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O AMIGO BEALQUANDO NOS DEIXA O MEL­HOR AMIGO DA INFÂNCIA.

Escrito por Abdon Mar­inho


O AMIGO BEALQUANDO NOS DEIXA O MEL­HOR AMIGO DA INFÂNCIA.

Por Abdon C. Mar­inho.

A MANHÃ chu­vosa na ilha do Maran­hão veio, tam­bém, com uma nota de tris­teza: a morte de um amigo de infân­cia.

Em deter­mi­nado momento daque­les saudosos e doura­dos anos, do mel­hor amigo da minha infân­cia.

Foi o meu sobrinho-​neto, Ruy­lon Peixoto, filho de minha sobrinha mais velha e de um outro grande amigo de infân­cia, Ger­son Peixoto, que, tam­bém já nos deixou há muitos anos, que trouxe a triste notí­cia.

Repro­duziu a infor­mação de uma página de notí­cias da nossa cidade e escreveu uma leg­enda: — fale­ceu, que triste.

Na sexta-​feira, quando estava a cam­inho de Mor­ros, já havia man­dado a noti­cia de que ele não estava bem, estaria inter­nado em uma UTI em Teresina. Não cheguei a vê a infor­mação, por algum motivo quando fui abrir apare­ceu que estava indisponível. Pen­sei que fosse alguma bobagem ou que se arrepen­dera de man­dar. Só a noite, já em casa, tomei con­hec­i­mento de que meu amigo de infân­cia não estava bem e que uma irmã estava fazendo uma cam­panha para ajudá-​lo no custeio das despe­sas com o trata­mento.

Pela manhã, logo nas primeiras horas, a notí­cia acima. Com pouco mais de cinquenta anos, o meu amigo de infân­cia, Beal, deix­ava esse plano.

Após estu­dar um ou dois anos em Gov­er­nador Archer, no Alde­nora Belo, primeiro morando na Rua do Sossego, em casa alu­gada e depois com a minha irmã Bibia, na Rua Sete de Setem­bro, fui morar em Gonçalves Dias. Meu pai havia con­struído uma casa lá, entre uma casa/​comércio de minha Deiza e a usina de “pilar” arroz dos pais de Beal.

Foi naquela usina que con­heci Beal e sua mãe, D. Irene. Íamos estu­dar na mesma sala, acho a ter­ceira série.

Por algum motivo tinha ido a usina e lá encon­trei com eles.

Como “pare­cia” gostar de estu­dar, sua mãe disse que dev­eríamos estu­dar jun­tos e que ele dev­e­ria ser como eu.

A par­tir daquele dia ficamos ami­gos. Não o chamava pelo apelido, sim pelo nome, Ruber­val; quase sem­pre pelo nome com­pleto, Ruber­val Bruno Dias. Achava curioso, pois o “Bruno” era o sobrenome da mãe.

Morava umas três ou qua­tro casas depois da minha. Desde cedo acos­tu­mado a me “virar” soz­inho – fiquei órfão com cinco anos –, na hora que cla­reava, já lev­an­tava, me arru­mava e seguia para a escola. Nem lem­bro se tomava café, ou mesmo se exis­tia café para tomar.

Todos os dias, é certo, pas­sava na casa de Beal para desce­mos jun­tos para a escola, a Unidade Integrada Castelo Branco.

Chegava lá muito cedo, como a família dele tinha o hábito de “tro­car o dia pela noite”, ainda os encon­trava dor­mindo por qual­quer canto, redes, camas, em lençóis pelo chão, era algo muito inco­mum aos meus olhos. Geral­mente, aguar­dava ele se arru­mar e tomar café e sair­mos para a escola, indo as vezes pela nossa própria rua, a Rua Rui Bar­bosa ou seguindo pela Rua Almir Assis, aguardando na Praça Miguel Bahury, em frente, que tocassem a cam­painha ou já ficá­va­mos mesmo lá na porta aguardando a hora de “for­mar” para entrar­mos no pré­dio.

Só andá­va­mos jun­tos, onde estava um, estava o outro.

Essa prox­im­i­dade valeu-​nos o apelido de “o Gordo e o magro”, pois Beal era bem gordinho quando cri­ança, enquanto eu era magro como uma tripa.

Nosso ciclo mais próx­imo na primeira infân­cia tinha out­ros cole­gas, Kaion Peixoto, Gec­i­mon Pereira, Bento Chaves Neto, e tan­tos out­ros. Mas com Beal a prox­im­i­dade era maior pois sem­pre está­va­mos jun­tos.

Quando ini­ci­amos o “giná­sio”, o equiv­a­lente hoje aos anos finais do fun­da­men­tal, tín­hamos que estu­dar a noite, pois só nesse horário havia esse ensino.

Seguíamos a rotina de antes, final da tarde pas­sava na casa dele e descíamos para o “Ban­deirantes” – era a mesma escola, só que a noite, tinha outro nome.

O que mudava tam­bém era o retorno para casa.

O amigo Beal, muito pre­coce para assun­tos sex­u­ais, todas as noites que­ria voltar pela rua onde ficavam os “cabarés” da cidade, na maio­ria das vezes só mesmo para olhar as “meni­nas”. Naquele tempo, com doze, treze anos, já era para estar­mos nas sacan­a­gens da vida. Com mais grana que nós, nessa fase, sem­pre que podia, Beal estava com uma ou outra. E tinha um fôlego inve­jável.

Acho que foi pelo final da sexta ou começo da sétima série que começamos a nos dis­tan­ciar. Nesse período, Beal teve um prob­lema de saúde, se não me falha a memória, uma apen­dicite, e não voltou mais para a escola – ainda ten­tei que voltasse, sua mãe, tam­bém, mas não teve jeito, não voltou e começamos a seguir cam­in­hos dis­tin­tos.

Com isso, acabou a nossa rotina de estar­mos sem­pre jun­tos. Pouco depois mudaram-​se para outra casa, na mesma rua, mas no “cen­tro” da cidade e pas­samos a quase não nos ver­mos.

Foi por esse tempo que meu pai “botou” um comér­cio na Rua Dr. Paulo Ramos, onde eu pas­sava o dia inteiro, tomando de con­tas, até a hora de ir para o colé­gio. Às vezes quem pas­sava pelo comér­cio era Gec­i­mon para ficar um tempo comigo, bater­mos um papo ou ver­mos alguma coisa das aulas.

Quando ter­minei o giná­sio a neces­si­dade de con­tin­uar os estu­dos me troux­eram para cap­i­tal para fazer o ensino médio no Liceu Maran­hense. Aí a dis­tân­cia com os ami­gos de infân­cia pas­sou a ser tam­bém espa­cial. Pou­cas vezes voltei a Gonçalves Dias ou a Gov­er­nador Archer e as noti­cias dos ami­gos de infân­cia se tornaram mais esparsas, muito emb­ora sem­pre que encon­tre com alguém de casa sem­pre per­gunte: — como vai fulano? E Sicrano?

Já estava morando em São Luís quando soube que seu irmão mais velho, tam­bém é que casou-​se com outra amiga de infân­cia veio a mor­rer de forma bem pre­coce.

Acho que uma ou duas vezes, falei com o seu irmão mais novo Remy, com Sil­vana, outra irmã, falei uma ou duas vezes pelas redes soci­ais, já o irmão Rogério, o caçula, daquela época, nunca tive notí­cias.

Anos depois, fui infor­mado que o amigo Beal se tornara vereador de Gonçalves Dias, fiquei feliz com a notí­cia, muito emb­ora nunca tenha tido a opor­tu­nidade de expres­sar tal ale­gria pes­soal­mente a ele. Nas pou­cas vezes que fui a nossa GD, não o encon­trei, não acom­pan­hei sua vida pes­soal, seus rela­ciona­men­tos, seus casa­men­tos, fil­hos, etc.

Na fotografia – de uma página ou site da nossa cidade e que ilus­tra esse texto –, não recon­heci o meu mel­hor amigo de infân­cia.

Acabamos adiando as coisas na nossa vida. Deix­amos para vis­i­tar o amigo numa outra opor­tu­nidade, de tele­fonar para um par­ente outro dia.

E, vamos sem­pre adiando, até o dia em que não ter­e­mos mais a opor­tu­nidade de faz­er­mos nada do que plane­jamos.

Muitas vezes plane­jei ir a Gonçalves Dias ou a Gov­er­nador Archer para reen­con­trar os ami­gos de infân­cia, sem­pre adiando. Na pan­demia perdi o amigo Gec­i­mon, agora o amigo Beal.

A vida vai pas­sando e não nos damos conta que somos ape­nas pas­sageiros.

Vai com Deus, amigo. Saudades eter­nas de tudo que vive­mos naque­les anos da nossa infân­cia.

Abdon C. Mar­inho.

O AMIGO BEALQUANDO NOS DEIXA O MEL­HOR AMIGO DA INFÂN­CIA

Por Abdon C. Mar­inho.

A MANHÃ chu­vosa na ilha do Maran­hão veio, tam­bém, com uma nota de tris­teza: a morte de um amigo de infân­cia.

Em deter­mi­nado momento daque­les saudosos e doura­dos anos, do mel­hor amigo da minha infân­cia.

Foi o meu sobrinho-​neto, Ruy­lon Peixoto, filho de minha sobrinha mais velha e de um outro grande amigo de infân­cia, Ger­son Peixoto, que, tam­bém já nos deixou há muitos anos, que trouxe a triste notí­cia.

Repro­duziu a infor­mação de uma página de notí­cias da nossa cidade e escreveu uma leg­enda: — fale­ceu, que triste.

Na sexta-​feira, quando estava a cam­inho de Mor­ros, já havia man­dado a noti­cia de que ele não estava bem, estaria inter­nado em uma UTI em Teresina. Não cheguei a vê a infor­mação, por algum motivo quando fui abrir apare­ceu que estava indisponível. Pen­sei que fosse alguma bobagem ou que se arrepen­dera de man­dar. Só a noite, já em casa, tomei con­hec­i­mento de que meu amigo de infân­cia não estava bem e que uma irmã estava fazendo uma cam­panha para ajudá-​lo no custeio das despe­sas com o trata­mento.

Pela manhã, logo nas primeiras horas, a notí­cia acima. Com pouco mais de cinquenta anos, o meu amigo de infân­cia, Beal, deix­ava esse plano.

Após estu­dar um ou dois anos em Gov­er­nador Archer, no Alde­nora Belo, primeiro morando na Rua do Sossego, em casa alu­gada e depois com a minha irmã Bibia, na Rua Sete de Setem­bro, fui morar em Gonçalves Dias. Meu pai havia con­struído uma casa lá, entre uma casa/​comércio de minha Deiza e a usina de “pilar” arroz dos pais de Beal.

Foi naquela usina que con­heci Beal e sua mãe, D. Irene. Íamos estu­dar na mesma sala, acho a ter­ceira série.

Por algum motivo tinha ido a usina e lá encon­trei com eles.

Como “pare­cia” gostar de estu­dar, sua mãe disse que dev­eríamos estu­dar jun­tos e que ele dev­e­ria ser como eu.

A par­tir daquele dia ficamos ami­gos. Não o chamava pelo apelido, sim pelo nome, Ruber­val; quase sem­pre pelo nome com­pleto, Ruber­val Bruno Dias. Achava curioso, pois o “Bruno” era o sobrenome da mãe.

Morava umas três ou qua­tro casas depois da minha. Desde cedo acos­tu­mado a me “virar” soz­inho – fiquei órfão com cinco anos –, na hora que cla­reava, já lev­an­tava, me arru­mava e seguia para a escola. Nem lem­bro se tomava café, ou mesmo se exis­tia café para tomar.

Todos os dias, é certo, pas­sava na casa de Beal para desce­mos jun­tos para a escola, a Unidade Integrada Castelo Branco.

Chegava lá muito cedo, como a família dele tinha o hábito de “tro­car o dia pela noite”, ainda os encon­trava dor­mindo por qual­quer canto, redes, camas, em lençóis pelo chão, era algo muito inco­mum aos meus olhos. Geral­mente, aguar­dava ele se arru­mar e tomar café e sair­mos para a escola, indo as vezes pela nossa própria rua, a Rua Rui Bar­bosa ou seguindo pela Rua Almir Assis, aguardando na Praça Miguel Bahury, em frente, que tocassem a cam­painha ou já ficá­va­mos mesmo lá na porta aguardando a hora de “for­mar” para entrar­mos no pré­dio.

Só andá­va­mos jun­tos, onde estava um, estava o outro.

Essa prox­im­i­dade valeu-​nos o apelido de “o Gordo e o magro”, pois Beal era bem gordinho quando cri­ança, enquanto eu era magro como uma tripa.

Nosso ciclo mais próx­imo na primeira infân­cia tinha out­ros cole­gas, Kaion Peixoto, Gec­i­mon Pereira, Bento Chaves Neto, e tan­tos out­ros. Mas com Beal a prox­im­i­dade era maior pois sem­pre está­va­mos jun­tos.

Quando ini­ci­amos o “giná­sio”, o equiv­a­lente hoje aos anos finais do fun­da­men­tal, tín­hamos que estu­dar a noite, pois só nesse horário havia esse ensino.

Seguíamos a rotina de antes, final da tarde pas­sava na casa dele e descíamos para o “Ban­deirantes” – era a mesma escola, só que a noite, tinha outro nome.

O que mudava tam­bém era o retorno para casa.

O amigo Beal, muito pre­coce para assun­tos sex­u­ais, todas as noites que­ria voltar pela rua onde ficavam os “cabarés” da cidade, na maio­ria das vezes só mesmo para olhar as “meni­nas”. Naquele tempo, com doze, treze anos, já era para estar­mos nas sacan­a­gens da vida. Com mais grana que nós, nessa fase, sem­pre que podia, Beal estava com uma ou outra. E tinha um fôlego inve­jável.

Acho que foi pelo final da sexta ou começo da sétima série que começamos a nos dis­tan­ciar. Nesse período, Beal teve um prob­lema de saúde, se não me falha a memória, uma apen­dicite, e não voltou mais para a escola – ainda ten­tei que voltasse, sua mãe, tam­bém, mas não teve jeito, não voltou e começamos a seguir cam­in­hos dis­tin­tos.

Com isso, acabou a nossa rotina de estar­mos sem­pre jun­tos. Pouco depois mudaram-​se para outra casa, na mesma rua, mas no “cen­tro” da cidade e pas­samos a quase não nos ver­mos.

Foi por esse tempo que meu pai “botou” um comér­cio na Rua Dr. Paulo Ramos, onde eu pas­sava o dia inteiro, tomando de con­tas, até a hora de ir para o colé­gio. Às vezes quem pas­sava pelo comér­cio era Gec­i­mon para ficar um tempo comigo, bater­mos um papo ou ver­mos alguma coisa das aulas.

Quando ter­minei o giná­sio a neces­si­dade de con­tin­uar os estu­dos me troux­eram para cap­i­tal para fazer o ensino médio no Liceu Maran­hense. Aí a dis­tân­cia com os ami­gos de infân­cia pas­sou a ser tam­bém espa­cial. Pou­cas vezes voltei a Gonçalves Dias ou a Gov­er­nador Archer e as noti­cias dos ami­gos de infân­cia se tornaram mais esparsas, muito emb­ora sem­pre que encon­tre com alguém de casa sem­pre per­gunte: — como vai fulano? E Sicrano?

Já estava morando em São Luís quando soube que seu irmão mais velho, tam­bém é que casou-​se com outra amiga de infân­cia veio a mor­rer de forma bem pre­coce.

Acho que uma ou duas vezes, falei com o seu irmão mais novo Remy, com Sil­vana, outra irmã, falei uma ou duas vezes pelas redes soci­ais, já o irmão Rogério, o caçula, daquela época, nunca tive notí­cias.

Anos depois, fui infor­mado que o amigo Beal se tornara vereador de Gonçalves Dias, fiquei feliz com a notí­cia, muito emb­ora nunca tenha tido a opor­tu­nidade de expres­sar tal ale­gria pes­soal­mente a ele. Nas pou­cas vezes que fui a nossa GD, não o encon­trei, não acom­pan­hei sua vida pes­soal, seus rela­ciona­men­tos, seus casa­men­tos, fil­hos, etc.

Na fotografia – de uma página ou site da nossa cidade e que ilus­tra esse texto –, não recon­heci o meu mel­hor amigo de infân­cia.

Acabamos adiando as coisas na nossa vida. Deix­amos para vis­i­tar o amigo numa outra opor­tu­nidade, de tele­fonar para um par­ente outro dia.

E, vamos sem­pre adiando, até o dia em que não ter­e­mos mais a opor­tu­nidade de faz­er­mos nada do que plane­jamos.

Muitas vezes plane­jei ir a Gonçalves Dias ou a Gov­er­nador Archer para reen­con­trar os ami­gos de infân­cia, sem­pre adiando. Na pan­demia perdi o amigo Gec­i­mon, agora o amigo Beal.

A vida vai pas­sando e não nos damos conta que somos ape­nas pas­sageiros.

Vai com Deus, amigo. Saudades eter­nas de tudo que vive­mos naque­les anos da nossa infân­cia.

Abdon C. Mar­inho.

Qual­i­fi­cação, mestrado e doutorado.

Escrito por Abdon Mar­inho


QUAL­I­FI­CAÇÃO, MESTRADO E DOUTORADO.

Por Abdon C. Marinho*.

LEIO e tam­bém assisto nos infind­áveis com­er­ci­ais que o gov­erno estad­ual vai “requal­i­ficar” a MA-​203, a nossa Estada da Raposa, ou Avenida do Araçagy, como queiram.

A notí­cia da “requal­i­fi­cação” trouxe muita ale­gria, líderes soltaram fogos de artifí­cios, as mídias dig­i­tais já têm dias tratando do assunto.

Fiquei pen­sando no que disse outro dia numa con­versa com umas lid­er­anças políti­cas e comu­nitárias: nós, a sociedade, como um todo, perdemos a nossa con­sciên­cia crítica e nada ilus­tra tão bem isso quanto o ‘fes­te­jar” uma requal­i­fi­cação de obra pública.

A nossa famosa MA 203 é a prova mais elo­quente do que digo.

Amante das palavras, sei que, grosso modo, requal­i­ficar, na sua acepção mais comum, sig­nifica qual­i­ficar nova­mente.

Ora, o vestibu­lar para “qual­i­fi­cação” da men­cionada obra deu-​se ainda pelo iní­cio do ano de 2010 – ou antes –, com gor­das ver­bas des­ti­nadas pelo Min­istério do Tur­ismo, quando ainda min­istro o ex-​deputado Gastão Vieira.

Depois de idas e vin­das e muitos mil­hões acresci­dos depois, se não me falha a memória, a “for­matura” da obra deu-​se no ano pas­sado, doze anos depois do iní­cio da “qual­i­fi­cação” – que, pelo visto, não foi tão qual­i­fi­cada assim – deve ter sido como um “curso de verão” que durou mais de uma década.

O tempo que levaram para “qual­i­ficar” a obra – do vestibu­lar à for­matura ou inau­gu­ração –, daria para fazer uma boa grad­u­ação, um ou mais mestra­dos e até doutorado. Em ter­mos bíbli­cos, é quase o mesmo tempo que Jacó levou para gan­har, de Labão, o dire­ito de casar-​se com Raquel (14 anos, 7 + 7 anos). Lia a Bíblia e lembrei-​me dessa pas­sagem ao escr­ever o texto.

Vejam, não esta­mos falando de uma “transamazônica” da vida, esta­mos falando de uma via que, saindo do retorno do Olho d’Água até o ele­vado Neiva Mor­eira, na con­fluên­cia com a MA-​204, não alcança a dis­tân­cia de 7 km.

Parece uma história de “tran­coso”, como se dizia antiga­mente, ou um mito, como o suplí­cio de Sisifo, con­de­nado a car­regar pela eternidade uma pedra a até o cume da mon­tanha e ela cair e ele começar tudo de nova­mente, con­forme ensina a mitolo­gia grega, dizer que pas­saram mais de uma década – e muitos mil­hões depois –, para “qual­i­ficar” um pedaço de via de menos de 7 km e, pouco mais de um ano depois – se tanto –, já man­darem “requal­i­ficar” tal obra.

E os cidadãos aceita­mos tal situ­ação e até mesmo fes­te­jamos como se fosse per­feita­mente nor­mal ou como se o poder público estivesse nos fazendo um favor.

Há mais de vinte anos morando em um sítio na Estrada de Riba­mar, fiz das MA’s 201, 204 e 203 meu roteiro diário de “viagem” entre minha casa e o tra­balho. Durante todo período de “qual­i­fi­cação” da via em dis­cussão, meu aux­il­iar, sen­hor Afrânio, quase que como um mantra repetia, na ida e na volta, “que a obra não daria certo”, “que não prestava”, “que era din­heiro jogado fora”, etcetera e tal. Eu, cré­dulo, ou tolo, só dizia: — que é isso, meu filho, como é que uma obra feita por umas das maiores empre­sas do estado ou do país, com grandes engen­heiros envolvi­dos, com “din­heiro no balde”, com o estado acom­pan­hando, em plena cap­i­tal, não dará certo?

Ao anun­cia­rem, “com fes­te­jos” que a obra depois de mais de uma década, como pouco mais de um ano de inau­gu­rada, pas­sará por uma “requal­i­fi­cação”, deram total razão ao que meu aux­il­iar repetia durante toda “qual­i­fi­cação” da obra e que eu estava abso­lu­ta­mente errado ao acred­i­tar no poder público.

O sen­hor Afrânio, que não é engen­heiro civil, não é arquiteto, não é empre­it­eiro e que só con­hecia a via por tran­si­tar por ela duas vezes ao dia, sabia mais sobre os “prob­le­mas” da obra que as pes­soas con­tratadas para exe­cu­tar e/​ou fis­calizar os serviços que estavam sendo exe­cu­ta­dos.

O que me choca é que ao anun­cia­rem e fes­te­jarem que irão “requal­i­ficar”, depois de tão pouco tempo depois de inau­gu­rada, a obra pública, não tenha apare­cido ninguém, uma viva alma, para se per­gun­tar ou para ques­tionar as autori­dades a razão para “requal­i­ficar” a obra.

— Parou! Parou! Foi erro de pro­jeto? Foi erro de exe­cução? Quem errou (se errou)? Vai haver ressarci­mento ao mis­erável do contribuinte?

Será que ape­nas eu con­siga achar que isso não está certo? Ou, como na obra o Alienista, de Machado de Assis, todos os out­ros estão cer­tos e eu que estou louco?

Se estiver errado que per­doem e aceitem min­has escusas, mas não tomei con­hec­i­mento de que algum dep­utado estad­ual ou fed­eral ou senador da República, pediu qual­quer esclarec­i­mento ou comis­são par­la­men­tar de inquérito para inves­ti­gar o que “deu errado” com obra ou mesmo tenha feito um dis­curso no “pequeno expe­di­ente” das Casas Leg­isla­ti­vas; não tomei con­hec­i­mento de que algum pro­mo­tor de justiça ou procu­rador tenha aberto algum pro­ced­i­mento; ou mesmo que o Tri­bunal de Con­tas do Estado — TCE tenha se ques­tion­ado ou feito ques­tion­a­men­tos aos respon­sáveis.

Observo o mesmo clima de “nor­mal­i­dade” já obser­vado durante a “qual­i­fi­cação” que se arras­tava ao longo dos anos, atrasando a vida de motoris­tas e transe­untes e con­sumindo incon­táveis mil­hões dos cofres públi­cos.

Arrisco dizer que as inter­venções feitas nos 7km da MA-​103, desde o “vestibu­lar” para ini­ciar a “qual­i­fi­cação”, há mais de uma década, até a “for­matura”, no ano pas­sado, ten­ham con­sum­ido bem mais de 100 mil­hões de reais, e, já se anun­cia, com festa, registre-​se, mais despe­sas com a mesma obra para “requal­i­ficar”.

O que me espanta, repito, é o clima de nor­mal­i­dade com que isso é tratado.

Mesmo a sociedade civil (des)organizada finge que tudo está bem, que é assim mesmo – quando não é.

Imag­ino (só imag­ino) se os recur­sos e o tempo despendi­dos nos sete quilômet­ros da MA-​103, não dariam para fazer, tam­bém, a dupli­cação da MA-​104 – que reclama uma dupli­cação com urgên­cia –, e/​ou, mesmo, a dupli­cação da MA-​101 (Estrada de Riba­mar), outra via per­i­cli­tante que não atende a demanda diária de trân­sito.

Vejam são inda­gações e ques­tion­a­men­tos que, a não ser que esteja habi­tando um mundo para­lelo –, julgo per­ti­nentes.

Mas, como já disse, pode ser que eu esteja abso­lu­ta­mente errado, não é? Paciên­cia.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

A saga de José Cal­heiro de Marinho.

Escrito por Abdon Mar­inho


A SAGA DE JOSÉ CAL­HEIRO DE MAR­INHO.

Por Abdon C. Marinho*.

AH, ABDON, mel­hor não tê-​lo con­hecido. O velho era muito igno­rante.

Assim meu irmão Armando referiu-​se, certa vez, ao nosso avô, José Cal­heiro, pai do nosso pai, em uma das nos­sas “palestras” de boca de noite quando vem por aqui.

Já é uma “quase” tradição, sem­pre que sai do inte­rior e vem pas­sar uns dias comigo, dedicamos um tempo con­ver­sando sobre as memórias famil­iares, sendo alguns anos mais velho e pos­suindo uma memória muito boa, vai me con­tanto as histórias dos nos­sos tios, pri­mos, fatos que se pas­saram quando ainda era muito novo ou mesmo ante­ri­ores ao meu nasci­mento.

Uma das últi­mas vezes, se não foi a última, ainda antes da pan­demia, nos ocu­pamos de fazer uma espé­cie de árvore genealóg­ica colo­cando, a par­tir dos nos­sos avós pater­nos, todos os nos­sos tios e tias e ainda os pri­mos dos quais lem­brá­va­mos e os seus fil­hos e até os fil­hos destes.

Sem­pre grat­i­f­i­cante a lem­brança dos tios e tias: tio Antônio; tio Fran­cisco (Chiquinho); tio Deolindo; tio João; tio Pedro; tia Mal­fisia; tia Fran­cisca (Chiquinha); tia Zulima; tia Josefa … seus fil­hos, netos, momen­tos tristes e ale­gres.

Sobre o nosso próprio ramo: meu pai Van­der­lino (que agora, por ocasião de pesquisas em doc­u­men­tos, desco­bri que orig­i­nal­mente chamava-​se ou encontra-​se reg­istrado como tal no cartório de Assú (Açú), como Wan­der Lin­dem ou erram lá quando o reg­is­traram ou aqui), ele de Angi­cos; e minha mãe, Neusa, nat­ural de Açú, casaram-​se na cidade dela no dia em que ela com­ple­tou 19 anos, em 1950.

Foi em tal ocasião que o querido irmão disse que o meu avô era muito rude.

É provável que fosse mesmo, ou que essa avali­ação tenha par­tido da per­cepção que temos hoje para avaliar fatos pretéri­tos ou, ainda, do fato do meu irmão ser muito jovem quando meu avô mor­reu.

Mas, cer­ta­mente, era um “velho” duro na queda, arro­jado e com um poder de comando sobre a família inques­tionável. Como, aliás, eram os chefes de família daquela época.

Outro dia, em um dos gru­pos de aplica­tivos da nossa família, uma bis­neta do meu avô per­gun­tou se alguém teria uma fotografia dele. Minha irmã mais velha lem­brou de uma fotografia que teríamos na casa de uma das nos­sas pri­mas, man­dou bus­car e pos­tou no grupo.

Foi quando, jun­tando uma infor­mação daqui ou dali, resolvi escr­ever sobre a saga do patri­arca.

Inde­pen­dente de ser rude ou igno­rante é certo que o José Cal­heiro tinha muita autori­dade per­ante sua família e a exer­cia com “mão de ferro”. Basta dizer que na segunda metade dos anos cinquenta do século pas­sado pas­sado decidiu que viriam para o Maran­hão, deixando para trás o sertão do Rio Grande do Norte, cas­ti­gado pela seca.

Ele e nossa avó, Maria Cal­heiro da Con­ceição, empreen­deram uma ver­dadeira epopeia, com uma dezena de fil­hos, noras, gen­ros, netos, e mesmo alguns ami­gos e par­entes desses que se jun­taram a nossa família para atrav­es­sarem, a pé, ou no lombo de ani­mais, a dis­tân­cia entre o inte­rior do RN ao inte­rior do MA, onde vieram fixar residên­cia.

A epopeia foi pro­gra­mada com ante­cedên­cia, mesmo porque não se desloca quase uma cen­tena de pes­soas (senão mais que isso), inclu­sive, dezenas de cri­anças com impro­vi­sos ou às cegas, sem saber por onde ir, onde parar, onde comer, beber, etc.

Meu avô, ape­sar de não ser letrado, assim como quase toda a família eram de anal­fa­betos, tinha dis­cern­i­mento das coisas.

Um ano antes (ou o que o valha), deter­mi­nou que tio Pedro Cal­heiro, na época com pouco mais de vinte anos, o mais novo da sua prole (um ano mais novo que o meu pai e o mais desas­nado dos fil­hos) que viesse em uma mis­são expe­di­cionária localizar o mel­hor lugar para aco­modar toda nossa família nas ter­ras do Maran­hão.

Assim foi feito, durante alguns meses tio Pedro per­cor­reu o estado enten­dendo que o mel­hor lugar seria o povoado Cen­tro Novo, entre Gov­er­nador Archer, Gonçalves Dias, Dom Pedro e que, naquela época, sofria influên­cia de uma das mais impor­tantes cidades do Maran­hão: Pedreiras.

Quando tio Pedro retornou da expe­dição – e podemos chamar assim pois em mea­dos dos anos cinquenta o inte­rior do nordeste só tinha em abundân­cia, a cor­agem do ser­tanejo, de resto fal­tava tudo, comida, estradas, água, comu­ni­cação, e tudo mais) –, ini­cia­ram os prepar­a­tivos para traz­erem a família de José Cal­heiro e Maria Cal­heiro da Con­ceição para o Maran­hão.

Um dia, no começo dos anos dois mil, algum com­pro­misso ou ape­nas uma viagem de pas­seio para rever os par­entes, me colo­cou na estrada.

Ao chegar no Povoado Inde­pendên­cia, disse ao meu par­ceiro de via­gens, seu Afrânio, entre aí, vamos até Pedreiras vis­i­tar tio Pedro. Chegando lá, disse que estava só pas­sando para tomar a bença e que estava indo para o Cen­tro Novo. Não se fazendo de rogado tio Pedro só disse: — Salete, arruma nos­sas coisas, vamos lá com Abdon, vis­i­tar os par­entes. Acomodaram-​se nos ban­cos tra­seiros do carro e seguimos para Gonçalves Dias e, de lá, para o Cen­tro Novo.

Esse era o tio Pedro, não per­dia uma opor­tu­nidade de se encon­trar com os irmãos, os sobrin­hos, os sobrinhos-​netos e parentada de uma forma geral.

Foi nessa opor­tu­nidade, no per­curso entre Pedreiras e o Cen­tro Novo que foi nos con­tando a história do nosso deslo­ca­mento do Rio Grande do Norte para o Maran­hão. Foi o último dos fil­hos de José Cal­heiro a nos deixar, já em 2011. Enquanto viveu, foi uma refer­ên­cia para vida de todos os irmãos e sobrin­hos, sobre­tudo, depois que aque­les se foram.

Quase todos os domin­gos tinha o hábito de me ligar para con­ver­sar­mos, me dava con­sel­hos, já advo­gado, me pedia alguma opinião. Her­dou do “velho” o poder de lid­er­ança e todos os fil­hos ou netos dos seus irmãos o tín­hamos como tal.

O meu avô e sua fil­harada eram nat­u­rais de Angi­cos — RN, na ver­dade de um povoado desse municí­pio que ainda hoje é muito pequeno, não con­tado com quinze mil habi­tantes, segundo dados do IBGE.

Imag­ino o impacto social naquela povoação o deslo­ca­mento de tan­tas pes­soas. Meu avô e sua esposa não deixaram nen­hum dos fil­hos para trás, do mais velho ao mais novo, todos deixaram o que “não” tin­ham e seguiram ao comando dos pais, junto com eles, já suas famílias, esposas, gen­ros, fil­hos e até mesmo out­ras pes­soas que resolveram se jun­tar à car­a­vana para bus­car vida mel­hor no Maran­hão.

Sem estradas e vin­dos a pé e com ani­mais, trazendo o pouco que pos­suíam – e o que dava para traz­erem em baús ou jacás –, empreen­deram a viagem para per­cor­rerem mais de mil quilômet­ros, pelo roteiro atual, mais rápido (imag­ino que nos anos cinquenta fos­sem out­ros cam­in­hos) enfrentando todo tipo de adver­si­dades.

As restrições de viagem eram tan­tas que outro dia soube que minha irmã mais velha – que na época da epopeia tinha cinco ou seis anos –, lem­brava que não pode trazer sua boneca de pano por falta de espaço.

Via­jando pelo inte­rior do nordeste, tendo que atrav­es­sar no mín­imo mais dois esta­dos, além do de origem e de des­tino, imag­ino o alvoroço que tal car­a­vana, com homens, mul­heres, cri­anças, ani­mais, deve ter provo­cado por onde pas­sava, muito emb­ora fosse comum deslo­ca­men­tos em car­a­vanas.

Assim, sob o comando de José Cal­heiro de Mar­inho, apor­ta­mos em ter­ras maran­henses onde cri­aram fil­hos e deixaram para a pos­teri­dade uma descendên­cia de pes­soas sérias, hon­es­tas e tra­bal­hado­ras.

A família Cal­heiro de Mar­inho, como disse ante­ri­or­mente, ficou rad­i­cada no Povoado Cen­tro Novo, tra­bal­hando como agricul­tores, depois, prin­ci­pal­mente, após a par­tida do “velho” fora se espal­hando para out­ros lugares, com destaque para Pedreiras, naquela época uma das mais prósperas do estado e tida como a “cap­i­tal do Mearim”.

A saga de José Cal­heiro de Mar­inho e Maria Cal­heiro da Con­ceição nos trouxe até aqui. Não somos só o que somos na atu­al­i­dade, tam­bém somos a nossa história, o nosso pas­sado, a história dos que vieram antes de nós. E por isso deve­mos honrá-​los.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.