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Democ­ra­cia e arbítrio.

Escrito por Abdon Mar­inho

DEMOC­RA­CIA E ARBÍTRIO.

Por Abdon C. Marinho..

ALGUNS DIAS o pres­i­dente da República, sen­hor Luiz Iná­cio Lula da Silva, em entre­vista à uma emis­sora de rádio, inda­gado sobre a situ­ação política da Venezuela, cun­hou que democ­ra­cia seria um con­ceito rel­a­tivo, argu­men­tando que tal con­ceito pode­ria sofrer vari­ações, jus­ti­f­i­cando que a “democ­ra­cia venezue­lana” estaria assen­tada no fato de ter eleições per­iódi­cas – algo mais ou menos assim.

Com razão – e com os opor­tunis­mos de sem­pre –, houve uma “grita” geral, todos ten­tando tirar uma “casquinha’’ ou se aprovei­tando da “espinafrar” mais uma, entre tan­tas, tolices ditas pela excelên­cia.

Muito emb­ora em seu con­ceito primário, democ­ra­cia seja a forma de gov­erno car­ac­ter­i­zada pela sobera­nia pop­u­lar, sabe­mos que o sim­ples fato de haverem eleições “de vez em quando”, não torna essa ou aquela nação uma democ­ra­cia.

Um exem­plo, já citado tan­tas out­ras vezes, é o que se dava no Iraque nos anos em que foi gov­er­nado por Sad­dam Hus­sein, lem­bro que tratá­va­mos como fol­clore o resul­tado das eleições ocor­rida naquele país em que o gov­er­nante sagrava-​se vito­rioso com quase 100% (cem por cento) dos votos.

Situ­ação idên­tica aos “pleitos” ainda hoje ocor­ri­dos na Cor­eia do Norte – alguém duvida que uma eleição nesse país não ocorra com cem por cento dos sufrá­gios em favor do atual líder? Podemos dizer, porque houve uma “eleição” que tal país é uma democracia?

A chancela eleitoral de um povo escrav­izado de todas as for­mas por um gov­erno autoritário e autocrático está muito longe de garan­tir a existên­cia de uma democ­ra­cia.

E são diver­sos os exem­p­los de nações coman­dadas por regimes autoritários e autocráti­cos onde usam instru­men­tos democráti­cos per­ver­tidos para se diz­erem democ­ra­cias.

Em muitos casos a democ­ra­cia “vai se per­dendo” ao longo do cam­inho.

Às vezes se faz uma alternân­cia de poder – instru­mento próprio da democ­ra­cia –, e esse “novo” gov­erno eleito pelo povo em eleições livres passa a instru­men­talizar seu grupo político e mesmo o Estado para se man­terem indefinida­mente no poder, “matando” a democ­ra­cia.

Essa diva­gação é ape­nas para dizer que alguém “encher” a boca para falar de democ­ra­cia ao argu­mento de eleições reg­u­lares é ape­nas uma tolice.

O pre­sente texto, entre­tanto, não é para tratar – ou para faz­er­mos um “tratado” –, sobre democ­ra­cia, mas para dizer que emb­ora não sejam tênues os lim­ites entre democ­ra­cia e arbítrio muitas vezes “foca­dos” nos próprios inter­esses gov­er­nantes e lid­er­anças dos vários segui­men­tos da sociedade acabam por “mis­tu­rar” alhos com bugal­hos.

A minha per­cepção é que o Brasil, nos últi­mos anos “cam­in­hou” para a imple­men­tação de um régime autoritário, talvez tendo como mod­elo o régime hún­garo, turco ou russo ou mesmo uma ver­tente do que se encon­tra em curso em Israel ou na Polônia.

Desde 2019 que escrevo sobre isso.

Não tenho qual­quer dúvida, tam­bém, que os gov­er­nantes com seus apoiadores, muitos deles, inclu­sive, das Forças Armadas e das polí­cias mil­itares bus­caram via­bi­lizar um golpe de estado que os man­tivessem no poder quando der­ro­ta­dos nas urnas em segundo turno.

Assim como não tenho dúvi­das de que em 8 de janeiro tive­mos uma ten­ta­tiva de golpe insti­tu­cional, incen­ti­vada, patroci­nada e apoiada senão pelo próprio ex-​presidente, mas por pes­soas muito próx­i­mas a ele.

A ten­ta­tiva de golpe insti­tu­cional – que mais assemelhou-​se a uma cam­panha do exército de Bran­ca­le­one, com tiaz­in­has do What­sApp fan­tasi­adas de verde amarelo, muitos out­ros ali­ci­a­dos entre os desem­pre­ga­dos “vesti­dos” de patri­o­tas vin­dos dos qua­tro can­tos do país –, fra­cas­sada, como não pode­ria deixar de sê-​la, fun­ciona como um divi­sor de águas com a democ­ra­cia for­mal se impondo à bisonha inten­tona.

Acred­ito e sus­tento que todos os respon­sáveis pelo ato (desde os inspi­radores, finan­ciadores e execu­tores), como já vem sendo pre­cisam, com o dev­ido processo legal, sofr­erem a repri­menda da lei, até como forma de pre­venir futuras “recaí­das”.

Pois bem, dito isso, é impor­tante prin­ci­pal­mente para as autori­dades dos con­sti­tuí­dos que não se afastem dos lim­ites da lei.

É dizer, à guisa de se diz­erem “defen­sores da democ­ra­cia” não podem, eles próprios e por moti­vações pes­soais come­terem arbi­trariedades.

Como vimos nas lin­has ante­ri­ores é muito fácil aos dete­tores do poder diz­erem que estão “defend­endo a democ­ra­cia”, “defend­endo a Con­sti­tu­ição” ou que estão “jogando den­tro das qua­tro lin­has”.

São dis­cur­sos fáceis mas que estão dis­tantes das práti­cas do dia a dia.

Não passa de abuso que uma querela pes­soal ou uma dis­cussão mesmo que moti­vações políti­cas ou com agressão jus­ti­fique a mobi­liza­ção da Polí­cia Fed­eral para se fazer busca e apreen­são, con­fis­car celu­lares, com­puta­dores ou coisas do gênero.

Os “defen­sores da democ­ra­cia” que se pode até recon­hecer terem cumprido o seu papel, não podem sob a jus­ti­fica­tiva eterna de estarem defend­endo a democ­ra­cia, come­terem arbi­trariedades, repete-​se.

A história está rec­heada de exem­p­los de tais práti­cas: os deten­tores do poder “elegem” os inimi­gos do “estado”, muitas das vezes dizem que são “inimi­gos do povo” e pas­sam a dar vazão a toda sorte de perseguição e de sadismo.

Quan­tas inocentes não viraram cin­zas nas fogueiras sob o argu­mento de que seriam “bruxas”? Daí advém o termo “caça às bruxas”. Quan­tos crimes não foram imputa­dos aos judeus ao redor do mundo para que os nazis­tas imple­men­tassem a sua “solução final”, a diz­imação pura e sim­ples de mil­hões de seres humanos pelo “crime” de serem judeus? Assim como fiz­eram com os homos­sex­u­ais, os povos ciganos e tan­tos out­ros. Diz­ima­dos, tor­tu­ra­dos, mor­tos, lev­a­dos à lou­cura por serem quem eram.

Ainda hoje é assim em diver­sos países do mundo – aliás, de tem­pos em tem­pos ressurgem esbir­ros autoritários querendo impor seus ideários aos demais –, Venezuela, Cuba, Nicarágua, Rús­sia só para citar alguns que se auto­de­nom­i­nam “democ­ra­cias”, ado­tam mod­e­los de “paz de cemitérios” ou seja, elim­i­nam a pos­si­bil­i­dade dos adver­sários, alça­dos à condição de “inimi­gos do povo” de chegarem ao poder.

Em todos os tempo e em todos os lugares a ten­tação autoritária ronda os “donos do poder” fazendo-​os acharem que ape­nas eles (quando muito seu grupo) são capazes de con­duzirem os des­ti­nos da nações.

É dessa “ten­tação” autoritária que o Brasil pre­cisa “fugir”, não acei­tando que falso dis­curso de “defesa da democ­ra­cia” seja o veneno que vai matá-​la.

Dizia Lorde Acton que «o poder tende a cor­romper, e o poder abso­luto cor­rompe abso­lu­ta­mente, de modo que os grandes homens são quase sem­pre homens maus”.

Em tal pen­sa­mento dizia que o processo histórico desenvolve-​se ori­en­tado pela liber­dade humana ou livre-​arbítrio, no sen­tido de uma liber­dade cada vez maior.

O grande prob­lema do Brasil da atu­al­i­dade é que mesmo os ver­dadeiros democ­ratas não perce­beram – ou não quis­eram perce­ber –, que o seu silên­cio aos des­man­dos, ven­ham eles de quais­quer dos poderes da República ou dos seus inte­grantes, é o colchão mole onde repousam os ideários autoritários e, assim, como a história já está cansada de mostrar, só perce­beram quando forem eles próprios as víti­mas dos dita­dores de plan­tão.

A democ­ra­cia, difer­ente do muitos podem achar, não é um valor rel­a­tivo. Acred­i­tar ou defender isso é fler­tar com o arbítrio.

Abdon C. Mar­inho é advogado.

Prefeitos, Vereadores e cau­sos deliciosos.

Escrito por Abdon Mar­inho


PREFEITOS, VEREADORES E CAU­SOS DELICIOSOS.

Por Abdon C. Marinho*.

QUEM tra­balha ou tem vivên­cias pelo inte­rior e se inter­essa pelos cau­sos de nosso povo já deve ter tomado con­hec­i­mento de muitas histórias inter­es­santes, sobre­tudo, aque­las envol­vendo as autori­dades locais.

Prefeitos e vereadores, então, sem­pre dão motivos – e gostam disso –, para viverem “na boca do povo”.

Na última viagem para a baix­ada com o amigo e con­ta­dor Max Harley Pas­sos Fre­itas reviver­mos alguns cau­sos envol­vendo situ­ações pres­en­ci­adas por nós e out­ras que ape­nas ficamos sabendo por ter­ceiros.

Essas lem­branças me fiz­eram “puxar pela memória” out­ros cau­sos e moti­varam a escr­ever a nossa já tradi­cional crônica de domingo.

Como se diz lá no sertão que o “nome é que faz o fux­ico”, con­tare­mos os “mila­gres” sem dar nomes aos “san­tos” – sei que é chato isso, mas espero que a leitura seja diver­tida.

Um asses­sor entra no gabi­nete do prefeito, sem bater e sem pedir licença – bem no estilo daque­les asses­sores que acham que o prefeito lhe deve, eter­na­mente a vitória nas urnas –, dizendo:

— Prefeito, prefeito, D. Fulana de tal “caiu de uma árvore” (um aci­dente grave qual­quer, que não recordo), está toda que­brada e pre­cisamos levá-​la com urgên­cia para São Luís.

O prefeito, naquele momento rece­bia uma equipe de um órgão de con­t­role que iria fazer uma audi­to­ria nas con­tas do municí­pio – estava na “moda” as tais audi­to­rias e tudo que um prefeito temia era ser “aza­teado” para uma delas –, vira-​se, e responde:

— Não posso fazer nada, esta­mos sem qual­quer din­heiro nas contas.

Um quarto de hora depois um outro asses­sor aden­tra na sala:

— Prefeito é urgente, pre­cisamos deslo­car a D. Fulana!

O prefeito retruca:

— Já disse que não tem din­heiro nas contas.

Não demora muito, o primeiro asses­sor retorna:

— Siô, é sério, a mul­her vai mor­rer se não for “acudida”.

— Querem que faça o quê? Já disse que não temos din­heiro. Responde o prefeito.

Os audi­tores que tudo assis­tiam, já pre­ocu­pa­dos com a morte emi­nente da cidadã, argumentam:

— Seu prefeito, não tem mesmo din­heiro algum para socor­rer a senhora?

O prefeito responde:

— A única conta que temos recur­sos é a conta do FUNDEF.

Um audi­tor olha para o outro e dizem, em uníssono:

— Seu prefeito, use o din­heiro do FUN­DEF e salve a mul­her.

E assim foi feito, com o aval dos fis­cal­izadores.

Certa vez fui chamado por um prefeito para acom­pan­har umas trata­ti­vas para eleição da mesa dire­tora da câmara.

Não tinha nada a fazer em tal artic­u­lação, mas como manda quem pode e obe­dece quem tem juízo, lá segui eu com meu “fiel escud­eiro”, Afrânio, para o dito povoado dis­tante alguns quilômet­ros da sede do municí­pio. Fiquei no alpen­dre com Afrânio enquanto o prefeito estava alo­jado em um quarto da casa recebendo um e outro vereador para as “trata­ti­vas” e fechar a chapa para mesa – esse é um hábito do inte­rior do Maran­hão, os assun­tos mais sérios e sig­ilosos são trata­dos nos quar­tos de dormir.

Entra vereador e sai vereador do quarto e nada de fecharem a chapa.

Já era a quarta ou quinta vez que o prefeito chamava uma vereadora para os “ajustes” no quarto, sem que chegassem a um entendimento.

No alpen­dre, eu e Afrânio só a ouvíamos “resmungar”:

— Se ele me chamar nova­mente, não irei.

Quase meia hora recla­mando que não iria, que o aten­de­ria, quando escu­ta­mos a voz do prefeito:

— Fulana, corre aqui!

E ela sem nem pedir licença, cor­reu para o quarto para ter com o prefeito.

Seu Afrânio olhou para mim e disse:

— Oxe, agora mesmo ela não disse que não iria?

Virei-​me e disse:

— Ah, seu Afrânio, esses são os “mis­térios” da política.

O certo é que o prefeito con­seguiu “fazer” a mesa da câmara. Mas pouco tempo depois os vereadores, não se sabe por qual motivo, se rebe­laram con­tra ele e já estavam falando e cas­sação de mandato – me procurou.

— Doutor, os vereadores estão querendo me cas­sar. Disse-​me.

— É mesmo, prefeito. Deve­mos nos nos pre­ocu­par com isso.

Respondeu-​me:

— Não pre­cisamos nos pre­ocu­par, pois além de terem razão, a vice-​prefeita é de minha total con­fi­ança.

Disse isso, batendo no peito do lado do coração:

— A comadre Fulana é daqui, ô.

Dias depois desco­b­ri­mos que a artic­u­lação para cassá-​lo par­tira da pro­po­ria vice.

A situ­ação virou um bor­dão do escritório. Quando quer­e­mos nos referir a alguma situ­ação de “trairagem”, dize­mos: — a comadre Fulano é daqui, ô!

Voltando a falar no hábito das pes­soas do inte­rior faz­erem seus negó­cios mais sérios nos quar­tos de dormir, certa fez fui chamado para fazer a defesa, em processo eleitoral de uma prefeita recém-​eleita, acu­sada pelos adver­sários de com­pra de votos.

Fui con­ver­sar com ela:

— Mas a sen­hora deu alguma coisa, algum din­heiro, para alguém?

Ao que ela me respon­deu com a sin­ceri­dade que se espera de todo cliente:

— Doutor, só faze­mos política com din­heiro, aqui todo mundo pede tudo. Mas lhe garanto que nen­huma teste­munha que colo­quem no processo vão provar que dei qual­quer coisa, pois o que dei a algum eleitor foi den­tro do quarto e sem ninguém para ver.

Gan­hamos o processo.

No ter­ceiro ou quarto mandato den­tro da mesma família, a acusação mais comum lançada con­tra o chefe político local era que ele havia con­sti­tuído uma “oligarquia”.

Os adver­sários só dizia isso: era oli­gar­quia pra lá, era oli­gar­quia pra cá.

Certo dia um ali­ado político desse prefeito chegou pra ele e disse:

—Pois é, seu Fulano, esses adver­sários só ficam falando de oli­gar­quia pra cá e pra lá, mas a “nossa” oli­gar­quia é tão boa.

Deter­mi­nado prefeito acos­sando um empresário saiu-​se com essa:

— Muito bem meu amigo, fize­mos aqui esse negó­cio, falta só a parte do vereador?

O empresário virou-​se para ele e indagou:

–– Como assim, prefeito, do vereador?!

Ao que ele respon­deu, apon­tando para si:

–– sim, do vereador. Prefeito não pede din­heiro, quem pede é vereador.

Certa vez o prefeito ia tran­si­tando com um grupo de vereadores no próprio carro, quando um dos edis, saiu-​se com essa:

–– sabe prefeito, acho que o sen­hor dev­e­ria des­ti­nar uma verba para recu­per­ação dessa via, ela está muito ruim.

O prefeito retru­cou:

–– É ver­dade, vereador fulano, mas se inve­stir o recurso na estrada não terei como ajudá-​los na eleição que se aproxima.

O autor da pro­posta então respondeu:

–– Pen­sando bem prefeito, o sen­hor tem razão, a estrada assim, com esses bura­cos, ajuda a evi­tar aci­dentes.

O certo é que a estrada nunca foi feita – até hoje. Acho que aju­dar a reduzir as estatís­ti­cas de aci­dentes de trân­sito.

Um der­radeiro causo envol­vendo o mesmo público é de um prefeito que disse, certa vez:

–– Uma das min­has primeiras medi­das será dar um iPad para cada vereador.

O inter­locu­tor, sem enten­der, per­gun­tou:

–– Mas, por qual razão, prefeito?

O prefeito, não perdeu a viagem:

–– Ah, meu amigo, aí pede.

E caíram na gargalhada.

Assim cam­inha a humanidade. Qual­quer coin­cidên­cia com fatos viven­ci­a­dos por alguns dos leitores é “mera semelhança”.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

O censo e os novos desafios para os municí­pios brasileiros.

Escrito por Abdon Mar­inho


O censo e os novos desafios para os municí­pios brasileiros.

Por Abdon C. Marinho.

O RESUL­TADO do censo 2022 – atrasado em relação ao ano em que dev­e­ria ter sido feito (2020) e tam­bém ao ano que dev­e­ria ter sido divul­gado (2022) – ainda ren­derá muitos debates políti­cos e econômi­cos e trará alguns desafios adi­cionais as já exis­tentes e com­bal­i­das finanças munic­i­pais.

Não é seg­redo a ninguém que, inclu­sive, com base nas pro­jeções do próprio IBGE, todos nós esperá­va­mos uma pop­u­lação global na casa dos 215 mil­hões de brasileiros – eu mesmo, em diver­sas opor­tu­nidades, apre­sen­tações, etc. –, cheguei a cravar: “— o Brasil, com uma pop­u­lação de 215 mil­hões de cidadãos …”. Os gestores munic­i­pais e estad­u­ais seguiam na mesma linha, diver­sas vezes per­gun­tei a esse ou aquele prefeito: — prefeito, qual é mesmo a pop­u­lação do seu municí­pio? Obtendo, invari­avel­mente, como resposta: — ah, doutor, segundo o IBGE é tanto, mas acho que com o censo vai pas­sar de tanto. Jogando um número bem supe­rior, quase sem­pre sufi­cientes para alter­ação no índice da faixa do Fundo de Par­tic­i­pação dos Municí­pios — FPM.

Com a prox­im­i­dade da con­tagem pop­u­la­cional, onde já havia “con­fli­tos” sobre lim­ites, os mes­mos se acir­raram com cada um dos gestores pleit­e­ando a inclusão daque­las pop­u­lações para o seu municí­pio.

O certo é que o censo veio e já nas primeiras par­ci­ais mostravam que a real­i­dade era bem difer­ente das pro­jeções e tam­bém dos son­hos e dos dese­jos de muitos gestores. Vi muitos recla­mando que o censo estava errado, que os recenseadores não estavam tra­bal­hando dire­ito, que estavam perseguindo esse ou aquele municí­pio, que esque­ce­ram de ir na casa de dona Mari­az­inha numa vila escon­dida na flo­resta ou per­dida em uma ilhota qual­quer, que o seu Pedro não estava em casa e que, por isso mesmo, não infor­mou dos 25 fil­hos que tem com três esposas difer­entes, e por aí vai.

Com a divul­gação do resul­tado final, os mais irres­ig­na­dos bus­caram ajuda de par­la­mentares para falarem mal do censo ou foram dire­ta­mente recla­mar ao juiz – na falta de um bispo que não tem nada a ver com a questão.

Com uma ou outra falha aqui e ali ou com um ou outro cidadão que não foi encon­trado ou não quis respon­der ao censo – ouvi de mais de um a infor­mação que não foi entre­vis­tado –, não creio que ter­e­mos alter­ações nos números já divul­ga­dos e, caso isso venha a acon­te­cer, pois nunca se sabe o que se passa na cabeça de juiz, que seja sufi­ciente para alterar as real­i­dades já espel­hadas nos números.

Um antigo pro­fes­sor de matemática, se não me falha a memória do Liceu Maran­hense, cos­tu­mava dizer: — são números, Abdon, e os números não mentem jamais.

Logo, quem chorou, chorou, quem não chorou não chora mais. Temos é que tra­bal­har com os números disponíveis.

Exceto por um grupo pequeno de municí­pios, a grande maio­ria perdeu pop­u­lação, muitos com reflexos nos indi­cadores de FPM. Os que ficaram como estavam ou não sofr­eram per­das sig­ni­fica­ti­vas devem dar-​se por sat­is­feitos e tra­bal­harem com o que tem.

O censo é uma coisa fan­tás­tica, ele mostra a real­i­dade como ela é, con­tando cada situ­ação de forma indi­vid­ual, na sua par­tic­u­lar­i­dade, no seu detalhe. Cabendo aos estu­diosos e aos inter­es­sa­dos faz­erem suas pro­jeções e inter­pre­tações.

Por isso disse, no iní­cio, que muito ainda escrever­e­mos sobre os dados expos­tos pelo censo de 2022.

Além dos impactos econômi­cos que os números do censo trazem, há reflexos e infor­mações sobre todos os out­ros aspec­tos da vida social dos municí­pios, na saúde, na edu­cação, na assistên­cia social – enganam-​se os que pen­sam que os impactos são ape­nas no número de habi­tantes deste ou daquele municí­pio.

Como sem­pre fui muito lig­ado às questões lig­adas a edu­cação, ainda na sem­ana em que foi divul­gado os números do censo 2022, lan­cei uma nota téc­nica com ori­en­tações para os municí­pios sobre o que fazer para mel­ho­rarem suas receitas para custeio e manutenção da edu­cação básica.

Ao longo dos anos me acos­tumei ao ouvir por onde pas­sava que as sec­re­tarias de edu­cação – e muitas vezes toda a admin­is­tração –, estavam envolvi­dos em cam­pan­has de busca ativa.

Dizia e provava, que muito emb­ora as cam­pan­has de “busca ati­vas” devessem ser estim­u­ladas, com um decréscimo de cerca de 12 mil­hões de brasileiros em relação as pro­jeções feitas, elas, em algum momento seriam mod­e­los fada­dos à exaustão e que o finan­cia­mento da edu­cação, com con­se­quente aumento das receitas, devem se voltar para out­ras estraté­gias: como as ativi­dades com­ple­mentares e/​ou o ensino integral.

Tais estraté­gias devem vir “casadas” com mel­ho­rias nas condições de apren­diza­gem das nos­sas cri­anças, uma vez, que tal mel­ho­ria sig­nifica incre­mento nas receitas con­forme esta­b­elece o artigo 212-​A, da Con­sti­tu­ição Fed­eral.

É dizer, com out­ras palavras, como o número de pes­soas em idade esco­lar, no caso dos municí­pios, no ensino fun­da­men­tal, já é, basi­ca­mente, o mesmo há anos (com tendên­cia de redução) e as despe­sas do setor são sem­pre cres­centes (todo ano aumenta tudo, inclu­sive a folha de paga­mento) o valor per capita aluno/​ano não crescerão na mesma pro­porção o que exi­girá um incre­mento das receitas.

É em tal con­texto que uti­lizar ativi­dades com­ple­mentares e/​ou ensino inte­gral se apre­senta como a mel­hor solução pois, a um só tempo – se apli­cadas de forma cor­reta –, aumen­tará o tempo da cri­ança na escola e por con­se­quên­cia a sua chance de apren­dizado, ten­tando cor­ri­gir as décadas de atraso em relação aos demais países, como tam­bém, aumenta a receita dos municí­pios, possibilitando-​os mel­ho­rar a infraestru­tura de esco­las públi­cas e out­ros equipa­men­tos e a man­terem uma remu­ner­ação digna aos profis­sion­ais do setor.
Cumpre acres­cen­tar que já para o pre­sente exer­cí­cio o gov­erno fed­eral vai disponi­bi­lizar cerca de 4 bil­hões de reais para esses municí­pios. Um bom recurso que todos inter­es­sa­dos dev­e­riam buscar.

Durante anos tive­mos notí­cias de gestores munic­i­pais que uti­lizavam de artifí­cios diver­sos para mel­ho­rarem suas receitas. Emb­ora, não se possa dizer que tal prática tenha ces­sado, ela se torna a cada dia mais difí­cil e arriscada.

Os dados do censo “con­tou” quan­tas cri­anças exis­tem em cada municí­pio – não tem como “inflar” tal número –, já há alguns anos tornou-​se obri­gatório que todo nasci­mento com vida a cri­ança já deixe o hos­pi­tal com um número de CPF.

Com isso, a Con­tro­lado­ria Geral da União — CGU; o Tri­bunal de Con­tas da União — TCU (e seus con­gêneres nos esta­dos) e o próprio Min­istério da Edu­cação — MEC, ape­nas terão o tra­balho de fazer o cruza­mento de tais números – se já não estão fazendo –, para detec­tar quais­quer incon­sistên­cias. O mesmo podendo ocor­rer – se já na ocorre – com a inserção de quais­quer out­ros dados fal­sos nos sis­temas, como vimos recen­te­mente nos escân­da­los rela­ciona­dos à saúde.

Por tudo isso é muito impor­tante os entes públi­cos pro­curem fazer o certo da forma certa, livrando os gestores de pas­sarem o resto de suas vidas respon­dendo pelo que fiz­eram – e até pelo que não fiz­eram.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

P. S. Em out­ros tex­tos con­tin­uare­mos a “dis­se­car” os números e os impactos do censo 2022 na vida dos brasileiros e dos seus entes.

Segue abaixo a Nota Téc­nica sobre a edu­cação a que nos refe­r­i­mos no texto.

EDU­CAÇÃONOTA TÉCNICA.

Com a divul­gação do Censo 2022 – com dois anos de atraso, registre-​se –, um novo desafio se coloca para a edu­cação brasileira: mel­ho­rar as receitas do setor com um número de alunos que se man­tém estag­nado e com despe­sas sem­pre cres­centes (salários, insumos, infraestrutura).

Nos últi­mos anos temos assis­ti­dos as ini­cia­ti­vas ou pro­moções das chamadas “bus­cas ati­vas”. São estraté­gias vál­i­das mas que estão longe de faz­erem face às neces­si­dades do setor, até porque com um decréscimo pop­u­la­cional de mais de 12 mil­hões de pes­soas em relação as pro­jeções até então feitas, inclu­sive pelo próprio IBGE, trata-​se de mod­elo fadado ao esgotamento.

Out­ras alter­na­ti­vas nos pare­cem mais van­ta­josas, seja como forma de aumen­tar a receita, seja por cumprirem o papel que se espera da edu­cação: for­mar pes­soas e moldar sociedades.

O gan­hador do prêmio Nobel de Econo­mia do ano 2000, James Heck­man (Chicago, Illi­nois, EUA, 1944 -), já dizia: “a tarefa de prover con­hec­i­mento às cri­anças deve começar tão cedo quanto pos­sível, de modo que se ergam alicerce sóli­dos para for­mar adul­tos pro­du­tivos e ino­vadores – duas qual­i­dades tão caras a uma econo­mia mod­erna”.

Na mesma linha, Cristo­vam Buar­que (1944 — ), engen­heiro, econ­o­mista, edu­cador, pro­fes­sor uni­ver­sitário, ex-​ministro da edu­cação, ex-​governador do Dis­trito Fed­eral, fun­dador da Uni­ver­si­dade de Brasilia e um dos maiores estu­diosos da edu­cação brasileira da atu­al­i­dade, em artigo pub­li­cado na Revista Veja, edição 2849, que cir­cu­lou em 12 de julho de 2023, pon­tif­i­cou que uma das for­mas de para sair­mos do atraso edu­ca­cional é ofer­e­cer condições de igual­dade a todas as cri­anças em idade esco­lar, assen­tando, ainda que as cri­anças brasileiras pre­cisam ser alfa­bet­i­zadas em pelo menos um idioma estrangeiro.

Assim é que defend­emos como estraté­gias para mel­ho­rar­mos as receitas dos municí­pios e a mel­ho­rias nas condições edu­ca­cionais as ativi­dades com­ple­mentares, sejam através de con­traturno esco­lar, seja através da edu­cação integral.

Senão vejamos:

Se o municí­pio coloca 5.000 em con­traturno, con­siderando o valor médio por aluno rece­berá no ano seguinte R$ 1.800,00 (um mil e oito­cen­tos reais) por aluno a mais, ou seja, R$ 9 mil­hões pelos 5 mil alunos.

CON­TRATURNO ESCOLAR

Nº Alunos

Valor p/​aluno R$

Total R$

Mín­imo (30%) R$

Novo valor p/​aluno R$

Novo Total R$

5000

6.000,00

30.000.000,00

1.800,00

7.800,00

39.000.000,00

O con­traturno, entre­tanto, deve ser ado­tado como pre­cur­sor do ensino inte­gral modal­i­dade em que o municí­pio passa a rece­ber o dobro do valor per capita aluno, ou seja, se é 6 mil por aluno passa a rece­ber 12 mil/​aluno.

ENSINO INTE­GRAL

Nº Alunos

Valor p/​aluno R$

Total R$

Ens. Inte­gral (100%) R$

Novo valor por aluno R$

Novo Total R$

5000

6.000,00

30.000.000,00

6.000,00

12.000,00

60.000.000,00

Outra situ­ação que não podemos perder de vista é alter­ação ocor­rida na Con­sti­tu­ição Fed­eral que teve acrescido o artigo 212-​A esta­b­ele­cendo que os entes que mel­ho­raram seus indi­cadores edu­ca­cionais farão jus a entrar no rateio de um de deter­mi­nado recurso do FUN­DEB, vejamos: “c) 2,5 (dois inteiros e cinco déci­mos) pon­tos per­centu­ais nas redes públi­cas que, cumpri­das condi­cional­i­dades de mel­ho­ria de gestão pre­vis­tas em lei, alcançarem evolução de indi­cadores a serem definidos, de atendi­mento e mel­ho­ria da apren­diza­gem com redução das desigual­dades, nos ter­mos do sis­tema nacional de avali­ação da edu­cação básica; (Incluída pela Emenda Con­sti­tu­cional nº 108, de 2020)”.

Ora, se a cri­ança passa mais tempo na escola, se a cri­ança é edu­cada no for­mato bilíngue é desnecessário dizer que ela terá um mel­hor aproveita­mento na sua for­mação em todos os sen­ti­dos, inclu­sive, em relação a grade cur­ric­u­lar tradicional.

Isso, sem con­tar que para a Prova SAEB de 2025 já está pre­vista a afer­ição do apren­dizado de lín­gua estrangeira que valerá 17% (dezes­sete por cento) da nota da referida prova. Cabe reg­is­trar que tal dis­ci­plina já estava pre­vista para entrar na avali­ação deste ano (2023) e foi reti­rada de última – per­sistindo ape­nas uma avali­ação “por amostragem”.

Mais ainda, como forma de incen­ti­var a edu­cação inte­gral o Con­gresso Nacional aprovou e já encam­in­hou a sanção do pres­i­dente o PL 2.617÷2023 com um incre­mento nas receitas da edu­cação na ordem de 4 bil­hões de reais visando a aber­tura de vagas de ensino inte­gral – con­siderando como tal, sete horas do estu­dante em sala de aula.

Tais recur­sos já estão pre­vis­tos para serem repas­sa­dos para os Munici­p­ios ainda este ano, sendo urgente que os municí­pios criem suas estraté­gias de contraturno/​ensino inte­gral para infor­marem no censo esco­lar em anda­mento para rece­berem tais recur­sos ainda este ano de 2023.

A con­strução de uma edu­cação forte e que atenda às neces­si­dades do país é tarefa de todos.

Abdon Clementino de Mar­inho é advo­gado munic­i­pal­ista e estu­dioso dos prob­le­mas edu­ca­cionais brasileiros.