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A tragé­dia é irmã da omis­são e prima da incompetência.

Escrito por Abdon Mar­inho

Vista de Recife — PE. Foto de Abdon C. Marinho.

A TRAGÉ­DIA É IRMÃ DA OMIS­SÃO E PRIMA DA INCOM­PETÊN­CIA.

Por Abdon C. Marinho*.

UMA SEM­ANA, enquanto o brilho do Car­naval con­ta­giava o país após dois anos sem tal festa dev­ido à pan­demia, uma tragé­dia ocor­ria no litoral norte de São Paulo e que, até aqui, já con­tabi­liza quase seis dezenas de vidas humanas per­di­das.

Um “evento climático extremo” – chu­vas tor­ren­ci­ais –, provo­cou desliza­men­tos de encostas, levando con­sigo dezenas, cen­te­nas de habitações, soter­rando out­ras tan­tas e cul­mi­nando com o número de mor­tos referi­dos acima que ainda não é defin­i­tivo tendo em vista que diver­sas pes­soas ainda estão desa­pare­ci­das.

Como não sou um grande folião, desde o domingo de Car­naval até a quarta-​feira de Cin­zas alternei a pro­gra­mação de leituras, filmes, escritas e música com o acom­pan­hamento dos noti­ciários sobre a tragé­dia.

Dispondo do tempo, enquanto ia acom­pan­hando as notí­cias, me ocu­pava em refle­tir sobre o que a motivou.

Quase todos os anos assis­ti­mos os tais “even­tos climáti­cos extremos” – e os cien­tis­tas já vêm aler­tando, e não é de agora, que eles serão cada vez mais fre­quentes e inten­sos –, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, já reg­is­traram situ­ações climáti­cas “anor­mais” nos últi­mos anos – me referindo ape­nas aos que lem­bro de ime­di­ato.

Há décadas, desde que sur­gi­ram os ter­mos “El Niño” e “La Niña”, que con­vive­mos com secas extremas no nordeste, chu­vas inten­sas no sul e sud­este; se inver­tendo tais cenários de forma alter­nada, numa região ou noutra.

Na con­fer­ên­cia inter­na­cional sobre o clima ocor­rida no Brasil há mais de trinta anos, a Rio 92, já se falava quero clima seria cada vez mais deter­mi­nante para a vida dos humanos no plan­eta e que pre­cis­aríamos ado­tar inúmeras medi­das para mino­rar os efeitos dos even­tos.

O que foi feito? Nada. Ou quase nada sig­ni­fica­tivo.

Como con­se­quên­cia, o “clima” escolhe ano sim e no outro tam­bém, algum estado brasileiro para ser “cas­ti­gado” com alguma tragé­dia. Em qual­quer um deles encon­trará as condições propí­cias para cei­far vidas e causar imen­sos pre­juí­zos.

Desde sem­pre sabe­mos que não podemos con­tro­lar o clima, é algo que encontra-​se a cima de nos­sas forças, sabe­mos, sim como mino­rar os efeitos que o mesmo provoca do plan­eta, daí se falar tanto na diminuição do des­mata­mento, na diminuição da poluição, na redução da pro­dução de gases que provo­cam o aque­c­i­mento global, etc., etc., tanto assim, que desde a Rio 92 que as nações assi­nam pro­to­co­los de intenções – que depois igno­ram –, com medi­das a serem ado­tadas por cada um deles visando man­ter o equi­líbrio climático.

Desde sem­pre tam­bém sabe­mos que é pos­sível, se não elim­i­nar, mit­i­gar ou reduzir os efeitos e a perda de vidas humanas nas tragé­dias quase anun­ci­adas de todos os anos.

Essa mit­i­gação, redução ou mesmo elim­i­nação da perda de vidas humanas nas tragé­dias cau­sadas pelos even­tos climáti­cos se dá com a ação de esta­dos e municí­pios na imple­men­tação de políti­cas públi­cas que garan­tam mora­dias pop­u­lares em lugares seguros e impeça a ocu­pação de áreas de risco.

Todos os anos, diante das tragé­dias, apare­cem os cien­tis­tas, espe­cial­is­tas ou mesmo autori­dades dizendo que as con­struções que lev­adas pelas enchentes, que deslizaram ou foram soter­radas, estavam em locais inde­v­i­dos; que pre­cisamos fazer isso ou aquilo para impedir que isso volte acontecer.

Depois que o noti­ciário “esfria”, parece que ninguém mais lem­bra do que acon­te­ceu, os inves­ti­men­tos não vêm, as pes­soas con­tin­uam ocu­pando de qual­quer jeito áreas inse­guras e as autori­dades de omitindo, como sem­pre.

Diante dos holo­fotes, o din­heiro existe, as medi­das restri­ti­vas serão tomadas “doa a quem doer”, não serão omis­sos, incom­pe­tentes e haverá proa­t­ivi­dade, fora dos holo­fotes, tudo con­tin­uará como dantes até a próx­ima tragé­dia no verão seguinte.

Como dito no título, as tragé­dias no Brasil são irmãs das omis­sões das autori­dades fed­erais, estad­u­ais e munic­i­pais, que emb­ora sabendo que ela virá mais cedo ou mais tarde, nada fazem.

Agora mesmo, enquanto somos “inun­da­dos” pelo noti­ciário sobre a tragé­dia no litoral norte de São Paulo quan­tas ocu­pações irreg­u­lares estão acon­te­cendo em todo país? Mil­hares.

Aqui mesmo na Ilha do Maran­hão, nas rodovias que a cor­tam e pelas quais passo todos os dias, vejo sur­gir diver­sas invasões ou ocu­pações irreg­u­lares de ter­ras.

Há anos venho aler­tando para o retorno, na Ilha, da chamada “indús­tria das invasões”, sem que as autori­dades se man­i­festem para impedi-​las. Mesmo pes­soas que pos­suem imóveis, estão fin­gindo que não tem onde morar para con­struir em pro­priedades alheias ou pri­vadas.

Muito emb­ora as ocu­pações irreg­u­lares (invasões) rep­re­sen­tem gas­tos públi­cos pos­te­ri­ores para urban­iza­ção, implan­tação de serviços e equipa­men­tos públi­cos diver­sos, as autori­dades per­mitem que os lití­gios judi­ci­ais sejam trata­dos como questões pri­vadas ou seja, se o pro­pri­etário pelos próprios meios ou através da justiça não con­segue “desin­vadir” o imóvel, estare­mos diante do surg­i­mento de um “novo bairro”, que cer­ta­mente levará o nome de um político famoso, “bati­zado” na esper­ança de que não serão per­tur­ba­dos.

(Invasão em anda­mento em Paço do Lumiar — MA. Foto de Abdon C. Mar­inho).
Con­sol­i­dada a ocu­pação e surgido o “bairro” lá vem municí­pio e estado para dotá-​lo de infraestru­tura e até reg­u­larizar as posses no mesmo momento em que os “inva­sores orig­inários” ini­ciam a venda dos ter­renos, sobre­tudo os mais val­oriza­dos, às mar­gens de rodovias ou vias prin­ci­pais.

É assim que fun­ciona há mais 50 anos a “indús­tria da invasão” que as autori­dades fin­gem não ter qual­quer con­hec­i­mento.

Com toda tec­nolo­gia envolvida na vida das pes­soas atual­mente, autori­dades estad­u­ais e munic­i­pais – e mesmo fed­erais –, não con­seguem ter um cadas­tro das famílias ou pes­soas que efe­ti­va­mente não têm onde morar – muito emb­ora todos este­jam inscritos nos pro­gra­mas tipo “Bolsa Família” ou Auxílio Emer­gen­cial.

Essa falta de con­t­role, de com­par­til­hamento de infor­mações sobre a real­i­dade econômica das famílias é a “prima incom­petên­cia” fazendo o seu “tra­balho” no favorec­i­mento das tragé­dias, da des­or­dem urbana, da vio­lên­cia e do caos.

Foge à minha com­preen­são que as autori­dades das três esferas de gov­erno (fed­eral, estad­u­ais e munic­i­pais) não con­sigam fazer um mapea­mento das áreas de risco, das pes­soas e famílias que efe­ti­va­mente moram em tais situ­ações por neces­si­dade e não con­sigam resolver ou pelo menos mino­rar a situ­ação das mes­mas antes das chu­vas e das tragé­dias do próx­imo verão.

A tragé­dia não vem soz­inha, ela tem uma irmã chamada omis­são e tem uma prima chamada incom­petên­cia. Enquanto o Brasil não apren­der a respon­s­abi­lizar os que “têm culpa no cartório”, seja por ação, seja por omis­são, seja por incom­petên­cia, deve­mos nos con­for­mar e nos preparar para chorar os mor­tos a cada tragé­dia – ou ser­mos indifer­entes e “sam­bar” diante da dor cau­sada pelas mes­mas.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

Na defesa de uma edu­cação igualitária.

Escrito por Abdon Mar­inho


NA DEFESA DE UMA EDU­CAÇÃO IGUAL­ITÁRIA.

Por Abdon C. Marinho*.

DESDE tem­pos imemo­ri­ais que sabe­mos ser a edu­cação a chave do sucesso. Não ape­nas do sucesso indi­vid­ual, como, tam­bém, do sucesso cole­tivo. Uma sociedade edu­cada tem tudo para pro­gredir e alcançar o bem-​estar para todos.

Ainda pequeno lem­bro do meu pai dizer que me daria algo que ninguém jamais iria tomar: a edu­cação. E, matriculou-​me numa escola. Primeiro na escol­inha do nosso povoado, uma cas­inha de latada; depois no Unidade Integrada Alde­nora Belo, já na sede no municí­pio e na Unidade Integrada Castelo Branco, onde con­clui o que hoje seria o fun­da­men­tal anos ini­ci­ais; depois veio o Colé­gio Ban­deirante, onde fiz os anos finais do fun­da­men­tal; o ensino médio já no Liceu Maran­hense e, por fim, o curso de Dire­ito na Uni­ver­si­dade Fed­eral do Maran­hão– UFMA.

Já con­tei esse breve roteiro da minha vida estu­dan­til diver­sas vezes, bem como, que foi a edu­cação que, lit­eral­mente, me tirou da “roça”, a mim e aos meus irmãos e/​ou do garimpo para onde me sug­eriu que fosse um amigo quando tinha cerca de 12 anos – para pedir esmo­las.

Se a edu­cação impacta de forma tão pos­i­tiva a vida de uma cri­ança, ado­les­cente e jovens, as ações coor­de­nadas de gov­er­nos têm o condão de mod­i­ficar a história de nações inteiras.

Foi o que ocor­reu com as nações chamadas “tigres asiáti­cos” (Cin­ga­pura, Cor­eia do Sul, Hong Kong e Tai­wan).

Qual­quer um com estu­dos bási­cos de história sabe que até a primeira metade do século pas­sado essas nações eram paupér­ri­mas e que viviam basi­ca­mente de uma agri­cul­tura de sub­sistên­cia em dimin­u­tos ter­ritórios e sem quais­quer recur­sos nat­u­rais. Sabe, tam­bém, que den­tre os vários fatores que con­tribuíram com o desen­volvi­mento das mes­mas “reina” a edu­cação, fazendo com que ten­ham uma mão de obra alta­mente qual­i­fi­cada.

Sem tal condição, pode­riam despe­jar ouro nas ruas e ainda assim não teriam avançado um palmo sequer.

Essa mesma com­preen­são influ­en­ciou o surg­i­mento dos chama­dos “novos tigres asiáti­cos”, grupo con­sti­tuído por Fil­ip­inas, Indonésia, Tailân­dia, Malásia, Vietnã, tam­bém países sem recur­sos nat­u­rais significativos.

Basta um sim­ples exame de fotografia do que eram esses países há cerca de 60 anos e como estão hoje para perce­ber­mos o quanto se desen­volveram no período.

Logo, não restam dúvi­das que o atraso econômico do Brasil encontra-​se dire­ta­mente rela­cionado à baixa qual­i­dade da nossa edu­cação e por con­se­quên­cia do despreparo da nossa mão de obra.

Qual­quer cidadão pode con­statar isso nas coisas mais cor­riqueiras. Basta pre­cisar de um bom pedreiro, um bom marceneiro, um bom eletricista. Não encon­tramos. Ped­i­mos recomen­dação a um e outro quando a neces­si­dade se torna pre­mente.

Dizem que o que “atra­vanca” o desen­volvi­mento do país à atração de inves­ti­men­tos estrangeiros é o “custo Brasil”, o excesso de reg­u­lação tra­bal­hista, etc.

Claro que isso tem um peso, mas penso que todas essas cir­cun­stân­cias seriam absorvi­das pelo cap­i­tal­ismo se tivésse­mos uma pop­u­lação com edu­cação de ponta e mão de obra qual­i­fi­cada, isso se rever­t­e­ria em pro­du­tivi­dade e o cap­i­tal “daria seus pulos” para não perder.

Vejam a tragé­dia anun­ci­ada que nos encon­tramos: enquanto as nações chamadas “tigres asiáti­cos” cresce­ram um “absurdo” em sessenta anos, o Brasil, segundo estu­dos cien­tí­fi­cos, levará sessenta anos para “cor­ri­gir” uma década de atraso edu­ca­cional em relação aos cen­tros mais avança­dos.

Isso, se começar­mos a fazer alguma coisa no sen­tido de cor­ri­gir a dis­torção ime­di­ata­mente.

Como ire­mos ala­van­car o cresci­mento do país, atrair cap­i­tal estrangeiro, aproveitar com racional­i­dade e segu­rança nos­sos recur­sos, sem uma edu­cação de ponta, sem mão de obra qual­i­fi­cada e, sem, sequer, “falar a lín­gua” dos investi­dores?

Desde sem­pre me inter­esso por edu­cação e, nos últi­mos tem­pos, até por questões profis­sion­ais, tenho me inter­es­sado muito mais.

Nas min­has reflexões sobre o assunto entendi que o “motor” do desen­volvi­mento de qual­quer nação chama-​se edu­cação pública. É nela, na edu­cação pública, que devem se con­cen­trar os inves­ti­men­tos a fim de melhorá-​la para for­mar e qual­i­ficar os cidadãos que farão o país se desenvolver.

Não existe “pro­jeto de nação” sem a com­preen­são de que sem uma pop­u­lação edu­cada e qual­i­fi­cada para o tra­balho nos vários ramos das ciên­cias e das tec­nolo­gias.

Os gov­er­nos munic­i­pais, estad­u­ais e fed­eral pre­cisam com­preen­der que inve­stir cor­re­ta­mente na edu­cação não é um favor para a cri­ança ou seus pais, pelo con­trário, muito mais do que as cri­anças e jovens pre­cis­arem de uma boa edu­cação e qual­i­fi­cação, quem, efe­ti­va­mente, pre­cisam delas bem edu­cadas e qual­i­fi­cadas, são os municí­pios, são os esta­dos, é o país.

Edu­cação de qual­i­dade não é um favor que se faz é uma neces­si­dade estratég­ica da nação. É isso que os gov­er­nantes brasileiros e mesmo os gestores edu­ca­cionais e até pro­fes­sores pre­cisam com­preen­der.

Infe­liz­mente, no Brasil, não cheg­amos ainda esse grau de com­preen­são.

Os gov­er­nantes brasileiros, não aten­tam que edu­cação pública de qual­i­dade não tem a ver com o filho do pobre virar doutor ou “ficar” com a vaga do filho do rico, e, sim, que os fil­hos de pobres e ricos bem edu­ca­dos trarão desen­volvi­mento para todos.

Sem com­preen­der que a edu­cação pública é o motor do desen­volvi­mento da nação, temos assis­tido ao longo das últi­mas décadas o seu desprestí­gio.

E vejam que temos investido muito na edu­cação pública – não sei se o sufi­ciente –, mas, acred­ito que tais inves­ti­men­tos não estão sendo feitos “den­tro de um pro­jeto de nação”.

Tanto assim, que os pais das cri­anças sem­pre que pos­suem qual­quer “folga” finan­ceira tiram os fil­hos da rede pública para colocá-​los em uma escola pri­vada, mesmo que medi­ana. O inverso até existe, mas ape­nas como exceção a jus­ti­ficar a regra.

Nestes mais vinte e cinco anos em que tra­balho na advo­ca­cia pública nunca vi tan­tas cam­pan­has de “busca ativa” para a edu­cação quanto estou assistindo agora. Lou­vável que façam isso, mas essa busca ativa deve vir acom­pan­hada de uma política edu­ca­cional que torne a escola pública atra­tiva para as cri­anças e ado­les­centes.

Uma per­gunta se faz necessária: se a escola pública não pos­sui uma estru­tura física tão defi­ciente, se os pro­fes­sores e fun­cionários são até mel­hor remu­ner­a­dos que os da rede pri­vada, por que os pais, sem­pre que podem, pref­erem pagar para ter os fil­hos na escola pri­vada e não na escola pública? O que falta à rede pública?

São per­gun­tas per­ti­nentes, uma vez que, se o ensino brasileiro encontra-​se com uma década de atraso em relação aos mel­hores cen­tros mundi­ais, pelo seu desprestí­gio ao longo dos anos, imag­i­namos que o atraso da rede pública seja ainda maior.

Acred­ito que den­tro de uma política de Estado que con­sidere a edu­cação pública como vetor do desen­volvi­mento da nação, uma das primeiras medi­das a serem ado­tadas é bus­car fer­ra­men­tas edu­ca­cionais que igualem em qual­i­dade as duas redes: pública e pri­vada.

Essa igual­dade deve ser “perseguida” já nos primeiros con­tatos da cri­ança com a escola: nos três primeiros anos (mater­nal) e nos anos ini­ci­ais do fun­da­men­tal. É nessa fase da vida da edu­cação que têm iní­cio as desigual­dades entre as redes e que jamais o aluno da escola pública con­segue ultra­pas­sar o aluno da rede pri­vada, salvo, tam­bém, as exceções.

Um exem­plo clás­sico do que falo diz respeito ao ensino de lín­gua estrangeira, enquanto na rede pri­vada, já no mater­nal a cri­ança é edu­cada em pelo menos dois idiomas, na rede pública o ensino de outro idioma só é obri­gatório a par­tir do sexto ano.

Vejam, em ape­nas uma “fer­ra­menta de apren­diza­gem” a rede pública de ensino, que dev­e­ria ser o “motor” do desen­volvi­mento da nação começa com OITO ANOS de desvan­tagem.

Uma desvan­tagem jus­ta­mente nos mel­hores anos para o desen­volvi­mento das habil­i­dades cog­ni­ti­vas da cri­ança.

Ainda em relação ao exem­plo acima, tal desvan­tagem não será cor­rigida nos anos seguintes, entre os vários fatores, as fer­ra­men­tas que a rede pública disponi­bi­liza não con­sid­era o tempo que já foi per­dido e por isso mesmo são inad­e­quadas.

O resul­tado é que numa pop­u­lação de 215 mil­hões de cidadãos ape­nas 5% (cinco por cento) tem algum con­hec­i­mento de lín­gua estrangeira e ape­nas UM POR CENTO tem fluên­cia.

A con­se­quên­cia disso é que Brasil não “fala” a lín­gua dos investi­dores estrangeiros que gostaria de atrair. Somos um país monoglota, com uma edu­cação clau­di­cante e mão de obra desqual­i­fi­cada.

Estes são prob­le­mas que os nos­sos con­cor­rentes asiáti­cos não enfrentam. Desde cedo com­preen­deram e trataram a edu­cação como política de Estado e vetor do cresci­mento da econo­mia da região.

Impen­sável alcançar o pata­mar de desen­volvi­mento econômico que alcançaram sem essa com­preen­são.

O Brasil pre­cisa encarar a edu­cação pública como uma política de Estado, um vetor para o desen­volvi­mento econômico e bem-​estar social; pre­cisa ele­var o nível do ensino como um todo e tornar igual­itária a edu­cação, pelo topo, em todo o ter­ritório nacional.

Igua­lando a edu­cação nacional bus­care­mos a igualá-​la as mel­hores do mundo.

O começo dessa “rev­olução” é pelo ensino fun­da­men­tal, que deve­mos torná-​lo uni­forme em todo o ter­ritório nacional, com as fer­ra­men­tas necessárias ao pleno desen­volvi­mento de todos.

Deve­mos ter na mente uma coisa: ofer­e­cendo condições iguais a todos ter­e­mos legit­im­i­dade para cobrar as razões do sucesso e do fra­casso de cada um.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

O assas­si­nato das carpas do imper­ador e out­ros delitos.

Escrito por Abdon Mar­inho


O ASSAS­SI­NATO DAS CARPAS DO IMPER­ADOR E OUT­ROS DELI­TOS.

Por Abdon C. Marinho*.

COMO faço todos os finais de sem­anas e feri­ados, mais cedo me ocu­pei da agradável tarefa de ali­men­tar as carpas que crio no sítio há cerca de seis anos. Ali­men­tar, diz-​se por força de expressão, há todo um rit­ual que começa por chamá-​las para a refeição (da manhã ou da tarde), que elas aten­dem des­barata “car­reira”; depois me sento em uma cadeira ou no chão e começo a jogar a ração de um lado e de outro do laguinho e vou “con­ver­sando” com elas. O “rit­ual” dura quase meia hora, às vezes, até mais.

As carpas são peixes inteligentes, capazes de recon­hecer as pes­soas, quando apare­cem alguém estranho perto do lago elas “fogem” para um canto mais dis­tante do lago, mesmo chamando-​as e sendo horário da “refeição”, relu­tam em apare­cer; são solidárias. Certa vez, uma delas se machu­cou – foi dá um salto mais alto e caiu de mal jeito, enfrentando difi­cul­dades para nadar –, e, enquanto as ali­men­tava, um barulho estranho ou a pre­sença de outra pes­soa, as fez “cor­rer” para o escon­der­ijo, restando ape­nas aquela que se encon­trava machu­cada. Não demorou muito e avis­tei duas delas voltando e se colo­cando lado a lado com a que estava machu­cada servindo de “escolta” e a con­duzindo para onde estavam as out­ras.

Já reg­istrei diver­sos episó­dios que ates­tam a inteligên­cia, sen­si­bil­i­dade e até memória “dos meni­nos”, por exem­plo, além de me recon­hecerem, já recon­hecem e lem­bram dos meus sobrin­hos, emb­ora demorem sem­anas ou meses entre uma visita e outra.

Vez ou outra algum amigo gaiato per­gunta comenta que as min­has carpas já estão no ponto de uma “caldeirada”. Nes­tas opor­tu­nidades per­gunto se não pode ir até o porto da Raposa com­prar uma pescada amarela.

Cuidadas, ali­men­tadas e man­ti­das as condições nor­mais de oxi­ge­nação da água, as carpas podem viver cerca de cem anos – e até mais.

Estava envolto no “rit­ual” quando assaltou-​me a lem­brança do “assas­si­nato” das carpas do Alvo­rada ocor­rido quase que de forma simultânea à “troca de comando” na cap­i­tal da República.

As “carpas do imper­ador” ocu­pavam o espelho d’água do Palá­cio da Alvo­rada há quase quarenta anos – o que prova sua longev­i­dade –, e foi um pre­sente do lendário imper­ador Hiro­hito, que viveu entre 1901 e 1989 – o 124º imper­ador japonês reinou de 1926 até sua morte, em 1989, tendo sido a teste­munha priv­i­le­giada dos prin­ci­pais acon­tec­i­men­tos do século pas­sado –, em recon­hec­i­mento e como votos de boa sorte aquela nova etapa política da vida nacional ini­ci­ada com a eleição da chapa Tan­credo Neves/​José Sar­ney, em 1985.

Guardo com muito apreço os pre­sentes que ganho. Tenho-​os como um “pedaço ima­te­r­ial” daquela pes­soa comigo. Quando os olho ou uso algum deles é uma opor­tu­nidade para lem­brar aque­las pes­soas, aque­las cir­cun­stân­cias em que fui agra­ci­ado. Por exem­plo, há mais de duas décadas o saudoso amigo, jor­nal­ista Wal­ter Rodrigues que deixou esse plano em 2010, presenteou-​me com dois jogos de taças para vinho em cristais. Quando aparece uma cir­cun­stân­cia espe­cial que exija um vinho para comem­o­rar, peço que peguem na cristaleira as “taças de WR” e digo: “— essas taças foram um pre­sente do querido amigo Wal­ter Rodrigues, tomemos este vinho tam­bém em sua hom­e­nagem”. Aproveito, ainda, para con­tar episó­dios da amizade em comum ou das opiniões que tinha sobre alguns assun­tos.

Assim, imag­ino que as carpas que foram doadas pelo então imper­ador do Japão há quase quarenta anos ao Brasil têm sig­nifi­cado histórico. Um pre­sente para durar por sécu­los, com toda sua sim­bolo­gia. Um imper­ador lendário, de uma nação amiga e que já não se encon­tra entre nós, deu-​nos carpas, naquele momento histórico, um sím­bolo da força, per­sistên­cia, bravura e sucesso – tudo pré­cisá­va­mos e pre­cisamos. As carpas trazem ainda uma outra sim­bolo­gia, elas crescem de acordo com o ambi­ente em que vivem. Sig­nif­i­cando que, tam­bém, as pes­soas podem “crescer” con­forme o ambi­ente em que estão inseri­das, não fisi­ca­mente, mas nos planos emo­cional, espir­i­tual e int­elec­tual.

Como cri­ador, imag­ino o tra­balho que foi o trans­porte de quase uma cen­tena de carpas do Japão para o Brasil, tendo que man­ter as condições ideais de oxi­ge­nação da água durante todo o voo.

Chegando aqui tiveram que adaptar-​se as difer­enças de tem­per­atura. Ainda assim, por quase quarenta anos sobre­viveram a tudo, até mesmo as incon­veniên­cias dos tur­is­tas.

Só não resi­s­ti­ram às hor­das de Huno que ocu­param o poder nos últi­mos anos.

Con­trataram uma empresa “espe­cial­izada” que achou opor­tuno esvaziar o espelho d’água e reti­rar toda “biolo­gia” dos peixes, só falta dizer que para man­ter o espelho “limpo” resolveram colo­car água clo­rada no mesmo.

Pior mesmo, só a ilação de que a “moti­vação” para a “limpeza” foi o inter­esse em cole­tar as moedas que os tur­is­tas lançam por lá.

Não entendi que tipo de limpeza fazia-​se necessária no espelho d’água. Aqui, a única coisa que faze­mos é man­ter uma camada de cas­calho de rio no fundo do lago, um sis­tema de fil­tragem com fil­tros e com aguapés e a reti­rada da fol­has que caem diari­a­mente. Vez ou outra, quando não chove, colo­camos um pouco de água do poço para repor as per­das pela evap­o­ração ou de algum vaza­mento, e só.

A falta de zelo pelas carpas do imper­ador Hiro­hito e toda sua sig­nifi­cação ape­nas rev­e­lam a ignorân­cia das autori­dades brasileiras. Não con­hecem o ele­men­tar de história; não sabem o que sig­nifica uma troca de pre­sentes; não têm nen­hum respeito pelos ani­mais ou pela flora.

Decerto pen­saram que o pre­sente do imper­ador: “eram ape­nas peixes”.

A mesma falta de zelo que resul­tou na morte de diver­sas emas que habitam o mesmo palá­cio e que têm como função precípua a manutenção do equi­líbrio ecológico, com a redução do número de inse­tos que infes­tam o ambi­ente. Os “hunos” não zelam nem pelos ani­mais que zelam por eles.

Os maus-​tratos aos ani­mais, para a des­graça dos humanos, não ceifam ape­nas as carpas do imper­ador do Japão, as emas que equi­li­bram o ambi­ente nas residên­cias ofi­ci­ais, pelo con­trário se espal­ham por todo o país. São as queimadas sem con­t­role, o des­mata­mento sem trégua, a con­t­a­m­i­nação dos rios, o lixo jogado nos oceanos …

Aqui mesmo, na ilha do Maran­hão, uma cena me entris­tece diari­a­mente, pelo menos duas vezes ao dia.

Nas três rodovias que pego para chegar ao tra­balho todos os dias, me deparo com uma “pro­cis­são” de ani­mais vagando sem rumo, sem donos e sem cuida­dos, pas­sando fome, sede e sendo mal­trata­dos. São jumen­tos de várias idades, são bur­ros, cav­a­los, são cães, são gatos. Muitos com as patas machu­cadas, que­bradas, com diver­sas esco­ri­ações ou doentes mesmo. É um sofri­mento sem fim.

As autori­dades estad­u­ais e dos municí­pios “fingem-​se” de cegos ou que não pos­suem qual­quer respon­s­abil­i­dade com o assunto.

O Min­istério Público Estad­ual, que cer­ta­mente pos­sui algum setor espe­cial­izado para o tema, parece não se inco­modar com o sofri­mento dos ani­mais; out­ras enti­dades da sociedade civil, a OAB, inclu­sive, dão o silên­cio como respostas.

Um silên­cio ensur­de­ce­dor a con­trastar com a dor e o sofri­mento das cen­te­nas de ani­mais que vagam sem des­tino.

Ninguém se move para fazer algo, ninguém se move para cobrar que façam.

Até quando?

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.