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O desafio da democ­ra­cia em tem­pos de polarização.

Escrito por Abdon Mar­inho


O DESAFIO DA DEMOC­RA­CIA EM TEM­POS DE POLAR­IZA­ÇÃO.

Por Abdon C. Mar­inho.

QUANDO menino aprendi uma lição nas aulas de edu­cação moral e cívica que trago comigo até hoje: “o meu dire­ito acaba quando começa o dire­ito do meu viz­inho”.

Acho que as demais ger­ações que vieram antes da minha e até aque­las que ime­di­ata­mente a suced­eram apren­deram isso na infân­cia.

Era essa a primeira noção de “democ­ra­cia” que tín­hamos. Ou seja, éramos sujeitos de dire­itos mas que esses dire­itos tin­ham lim­ites. Eles pre­cisavam respeitar os dire­itos dos demais.

Nessa mesma linha, tam­bém aprendi nos primeiros anos do ensino médio, nas aulas de OSPB, com a pro­fes­sora Maria da Luz, do Liceu Maran­hense: “cada dire­ito cor­re­sponde a um dever”.

Já na juven­tude aprendi uma outra frase de máx­ima importân­cia: “fora da lei não há sal­vação”. Essa última de auto­ria do nosso Rui Bar­bosa.

Vemos em cada uma das frases (ou lições) que a vida em comu­nidade exige o respeito aos dire­itos dos demais, que aos nos­sos dire­itos exis­tem deveres cor­re­spon­dentes e, que, final­mente, pre­cisamos, sujeitos ativos e pas­sivos de dire­itos e deveres nos sub­me­ter­mos aos dita­mes da lei.

Como podemos perce­ber são con­ceitos bási­cos que, sequer, pre­cis­aríamos de esco­las para apren­der­mos e, prin­ci­pal­mente, respeitar.

Mas, porém, entre­tanto, como dizia um outro, nos dias atu­ais parece que vive­mos em um mundo para­lelo onde con­ceitos ele­mentares pare­cem não fazer qual­quer sen­tido ou porque as pes­soas fin­gem não saber ou porque não querem saber por suas próprias con­veniên­cias de ordem polit­ica ou ide­ológ­ica.

Outro dia o “mundo quase veio abaixo” por causa de uma decisão da justiça eleitoral que sus­pendeu as redes soci­ais de um deter­mi­nado can­didato.

De norte a sul do país o que se falava era que o can­didato fora injustiçado, cen­surado, teria tido suas livres man­i­fes­tações de pen­sa­mento tol­hi­das, etceteras e tal.

Um dos ramos do dire­ito que mais apre­cio é o dire­ito eleitoral. Já nos primeiros anos de fac­ul­dade estava às voltas com mesmo – e até antes, par­tic­i­pando dos proces­sos eleitorais.

Uma das suas prin­ci­pais car­ac­terís­ti­cas é todas as con­du­tas a serem tomadas pelos can­didatos e pelos demais agentes estão mili­met­ri­ca­mente definidas. As leis que regem as eleições e os par­tidos políti­cos são exces­si­va­mente detal­his­tas e as res­oluções edi­tadas pelo TSE com­ple­men­tam o serviço, mas, claro, a cria­tivi­dade dos políti­cos brasileiros é muito maior.

Outra car­ac­terís­tica fasci­nante é que no dire­ito eleitoral temos um cal­endário que se ini­cia, com regras para os vários agentes ainda no ano ante­rior e segue pelo ano da eleição esta­b­ele­cendo o papel e o tempo de cada um até o encer­ra­mento do processo.

Isso tudo tem uma razão de ser: obje­tiva dar aos can­didatos e can­di­datas e aos par­tidos as mes­mas condições na dis­puta eleitoral.

Ele­men­tar que todos os can­didatos saibam disso. E sabem. Acon­tece que muitos acham que vale a pena burlar o sis­tema, aproveitar-​se do pode­rio econômico e/​ou político para tirar proveito eleitoral.

Mas, muito pior que isso é muitos, muitos mesmo acha que isso é o certo a ser feito.

Ora, se o can­didato bur­lou as regras para todos esta­b­ele­ci­das ele deve sofrer as con­se­quên­cias dos seus atos.

Ah, se ele inflou as redes soci­ais para influ­en­ciar os eleitores de forma inde­v­ida, deve se fazer vista grossa a esse com­por­ta­mento? Não creio que seja o cor­reto.

A punição já se encon­tra definida na lei.

E se daquela con­duta abu­siva decor­rer out­ras van­ta­gens, tam­bém deve respon­der por elas.

É aquela lição da pro­fes­sora Mar­garida lá do ensino primário: o seu dire­ito só vai até o dire­ito dos demais viz­in­hos. No caso, dos demais candidatos.

Um outro fato sin­gelo mas que tam­bém gan­hou ares de escân­dalo plan­etário foi a decisão da Justiça brasileira de deter­mi­nar a sus­pen­são de uma rede social enquanto essa não des­ig­nar uma rep­re­sen­tação no país.

O “mundo inteiro” e tam­bém as galáx­ias viz­in­has só falam disso. Um amigo até me per­gun­tou se escreve­ria sobre isso.

Pois bem, na linha do ensi­nou a pro­fes­sora Maria da Luz nos primeiros anos do ensino médio, cada dire­ito cor­re­sponde a um dever.

Inde­pen­dente de quais­quer cir­cun­stân­cias adi­cionais, uma nação livre e sober­ana per­mite que você se instale no seu país onde você aufere mil­hões ou bil­hões em lucros anu­ais o mín­imo que você deve fazer é prestar con­tas de seus atos. Um dire­ito, um dever.

No caso em tela a empresa insta­l­ada no país recusou-​se reit­er­ada­mente a cumprir as decisões da justiça e mul­tada por isso decidiu não mais ter rep­re­sen­tação no país.

Vejamos, em relação ao mérito das decisões judi­ci­ais exis­tem as searas próprias para ques­tionar e tendo pode­rio todo que tem uma grande empresa, inclu­sive, dis­cu­tir ou expor ao jul­ga­mento público a justeza ou não das mes­mas.

Noutro giro, é a própria leg­is­lação brasileira que impõe a neces­si­dade da empresa pos­suir sede/​representação no país.

O que restaria à justiça brasileira fazer senão exi­gir o cumpri­mento da leg­is­lação e no seu des­cumpri­mento aplicar as sanções legais?

Essa é a questão prin­ci­pal a não admi­tir qual­quer outra pos­si­bil­i­dade. Temos uma leg­is­lação que exige que qual­quer empresa o opere no Brasil tenha uma sede/​representação no ter­ritório nacional.

Uma dessas empre­sas se recusa a cumprir a lei e é para ficar por isso mesmo? O cidadão se acha acima da lei que serve para todos os demais?

Ah, mais muitas pes­soas estão sendo prej­u­di­cadas com a sus­pen­são da rede social, pes­soas estão per­dendo din­heiro, sus­tento, etc.

Essas são razões vál­i­das para colo­car­mos uma grande empresa, que lucra bil­hões anual­mente no país, acima das nos­sas leis?

Acho que qual­quer pes­soa física ou jurídica tem todo o dire­ito de ques­tionar uma ordem judi­cial, mas isso deve dar-​se den­tro das bal­izas da lei.

Não me parece razoável que qual­quer pes­soa sim­ples­mente diga que não vai cumprir as decisões judi­ci­ais e fique por isso mesmo.

E, prin­ci­pal­mente, que alguém se recuse a cumprir a lei do país onde opera e não sofra qual­quer con­se­quên­cia.

Será que alguém acha razoável que uma empresa operando e lucrando no Brasil diga cat­e­gori­ca­mente que daí em diante não vai cumprir as decisões judi­ci­ais e pior, que não seguir as leis país sem nada lhe suceder?

Não sou o dono da razão, mas não me parece razoável.

O mais grave de tudo isso é ver­mos mil­hares de brasileiros, talvez mil­hões, muitos for­madores de opinião defend­endo que uma nação sober­ana aceite esse tipo de coisa: que a empresa não ape­nas se recuse a cumprir decisões judi­ci­ais como a respeitar a leg­is­lação do país.

No meu ponto de vista não faz qual­quer sen­tido.

Não con­sigo com­preen­der como cidadãos brasileiros, patri­o­tas, defendam que uma empresa – qual­quer empresa –, possa se recusar a cumprir as leis do país e con­tin­uar operando (e lucrando) como se nada tivesse acon­te­cido.

Ora, essa é a pos­tura é bem difer­ente do que aprendi com Rui: “não existe sal­vação fora lei”.

Como os ami­gos e leitores podem perce­ber, no texto pre­sente evitei “dá nome aos bois”, falando no genérico e isso tem o propósito de mostrar que se des­tina a qual­quer um.

Essa polar­iza­ção ridícula acaba por “cor­roer o cére­bro” das pes­soas a ponto de não fazê-​las com­preen­der con­ceitos bási­cos como os descorti­na­dos no texto ou até mesmo a com­preen­derem o que seja uma nação sober­ana.

Esse é o prin­ci­pal desafio da democ­ra­cia brasileira: a pop­u­lação não con­segue “ficar do mesmo lado” nem mesmo quando a sobera­nia nacional – que lev­a­mos tanto tempo para con­quis­tar –, é afrontada.

Em pas­sado dis­tante pelos anos vinte e trinta do século pas­sado, defend­eram que o Brasil fosse uma nação-​satélite da antiga União Soviética.

Não tarda alguém pas­sará a defender que volte­mos ao sta­tus de colô­nia. E, pior, colô­nia de empresa.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

IDEB: A tragé­dia do Brasil e a esper­ança que vem do Pará.

Escrito por Abdon Mar­inho


IDEB: A tragé­dia do Brasil e a esper­ança que vem do Pará.

Por Abdon C. Marinho.

QUANDO já falamos muito sobre deter­mi­nadas coisas e somos tangi­dos pela neces­si­dade de voltar­mos a falar ficamos com a sen­sação de estar­mos revis­i­tando lugares por onde pas­samos, uma espé­cie de “dèja vu” temático.

É pre­cisa­mente o que acon­tece comigo quando falo sobre edu­cação. Já tratei desse assunto tan­tas vezes – prin­ci­pal­mente depois que me tornei investi­dor de pro­je­tos edu­ca­cionais com metas ambi­ciosas –, que fico com a impressão que nada mais tenho a acres­cen­tar sobre o assunto.

Mas vamos ao que inter­essa. Por esses dias foram divul­ga­dos os dados do IDEB de 2023.

Entre tan­tas notí­cias sobre o que foi con­statado duas notí­cias me chama­ram mais atenção: que há uma dis­crepân­cia de apren­diza­gem de qua­tro anos no ensino fun­da­men­tal entre cri­anças egres­sas da escola pública em relação as cri­anças da egres­sas da escola pri­vada – essa é a tragé­dia de que trata o texto; e que o Estado do Pará avançou 20 (vinte) posições em relação a avali­ação ante­rior em relação ao IDEB do ensino médio – Epa! Epa! Essa é uma infor­mação das mais rel­e­vantes para a edu­cação nacional. É a infor­mação que nos traz a esper­ança.

No geral o resul­tado desse IDEB de 2023 não é bom para a edu­cação.

Vejamos, ape­nas pouco mais de um terço dos esta­dos cumpri­ram as metas esta­b­ele­ci­das para os primeiros anos do ensino fun­da­men­tal (1º ao 5º anos): Paraná, Ceará, São Paulo, Santa Cata­rina, Dis­trito Fed­eral, Goiás, Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso, Alagoas e Rio Grande do Sul.

Nesse quadro (dos anos ini­ci­ais) se destacaram os esta­dos de Alagoas e Ceará como as unidades fed­er­adas que mais avançaram desde o iní­cio da avali­ação, em 2005, para cá, Alagoas avançou 3,5 e o Ceará avançou 3,4 pon­tos.

Deve­mos con­sid­erar que as metas alme­jadas não são ele­vadas e fazem parte de uma estraté­gia de se ir avançando no desen­volvi­mento da edu­cação no país de forma grad­ual.

Quando vemos que ape­nas 11 unidades fed­er­adas foram capazes de alcançar as metas, repito, mod­estas, já temos uma ideia do faz a edu­cação pública rev­e­lar uma desvan­tagem de 4 anos ao tér­mino do ensino fun­da­men­tal.

Sem querer ser repet­i­tivo, mas já sendo, o Brasil, através de seus esta­dos, Dis­trito Fed­eral e municí­pios pre­cisam ofer­tar fer­ra­men­tas e condições de ensino que favoreçam a con­sol­i­dação de uma edu­cação igual­itária para todas as cri­anças.

Há décadas que fala disso. O “seg­redo” para o for­t­alec­i­mento da edu­cação nacional é mel­ho­rar­mos a sua base.

Os entes fed­er­a­dos pre­cisam ser cobra­dos para cumprirem essas metas por uma edu­cação básica igual­itária e de qual­i­dade.

A sabedo­ria pop­u­lar tem muito a nos ensi­nar. Meu pai, um ser­tanejo anal­fa­beto por parte de pai, mãe e parteira, cos­tu­mava dizer que “pau que nasce torto até a cinza, quando queimam, é torta”.

Se ape­nas 11 unidades da fed­er­ação con­seguiram cumprir as metas rel­a­ti­vas aos anos ini­ci­ais, o desas­tre aumen­tou quando se avaliou os anos finais do fun­da­men­tal (6º ao 9º anos), ape­nas três unidades con­seguiram êxito: Paraná, Ceará e Goiás os três com 5,5 pon­tos tendo gan­hos respec­ti­va­mente em pon­tu­ação, 1,9, 2,4 e 2.0 pon­tos de 2005 para cá.

Desses três esta­dos, o Ceará foi o que mais avançou em pon­tos, 2,4 desde 2005.

Os dados rev­e­laram que de todos as unidades fed­er­adas, emb­ora não tenha alcançado a meta, o estado de Alagoas foi o mais avançou desde 2005, obtendo 2,6 pon­tos desde então.

Como uma sequên­cia lóg­ica do fato de que sem uma boa base haverá a dete­ri­o­ração nas eta­pas seguintes, nen­huma das unidades da fed­er­ação alcançou a meta nacional de 5,2 esta­b­ele­cida para o ensino médio.

Os três esta­dos que ficaram mais próx­i­mos da meta foram Paraná, com 4,9 pon­tos; Goiás, 4,8 pon­tos; e o Espírito Santo, 4,8 pontos.

Em meio a essa tragé­dia de ter­mos um ensino médio com os piores indi­cadores do país mere­cem destaque os esta­dos de Goiás, Piauí e Pará que “gan­haram”, um 1,6 pon­tos de 2005 para cá.

Entre os três o que merece maior destaque é o Estado do Pará, sim, o nosso viz­inho do lado. Em ape­nas dois anos, de 2021 para 2023, evoluiu 1,2 pon­tos.

Vejamos, se não me falha a memória, até 2021 o IDEB do ensino médio do Pará estava abaixo do IDEB do Maran­hão, em ape­nas dois anos não ape­nas ultra­pas­sou o Maran­hão, mas, tam­bém, vinte out­ras unidades da fed­er­ação, indo para “as cabeças” do rank­ing, como dizia um per­son­agem famoso de uma nov­ela.

Vi essa sem­ana uma pub­li­ci­dade do estado paraense ressaltando o feito – e deve fazer isso –, e fiquei encan­tado com o fato do Estado do Pará, em um situ­ação total­mente adversa, pois os indi­cadores do ensino fun­da­men­tal tanto nos anos ini­ci­ais quanto nos anos finais, são ter­ríveis, estando abaixo de quase todas as demais unidades, ter con­seguido – nessa que é a etapa mais difí­cil da edu­cação, o ensino médio –, avançar o que as demais unidades levaram mais de uma década para alcançar.

Um dado dos mais inter­es­santes sobre o extra­ordinário feito do Pará, de ter ele­vado a nota do IDEB de 3,2 para 4,4 em ape­nas dois anos é o fato de ter sido a rede estad­ual, o ensino público, a respon­sável por essa ráp­ida evolução.

Fosse o Brasil um país que lev­asse, efe­ti­va­mente, a edu­cação a sério, era para o gov­er­nador Helder Bar­balho e o secretário Rossieli Soares estarem em todos os canais de comu­ni­cação do país expli­cando como alcançaram tal feito e servindo de exem­plo para os out­ros esta­dos. Quiçá, uma CPI para “entre­garem” o seg­redo. Rsrs.

Estão de parabéns. E como é bom poder­mos cel­e­brar um feito de tamanha mag­ni­tude. Acho que somente aque­les que amam de ver­dade a edu­cação con­seguem dimen­sionar o que falo.

Esse feito do Pará mostra que é pos­sível. Quando ninguém mais parece acred­i­tar na edu­cação surge um fato como esse mostrando que é pos­sível. Sim, nós podemos, como diria um ex-​presidente amer­i­cano.

Se man­tiverem o mesmo ritmo de avanço, na próx­ima avali­ação do IDEB, se não alcançarem a meta estarão bem próx­i­mos disso.

Em meio a tragé­dia que o IDEB rev­elou na edu­cação pública brasileira, inclu­sive com esta­dos que eram refer­ên­cia em edu­cação pública ficando para trás, o avanço do Pará, em tão pouco tempo, mostra que é pos­sível ter­mos esper­ança, mostra que é pos­sível cor­ri­gir­mos, com as fer­ra­men­tas cer­tas, as várias dis­torções pelas quais passa o ensino público no Brasil.

Ape­nas a título de sug­estão, acho que os secretários de edu­cação dos esta­dos e municí­pios, jun­ta­mente com seu corpo téc­nico devem se debruçar sobre os números desse IDEB, exam­i­nar os bons e maus exem­p­los e ten­tar enten­der os motivos de uns con­seguirem avançar, superar os infini­tos obstácu­los e out­ros não.

Entendo ser de fun­da­men­tal importân­cia disponi­bi­lizar, igual­i­tari­a­mente, a todas as cri­anças, ado­les­centes e jovens fer­ra­men­tas de ensino que favoreçam a sua apren­diza­gem. Do mesmo modo, inve­stir con­tin­u­a­mente na for­mação con­tin­u­ada de edu­cadores – e cobrar depois –, para que estes “entreguem” a essas cri­anças, ado­les­centes e jovens e uma edu­cação de qual­i­dade.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

Um can­didato improvável.

Escrito por Abdon Mar­inho


Um can­didato improvável.

Por Abdon C. Marinho*.

QUANDO se aprox­i­mava do fim o ano de 1998 recebi do amigo Juarez Medeiros, de quem fui chefe de gabi­nete na Assem­bleia Leg­isla­tiva do Maran­hão e depois na COL­ISEU (Com­pan­hia de Limpeza de Serviços Urbanos de São Luís) a pro­posta para adquirir uma pro­priedade que ele rece­bera em uma per­muta com o amigo comum Alberto Carneiro local­izado no Povoado Quinta, São José de Ribamar.

Não tinha neces­si­dade ou a ideia de com­prar um imóvel e muito menos morar na zona rural da ilha. Aceitei o desafio para aju­dar o amigo (que a época se prepar­ava para ingres­sar na car­reira de pro­mo­tor de justiça) mas, com a intenção de vender o quanto antes.

O próprio Juarez, em uma folha de chamex, com sua incon­fundível caligrafia escreveu os ter­mos do con­trato.

Era ape­nas um ter­reno com muitas jaque­iras, mangueiras e out­ras arvores e uma cas­inha que era ocu­pada pelo caseiro.

Pas­sa­dos seis ou oito meses sem con­seguir vender o imóvel resolvi “dar uma arru­mada” para pas­sar os finais de sem­ana. Depois qua­tro ou cinco finais de sem­ana no sitio decidi “ir ficando” por lá, onde con­tinuo até hoje.

Devo dizer, entre­tanto, que esse não é o assunto desse texto.

Já vivia no sitio dois ou três anos, quando um dos caseiros me disse que alguém de nome Mulato que­ria falar comigo. Disse que tudo bem, pode­ria apare­cer em um dos finais de sem­ana pelo sítio.

Um sábado qual­quer pelo começo dos anos 2000, apareceu-​me o Mulato que até então não sabia o que que­ria comigo e que o que tinha de infor­mações sobre o mesmo é que morava na invasão nas prox­im­i­dades da Quinta chamada Cidade Alta e que tinha algum envolvi­mento comu­nitário.

O sitio ainda não pos­suía muro e eu estava deitado numa rede na varanda quando aproximou-​se da can­cela e disse que podia chegar-​se.

Era um rapa­zote com pouco mais de vinte anos, uns dez (ou pouco mais) a menos que eu. Perguntei-​lhe o que que­ria e disse que que­ria me con­hecer, sabia que era advo­gado, que tinha exper­iên­cia com polit­ica – naquela época já estava com meu escritório de advo­ca­cia e já pas­sara pela asses­so­ria de Juarez na Assem­bleia, pela COL­ISEU, pelo tra­balho na cam­panha de Con­ceição em 1992, pela cam­panha de Cafeteira em 1994 e 1998, pela cam­panha de Castelo em 1996, pela de Ricardo Murad em 2000 e 2002 –, que­ria tro­car ideias comigo e, se pos­sível, apren­der alguma coisa.

Fiquei sur­preso com o assunto, mas a par­tir daquele dia pas­samos a tro­car algu­mas ideias sobre a polit­ica no estado, na cidade, as nos­sas visões de mundo. Acho que foi nesse mesmo encon­tro que me disse do desejo de ser político, quiça prefeito do município.

Con­tin­u­amos a man­ter con­tato e sem­pre que tín­hamos opor­tu­nidade trocá­va­mos algu­mas ideias sobre os acon­tec­i­men­tos do momento.

Pas­sa­dos alguns anos Mulato me liga e diz pede para pas­sar no escritório para falar comigo. Quando chegou disse-​me o assunto: que­ria que lhe emprestasse um mil ou um mil e quin­hen­tos reais para abrir uma gale­te­ria.

Disse-​lhe: –– Ô Mulat­inho não posso lhe emprestar o din­heiro por dois motivos: quem empresta din­heiro corre o risco de perder o amigo e/​ou o din­heiro ou as duas coisas. Não quero nem uma coisa, nem outra, nem as duas.

Ape­sar disso acabei por fazer o emprés­timo – que recebi um ano e pouco depois –, e me tornei freguês do galeto do Mulat­inho nos finais de sem­ana. Só lig­ava e/​ou man­dava men­sagem e pedia um galeto que man­dava deixar ou ia ele mesmo deixar aprovei­tando essas opor­tu­nidades para con­ver­sar um pouco.

O tempo pas­sou, o Mulat­inho “pas­sou” a gale­te­ria, em uma eleição foi can­didato a vereador, não con­seguindo êxito para eleger-​se, em alguns momen­tos as vis­si­tudes da polit­ica colocaram-​nos em dis­cordân­cia, mas sem que a amizade fosse afe­tada, dizia que dis­cor­dava e pronto.

No ini­cio do ano pre­sente me procurou lá no sitio para dizer-​me que seria can­didato a prefeito e me atu­alizar sobre as diver­sas trata­ti­vas que teria par­tic­i­pado nos últi­mos tem­pos mas que não deram certo sobre­tudo por motivos diver­sos; que seria can­didato por um par­tido diverso daquele pelo qual mil­i­tara entre out­ras coisas.

Disse-​lhe que achava salu­tar sua can­di­datura e que pes­soas com a nossa origem não podem aguardar que os donos do poder, os ricos “abram” espaços para os nos­sos son­hos e propósi­tos, que nós que deve­mos bus­car nos­sos espaços e “forçar” as por­tas se quis­er­mos entrar.

Em julho Guil­herme me procurou nova­mente que­ria saber da pos­si­bil­i­dade de fazer a con­venção do seu par­tido no meu sítio. Não é uma ideia que tenha gostado. Os meus finais de sem­ana sequer gosto de sair de casa, cos­tu­mando me dedicar ao ócio, a leitura, a escrita, a ouvir música e as tare­fas domés­ti­cas.

Em um momento de bobagem acabei con­cor­dando em alu­gar o espaço para o par­tido – não pelo din­heiro –, mas para evi­tar prob­le­mas futuros com a leg­is­lação eleitoral.

No dia da con­venção, pela manhã, enquanto arru­mavam o ambi­ente e comíamos uma farofa de ovo com lin­guiça, fazíamos um ret­ro­specto (parte dos fatos ele me lem­brou) e inter­na­mente ia pen­sando no quando de improvável que tinha essa can­di­datura de Mulato. Um rapaz crescido numa invasão, “galeteiro” e, de repente, can­didato a prefeito da cidade. Não de qual­quer municí­pio, mas da ter­ceira maior do estado.

Numa análise sobre a con­jun­tura do país em um momento em que a democ­ra­cia é sem­pre colo­cada em xeque vejo o quanto de inspi­rador é o legado de tal pro­jeto politico e porque ela (a democ­ra­cia) pre­cisa ser defen­dida pelos cidadãos de bem: para pos­si­bil­i­tar que qual­quer um, qual­quer do povo, ape­nas depen­dendo do próprio esforço possa chegar a onde quiser.

Trata-​se, por óbvio, ainda mais nos dias de hoje em que a política tornou-​se ante de qual­quer coisa, um negó­cio, uma can­di­datura improvável.

Ninguém espera que um filho da per­ife­ria, um fave­lado, um ex-​galeteiro seja can­didato a prefeito, quando muito é chamado para ser “bucha de can­hão” numa can­di­datura a vereador, para com­por o quo­ciente eleitoral.

Por isso que a democ­ra­cia é inspi­radora.

Nesse mesmo dia (da con­venção) eu dizia a ele: –– Olha, Mulat­inho, inde­pen­dente do resul­tado do pleito, de qual posição você vai chegar, você já é um vito­rioso. A sua vitória é ter chegado até aqui, é não ter se cur­vado à von­tade dos poderosos, não ter se “ven­dido” por algu­mas moedas, empre­gos ou promes­sas, e ter aceitado o desafio de, sem din­heiro, sem apoio de grandes políti­cos, das grandes máquinas par­tidárias, dos gru­pos econômi­cos, sair can­didato.

Em São José de Riba­mar a dis­puta dar-​se entre o atual prefeito, Dr. Julinho (que foi meu pro­fes­sor no Cursinho do Pro­fes­sor José Maria do Ama­ral, no final da década de oitenta), que faz uma admin­is­tração bem avali­ada, segundo algu­mas pesquisas que tive acesso; o pres­i­dente da Câmara Munic­i­pal, Dudu Diniz, que tem o apoio da pres­i­dente da Assem­bleia Leg­isla­tiva e do Gov­erno Estad­ual, tendo arreg­i­men­tado, esses dois chefes de poderes para sua con­venção; o Guil­herme Mulato; e mais dois out­ros que pos­suem alguma tradição pes­soal ou de par­entesco com a política.

Sair can­didato em situ­ação tão adversa é uma vitória. A vitória da ousadia

Abdon C. Mar­inho é advogado.