilita a troca.

Exces­si­va­mente pre­venido, o que, às vezes irrita os que via­jam comigo, pois gostam de chegar “em cima” da hora, sai do escritório pouco depois das 15 horas.

Apan­hamos o Max que já estava de pron­tidão nos aguardando e seguimos para o ter­mi­nal.

Con­seguimos “pegar” um ferry-​boat extra que sairia as 16:30 horas.

Cheg­amos a Pin­heiro pouco depois das 19 horas, jan­ta­mos, e por volta das 20 horas, seguimos viagem noite a den­tro.

Enquanto ouvíamos a trilha sonora preparada pelo outro com­pan­heiro de viagem, Ali­son Fer­nando, espe­cial­mente para a viagem íamos con­ver­sando sobre os “cau­sos” já viven­ci­a­dos, eu nes­tas quase três décadas, Max, já pas­sando das duas. Max diz que quando par­tic­ipa ou sabe de algum causo engraçado tenta ao máx­imo guardar, com todos os seus detal­hes, para contar-​me ou con­tar ao seu pai, Dr. Zé Maria, outra pes­soa boa de cau­sos.

Noite de terça, as cidades por onde íamos pas­sando ou se prepar­avam para adorme­cer ou já estavam adorme­ci­das, aqui ou ali, em alguma porta algu­mas pes­soas ainda con­ver­sando, acolá, a vigília de um velório.

Papo vai, papo vem, Max remem­ora um dos cau­sos do seu tio Luis – e que ficou de fora da crônica escrita na vez ante­rior.

O Dr. Luiz­inho, seu tio, tinha prob­le­mas com bebida, um caso típico de dupla per­son­al­i­dade, em que quando sóbrio se é uma pes­soa, abso­lu­ta­mente cen­trada e tra­bal­hadora, mas que quando bebe perde total­mente o bom senso.

Ele tinha con­sciên­cia disso, tanto que quando sóbrio entre­gava todo din­heiro que tinha para a mãe de Max e sua cun­hada (D. Marineia, de saudosa memória), com a recomen­dação de que não lhe devolvesse de forma alguma quando estivesse bêbado.

Tudo com­bi­nado, din­heiro entregue e guardado, na hora que bebia lá ia ele para casa de Max fazer escân­dalo e chamar a mãe dele de ladra: — devolve meu din­heiro, sua ladra! E por aí vai.

A nar­ra­tiva acima é ape­nas para que con­heçam a figura.

O episó­dio a mere­cer fig­u­rar na nossa coleção de crôni­cas de estrada é outro, que se encerra com um mis­tério.

Deu-​se na cidade de Miranda do Norte, fins dos setenta ou iní­cio dos oitenta, noite de chuva intensa, em um cabaré “daque­les” bem pop­u­lares, madru­gada avançada, já quase “comendo” o dia, um som mais alto se sobrepõe sobre os bur­bur­in­hos das mesas e do som ambi­ente, é a dona do cabaré dizendo: — doutor Luiz­inho tenha um pouco mais de respeito no meu esta­b­elec­i­mento.

O Dr. Luiz­inho se foi e per­siste o mis­tério até hoje na família Fre­itas: que tipo de “gosto” o doutor Luiz­inho tomara em um cabaré de quinta em uma madru­gada de chuva tor­ren­cial a ponto de causar indig­nação na dona do esta­b­elec­i­mento? Mis­tério.

Cau­sos anti­gos vão se mis­tu­rando aos novos.

São fatos e pes­soas que vão pas­sando por nos­sas vidas com suas graças que nos fazem rir depois ao lem­brar.

Após a relem­brança do tio Luiz­inho foi a vez falar­mos sobre um treina­mento que dera para uma equipe de um municí­pio em outro municí­pio acen­tuando uma das suas com­pan­heiras de tra­balho achara o nariz de uma das par­tic­i­pantes muito bem feito, além dos out­ros atrib­u­tos de beleza inques­tionáveis.

Foi a deixa para interrompê-​lo para afir­mar: — poxa, Max, ela não me deve ter em boa conta.

Quando perce­beram que estava falando do meu avan­ta­jado e desar­ru­mado nariz, caíram todos na gar­gal­hada.

Na manhã seguinte ele mandou-​lhe uma fotografia minha com o nariz em destaque e contou-​lhe o episó­dio “estradeiro”.

Aliás, sobre essa mesma com­pan­heira de tra­balho, há um outro episó­dio para coleção de cau­sos.

Con­sta que o cidadão que faz entre­gas de doc­u­men­tos entre os órgãos e pequenos man­da­dos, apare­ceu pela repar­tição por volta das 14 horas, tendo um dos servi­dores ques­tion­ado: — seu Coman­dante, apare­cendo por aqui depois de uma soneca.

Ao que ele, sem se aten­tar, emen­dou: — na ver­dade foi uma “f…deca”, mesmo.

Dona Gil que estava um pouco afas­tada deu-​lhe uma chamada: — seu Coman­dante, que história atrav­es­sada é essa?

O seu Coman­dante, todo con­strangido bal­bu­ciou uma des­culpa: — des­culpe, dona Gil, não tinha lhe visto.

Entre cau­sos, lem­branças e boa música íamos ven­cendo as estradas e suas crat­eras de causar inveja a lua.

No dia seguinte, após o tradi­cional almoço na casa do prefeito foi a minha vez de pro­tag­oni­zar um “causo” que será motivo de risos pelas repar­tições públi­cas Maran­hão a fora.

Depois do almoço, invari­avel­mente deli­cioso, à base de gal­inha caipira com pirão de descaída e um assado de pan­ela de dá água na boca, arrematado por um crème que atenta con­tra qual­quer dieta, o prefeito pediu que aten­desse umas sen­ho­ras que ali estavam para ouvir minha opinião sobre deter­mi­nada causa.

Achei mel­hor atendê-​las na própria mesa onde fora servido o almoço.

Max ficou em um canto con­ver­sando com as secretárias de saúde e a de finanças e eu, mas para o meio, ouvindo a história das sen­ho­ras – mas sem ficar total­mente desli­gado do outro assunto. Ouvi clara­mente quando ele, que recusara o crème de sobremesa per­gun­tara se as mex­eri­cas na fruteira eram boas, ao que a empre­gada domés­tica disse não saber; não vi, tam­bém, que Max se serviu de uma.

No final do atendi­mento, aproximei-​me de Max e das secretárias, peguei uma mex­erica, descasquei-​a e ao masti­gar o primeiro gomo, man­dei: — ah, Max, ela não quis foi te dar.

Todos à mesa me olharam sem enten­der pois estavam tratando de outra coisa, e eu ainda ten­tei com­ple­tar: — … a mexerica …”.

— Doutor que con­versa atrav­es­sada foi essa. Atal­hou Max, enquanto todos caiam na gar­gal­hada da minha intro­mis­são “fora de hora”.

Na quinta-​feira, ao tér­mino do segundo dia de expe­di­ente e tendo deix­ado toda a mis­são resolvida ou bem encam­in­hada, peg­amos a estrada de volta, ainda com sol, para poder­mos con­statar suas pés­si­mas condições.

Em Gov­er­nador Nunes Freire, fize­mos aquela “parada obri­gatória” na Padaria Alana para tomar um suco e um cafez­inho com um pastelz­inho.

Sobre essa “parada obri­gatória”, numa vez ante­rior estava tam­bém por lá com Max, quando alguém me liga per­gun­tando por onde estava, sem “papas” na lín­gua, respondi, bem ao meu estilo: — estou em Gov­er­nador Nunes Freire, tomando um deli­cioso suco de caju com um pas­tel de vento.

Max, corado, foi logo dizendo: — doutor, o que é isso, todos estão ouvido o sen­hor dizer que que está sabore­ando “um pas­tel de vento”.

Nessa noite, por conta da audiên­cia pública que Max par­tic­i­paria em Turilân­dia, dormi­mos em Santa Helena, no hotel do mesmo nome, de pro­priedade do já amigo Glad­is­ton.

Na sexta-​feira, após a audiên­cia de Max e de uma ráp­ida parada no Jam­beiros, onde paramos para ele cumpri­men­tar as autori­dades pre­sentes na audiên­cia, par­ti­mos para Cujupe, chegando “em cima” da hora para pegar ferry-​boat para o qual tín­hamos com­prado pas­sagem.

Cheguei em casa, em São José de Riba­mar, às 20:30 horas, depois bus­car todos os atal­hos para vencer um engar­rafa­mento “sem fim” no bairro do Anil.

Fim da crônica.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.