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A esper­ança por um futuro melhor.

Escrito por Abdon Mar­inho

A ESPER­ANÇA POR UM FUTURO MEL­HOR.

Por Abdon C. Marinho.

DOMINGO, 8 de janeiro, acordei muito mais cedo do que “de cos­tume”. Quase no horário “nor­mal” da sem­ana, às 4:30 horas da manhã.

Enquanto perseguia o sono para dormir mais um pouco pen­sava no que pode­ria ser o tema que abor­daria no nosso já céle­bre “tex­tão do fim de sem­ana”, quando sen­tasse logo mais na poltrona inspi­radora para escr­ever.

Assun­tos não fal­tam. E para quem gosta de escr­ever sobre política, a sem­ana que pas­sou foi um “prato cheio”, posse dos novos gov­er­nantes nos esta­dos e no poder cen­tral, uma sem­ana inteira de posses de min­istros, os primeiros “atro­pe­los”, os primeiros desac­er­tos, muitos min­istros desconec­ta­dos da real­i­dade do país falando bobagens, uma torre de Babel dos tem­pos mod­er­nos a ponto da sem­ana encer­rar com o pres­i­dente da República con­vo­cando os quase quarenta min­istros estado para “um pára pra acer­tar”.

Outro assunto ainda pre­sente na linha da política nacional é a irres­ig­nação dos der­ro­ta­dos com o resul­tado do pleito. Depois de ficarem acam­pa­dos por mais sessenta dias nas por­tas dos quar­téis pedindo golpe mil­i­tar, essa turma, emb­ora em menor grupo, prom­ete não des­cansar até o novo pres­i­dente “descer a rampa”. Até onde soube, con­tin­uam em suas redes soci­ais insu­flando os mil­itares brasileiros para o golpe mil­i­tar e orga­ni­zando mar­chas de protestos con­tra o gov­erno que ainda nem começou.

Todos estes assun­tos dariam bons tex­tos – e darão, em um outro momento.

Para hoje, pen­sei em um texto “para cima”, para ren­o­var as nos­sas esper­anças em um futuro mel­hor, onde os son­hos dos cidadãos e cidadãs, muito além das difi­cul­dades que enfrentarão durante todo o ano, pos­sam se realizar.

É uma tradição cristã que na primeira sexta-​feira do ano os crentes dirijam-​se as igre­jas em busca de bençãos para o ano que se ini­cia – o que tam­bém se pode fazer nos cul­tos e mis­sas domini­cais –, numa feliz coin­cidên­cia a data “caiu” jus­ta­mente no dia con­sagrado aos San­tos Reis, uma cel­e­bração que remete aos três reis magos que, seguindo a estrela do ori­ente, foram ao encon­tro do Rei-​menino para teste­munhar e o pre­sen­tear com ouro, incenso e mirra.

O ano que ini­cia vem junto com a posse de novos gov­er­nos o que, por si, já é um sinal de novos tem­pos e/​ou de ren­o­vação.

Ape­nas para ilus­trar o sen­ti­mento de que os novos gov­er­nantes tragam efe­ti­va­mente esper­anças e um futuro mel­hor para o povo brasileiro e maran­hense, reg­istro que achei muito aus­pi­cioso que tanto o gov­er­nante fed­eral quanto o estad­ual, este último, mais ainda, ten­ham dado destaque a questão da edu­cação.

O gov­er­nador reeleito, aliás, tem tratado disso desde o dia seguinte à sua reeleição e reafir­mado sem­pre que pode que a edu­cação será a primeira pri­or­i­dade do seu governo.

Como este é um assunto que me é muito caro, tenho escrito sobre ele con­stan­te­mente. Outro dia falei sobre o tra­balho her­cúleo para, ao menos, colo­car­mos a edu­cação nacional nós mes­mos pata­mares da edu­cação dos grandes países do mundo. Falava, inclu­sive, de recente pesquisa apon­tando a edu­cação nacional com uma década de atraso e, muito pior que isso, que levare­mos seis décadas para cor­ri­gir tal dis­torção.

País nen­hum avança sem uma base edu­ca­cional sól­ida.

A história está aí para provar que foram os povos que inve­sti­ram mais em edu­cação os que con­seguiram superar os seus níveis de pobreza e par­til­har o sucesso econômico entre os seus cidadãos.

Daí serem aus­pi­ciosas as falas dos novos gov­er­nantes a respeito da edu­cação. Claro que as falas, os dis­cur­sos, pre­cisam “virar” ações conc­re­tas em prol de uma edu­cação que seja de qual­i­dade e acessível a todas as cri­anças.

Uma ação estratég­ica do gov­erno estad­ual den­tro dessa política de se mel­ho­rar a edu­cação é o chama­mento de prefeitos e secretários munic­i­pais de edu­cação para um “alin­hamento” sobre a qual­i­dade do ensino fun­da­men­tal.

Nos anos em que me dedico a esse tema, me con­venci que o prob­lema cen­tral da edu­cação brasileira encontra-​se no ensino fun­da­men­tal – sem des­cuidar, claro dos anos seguintes.

É lá, com as cri­anças de tenra idade, que pre­cisamos mel­ho­rar a qual­i­dade do ensino, mais fer­ra­men­tas, mais con­teú­dos, fazendo com elas criem gosto pelo saber.

Vive­mos a cul­tura do adi­anta­mento.

Imag­i­namos que a cri­ança que não apren­deu nada ou quase nada nos anos ini­ci­ais do fun­da­men­tal vai con­seguir cor­ri­gir a dis­torção nos anos finais; se não acon­te­cer isso, apren­derão no médio.

A real­i­dade nos prova o con­trário. A cri­ança que não tem estí­mu­los nos primeiros anos, passa a ter um desapego cada vez mais cres­cente para a escola, aí começam a sur­gir a evasão esco­lar, o envolvi­mento com o crime, etc.

Quando a família ou o Estado se dão conta, aquela cri­ança que pode­ria ter um futuro bril­hante, já se tornou cliente do poder judi­ciário e freguês das polí­cias.

Cada vez mais cedo reg­is­tramos envolvi­mento de cri­anças e ado­les­centes com os mais vari­a­dos deli­tos. Cada vez mais cedo os pais não têm qual­quer con­t­role sobre os filhos.

Com isso, o drama social só vai aumento em uma pro­gressão geométrica.

Com isso perde o país, em riquezas, perde a sociedade, per­dem as famílias e per­dem os próprios jovens que pode­riam ter uma vida útil para a sociedade e para própria família.

Qual a con­tribuição que uma cri­ança que envereda pelo cam­inho dos atos infra­cionais e depois para crime deu à sociedade? Nen­huma.

A solução para a tragé­dia nacional anun­ci­ada, demanda tempo, demanda ded­i­cação, demanda recur­sos e é ape­nas uma solução: edu­cação.

As nações, os esta­dos, os municí­pios não gas­tam com edu­cação, eles investem. E o retorno é sem­pre infini­ta­mente supe­rior ao que inve­sti­ram.

Só a edu­cação, prin­ci­pal­mente a edu­cação pública, que é a grande respon­sável pela for­mação da maior parcela da sociedade, poderá nos levar a um futuro mel­hor.

É a edu­cação a única fer­ra­menta que tem poder de mudar a real­i­dade dos esta­dos e nações e a vida das pes­soas.

Nas min­has “pre­gações” sobre o tema – e tenho feito muitas, ulti­ma­mente –, cos­tumo dizer que sem a edu­cação nunca teria chegado a lugar nen­hum, talvez nem tivesse saído do povoado onde nasci – e do qual me orgulho. Tive poliomielite com cerca de dois anos, depois veio orfan­dade com quase cinco anos, filho de pais anal­fa­betos por parte de pai, mãe e parteira.

O que teria sido da minha vida sem a edu­cação pública?

Falava sobre a importân­cia da edu­cação na vida das pes­soas com o amigo Max Harley Pas­sos Fre­itas – um dos mel­hores con­ta­dores públi­cos do nosso estado, quiçá do país.

Dizia-​lhe da minha própria exper­iên­cia e contei-​lhe de um episó­dio que vivi e que não tenho razão para ocul­tar.

Acho que tinha por volta de onze ou doze anos, anos oitenta, vivíamos o “boom” dos garim­pos pelo estado do Pará e Maran­hão, só se falava que fulano ou sicrano haviam “bam­bur­rado” em Serra Pelada. Pela tele­visão, ainda em preto e branco, víamos aquele “formigueiro humano” subindo e descendo com sacos nas costas, com areia ou barro para serem lava­dos em busca do pre­cioso metal.

Os inte­ri­ores do Maran­hão estavam reple­tos de garimpeiros, viz­in­hos, ami­gos, alguns com idade quase igual a minha.

Foi de um destes que certa vez ouvi uma pro­posta que nunca mais esqueci.

Ele chegou para mim – tinha vindo e já estava voltando para Serra Pelada –, e disse: — Abdon, sabes o que tu pode­rias fazer? Pode­rias ir para o garimpo. Como tu és alei­jado, pode­rias ficar rico pedindo esmo­las.

Claro, foi só uma ideia e a pes­soa que a propôs jamais teve qual­quer intenção de ofender-​me, era, ape­nas, uma opção de vida que estava na mesa, como tan­tas out­ras.

Quando con­tei a Max o episó­dio, sen­sível, ele achou “muito forte” que alguém tenha sug­erido na minha infância/​adolescência que pode­ria pedir esmo­las no garimpo.

Vendo-​o à flor da pele, como na música de Zeca Baleiro, mudei de assunto.

Mas essa foi a opção para muitas pes­soas. Muita gente deixou a escola, o tra­balho na roça para irem ten­tar a vida nos garim­pos naque­les anos oitenta. E ainda hoje essa é uma opção para muitos maran­henses e brasileiros; e, reg­istro, nada tenho con­tra, mas que seja uma opção e não a “única opção”. Os cidadãos, prin­ci­pal­mente, cri­anças e ado­les­centes pre­cisam terem out­ras opor­tu­nidades para faz­erem suas escolhas.

Quase quarenta anos depois, com muita lev­eza, porém com muita seriedade e sem vitimismo, posso dizer que foi a edu­cação que me salvou-​me de viver de esmo­las no garimpo de Serra Pelada ou nas ruas do Brasil.

Esses e tan­tos out­ros fatos nos enchem de esper­ança por um futuro cada vez mel­hor.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

O menino e o foguete: uma reflexão sobre a desigualdade.

Escrito por Abdon Mar­inho


O MENINO E O FOGUETE: UMA REFLEXÃO SOBRE A DESIGUAL­DADE.

Por Abdon C. Mar­inho.

MAIS UM ANO se ini­cia, com ele todos os dese­jos de dias mel­hores, de saúde, sucesso, paz e pros­peri­dade. Pelo menos é isso que con­sta na mil­hares de men­sagens que recebe­mos em todos os fins e iní­cios dos anos.

Este ano, em espe­cial, tais dese­jos se man­i­fes­tam com mais inten­si­dade, talvez por coin­cidir o iní­cio de ano com o dos gov­er­nos estad­u­ais e fed­eral, o que traz uma dupla chance para “esper­ançar”.

Entre­tanto, para alcançar­mos o que dese­jamos para o próx­imo, para o país e demais entes fed­er­a­dos, é opor­tuno refle­tir sobre o que e como fare­mos para com­bater as desigual­dades soci­ais tão pre­sentes nos dias atuais.

Há alguns dias – ainda no ano pas­sado, rsrs –, duas notí­cias, divul­gadas pela imprensa quase que de forma simultânea, chama­ram minha atenção: a primeira (ou a segunda) dava conta de um lança­mento de foguete no nosso Cen­tro de Lança­mento de Alcân­tara — CLA; a segunda, que, segundo o Insti­tuto Brasileiro de Geografia e Estatís­ti­cas — IBGE, dos 25 municí­pios brasileiros com a renda per capita mais baixa, 24 destes estão local­iza­dos no Maranhão.

Desde então tenho estado com tal para­doxo na cabeça: somos capazes de lançar foguetes ao espaço, satélites avançadís­si­mos, quiçá, daqui a alguns anos pos­samos daqui mesmo man­dar homens à lua ou a out­ros plan­e­tas, entre­tanto, não con­seguimos aliviar a fome, a pobreza e a desigual­dade social entre nós.

Imag­inei a cena de um menino pobre, desprovido de quais­quer per­spec­ti­vas futuras, daqui, deste lado da Baía de São Mar­cos, ali na Ilhinha ou Ponta d’Areia ou mesmo de um dos quilom­bos do lado de lá assistindo ao lança­mento do foguete – e serão vários, assim esper­amos –, essa cena pedi ao ilus­tre car­tunista Cordeiro Filho que a imor­tal­izasse na ponta do lápis para ilus­trar o texto.

O que passa pela cabeça do menino mal­trapilho, talvez fam­into, que assiste ao lança­mento do foguete? O que passa pela cabeça dos mil­hares de meni­nos, meni­nas, homens, mul­heres, jovens ou anciãos que diari­a­mente pas­sam fome – e segundo o IBGE são mais de 30 mil­hões de cidadãos cidadãos –, enquanto assis­tem numa tele­visão de uma loja ou escu­tam em rádio que o país, mais uma vez bateu o recorde de pro­dução agrí­cola ou que é o celeiro do mundo? Como pode haver mérito em tais suces­sos, tec­nológi­cos e/​ou de pro­dução agrí­cola, quando os dados nos rev­e­lam o inacesso dos cidadãos a tais benefícios?

Hoje os gov­er­nadores de todos os esta­dos da fed­er­ação e um pres­i­dente da república assumirão o comando dos esta­dos e da nação.

Daqui a pouco será a vez de cen­te­nas de par­la­mentares, estad­u­ais, fed­erais, senadores, tomam posse como rep­re­sen­tantes do povo.

Quais os com­pro­mis­sos que terão estes cidadãos em com­bater o prob­lema da desigual­dade social? Como fare­mos para ofer­tar a todos os brasileiros as mes­mas oportunidades?

Imag­ino que os diri­gentes dos esta­dos e do país assim com os rep­re­sen­tantes do povo (afi­nal, rep­re­sen­tam o povo) saibam que algo muito errado têm feito até aqui a ponto de pos­suirmos um país tão desigual com o efeito direto na fome de tan­tos mil­hões de cidadãos.

A fome é a sen­hora abso­luta da nossa des­graça.

Acho que qual­quer outro debate sobre desigual­dade social perde o sen­tido diante da cruel real­i­dade dos que acor­dam pela manhã e não têm o que comer; mais tarde, pre­cisam gan­har o almoço e no fim do dia o jan­tar. Ou, como assis­ti­mos por diver­sas vezes, irem dormir mais cedo na vã ten­ta­tiva de “enga­nar a fome”.

Ven­cida a “emergên­cia nacional” de garan­tir que os cidadãos não passem fome, pre­cisamos cor­ri­gir as demais maze­las que puxam o Brasil para o atraso.

Nos últi­mos anos tenho con­statado que a primeira – e talvez a mais urgente –, a ser cor­rigida é a desigual­dade na edu­cação infan­til. Pre­cisamos igualar em tec­nolo­gia e fer­ra­men­tas edu­ca­cionais as esco­las do país colocando-​as no mesmo nível da rede de ensino pri­vado e dos mel­hores cen­tros do mundo.

As cri­anças da rede pública começam o ensino em fla­grante desvan­tagem em relação as cri­anças cri­anças ini­ciam os estu­dos na escola da rede pri­vada, em todos os sen­ti­dos, no acesso às tec­nolo­gias, no apren­dizado de lín­guas, etc.

Agora mesmo, redes de rádio e tele­visão, pas­sam com­er­ci­ais de esco­las pri­vadas chamando para as matrícu­las e infor­mando que terão ensino de robótica e de lín­guas estrangeiras já a par­tir do mater­nal, aliás, já infor­mam que o apren­dizado será bilíngue.

Ora, tal real­i­dade é tão dis­tante da rede pública quanto a da cri­ança mal­trapilha que observa de longe o lança­mento do foguete.

Exceto pelo pio­neirismo de alguns gestores munic­i­pais, o ensino de lín­guas na rede pública só é obri­gatório a par­tir do sexto ano, assim mesmo, o mate­r­ial ofer­tado é abso­lu­ta­mente incom­patível com a real­i­dade dos estu­dantes que nunca tiveram qual­quer acesso à dis­ci­plina e não con­seguem acom­pan­har.

Temos nesta única situ­ação duas desigual­dades: a primeira que a cri­ança já “perdeu” cinco anos de apren­dizado; a segunda, que a par­tir do sexto ano, com mate­r­ial inad­e­quado, não con­seguirá mais acom­pan­har.

O resul­tado desta “anom­alia” sistêmica será sen­tida ao longo dos anos na vida acadêmica do estu­dante, nos anos finais do fun­da­men­tal, no ensino médio e, até mesmo, no ensino supe­rior, se con­seguir chegar lá, uma vez que o ENEM a par­tir de 2024, con­terá questões trans­ver­sais de lín­gua estrangeira.

Esse é ape­nas um exem­plo de uma das difi­cul­dades que pre­cisamos cor­ri­gir com urgên­cia, desde ontem.

Não passa de hipocrisia exigir-​se de cri­anças e ado­les­centes que não tiveram as mes­mas condições de ensino um aproveita­mento, pelo menos igual, com os que tiveram todas as condições desde o maternal.

Logo, pre­cisamos de mais inves­ti­men­tos em edu­cação básica. Sem cor­ri­gir o ensino fun­da­men­tal não ter­e­mos como alcançar resul­ta­dos no ensino médio e no supe­rior.

No Maran­hão, além da fome, da desigual­dade na edu­cação, pre­cisamos de uma política de desen­volvi­mento econômico regional.

Viajo o MARAN­HÃO quase todo, por onde passo, seja por cidades peque­nas, médias ou grandes, não vemos indús­trias de nada; não vemos pro­dução de nada.

O que vemos dia após dia, a qual­quer horário que se passé, são homens em idade de tra­balho, nas por­tas ou debaixo de árvores, ociosos, “matando” em jogu­inho de car­tas ou dom­inó, ou na cerveja ou cachaça; o que vemos são crianças/​adolescentes fora da escola quando dev­e­riam estar em sala de aula apren­dendo alguma coisa.

Os que pos­suem respon­s­abil­i­dades, não podem ficar inertes diante de tal quadro.

Urge uma política de indus­tri­al­iza­ção e de pro­dução como forma de romper com o ciclo nefasto que vem se repetindo ao longo das décadas no estado.

Faz-​se necessário, com urgên­cia, uma rup­tura.

O novo gov­erno, a instalar-​se hoje, tem tam­bém essa mis­são.

Não é crível ou aceitável que o nosso estado com tan­tas poten­cial­i­dades con­tinue pade­cendo de tan­tos males.

Podemos ter por­tos dos dois lados da baía, podemos ter um sis­tema rod­o­fer­roviário levando e trazendo as riquezas do país inteiro e para o mundo; já temos um cen­tro de lança­mento de foguetes; temos solo fér­til, água em abundân­cia, ter­ras vas­tas.

O que falta para trans­for­mar tudo isso em riquezas para o nosso povo?

As cri­anças, ado­les­centes e jovens não podem se con­for­mar ape­nas em olhar o foguete subir aos céus.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

Um pres­i­dente em fuga

Escrito por Abdon Mar­inho


UM PRES­I­DENTE EM FUGA.

Por Abdon C. Marinho.

INTER­ROMPE­MOS o recesso de final de ano para um reg­istro que só podemos fazer até hoje: pela primeira vez desde que Cabral apor­tou por estas ter­ras, temos um pres­i­dente em fuga. Sim, não passa de eufemismo dizer que o “ainda” pres­i­dente (até as 24 horas de hoje) entrou de férias ou que o pres­i­dente “via­jou” ou que o pres­i­dente foi vis­i­tar “ami­gos” no estrangeiro ou com­prar uma com­pota de bacuri, ou mesmo, como ainda pregam os mais cré­du­los da sua seita, o pres­i­dente deixou o país para coman­dar a reação a par­tir do estrangeiro ou ainda que na undécima hora as Forças Armadas do país irão tomar o poder e chamá-​lo para reas­sumir o cargo de pres­i­dente na eleição que perdeu.

Sinto nos que pregam tais coisas uma fé própria dos que se encon­tram afas­ta­dos da real­i­dade. Assim como os devo­tos de D. Sebastião que ainda hoje aguardam o seu retorno ou, trazendo para algo mais próx­ima da real­i­dade brasileira, na vitória de Antônio Con­sel­heiro con­tra o exército repub­li­cano de Flo­ri­ano Peixoto, na Guerra de Canudos, tão bem retratada na obra “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, recon­hecida como primeiro livro-​reportagem do país e pode ser lido como livro de história, geografia ou soci­olo­gia.

Os que assim agem ou expõem, ao meu sen­tir, pare­cem per­ten­centes a uma real­i­dade para­lela com­ple­ta­mente desco­lada da real­i­dade. Não faz nen­hum sen­tido que este­jam há sessenta dias acam­pa­dos em frente aos quar­téis mil­itares, em orações, lou­vores ou can­tando hinos, pedindo um golpe mil­i­tar na décima econo­mia do mundo em pleno avançado século XXI.

Voltando à nossa real­i­dade nua e crua – e ao que motiva o pre­sente texto –, temos um pres­i­dente em fuga. Não sei o que o motivou a “fugir” do país fal­tando pouco mais de um dia para o tér­mino do mandato ou que temeu ao fazê-​lo, mas, a ver­dade é uma só, o pres­i­dente da república fugiu do país.

O vice-​presidente, no exer­cí­cio da presidên­cia, uma vez que o tit­u­lar bandeou-​se para o estrangeiro, anun­ciou ou pro­nun­ci­a­mento à nação para o dia de hoje, talvez esclareça os motivos da fuga do pres­i­dente – aguardemos.

Se fiz­er­mos um res­gate histórico, em 1985, o então pres­i­dente João Figueiredo, tam­bém recusou-​se a trans­mi­tir o cargo a Sar­ney (na véspera da posse o pres­i­dente eleito Tan­credo Neves pas­sou mal e foi inter­nado às pres­sas no hos­pi­tal de Base de Brasília, onde veio fale­cer, em 21 de abril).

Se não me falha a memória, Figueiredo não faria a trans­mis­são de cargo a Tan­credo Neves – e muito menos a Sar­ney, de quem tomara ojer­iza por ter o mesmo se ban­deado para a oposição após ter dado sus­ten­tação política ao régime mil­i­tar do qual foi o último pres­i­dente –, e via­jara para o Sítio do Dragão, em Petrópo­lis, região ser­rana do Rio de Janeiro, deixando a faixa pres­i­den­cial com algum aju­dante de ordens.

A história não conta, mas é bem provável que no momento da posse de Sar­ney na presidên­cia inte­rina, Figueiredo estivesse andando a cav­alo ou cuidando dos mes­mos ou ainda tomando chá com a esposa.

Emb­ora a trans­mis­são de cargo seja um gesto de civil­i­dade e maturi­dade democrática, não existe uma obri­gação de fazê-​lo – quem empossa o gov­er­nante eleito é o Con­gresso Nacional, com­posto pelos rep­re­sen­tantes do povo –, assim como não existe uma obri­ga­to­riedade de recon­hecer o resul­tado eleitoral e cumpri­men­tar o vence­dor – quem proclama o resul­tado das eleições é o Tri­bunal Supe­rior Eleitoral — TSE.

Em ambos os casos, recon­hecer o resul­tado e trans­mi­tir o cargo ao eleito foram com­por­ta­men­tos aos quais nos acos­tu­mamos e nos fazia pen­sar que vivíamos em uma democ­ra­cia amadure­cida.

Em 1990, mesmo sendo dura­mente crit­i­cado durante o processo eleitoral do ano ante­rior, Sar­ney trans­mi­tiu o cargo o pres­i­dente Col­lor de Melo; em 1995, Ita­mar Franco – que assumiu a presidên­cia em razão da cas­sação de Col­lor –, fez a trans­mis­são do cargo a Fer­nando Hen­rique Car­doso; em 2003, foi a vez de FHC trans­mi­tir a Lula, que trans­mi­tiu a Dilma Rouss­eff, em 2011; em 2019, Michel Temer – que assumiu em razão do impeach­ment de Dilma –, fez a trans­mis­são de cargo ao atual pres­i­dente, que se encon­tra em fuga.

Ora, se a recusa do pres­i­dente der­ro­tado era ape­nas em pas­sar a faixa ou trans­mi­tir o cargo ao eleito, não pre­cis­aria espetar mais uma conta (esper­amos que a última) nas costas do con­tribuinte dando as costas ao país com um séquito para o exte­rior, pode­ria ter ficado no Brasil e até mesmo em Brasília, tomando um chaz­inho de camomila com a primeira-​dama, enquanto os novos inquili­nos do poder assum­iam os car­gos para os quais foram eleitos.

Mas a “fuga” do pres­i­dente para estrangeiro, por razões que ainda descon­hece­mos, talvez seja ou ape­nas mereça um reg­istro para história, deste que vos escreve e de tan­tos out­ros que já se debruçaram ou se debruçarão sobre o tema.

O mais grave de tudo isso – e que a história dev­erá levar anos para enten­der –, é a humil­hação pública a que foram e a que estão sendo sub­meti­dos os seus mil­hares ou mil­hões de seguidores acam­pa­dos nas por­tas dos quar­téis com propósi­tos golpis­tas, por acred­itarem em uma “virada de mesa” ou em um mila­gre de último min­uto.

O pres­i­dente em fuga os “coz­in­hou” durante dois lon­gos meses de sol, chuva, sereno, pri­vações diver­sas com fal­sas esper­anças e ilusões, para pouco antes da fuga dizer que nada tinha a ver com os referi­dos movi­men­tos e protestos.

Não sendo ele um com­pleto igno­rante, já era sabedor desde sem­pre que não houve qual­quer anor­mal­i­dade no processo eleitoral, pode­ria ter recon­hecido como “homem” a der­rota no mesmo dia em que ela foi divul­gada, como fiz­eram todas as enti­dades, órgãos e gov­er­nos estrangeiros, ou quando muito, recon­hecer a der­rota quando divul­gado o resul­tado das análises feitas pelas Forças Armadas – que por receio ou covar­dia não foi tão cabal quanto dev­e­ria.

Mas não, em silên­cio, insu­flando os seus através de ter­ceiros e com sinais con­heci­dos como “api­tos de cachorro”, deixou que os seus ali­a­dos, seguidores ou devo­tos, homens, mul­heres, cri­anças, per­manecessem nas por­tas dos quar­téis pas­sando por pri­vações e vex­ames, acred­i­tando em coisas só exis­tentes numa real­i­dade para­lela.

Vejam que difundi­ram (ou ainda difun­dem) que o golpe vai ocor­rer de hoje pra manhã; que as fron­teiras estão sendo pro­te­gi­das para evi­tar que nações estrangeiras invadam o país por ocasião do golpe; que países ali­a­dos do pres­i­dente em fuga já estão na costa do país, pron­tos para aju­darem as Forças Armadas no golpe; e, até mesmo, pas­mem, que os ET’s estão no ponto para inter­virem.

Tudo isso, entrecor­tado com os dis­cur­sos de que estão pron­tos a “mor­rer pela pátria” para que a mesma não se torne uma “nação comunista”.

Con­fesso que grau de fanatismo idên­tico, na história recente, só encon­tra para­lelo, no suicí­dio massa dos seguidores de Jim Jones na Guiana, em 1978.

Tudo isso em defesa do “capitão” para que este no penúl­timo dia de gov­erno, faça um pro­nun­ci­a­mento dizendo que nada tem com isso e empreenda fuga para os Esta­dos Unidos.

Logo no iní­cio da cam­panha escrevi um texto inti­t­u­lado “Um pres­i­dente entre o Planalto e a Papuda”.

Não sei o que fez o pres­i­dente fugir, mas cer­ta­mente ele deve ter algum motivo para assim agir.

Só o tempo, sen­hor da razão, nos trará as respostas que pre­cisamos.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.