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Aborto, maconha e out­ras polêmi­cas (Parte 1).

Escrito por Abdon Mar­inho


ABORTO, MACONHA E OUT­RAS POLÊMI­CAS (parte 1).

Por Abdon C. Marinho.

OS MAIS sábios que me ante­ced­eram tin­ham por norte uma con­vicção: que a estu­pidez dos seres humanos pareceria-​lhes ilim­i­tada.

Cada vez mais, nos dias atu­ais, os debates eiva­dos de con­vicções inque­bran­táveis dar-​lhes razão.

O Brasil vive, como poucos, esse Fla x Flu de rad­i­cal­is­mos sobre tudo. Até sobre a cor do pavil­hão nacional o debate é inc­on­cil­iável.

O prob­lema em si, nem são as divergên­cias, mas, prin­ci­pal­mente, a qual­i­dade do debate. O cidadão forma sua con­vicção por alin­hamento ide­ológico, reli­gioso ou por qual­quer outro viés e pronto, aquilo se tornou um dogma insuscetível de qual­quer dis­cussão ou pos­si­bil­i­dade de análise por qual­quer outro prisma que não seja o seu.

Muito pior que isso é que para firmar-​se como “certo”, como o “dono da razão” pouco importa falsear a ver­dade ou difundir infor­mações fal­sas.

Como ninguém parece, sequer, inter­es­sado em ouvir out­ros posi­ciona­men­tos ou argu­men­tos dis­crepantes, cheg­amos a situ­ação em que não existe mais debate no Brasil. Cada um faz suas pre­gações para os seus reban­hos (nada a ver com o “gado” de lado a lado) e tenta impor seu ponto de vista, sem con­cessão, aos out­ros.

Veja como é irônico: esta­mos todos tão próx­i­mos uns dos out­ros, com tanto acesso às várias for­mas de comu­ni­cação, mas perdemos a capaci­dade de dialogar e de nos enten­der­mos sobre quais­quer coisas.

Somos um espé­cie de Babel dos tem­pos mod­er­nos.

Em meio a tudo isso – e tam­bém em razão disso –, dois temas viraram motivos para o “cabo de guerra” entre os extremos: a questão do aborto e um jul­ga­mento sobre a descrim­i­nal­iza­ção da posse de até quarenta grama de maconha, para con­sumo próprio, pelo Supremo Tri­bunal Fed­eral — STF.

Cumpre esclare­cer ao leitor que chegou até aqui que não é minha intenção convencê-​lo de nada (ou mesmo de ten­tar fazer isso) e, menos ainda, con­cor­dar com o posi­ciona­mento for­mado de quem quer que seja.

Nossa intenção é tão somente debater os temas – talvez o mais cômodo fosse ape­nas ficar com o meu próprio ideário a respeito dos mes­mos e guardar pra mim o que penso, mas não é do meu feitio.

Logo que entrei na fac­ul­dade de Dire­ito aprendi com o mestre Alberto Tavares, então lente de Dire­ito Proces­sual Penal que a tudo dev­eríamos anal­isar com grano salis — no sen­tido que nos ensi­nou “com pon­der­ação”, “com parcimô­nia”, com cautela, com uma pitada de sal.

Dos ban­cos da fac­ul­dade, trouxe para a vida tal ensi­na­mento. Vez ou outra, em algum texto ou mesmo dis­cussão com algum amigo, cito a frase do mestre: — cum grano salis doutor. Cum grano salis.

Vejamos o tema do aborto.

O assunto veio à baila depois o pres­i­dente da Câmara dos Dep­uta­dos aprovou em vinte três segun­dos que um pro­jeto de lei tratando do assunto tivesse urgên­cia na sua trami­tação, ou seja, que fosse para ser votado dire­ta­mente em plenário sem qual­quer dis­cussão nas comis­sões daquela Casa.

Segundo dizem essa votação relâm­pago e com o endosso de quase todos líderes par­tidários seria uma estraté­gia para encur­ralar o gov­erno fed­eral para que o mesmo “mostrasse a cara” em um tema tão sen­sível.

O pro­jeto de lei que ultra­pas­sou quais­quer out­ros temas de urgên­cia na pauta nacional traz de rel­e­vante a equiparação a homicí­dio sim­ples a inter­rupção da gravidez – em qual­quer situ­ação –, após a vigésima segunda sem­ana de ges­tação.

Essa equiparação per­mi­tirá a con­de­nação da mul­her a uma pena de até 20 anos de reclusão. A con­duta mais gravosa do Estatuto Penal é jus­ta­mente o homicí­dio: “Art. 121. Matar alguém: Pena — reclusão, de seis a vinte anos”.

A lei brasileira (e uma decisão do STF) per­mitem o aborto em casos de estupro, de risco de vida para a mãe e no caso de fetos anencé­fa­los. Nesses casos não have­ria lim­i­tação tem­po­ral à prática do aborto.

Caso o pro­jeto de lei seja aprovado as três situ­ações em que é per­mi­tido o aborto, a par­tir da vigésima segunda sem­ana de ges­tação pas­sará a ser con­sid­er­ado homicí­dio sim­ples, com a pena esta­b­ele­cida nos moldes descritos acima.

Con­forme já ampla­mente debatido e exposto, no caso da mul­her (ou menina ou ado­les­cente) que foi estuprada a sua pena por haver prat­i­cado o aborto, em tese, se torna maior do que aquela que seria con­ferida ao estuprador. Vejamos: “Art. 213. Con­stranger alguém, medi­ante vio­lên­cia ou grave ameaça, a ter con­junção car­nal ou a praticar ou per­mi­tir que com ele se pra­tique outro ato libidi­noso: (Redação dada pela Lei nº 12.015, de 2009) Pena — reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos. (Redação dada pela Lei nº 12.015, de 2009) § 1º Se da con­duta resulta lesão cor­po­ral de natureza grave ou se a vítima é menor de 18 (dezoito) ou maior de 14 (catorze) anos: (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)”.

Pesquisas mostram que a vio­lên­cia con­tra mul­her, prin­ci­pal­mente, o estupro é uma prática recor­rente com mil­hares acon­te­cendo diari­a­mente.

A essas mul­heres que já sofr­eram (e sofrem) a vio­lên­cia lhes é des­ti­nada uma pena “acessória” de não poder praticar o aborto sob pena de respon­der crim­i­nal­mente por homicí­dio e, se con­de­nadas, cumprir uma pena bem supe­rior ao do estuprador.

E o caso de cri­anças e ado­les­centes que são estupradas den­tro da própria casa e que, por medo, ver­gonha, e out­ros con­strang­i­men­tos só vão saber que estão grávi­das após o lapso tem­po­ral, tam­bém serão obri­gadas a serem mães quando, sequer, tiveram o dire­ito de serem filhas?

E caso da gravidez que rep­re­senta um risco de morte para mãe e esse risco só foi detec­tado já após a vigésima segunda sem­ana ou mesmo no momento parto, os médi­cos estarão obri­ga­dos a per­mi­tir a morte da mãe para sal­var o filho?

E o caso dos fetos anencé­fa­los detec­ta­dos tam­bém após a vigésima segunda sem­ana, as mães e famílias tam­bém serão obri­gadas? Com qual suporte do estado?

Mil­hares de estupros são cometi­dos diari­a­mente, muitos nos seios das famílias, das esco­las, das igre­jas, nos lugares onde cri­anças e ado­les­centes (e tam­bém as mul­heres) dev­e­riam ser pro­te­gi­das – e não são.

Mil­hares de meni­nas de 10, 11, 12, 13 anos (até menos) são vio­len­tadas diari­a­mente neste país, repito, den­tro de casa, den­tro de esco­las, de igre­jas, etc. na maio­ria das vezes esses estupros é abu­sos são cometi­dos por pes­soas de “den­tro” de casa. Indago essas meni­nas, abu­sadas, ameaçadas, se engravi­dam até sem saber, desco­bre a gravidez, se praticar o aborto, vão respon­der ao ato infra­cional (no caso a par­tir dos 12 anos), cor­re­spon­dente ao homicí­dio sim­ples e ficarem “encar­cer­adas” por três anos?

A situ­ação toda me parece absurda do ponto de vista de que os nos­sos rep­re­sen­tantes igno­ram real­i­dades bási­cas da vida dos cidadãos comuns. Não sabem o que falam, não tem con­hec­i­mento das difi­cul­dades que passa a pop­u­lação.

Cerca de um mil­hão de abor­tos são cometi­dos anual­mente, muitos em situ­ações de insalu­bri­dade e de risco para quem os prat­ica.

Vejam, não estou esta­b­ele­cendo um juízo de valor sobre as coisas, mas, entendo, que assun­tos sérios, de inter­esses da sociedade, não podem sem aprova­dos como “moedas de chan­tagem política”, sem que dep­uta­dos e senadores se dêem ao tra­balho de “estu­darem”, em pro­fun­di­dade, todos os impactos do que estão aprovando.

Outro dia, vi de uma dep­utada, sub­scritora do referido pro­jeto dizer que ela imag­i­nava que o mesmo iria pro­te­ger as mul­heres.

Isso uma das autoras do pro­jeto que não se deu o tra­balho de antes de colo­car sua assi­natura saber que o que estava fazendo. Assi­nou com base em suas con­vicções pes­soais, seus dog­mas reli­giosos, o alin­hamento ao seu grupo político.

Ora, isso não está certo, não é admis­sível que os rep­re­sen­tantes do povo tomem decisões que impacta a vida e a liber­dade de pes­soas basea­dos em seus dog­mas de fé, nos seus pre­con­ceitos ou no disse o pas­tor ou o padre de seus púl­pi­tos.

Con­tinua …

Abdon C. Mar­inho é advogado.

Inimi­gos íntimos.

Escrito por Abdon Mar­inho


Inimi­gos ínti­mos.

Por Abdon C. Mar­inho.

UM DOS BIÓ­GRAFOS do pres­i­dente amer­i­cano Roo­sevelt (Franklin Delano Roo­sevelt, 18821945) assen­tou que naquele dia 08 de dezem­bro de 1941, quando fez o céle­bre «Dis­curso da Infâmia», no qual disse: «Ontem, 7 de dezem­bro de 1941uma data que viverá na infâmia—os Esta­dos Unidos da América foram repentina e delib­er­ada­mente ata­ca­dos pelas forças navais e aéreas do Império do Japão», para em seguida declarar a guerra aquele país, a maior difi­cul­dade do longevo pres­i­dente (o único a ser eleitos qua­tro vezes pres­i­dente), não fora uma coisa ou outra, mas, sim, “cam­in­har” do lugar onde descera do carro até atrav­es­sar o plenário do Con­gresso Amer­i­cano, onde faria o dis­curso e declararia a guerra.

Roo­sevelt, no iní­cio dos anos 1920, adquiriu uma doença par­al­isante dos mem­bros infe­ri­ores na época diag­nos­ti­cada como poliomielite ou par­al­isia infan­til (muito emb­ora já fosse adulto). Essa doença o impe­dia de andar e, por muito pouco, não o impediu de seguir a car­reira política, vindo a eleger-​se senador, gov­er­nador de Nova Iorque e, a par­tir de 1932, eleito pres­i­dente por qua­tro vezes.

Para os padrões da época não se afig­u­rava de “bom tom” que um pres­i­dente andasse em uma cadeira de rodas e, muito menos, que fosse “declarar guerra” demon­strando tal frag­ili­dade em sua saúde. Naquela época, quando o mundo não era trans­mi­tido ao vivo, o fato do pres­i­dente de uma das maiores potên­cias mundi­ais ser par­alítico (ou cadeirante) não era de domínio público – o sis­tema eleitoral amer­i­cano com eleições indi­re­tas, con­tribuiu para isso.

O desafio de cam­in­har até o local do dis­curso foi ven­cido pelo pres­i­dente que usando órtese nas duas per­nas con­seguiu manter-​se em pé e, com um dos fil­hos de um lado e um aju­dante de ordens de outro lhe ampara­ndo e segu­rando para não cair con­seguiu chegar até a tri­buna do Con­gresso Amer­i­cano.

Por esses dias divulguei umas fotografias de um atendi­mento no hos­pi­tal Sarah de São Luís, refer­ên­cia em orto­pe­dia.

Como sabem, tenho um inimigo íntimo. Na ver­dade, uma inimiga.

Essa inimiga não me larga de forma alguma e já me acom­panha há mais de cinco décadas.

Se a con­vivên­cia com quem é pos­sível separar-​se nas difi­cul­dades já é com­pli­cado imag­ine con­viver com uma inimiga de quem jamais poderá afastar-​se, como naque­les casa­men­tos de out­rora em o padre dizia: — até que a morte os sep­are.

No meu caso, talvez até dure um pouco mais. Rsrs.

Quando nos con­hece­mos, por assim dizer, já andava e cor­ria por todos os lados. Ela veio com tudo e, lit­eral­mente, “deixou-​me de qua­tro”, con­forme já con­tei noutras par­a­gens.

Foi um encon­tro avas­sal­ador que quase me fez sucumbir – por muito pouco, se não tivesse sido a inter­venção dos médi­cos, que aler­taram que não mais voltaria a andar.

Menino teimoso, cri­ado solto pelo campo, desafiei o vat­icínio. Voltei a engatil­har e depois a andar, a cor­rer, a brin­car, a levar uma vida nor­mal den­tro das lim­i­tações que me eram impostas.

Na ado­lescên­cia, já na cap­i­tal, per­cor­ria quase todos lugares do cen­tro, fosse nas ativi­dades de lazer, fosse nas ativi­dades de tra­balho, fosse na mil­itân­cia dos movi­men­tos políti­cos.

Mais adulto fre­quen­tava a fac­ul­dade depois de um dia inteiro de tra­balho e de pegar qua­tro con­duções, duas pra ir, duas pra voltar, como dizia a música.

A car­reira me levou a andar mais, a per­cor­rer quase todo o estado (e o país) dor­mindo aqui aman­hecendo acolá, o tempo todo, pois já se vão quase 30 anos de lutas.

A minha condição física nunca me impediu de fazer nada. Talvez de esquiar nos Alpes, de sur­far no Havaí, de escalar o monte Ever­este.

Mas fiz diver­sas out­ras coisas.

Diria que durante muitos anos tive uma con­vivên­cia “pací­fica” com a minha inimiga íntima.

Há cerca de vinte anos ela voltou a me provo­car, a per­tur­bar o que estava sossegado. Não dire­ta­mente, mas através de seus emis­sários. Como dizem: o Diabo quando não vem, mand o secretário.

Naquela opor­tu­nidade pro­curei a rede Sarah pela primeira vez e, para garan­tir algum con­forto para as ativi­dades do dia a dia, me foi recomen­dado o uso de uma ben­gala.

As out­ras opções de trata­mento – que na ver­dade mino­rariam ou adi­ariam a situ­ação –, me pare­ce­ram dolorosas e/​ou custosas.

Emb­ora fosse, dig­amos, “com­plexo” aceitar o uso da ben­gala por quem estava acos­tu­mado a fazer todas as ativi­dades sem neces­si­dade desse tipo de apoio, pro­curei “encarar” como um mal necessário e até ele­gante.

Em 2004, quando pro­curei o Sarah pela primeira vez, a sín­drome pós-​pólio (SPP), que acred­ito seja o meu quadro, pelo menos, em diver­sas car­ac­terís­ti­cas é com­patível, somente foi incluída no Catál­ogo Inter­na­cional de Doenças (CID 2010) em 2010, graças a um tra­balho desen­volvido por pesquisadores brasileiros da UNIFESP.

Há cerca de cinco anos, aprox­i­mada­mente, voltei a sen­tir nova­mente (ou aumen­tar) uma fraqueza mus­cu­lar, um descon­forto ao andar e um agrava­mento nas dores do pé dire­ito, que ficou mais “virado” e provoca dores mais fortes ao andar.

Uma queda “do nada” acen­deu o sinal de alerta para o que pode­ria estar acon­te­cendo.

Foi essa situ­ação, aliás, seu agrava­mento que me levou ao Sarah nos últi­mos dias.

Novas radi­ografias mostraram uma piora nas defor­mações dos pés e per­nas em relação aque­las que foram tiradas em 2004.

A recomen­dação é que passé a usar órtese nas duas per­nas para esta­bi­lizar os pés e evi­tar as dores e, quem sabe, depois vir a fazer uma ou mais a cirur­gias para recolo­car as coisas nos lugares.

No dia que fiz a pub­li­cação que pre­ocupou os ami­gos sin­ceros tinha ido lá para fazer os moldes para as órte­ses recomen­dadas.

Claro, além do uso da órtese para evi­tar as dores ao cam­in­har, ter­e­mos que retomar com mais dis­ci­plina a fisioter­apia e os exer­cí­cios físi­cos.

Não é nada que não pos­samos fazer depois de ter­mos ven­cido tan­tas batal­has.

Minha irmã caçula me man­dou men­sagem pre­ocu­pada por ter visto as fotografias: — me conte tudo. Pediu.

Após fazer o relato do que se pas­sava fechei a con­versa mais ou menos assim: — não se pre­ocupe, minha irmã. E veja pelo lado bom, agora você terá um irmão que será quase um “homem biônico”. Rsrs.

No mais, é vida que segue. Como dizia o poeta no canto de morte do guer­reiro (que não é o caso, longe disso): “sou bravo, sou forte, sou filho do norte”.

É isso.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

E aí, agora vai?

Escrito por Abdon Mar­inho


E aí, agora vai?

Por Abdon C. Marinho.

CONTA a lenda que em 2008 Jack­son Lago, gov­er­nador eleito em 2006, decidira pelo apoio ao ex-​governador João Castelo para prefeito da cap­i­tal. Castelo vinha de um histórico de der­ro­tas para car­gos majoritários: perdeu em 1986, para Cafeteira; perdeu em 1990, para Lobão; perdeu em 1994, a dis­puta para o Senado; perdeu a eleição para a prefeitura de São Luís em 1996 e 2000, para o próprio Jack­son; perdeu em 2004, para Tadeu Palá­cio; e, perdeu nova­mente para o Senado em 2006.

Daria um artigo inter­es­sante descorti­nar as moti­vações que levaram o ex-​governador a decidir-​se pelo apoio não ape­nas para um adver­sário con­tra o qual dis­putara algu­mas eleições, mas alguém que sem­pre estivera no campo oposto ao dele – mas isso é assunto para outro momento.

Deci­dido o apoio, como fazer para tornar a cam­panha vito­riosa? Após relutân­cias decidi­ram con­tratar a con­sul­to­ria de um dos papas do mar­ket­ing politico do Brasil: Duda Men­donça. Convidaram-​no para vir ao Maran­hão para con­hecer o can­didato e “tro­car” ideias com o comando da cam­panha e os “patroci­nadores” do pro­jeto.

No cam­inho entre o aero­porto e local da reunião o expe­ri­ente mar­queteiro ia inda­gando sobre o novo cliente, quem era, como era, etc. Tendo sido infor­mado que o can­didato ao longo da vida polit­ica tinha uma “boa largada”, mas que acabava per­dendo no final, “não chegando”.

Ouvindo isso, o mar­queteiro disse: Ah, mas agora vai.

Assim, no banco de um carro nascia um slo­gan de uma cam­panha vito­riosa, que levou o ex-​governador, ex-​senador, ex-​deputado, ex-​prefeito, ao seu último mandato majoritário, uma vez que em 2012, quando ia para reeleição perdeu para o então dep­utado fed­eral Edi­valdo Holanda Júnior, elegendo-​se em 2014, dep­utado fed­eral, exercendo o cargo até dezem­bro de 2016, quando veio a falecer.

A história é bem inter­es­sante e mere­ce­dora de reg­istros, já que não con­stam dos livros, mas ficará, como já dito, para outro momento, para o pre­sente texto, só nos servirá aquele mote de cam­panha, o “Agora vai”.

As diver­sas mídias divul­garam e o gov­erno fes­te­jou com fogos de artifí­cios a aprovação da Zona de Proces­sa­mento de Expor­tação — ZPE a ser imple­men­tada em Bacabeira.

Tem-​se razão para fes­te­jar.

Trata-​se de um alento visto que na mesma sem­ana, quase que simul­tane­a­mente, foram divul­ga­dos, pela ONU, os dados do desen­volvi­mento humano do mundo com o nosso estado, mais uma vez, fig­u­rando na “rabeira”, com indi­cadores abso­lu­ta­mente incom­patíveis com as poten­cial­i­dades que pos­suí­mos.

Na mesma linha dos números acacha­pantes, artigo do econ­o­mista Abdalaziz San­tos traz os dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Con­tínua), do IBGE, divul­gada recen­te­mente, mostrando que o Maran­hão é o único estado da fed­er­ação com renda média infe­rior a R$ 1.000,00 e que tal renda é 47% (quarenta e sete por cento) infe­rior a renda média do país.

Muito emb­ora o próprio econ­o­mista ressalte não serem tais números fru­tos de um único gov­erno e ser incré­dulo quanto a uti­liza­ção de um pro­jeto de inves­ti­mento inten­sivo de cap­i­tal como solução para ala­van­car o desen­volvi­mento do estado mostrando de forma téc­nica suas razões diz não ser con­tra os mes­mos, lis­tando, além da ZPE, a Fer­rovia Açailândia-​Alcântara; o Ter­mi­nal Por­tuário de Alcântara …

O pen­sa­mento de Aziz San­tos cor­rob­ora com o que já dizia o engen­heiro e político Domin­gos Fre­itas Diniz (Araioses, 1933, São Luís, 2021), que foi severo crítico dos chama­dos, por ele, “enclaves econômi­cos” como solução para o desen­volvi­mento do estado.

Diniz citava como exem­plo de “enclaves econômi­cos”, a ALUMAR, prometida no iní­cio dos anos oitenta com a “redenção” do Maran­hão ou mesmo a antiga Com­pan­hia Vale do Rio Doce — CVRD, que depois de pri­va­ti­zada, “virou” ape­nas vale.

Os números que nos são rev­e­la­dos ano após ano com­pro­vam o acerto dos prognós­ti­cos de San­tos e Diniz em relação ao equívoco desse mod­elo de desenvolvimento.

Tanto San­tos como Diniz defen­dem como ponto de par­tida para o desen­volvi­mento do estado o inves­ti­mento nas poten­cial­i­dades region­ais.

Emb­ora me fil­iando ao entendi­mento de que pre­cisamos de um plane­ja­mento estratégico que vise o desen­volvi­mento das diver­sas regiões do estado como forma de ala­van­car o cresci­mento da nossa econo­mia acred­ito que podemos “tra­bal­har” de forma integrada aliando os grandes pro­je­tos econômi­cos ao cresci­mento das econo­mias dos municí­pios.

Uma frase no artigo de San­tos que me chamou a atenção, foi quando disse que o preço de son­har grande e son­har pequeno é o mesmo.

Sem­pre tive o “defeito” de son­har grande. Imag­ino o quanto de bene­fí­cios – se bem con­duzi­dos –, seria trans­for­mar o Golfão Maran­hense em mon­u­men­tal entre­posto com­er­cial com os trens e navios trazendo e levando riquezas para todo o mundo.

Trata-​se de um sonho muito grande? Talvez, mas os chama­dos “tigres asiáti­cos” não con­seguiram? Por que não con­seguiríamos também?

Vimos muitos daque­les países mudarem total­mente suas real­i­dades em duas décadas, no máx­imo, três décadas.

Nações que foram destruí­das na Segunda Guerra, na Guerra da Cor­eia ou mesmo na Guerra do Vietnã, encon­traram cam­in­hos para o desen­volvi­mento e, já fazem décadas, são mod­e­los.

Mesmo nações que não pos­suem ter­ritórios supe­ri­ores ao da Ilha do Maran­hão, se tornaram potên­cias.

Sem­pre me inqui­etou o baixo desen­volvi­mento do nosso estado.

Os pro­je­tos que são apre­sen­ta­dos e não saem do papel ou que são usa­dos pelos “esper­tal­hões” para se darem bem.

No iní­cio dos anos 2000 “inven­taram” que o nosso desen­volvi­mento viria com o trans­for­mação de São Luís e Rosário em Pólos Têx­teis – emprés­ti­mos foram feitos em nome de pes­soas sim­ples que devem até hoje; depois veio o Refi­naria de Bacabeira, que levou muita gente a “apos­tar” suas econo­mias em um pro­jeto que depois foi aban­don­ado, levando pre­juízo e que­bradeira a mil­hares de pes­soas.

Agora é a vez da ZPE de Bacabeira.

Falando com uma lid­er­ança política da região ela me indagou: — doutor, agora é sério?

Quero acred­i­tar que sim. E torço por isso. Acho que é pos­sível con­ju­gar os mod­e­los de desen­volvi­mento, como já disse.

Lá atrás, em 2012/​2013, acred­i­tando nesse propósito per­corri todos os municí­pios do corre­dor da Estrada de Ferro Cara­jás para criar um con­sór­cio inter­mu­nic­i­pal que cobrasse da Vale uma “con­tra­partida” para os municí­pios que só ficavam com os impactos da explo­ração e trans­porte do minério de ferro.

Conseguiu-​se a con­tra­partida em finan­cia­mento para pro­je­tos edu­ca­cionais, de saúde e ger­ação de renda e, ali­ado a isso, ainda, se garan­tiu os roy­al­ties do minério para esses municí­pios.

Pouco tempo depois fui um dos prin­ci­pais entu­si­as­tas do pro­jeto de lei do então senador Roberto Rocha, que cri­ava a Zona de Expor­tação do Maran­hão — ZEMA, que tinha como propósito atrair empre­sas para cap­i­tal e seu entorno, para desen­volvi­mento de pro­du­tos volta­dos a expor­tação aprovei­tando a posição estratég­ica da Ilha do Maran­hão em relação aos diver­sos países da América do Norte, Ásia ou África.

Dizia que aquela (a causa do ZEMA) era uma causa para unir o Maran­hão. O Maran­hão não se uniu e o PL 316/​2015, não sei o fim que levou. Virou essa ZPE?

Com todas as ressal­vas que possa fazer, sou entu­si­asta da ZPE de Bacabeira – e de todos os demais que visem cor­ri­gir as desigual­dades no estado.

Pre­cisamos que tal pro­jeto seja efe­ti­va­mente lev­ado a prática, até para com­pen­sar as frus­trações dos dois pro­je­tos ante­ri­ores. Em out­ras palavras, é pre­ciso “arran­car a cabeça de burro” enter­rada por aqui.

A ZPE de Bacabeira poderá fomen­tar diver­sos eixos de desen­volvi­mento: talvez um novo porto na Baía de São José; talvez uma ponte e uma fer­rovia e rodovia saindo de Bacabeira para a Baix­ada, para aproveitar o TPA de Alcân­tara; talvez novos berços no próprio Porto de Itaqui.

Impor­tante, ainda, do ponto de vista estratégico que o Maran­hão tenha como foco a qual­i­fi­cação de toda pop­u­lação do estado, seja com o obje­tivo de aproveitar as poten­cial­i­dades region­ais, no tur­ismo, no agronegó­cio, nas indús­trias de trans­for­mação, no comér­cio; seja nos grandes empreendi­men­tos tidos como “enclaves”.

Como o atraso não “culpa” de um só gov­erno, o sucesso tam­bém não será, impor­tante é que se comece a fazer alguma coisa.

A per­gunta que pre­cisamos fazer e para a qual pre­cisamos obter uma resposta pos­i­tiva é: E aí, agora vai?

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.