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NO FIM FAL­TARÁ LAMA.

Escrito por Abdon Mar­inho


NO FIM FAL­TARÁ LAMA.

Por Abdon C. Marinho*.

TODOS que me con­hecem sabem o quanto sou admi­rador de charges. Acho o char­gista um dos artis­tas mais com­ple­tos, pois con­seguem sin­te­ti­zar uma ideia, um momento político ou social, um sen­ti­mento com ape­nas uma imagem, um traço. Sem­pre que encon­tro uma inter­es­sante salvo-​a nos meus arquivos.

A charge que ilus­tra esse texto encon­trei em mea­dos do ano pas­sado. A imagem do então pres­i­dente den­tro da ampul­heta mostrando que a figura do mesmo, a medida que o tempo pas­sava no medi­dor de tempo que é mile­nar fer­ra­menta se trans­for­mava em um pre­sidiário, inde­pen­dente de qual­quer incli­nação política, achei formidável.

Há pouco mais de um ano (mas pre­cisa­mente no domingo, 21 de agosto de 2022), depois que o então pres­i­dente disse que se não gan­hasse a eleição seria preso (ou morto, pois rea­giria) surgiu a opor­tu­nidade de uti­liza­ção da charge em um tex­tão, escrevi: “Um can­didato entre o Planalto e a Papuda?”.

O texto você con­fere no nosso site, na data já referida acima.

Um ano depois, a imagem visu­al­izada pelo autor da charge e que inter­roguei no texto não é ape­nas uma situ­ação hipotética, na ver­dade é como se o “cam­burão” da polí­cia fed­eral já estivesse na esquina – na ver­dade já esteve até na porta do ex-​presidente em mis­sões de coleta de provas.

Em tal con­texto, talvez o único que fez – não um exer­cí­cio de pre­visão –, mas uma con­statação do viria acon­te­cer de fato tenha sido o ex-​presidente Bol­sonaro. Ao dizer que com a der­rota teria um encon­tro com a prisão ou a morte, sabia ple­na­mente o que estava acon­te­cendo e, ele próprio, dire­ta­mente ou por ter­ceiros, fazendo.

A cada dia, a cada nova rev­e­lação – e o agosto tem sido prodi­giosa nelas –, a pat­uleia vai tomando con­hec­i­mento que as palavras não eram ape­nas “força de expressão”.

Vejamos o “caso das jóias”. O tenente coro­nel Mauro Cid, que já cole­ciona quase trinta horas de depoi­men­tos à Polí­cia Fed­eral, do qual vamos tendo con­hec­i­mento de frag­men­tos, ape­nas, vai deixando claro que ele e todos no entorno pres­i­den­cial sabiam que “malfeitos” estavam em anda­mento e que eles próprios eram sujeitos ativos dos mes­mos.

Ainda que sobrassem dúvi­das quanto à legal­i­dade de algu­mas con­du­tas, qual­quer um com ape­nas dois neurônios em fun­ciona­mento dev­e­ria ter a noção de que era “feio” o que estavam fazendo.

Mesmo nas relações estri­ta­mente pri­vadas não é de “bom tom” você rece­ber pre­sente de um amigo ou par­ceiro de negó­cios e lavá-​lo à venda. É uma falta de con­sid­er­ação, de ética, de compostura.

Mas, imag­ine você rece­ber um pre­sente – dire­ta­mente ou por inter­posta pes­soa –, rep­re­sen­tando o seu país, o seu estado e o levar à venda numa casa de leilões ou em um mer­cado de pulgas.

Aqui, sem ante­ci­par qual­quer juízo de valor, ao meu sen­tir é uma falta de con­sid­er­ação com a nação que pre­sen­teou e com o nosso próprio país, pois é como se estivésse­mos (a nação) con­tando moedas para sobre­viver.

E, vai-​se além, mesmo que se tivesse qual­quer dúvida quanto à pro­priedade do pre­sente, como quer ado­tar como linha de defesa o ex-​presidente, os pre­sentes foram dados ao país, rep­re­sen­tado por seu pres­i­dente, min­istros ou out­ros agentes.

Como sei disso? Resposta: me per­gun­tando quan­tos pre­sentes caros, joias em ouro e dia­mantes esses mes­mos agentes rece­beram depois que deixaram os car­gos públi­cos que ocupavam.

Pois é, se não rece­beram nada depois de deixarem os car­gos é porque o pre­sente não era para eles e sim para o cargo e funções que ocu­pavam.

Na minha já longeva car­reira jurídica, toda ela no setor público, vejo muitos ex-​gestores de várias esferas de poder se ressen­tirem pelo fato de con­vites para fes­tas, solenidades e rapa­pés terem escassea­dos ou desa­pare­ci­dos. Demoram a “caírem na real” e a enten­derem que tudo aquilo não era para eles, era para os car­gos que ocu­pavam. Por estas par­a­gens, conta a lenda, que deter­mi­nado advo­gado que era con­vi­dado para as fes­tas dos bacanas, foi alçado ao cargo de desem­bar­gador e com ele os con­vites começaram a “chover”. Sabendo que tal baju­lação não era para ele, aos con­vites que rece­bia, man­dava, no carro ofi­cial, as vestes talares do cargo aos even­tos com um bil­hete: “como o con­vite não é para mim e sim para o cargo, seguem as vestes do mesmo”. Deve ser lenda.

O mesmo raciocínio serve para os pre­sentes ofer­ta­dos a um gov­er­nante, seja ele munic­i­pal, estad­ual ou fed­eral.

Os gestores públi­cos dev­e­riam ado­tar como princí­pio a seguinte máx­ima: antes do cargo eu rece­bia? Depois do cargo con­tin­uarei a rece­ber? Com a resposta não, já sabe que aquilo que rece­beu não era para ele.

Qual­quer agente público que recebe para si um pre­sente valioso, tal mimo deve ser chamado por outro nome, que, inclu­sive, tem tip­i­fi­cação penal: sub­orno.

No caso dos supos­tos “pre­sentes” que o ex-​presidente reclama a pro­priedade, sobra uma outra curiosi­dade e desmi­ti­fi­cação: existên­cia de gov­er­nantes árabes bonz­in­hos.

Vejam que coisa, pas­samos a vida inteira ali­men­tando pre­con­ceitos de que esses povos teriam um exces­sivo apego ao “vil metal”, mas, de repente, desco­b­ri­mos que são capazes de doarem mil­hões de dólares em joias a pes­soas que mal conhecem.

O enredo até parece um conto de “As mil e uma noites”.

Já o enredo do resto da história está mesmo para comé­dia pastelão rec­heada de crimes diver­sos prat­i­ca­dos por paler­mas. Ou nas palavras de um dos envolvi­dos, cap­turadas pela PF: “nunca vi gente tão igno­rante”.

Me digam se pes­soas sen­sa­tas, nos pín­caros dos poderes repub­li­canos agiriam assim: você vai a uma nação estrangeira recebe um pre­sente valioso – que sabe, cer­ta­mente, per­tencer ao cargo que ocupa –, entra no país sem declarar o ingresso do bem, depois você viaja nova­mente levando o pre­sente que gan­hou, nova­mente não declara a saída do bem, chegando no des­tino você mobi­liza servi­dores públi­cos, inclu­sive com altas patentes das Forças Armadas, para per­cor­rerem lojas e casas de leilões para venderem os ditos pre­sentes.

Imag­ino, no palá­cio, a orga­ni­za­ção de uma viagem inter­na­cional da maior autori­dade da República: — coro­nel fulano, na próx­ima sem­ana vamos aos Esta­dos Unidos, ver­i­fica aí no acervo do palá­cio os pre­sentes que poder­e­mos levar “para dá um jeito por lá”.

Depois de ven­di­dos e apu­ra­dos os val­ores estes eram rein­tro­duzi­dos de forma clan­des­tina no país através de con­tas de ter­ceiros.

Como querem que com­preen­damos tal tipo de vex­ame? Repito, ainda que sobrasse legal­i­dade, é algo difí­cil de digerir. Então tín­hamos um gov­erno caça-​níqueis?

Será que a ninguém socor­ria a ideia de dizer: — rapaz isso que esta­mos fazendo é loucura?

Observem que nesse texto ape­nas trata­mos de um item de um “pron­tuário” que, pelo que se desenha, será bem extenso. Além da joias pre­sen­teadas, já surgem “boatos” sobre a com­pra de man­sões no estrangeiro em nome de “laran­jas”, as rev­e­lações do hacker em uma CPI — que pre­cisam ser provadas, mas que a polí­cia fed­eral não dev­erá ter difi­cul­dade em saber se ver­dadeiras ou não –, e tan­tas out­ras coisas que, cer­ta­mente, virão à luz mais cedo ou mais tarde.

O caso que vai se descorti­nando, como dizia um saudoso min­istro do STF, é daque­les em que se puxa uma pena e vem a gal­inha inteira, só que neste, vem o gal­in­heiro inteiro.

O que nos resta é aguardar, com um balde pipocas e um copo de suco, os próx­i­mos capí­tu­los.

Ao tér­mino de tudo, o temor é que falte lama.

*Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

Sar­ney, Cafeteira e uma gratidão final.

Escrito por Abdon Mar­inho


SARNEY, CAFETEIRA E UMA GRATIDÃO FINAL.

Por Abdon C. Marinho*.

SOBRE a mesa de cen­tro na minha sala no escritório da Rua dos Pin­heiros repousa um livro que conta a história do Pro­jeto Reviver – a recu­per­ação do cen­tro histórico de São Luís, empreen­dida durante o gov­erno Cafeteira (19871990) –, que me foi dado pelo próprio ex-​governador quando tra­bal­hei na sua cam­panha ao gov­erno do estado no ano de 1994 – quase uma relíquia.

O livro estava guardado em uma gaveta e por um motivo qual­quer o trouxe para fazer “com­pan­hia” a um outro livro, este sobre os lençóis maranhenses.

Em um dia da sem­ana, aten­dia o amigo, o prefeito de Luis Domingues, Gilberto Braga, quando aden­tra a sala outro amigo, o ex-​prefeito de Bequimão, José Mar­tins.

Enquanto aguarda, Mar­tins começa fol­hear o livro e acabamos, os três, numa única con­versa, recor­dando alguns fatos pitorescos de Cafeteira e da política do estado como um todo. Mar­tins acabou por tocar na reaprox­i­mação entre o ex-​presidente Sar­ney com ex-​governador, fato ocor­rido a par­tir das eleições de 2006, quando esse último elegeu-​se senador na chapa com Roseana Sar­ney, que fora sua adver­sária nas eleições de 1994 (aquela que gan­hamos); e na de 1998 (aquela que perdemos). Como teste­munha ocu­lar da história, estava em ambas.

Em 22 de maio de 2018, por ocasião da extinção do ex-​governador, ocor­rida no dia 13 daquele mês, escrevi sobre o que vivi naque­las duas cam­pan­has eleitorais e nos seus des­do­bra­men­tos, chegando, já alguns pará­grafos antes quadra final do texto, a fazer refer­ên­cia a essa reaprox­i­mação entre os dois políti­cos e o desabafo feito por Cafeteira na última vez que estive­mos jun­tos.

Como já disse em tex­tos ante­ri­ores, con­heci pes­soal­mente Cafeteira por ocasião da eleição estad­ual de 1994, já tra­bal­hava com Juarez Medeiros, que foi can­didato a vice-​governador na chapa com ele, e fui chamado para, junto com mais duas ou três pes­soas, tomar conta daquela cam­panha eleitoral.

Olhando com os olhos de hoje (na época tinha 25 anos) fico imag­i­nando como uma cam­panha eleitoral sem recur­sos, sem sus­ten­tação política con­sis­tente, com tão pou­cas pes­soas no seu comando chegou tão longe enfrentando toda a força política de um gov­erno estad­ual, fed­eral, poder dos meios de comu­ni­cação todos nas mãos dos adver­sários (o grupo Mirante, da família da can­di­data e com pen­e­tração em todo o estado e a grupo Difu­sora, da família do então gov­er­nador, tam­bém apoiando Roseana).

Acred­ito que nunca antes – nem depois –, teste­munhamos uma cam­panha como aquela. Foi o que se pode chamar de uma epopeia. Cafeteira tinha um apelo político e pop­u­lar naquela eleição que nunca vi depois, nem mesmo na vitória de Jack­son Lago, em 2006 ou na de Flávio Dino, em 2014, viu-​se algo com­parável ao desejo de mudança exper­i­men­tado em 1994.

Quando, ao som da música de cam­panha “liber­dade é o respeito pelo dire­ito é a chama em nosso peito …” e Frank Matos anun­ci­ava a fala do can­didato, sentia-​se um mag­net­ismo envol­vendo a mul­ti­dão nos comí­cios.

O comitê, no Sitio Leal, era o local onde ficava todos os dias, man­tendo con­tato através de um tele­fone fixo com as lid­er­anças políti­cas do inte­rior e para nos infor­mamos do que vinha acon­te­cendo: as pressões políti­cas, os abu­sos, a reti­rada de pro­pa­ganda eleitoral por “falta de ener­gia” ou por “defeito téc­nico”.

Imag­inem que se ainda hoje o Maran­hão é um estado atrasado, há trinta anos era muito mais, com os “donos do poder” político man­dando de uma forma muito mais acin­tosa.

O poder era exer­cido com tanta força que mesmo antes de inventarem as chamadas “fakes News”, o Maran­hão teve uma fake news – e séria. Às vésperas do segundo turno das eleições, inventou-​se que Cafeteira teria man­dado matar um cidadão por nome de Reis Pacheco (já con­tei essa história em tex­tos ante­ri­ores. O fato é que só conseguiu-​se provar a farsa no dia do último pro­grama eleitoral, que não chegou a ser visto em todo estado pelos prob­le­mas já relata­dos acima, falta de ener­gia, emis­so­ras de rádio e tele­visão fora do ar e tudo mais.

Ape­sar de tudo é certo que Cafeteira venceu a eleição de 1994 – e não levou.

Um amigo que teste­munhou todos aque­les fatos certa vez desabafou: — Abdon, se eu fosse Cafeteira toda vez que o Sar­ney entrasse no plenário do Senado eu o chamaria de canalha.

Naquela época tanto Sar­ney quanto Cafeteira tin­ham ainda pela frente qua­tro anos de mandato como senador da República, o primeiro pelo Amapá e o segundo pelo Maran­hão.

A relação dos dois, exceto pelo “armistí­cio” ocor­rido em 1986 – na esteira da eleição Tancredo/​Sarney –, e que durou até 1990, sem­pre foi de antag­o­nismo, que vinha desde o iní­cio da car­reira política de ambos, nos idos dos anos cinquenta.

Os fatos da eleição de 1994, teria azedado de vez o que nunca foi bom.

Em 1998, Cafeteira dis­putou o gov­erno estad­ual nova­mente con­tra Roseana Sar­ney e dessa fez perdeu, ficando sem mandato.

Foi a segunda eleição em que tra­bal­hei com ele, dessa vez o nosso comitê foi no antigo palacete dos Archer, na praça Gonçalves Dias – com a estru­tura do Sitio Leal fun­cio­nando como apoio.

Cada um cuidando de seus afaz­eres e sendo eu alguém que não é dado a vis­i­tar ninguém ou a fre­quen­tar a “sociedade”, tive pouco con­tato com Cafeteira nos anos seguintes.

No final de 2006 – ou iní­cio de 2007 –, recebo uma lig­ação de Chico Branco, um amigo comum de ambos: — Abdon, o chefe quer falar con­tigo. Esta­mos pas­sando aí.

Não demorou muito lá estavam Cafeteira e Chico Branco na minha frente, recor­dando os bons momen­tos que pas­samos jun­tos nas duas cam­pan­has eleitorais.

O propósito da visita era que Cafeteira que­ria que assumisse a defesa dele numa ação eleitoral. Alguém entraram con­tra ele sob a ale­gação de que os gas­tos dele naquela cam­panha seriam incom­patíveis, ou seja, ele não teria “gas­tado” din­heiro sufi­ciente ao número de votos que teve.

Com o bom humor de sem­pre ele con­fi­den­ciou: — poxa, Abdon, nem isso que con­sta da prestação de con­tas foi efe­ti­va­mente gasto, fiz minha cam­panha toda casada com a cam­panha da branca.

Naquela eleição, 2006, tra­bal­hei com Ader­son Lago, no primeiro turno e, no segundo turno, com Jack­son Lago, fato público. Cafeteira fora eleito na chapa com Roseana Sar­ney.

Con­ver­samos sobre essas cir­cun­stân­cias, tendo ele dito que con­fi­ava em mim para sua defesa. Foi o que fize­mos. Hon­orários na base da amizade.

Tem­pos depois, processo ven­cido, acho que quase no fim do mandato mas já, cer­ta­mente, decor­rido mais da metade, recebo outra lig­ação de Chico Branco: — Abdon, está no escritório? Vou pas­sar aí com o chefe.

A prefeitura da cap­i­tal estava fazendo umas refor­mas nas rotatórias e removendo os famosos corações de con­creto car­ac­terís­ti­cos das obras que realizara quando foi gov­er­nador. Dire­ta­mente ou através de alguém ele tomou con­hec­i­mento e não gos­tou da ati­tude do gestor munic­i­pal que estava sub­sti­tuindo os ditos corações por alguns arran­jos artís­ti­cos.

Foi naquela visita que Cafeteira revelou-​me a enorme gratidão por Sar­ney depois de uma vida inteira de rus­gas e desavenças. Não foi por causa da eleição de 2006, que lhe pos­si­bil­i­tou voltar ao Senado numa artic­u­lação de Sar­ney.

A gratidão nos rev­e­lada foi pelo fato de Sar­ney ter ficado ao seu lado quando do inci­dente em que quase mor­reu.

Nas suas palavras, Sar­ney teria sido seu “anjo da guarda”: — meu filho, eu estava ali, naquela cama ou maca, nu, ape­nas enro­lado com um lençol e Sar­ney estava lá segu­rando minha mão.

Naquela altura da vida Cafeteira já com quase noventa anos – se já não pas­sava disso –, ainda assim ou talvez por conta disso, era capaz de emocionar-​se com um gesto de sol­i­dariedade e amizade de um eterno desafeto.

A rev­e­lação causou-​me uma sen­sação “difer­ente”.

Não con­heço o ex-​presidente Sar­ney, mas, pelo menos em duas cam­pan­has eleitorais, tive estre­ito con­tato com o ex-​governador Cafeteira, a ponto de saber que aquela gratidão ali rev­e­lada era fruto de uma sin­cera emoção.

Cafeteira deixou o escritório me dizendo que não tinha intenção de con­cor­rer a uma reeleição, e riu. Acho que foi a última vez que estive pes­soal­mente com ele.

Na con­versa com José Mar­tins e Gilberto Braga, o primeiro rev­elou ter ouvido do próprio Cafeteira, em uma reunião em Brasília, salvo engano, na casa de Roseana, declar­ação semel­hante.

Antes de saírem recor­damos out­ros cau­sos do ex-​governador.

Acabei por rev­e­lar que dia desses ia escr­ever sobre o mesmo depois de uma matéria que vi em um jor­nal ou site de que deter­mi­nado estado havia pin­tado todos os veícu­los que aten­dem as del­e­ga­cias das mul­heres de rosa, segundo os autores da ideia, para causar con­strang­i­mento nos cidadãos que come­tem vio­lên­cia domés­tica. Dizia que nada daquilo era novi­dade, pois Cafeteira quando assumiu em 1997, man­dou pin­tar foi toda a frota de veícu­los do estado de “amarelo-​abóbora” para evi­tar o mal uso de tais veícu­los.

Depois de tudo, devo dizer que foram exper­iên­cias mem­o­ráveis. Foi mágico ter vivido tudo aquilo.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

Cinquenta anos essa noite — lem­branças e saudade.

Escrito por Abdon Mar­inho

CINQUENTA ANOS ESSA NOITELEM­BRANÇAS E SAUDADE.

Por Abdon C. Marinho*.

VOLTEI ao Cen­tro Novo, minha aldeia orig­inária.

O aniver­sário de cinquenta anos da par­tida de minha mãe para o outro plano me trouxe até aqui. Uma busca para rea­v­i­var as memórias, sen­tir os mes­mos cheiros da infân­cia que tive é que foi mar­cada por acon­tec­i­men­tos tão trági­cos.

A velha estrada – prati­ca­mente um cam­inho –, lig­ando os municí­pios de Gov­er­nador Archer e Gonçalves Dias deu lugar a uma rodovia asfal­tada, larga e que cor­tou mor­ros e ser­ras, tor­nando a dis­tân­cia bem mais curta; cor­tou tam­bém os ter­reiros das casas onde colocá­va­mos as cadeiras para con­ver­sar ou fazer alguma ativi­dade cole­tiva, como debul­har milho ou fei­jão das roças que ficavam próx­i­mas onde cul­tivá­va­mos “de tudo”.

Pas­sando de carro com o meu sobrinho-​neto, vi que já são pou­cas as casas que não estão cer­cadas por muros ou mesmo cer­cas, con­fi­nando a estrada e os espaços por onde andá­va­mos e cor­ríamos (?) livre­mente.

Reduz­i­mos a veloci­dade ao pas­sar pelo o local onde ficava a velha casa onde nasci (e onde nasceu quase todos os meus irmãos pelas mãos de uma parteira da família, a esposa de tio Antônio, o mais velho dos irmãos de meu pai), nada restou.

Era uma casa sim­ples, muito sim­ples, mas, ao menos aos olhos de “eu, menino” pare­cia grande, com alguns quar­tos, pois a família já era grande e tinha ainda minha vó, que chamá­va­mos titia, que viu­vez foi morar conosco; alguns depósi­tos, onde papai guar­dava o arroz de sua pro­dução e o que com­prava “na folha” de out­ros pro­du­tores e que íamos bus­car em bur­ros dire­ta­mente nas roças; salas, de chão batido, uma, como sala de estar, onde ficava o oratório de mamãe, sua máquina de cos­tura; o rádio estilo jabuti, algu­mas “cadeiras de macar­rão”, tam­boretes, e, tam­bém, das min­has primeiras lem­branças, o espaço onde minha espal­hou sobre um encer­ado um colcha de veludo onde eu pode­ria ficar sem pegar “friagem”, depois de quase mor­rer em con­se­quên­cia da pólio; ainda, coz­inha com jirau para os fun­dos onde se man­tinha uma cri­ação de por­cos e gal­in­has soltas.

À dire­ita da casa, de quem olhasse da estrada, pon­tif­i­cava um flam­boy­ant, ao qual chamá­va­mos de “som­brião” – de tal árvore veio a ficção de que se sua altura ultra­pas­sasse a da cumeeira da casa, seus pro­pri­etários mor­re­riam, durante anos tal sen­ti­mento me acom­pan­hou; à esquerda, ficava o cur­ral onde bois e vacas eram recol­hi­dos à noite.

Na frente da casa um outro depósito para se guardar arroz, um pouco mais adi­ante a casa dos “Bizun­gas” e, mais adi­ante, a casa de tia Mal­fisia, a mais velha das irmãs de meu pai. Entre a casa dos “Bizun­gas” e a de tia Mal­fisia, ficava a casa da prima Ciça, sua filha. Já –a “con­heci” viúva, morando nesta casa com a outro filha, prima Salete.

Logo depois do cur­ral descia uma ladeira íngreme com des­tino ao Igarapé de Pedrin­has que usamos para “escor­re­gar” usando con­chas de palmeiras como car­rin­hos de rolimã.

Olhei no entorno, nada mais estava lá – e já não estava lá há muito tempo –, ape­nas o igarapé, já mal­tratado pelo tempo e a serra, onde brin­cava de “pas­sar­in­har”, ainda restam.

Mas, tudo, pelo menos para mim, já deixara de exi­s­tir há muito tempo.

Foi em doze de agosto de 1973, um domingo, o último dia de con­vivên­cia com a minha mãe. Ainda no começo da noite ela começou com as “dores do parto”. No quarto sim­ples, que lem­bro ter um baú, o cofre de meu pai, em uma cama sim­ples ela deitada con­ver­sava com meu tipo Praxedes, seu irmão, que fora casado com minha tia Zefa, irmã de meu pai, que fale­cera, ainda con­fiando na lem­brança, de parto, há menos de um ano. Enquanto con­ver­savam, eu fazia todo tipo de per­altice para chamar a atenção, hora cor­ria para um lado, hora cor­ria para o outro, hora subia na sua cama, hora pren­dia os ded­in­hos na dobradiça do cofre …

Com olhar com­pas­sivo – só muito depois fui com­preen­der isso –, ela tudo assis­tia e dizia ao tio Praxedes: — um dia meu filho será um doutor para cuidar dos seus irmãos.

Foi assim até a hora que alguém levou-​me para dormir no quarto que dividia com a “titia”. Talvez com a rede de Ana Cleide, a caçula das mul­heres ao lado, com dois anos e meio ao lado. Acordei no meio da noite com o silên­cio impen­etrável daque­les dias sendo cor­tado pelo clamor, por diver­sos clam­ores. Da minha rede, ouvia o vozes e muito choro, muito choro.

Não sei quanto tempo fiquei lá, só ouvindo choros e sem saber o que tinha acon­te­cido.

Muito tempo depois, quando o dia aman­hecia, para o que seria a nova real­i­dade: a cama da minha mãe fora posta na sala, já com uma mor­talha branca, ela repousava sobre a mesma, ser­ena, sem vida, no des­canso para a eternidade.

Na sala cheia de gente, uns olhando pela janela, out­ros mais dis­tantes, pelo ter­reiro, todos chorando.

Minha mãe mor­rera no parto. O caçula sobre­viveu – difer­ente do que tinha ocor­rido a tia Zefa, pouco tempo antes em que ambos mor­reram –, e já era cuidado por alguém, alguma tia, alguma viz­inha.

A comu­nidade inteira – que não era grande e toda for­mada por par­entes ou ami­gos que vieram jun­tos na “expe­dição” de José Cal­heiro de Mar­inho, meu avô –, estava na nossa casa a teste­munhar mais essa tragé­dia em família.

Éramos mais nove órfãos na família – a mais velha, emb­ora já casada com um primo e com fil­hos, tinha pouco mais de vinte anos, os demais for­mavam uma “escad­inha” que ia de zero anos até quase vinte –, a se somarem aos fil­hos de tia Zefa, de tia Nelci, irmãs de meu pai, tam­bém mor­tas e com fil­hos órfãos.

Nos cinquenta anos seguintes, espal­ha­dos por casas diver­sas e fecha­dos nos próprios mun­dos, cada um enfren­tou as próprias e angústias.

Muito emb­ora essas lem­branças ten­ham me acom­pan­hado por toda vida, cada detalhe daquele último dia e, prin­ci­pal­mente, as dores dos dias e anos seguintes, voltar ao Cen­tro Novo é rea­cen­der e tornar mais inten­sos os sen­ti­men­tos, saudades, tris­teza, solidão, angustias …

Desde então se pas­saram cinquenta anos. valeram a pena? Tudo, já dizia o poeta, vale a pena, se a alma não é pequena.

As dores fiz­eram parte do “cresci­mento”, fizeram-​nos mais fortes, mais resilientes … a aceitar os desafios da vida sem medo ou temor.

Cer­ta­mente que nen­hum que­ria pas­sar por tais sofri­men­tos, mas deles não tive­mos como fugir, foi a imposição da vida.

São cinquenta anos de lem­branças, são cinquenta anos de saudade.

Abdon C. Mar­inho é advogado.