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A Venezuela é o des­tino de uma nação.

Escrito por Abdon Mar­inho


A Venezuela e o des­tino de uma nação.

Por Abdon C. Mar­inho.

RECOMENDO aos amantes da política que assis­tam ao filme “ O Des­tino de Uma Nação”. Nele é retratada a improvável ascen­são de Win­ston Churchill ao cargo de primeiro-​ministro durante a expan­são do nazismo pela Europa.

No filme apren­demos que pre­cisamos fazer deter­mi­nadas escol­has; que existe lim­ites intransponíveis para que pos­samos con­sid­erar viver sob um régime democrático ou uma ditadura.

Foi durante esse período que Churchill fez o céle­bre dis­curso onde dizia que nada teria a ofer­e­cer senão o sangue, o suor e as lágri­mas.

Com o expe­ri­ente político tam­bém é pos­sível apren­der que ao faz­er­mos con­cessões aos autoritários não esta­mos ref­re­ando seus instin­tos autoritários mas ape­nas fazendo com que eles aumentem ainda mais. No dizer daquele político, durante deter­mi­nada dis­cussão: — você não pode nego­ciar com o tigre quando se está com a cabeça na boca do felino.

Essa intro­dução é para ini­cia­r­mos uma dis­cussão sobre a situ­ação política da Venezuela e como o Brasil, leia-​se todas as suas insti­tu­ições, têm “vac­ilado” ao não terem um com­por­ta­mento mais inci­sivo em reprovação de todos os abu­sos que já vin­ham ocor­rendo ao longo das últi­mas décadas e que cul­mi­naram na tensa e dramática situ­ação que viven­ci­amos hoje.

Se o leitor tiver curiosi­dade e dig­i­tar no canto supe­rior dire­ito dessa página a palavra “Venezuela” aper­tando o botão de busca verá que já tratei desse tema pelo menos umas cinco dezenas de vezes. Quase sem­pre dizendo tratar-​se da con­strução de uma ditadura e o Brasil, e seus políti­cos, erravam (e erram) ao bus­carem artifí­cios retóri­cos para jus­ti­ficar o que é injus­ti­ficável.

O prin­ci­pal erro do Brasil diz respeito a falsa per­cepção de que há “ditaduras do bem”. Não existe isso. Ditadura é ditadura e ponto final.

Ainda que em nome dos inter­esses das nações se possa man­ter relações diplomáti­cas e com­er­ci­ais elas não devem ir muito além disso.

Acho bisonha e desmor­al­izante que os gov­er­nantes brasileiros não ape­nas man­ten­ham relações com­er­ci­ais com deter­mi­na­dos países como “dese­jem” cer­tas “intim­i­dades” com os “tiranetes” de plan­tão.

Os atu­ais diri­gentes do Brasil sem­pre tiveram uma admi­ração ridícula por todos os dita­dores “ditos” de esquerda. Com os irmãos Cas­tro, de Cuba; com Chávez e Maduro, da Venezuela; com Ortega, da Nicarágua, e por aí vai.

Ainda lem­bro da admi­ração quase mítica que tin­ham pela chamada Rev­olução San­din­ista ocor­rida na Nicarágua, em 1979.

O tempo pas­sou o san­din­ismo que gov­ernou a Nicarágua de 1979 a 1990 perdeu o poder. Retomando-​o em 2006 e a par­tir de então em um viés tão autoritário que aque­les que se lem­bravam (ou lem­bram) dese­jaram a volta dos Somoza ao poder.

Essa digressão sobre a Nicarágua é ape­nas para mostrar que as ditaduras podem até nascer com um viés pop­u­lar e de inter­esse cole­tivo, mas a sua manutenção é pela vio­lên­cia, o desatino e a lou­cura.

Os diri­gentes do Brasil, espero que ten­ham apren­dido essa lição com a Nicarágua. Aque­les que gri­tavam vivas para FSLN (Frente San­din­ista de Lib­er­tação da Nicarágua) estão vendo que não é tão fácil lidar com dita­dores auto­cratas.

A ditadura da Nicarágua se voltou, inclu­sive, con­tra a Igreja Católica, que nos primór­dios da “rev­olução” os apoiou.

Agora tem man­dado encar­cerar padres e bis­pos.

O gov­erno brasileiro ten­tou inter­me­diar, a pedido do Papa Fran­cisco, a lib­er­tação de um bispo e out­ros cléri­gos e o dita­dor da Nicarágua sequer aten­deu o tele­fonema do nosso pres­i­dente.

Mas não foi só isso, deter­mi­nou a expul­são do embaix­ador do Brasil porque este não com­pare­ceu a solenidade de comem­o­ração do 45º Aniver­sário da Rev­olução San­din­ista.

Fico até imag­i­nando o diál­ogo entre o Papa Fran­cisco e o Pres­i­dente Lula:

— Ô Lula quero lhe pedir que fale com o Ortega para soltar o nosso bispo. Pode lhe dizer que ele (o bispo) não vai mais rece­ber as recla­mações do povo nicaraguense aos seus abu­sos.

— Deixa comigo, Chico, essa eu mato no peito. Já falo com o Daniel e logo logo o bispo estará solto.

O resul­tado, como já disse ante­ri­or­mente, é que o “amigo” Daniel nem aten­deu ao tele­fonema do amigo Lula, e de “lam­buja” ainda expul­sou o embaix­ador brasileiro.

O papa como deve ser edu­cado sequer dev­erá per­gun­tar o resul­tado do “obséquio”.

Outra prova do nosso ver­gonhoso jul­ga­mento dos fatos é a falta de con­de­nação efe­tiva as bar­bari­dades cometi­das pela Rús­sia na guerra con­tra a Ucrâ­nia.

Veja, se é cor­reto que o gov­erno brasileiro age certo ao con­denar os abu­sos israe­lenses na Faixa de Gaza pro­movendo o exter­mínio de uma pop­u­lação inteira escu­d­ado na des­culpa de “perseguir” os ter­ror­is­tas do Hamas, erra feio ao igno­rar o que vem acon­te­cendo na guerra de expan­são da Rús­sia con­tra a Ucrâ­nia.

Imag­inem que nosso pres­i­dente até chegou a con­vi­dar o pres­i­dente russo para o encon­tro do G20 a ser real­izado no Brasil ainda este ano, garan­ti­ndo ao mesmo que deixaria de cumprir um acordo inter­na­cional para garan­tir sua segu­rança já que con­tra o san­guinário de Moscou pesa uma ordem de prisão do Tri­bunal Penal Inter­na­cional por crimes de guerra e o nosso país teria o dever de prendê-​lo na hora que pousasse em solo brasileiro.

Espero que ten­ham “esque­cido” tal insanidade. Putin inva­diu uma nação livre e pro­move uma das guer­ras mais sujas que se tem notí­cia, inclu­sive com seque­stros de cri­anças de seus pais para que sejam cri­a­dos na Rús­sia.

Como é que uma nação que é sig­natária de todos os trata­dos inter­na­cionais de dire­itos humanos pode fin­gir que não está acon­te­cendo nada, que não acon­te­ceu nada?

Só para encer­rar o debate em torno da falta de noção dos nos­sos gov­er­nantes (para não aplicar outro tipo de adje­ti­vação) acho insano esse debate, que já dura quase dois anos, em torno dos “pre­sentes” rece­bidos por gov­er­nantes – e que o TCU acaba come­ter mais um desatino –, a primeira coisa que dev­eríamos ter em mente é que os tais pre­sentes dev­e­riam ser incor­po­ra­dos ime­di­ata­mente ao patrimônio do país fosse o que fosse. Até porque o chefe de gov­erno, os min­istros, os gov­er­nadores de estado não os rece­be­riam se não fosse pelo cargo que ocu­pam, logo o pre­sente não é para ele é para o “cargo” e o cargo não é dele.

A segunda coisa, mais desmor­al­izante ainda, é o fato dos pre­sen­tea­dos – de esquerda ou de dire­ita, de antes, de agora ou do futuro –, “brigarem de faca” para jus­ti­ficar que os tais pre­sentes são pes­soais.

Fosse eu um gov­er­nante e recebesse um pre­sente de um san­guino­lento dita­dor da África ou das Arábias ou de qual­quer outro país, faria questão de tê-​lo como um pre­sente para Brasil e não para mim. Acred­ito que não teria muito orgulho em me achar amigo de um dita­dor oprime seu povo, que não respeita qual­quer regra básica da vida em sociedade ou que manda esquar­te­jar jor­nal­is­tas por dis­cor­dar do ele escreveu.

No Brasil vemos jus­ta­mente o con­trário. Existe orgulho em rece­ber jóias ou con­têiner de ditaduras odi­en­tas. Aliás, brigam por isso.

Vejo que são pes­soas que jamais poder-​se-​iam com­parar a um Win­ston Churchill.

Retorno à Venezuela para dizer que não será fácil para o Brasil encon­trar uma alter­na­tiva que não seja a humil­hação escan­car­ada.

Os atu­ais gov­er­nantes sem­pre apoiaram essa ditadura em for­mação desde os tem­pos de Chávez. Apoiou a ascen­são de Maduro igno­rando todo tipo de abu­sos que vinha come­tendo com o obje­tivo de se per­pet­uar no poder. Foi o “fiador” acordo que cul­mi­nou com essa eleição silen­ciando a todos os abu­sos cometi­dos, inclu­sive a inabil­i­tação de todos os adver­sários ou mandado-​os para a prisão.

Com tudo isso, as provas estão aí, Maduro perdeu para o adver­sário que per­mi­tiu que con­cor­resse e, mesmo assim não respeitou o resul­tado, per­pe­trando uma fraude com o Con­selho Nacional Eleitoral.

Agora a decisão está com a Suprema Corte daquele país que, assim como o CNE é com­posto por ali­a­dos do gov­erno, aliás, por pre­pos­tos da ditadura.

Pergunta-​se: essa Suprema Corte vai cor­ri­gir a besteira que fiz­eram ou insi­s­tir na fic­tí­cia eleição de Maduro? E o Brasil, o que vai dizer?

Mesmo as nações que sem­pre procu­ram o diál­ogo como forma para solu­cionar os con­fli­tos pre­cisam enten­der que exis­tem lim­ites até onde podem ir.

Abdon C. Mar­inho é advogado.

O tur­ismo como uma nova fron­teira econômica para o Brasil.

Escrito por Abdon Mar­inho


O tur­ismo como uma nova fron­teira econômica para o Brasil.

Por Abdon C. Marinho.

APROX­I­MADA­MENTE um ano escrevi o texto inti­t­u­lado “Tur­ismo: a aposta certeira de Brandão”. Falava, na opor­tu­nidade, na importân­cia que o gov­erno estava dando a um seg­mento impor­tante para a econo­mia mundial e que tem um poten­cial de cresci­mento extra­ordinário no nosso país.

O gov­erno estad­ual estava tra­bal­hando as chamadas rotas turís­ti­cas do estado: rota dos lençóis; flo­resta dos guarás; cha­pada das mesas, etc.

Enx­er­gava na ini­cia­tiva uma pos­si­bil­i­dade do estado bus­car mais uma janela de desen­volvi­mento e uma forma de reti­rar o nosso povo da mis­éria que vem se per­pet­uando por sécu­los.

Por esses dias o Maran­hão obteve mais uma con­quista. Em Delhi, Índia, a Unesco — Orga­ni­za­ção das Nações Unidas para Edu­cação, a Ciên­cia e a Cul­tura, infor­mou da con­cessão do título de Patrimônio Nat­ural da Humanidade aos nos­sos Lençóis Maran­henses.

Com esse já são três os títu­los dis­pen­sa­dos ao Maran­hão, o primeiro foi a São Luís, recon­hecida como Patrimônio Cul­tural da Humanidade; depois o recon­hec­i­mento do nosso Bumba-​Boi, e out­ras expressões cul­tur­ais como Patrimônio Ima­te­r­ial da Humanidade e agora o título con­ce­dido aos Lençóis.

Vejam que além desses títu­los o nosso estado pos­sui inúmeras out­ras belezas nat­u­rais e out­ros atra­tivos, basta citar as cidades da região met­ro­pol­i­tana com seu patrimônio histórico, cul­tural e nat­ural; a cidade Alcân­tara; o cir­cuito da Flo­resta dos Guarás e toda a beleza das reen­trân­cias maran­henses, que, cer­ta­mente, algum dia será tam­bém recon­hecida como patrimônio nat­ural mundial; a região da Cha­pada das Mesas; e, como disse, tan­tos out­ros.

Na esteira do que já intuía lá atrás, o tur­ismo é um seg­mento em expan­são no Brasil. Segundo o Banco Cen­tral, em dados divul­ga­dos recen­te­mente, os tur­is­tas estrangeiros já deixaram de receita no Brasil até o mês de julho deste ano, cerca de 21 bil­hões de reais, muito supe­rior a todo o ano de 2023, quando deixaram 18 bil­hões de reais e até mesmo supe­rior a todo o ano de 2014, ano da Copa do Mundo da FIFA ocor­rida no Brasil, quando os tur­is­tas estrangeiros deixaram de receita 20,2 bil­hões.

Esse vol­ume de receita ainda para um número de tur­is­tas estrangeiros, a nosso sen­tir, insignif­i­cante, até agora ainda não ultra­pas­samos sete mil­hões de tur­is­tas estrangeiros/​ano. Ou seja, ainda não alcançamos dez por cento do vol­ume de tur­is­tas que recebem a França ou a Espanha.

Segundo pub­li­cação espe­cial­izada, os países acima referi­dos, daqui a 15 anos estarão recebendo um número de tur­is­tas estrangeiros supe­rior a 105 e 110 mil­hões, respec­ti­va­mente, com a Espanha, como podemos ver, superando a França.

E o Brasil? Pois é, até agora ainda não alcançamos 10 mil­hões de estrangeiros/​ano.

É dizer, repito, o Brasil, prin­ci­pal­mente o nordeste e o Maran­hão junto, tem a pos­si­bil­i­dade, se sou­ber fazer o “dever de casa” de impul­sionar esses números atraindo para o Brasil nos próx­i­mos anos pelo menos 30, 40, 50 mil­hões de tur­is­tas estrangeiros/​ano.

Ora, se com menos de 7 mil­hões de tur­is­tas obtive­mos uma receita de 21 bil­hões de reais, já podemos imag­i­nar o quanto podemos colo­car de recur­sos finan­ceiros nos nos­sos esta­dos e municí­pios.

Já pen­saram se fosse o nosso país na con­fortável situ­ação de França ou Espanha ou mesmo a Turquia ou os Esta­dos Unidos que anual­mente recebem um número supe­rior a 50 mil­hões de turistas?

O Brasil tem poten­cial para isso. O que falta é enx­er­gar­mos essa fron­teira econômica e trans­for­mar esse poten­cial em desen­volvi­mento econômico para nos­sas unidades fed­er­adas.

Con­forme já expus diver­sas vezes, além de preparar­mos nos­sas rotas turís­ti­cas com um mín­imo de infraestru­tura, faz-​se necessário preparar as comu­nidades (e não ape­nas as pes­soas dire­ta­mente lig­adas ao tur­ismo) para rece­ber e bem acol­her esses tur­is­tas.

Assim como as riquezas decor­rentes desse setor da econo­mia pre­cisam ser par­til­hadas por todos os cidadãos, do mesmo modo, a riqueza cul­tural das inter­ações pre­cisam ser com­par­til­hadas por essas cidades e esta­dos. Para isso é necessário que o Brasil, o nordeste e o Maran­hão passem a inve­stir na for­mação lin­guís­tica da sua pop­u­lação retirando-​nos da inco­mum condição de povo monoglota.

Como já dito ante­ri­or­mente essa for­mação deve ocor­rer de forma mas­siva, tanto nas redes reg­u­lares de ensino mas, tam­bém, para as pes­soas que já este­jam pre­sentes no mer­cado de tra­balho ou para aque­les que não tra­bal­ham nem estudam.

A edu­cação, nunca é demais reafir­mar, é a chave para o desen­volvi­mento de qual­quer nação.

Para as local­i­dades de inter­esse turís­tico faz-​se necessário habil­i­tar­mos as pop­u­lações em pelo menos dois idiomas estrangeiros: o inglês e o espan­hol. Se o primeiro tem o condão de ser com­preen­dido como lin­guagem global, o segundo é essen­cial para pro­mover a inte­gração latino-​americana, um dos obje­tivos da República Fed­er­a­tiva do Brasil pre­visto na Con­sti­tu­ição.

Os gov­er­nos estad­u­ais e munic­i­pais pre­cisam colo­car entre as pri­or­i­dades para o desen­volvi­mento de seus esta­dos e municí­pios essa fron­teira econômica e ado­tar as medi­das necessárias para que não seja mais uma opor­tu­nidade per­dida.

O recurso do tur­ismo é uma receita nova, limpa e, ainda, não com­pro­metida com os dis­pên­dios reg­u­lares.

É dizer, são recur­sos que podem, efe­ti­va­mente, ala­van­car o desen­volvi­mento do Brasil, prin­ci­pal­mente, das regiões norte e nordeste.

Os próx­i­mos anos serão deci­sivos para colo­car­mos essas estraté­gias de desen­volvi­mento em prática. Já esse ano ter­e­mos o encon­tro no G20, em 2025 será a vez da COP30 e, em 2026, será a vez da Copa do Mundo da FIFA de Fute­bol Fem­i­nino. São even­tos podem e pre­cisam ser explo­rados para colo­car o Brasil entre os prin­ci­pais roteiros turís­ti­cos do mundo.

O sucesso ou o fra­casso de tal empre­itada só depende de nós.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

Reflexões para a democracia.

Escrito por Abdon Mar­inho


Reflexões para a democ­ra­cia.

Por Abdon C. Mar­inho.

EXIS­TIU UM TEMPO na história da humanidade em que era “nor­mal” que uns escrav­izassem out­ros. A econo­mia de muitas nações, por muito tempo, viveu dessa prática ver­gonhosa.

Emb­ora ten­hamos con­hec­i­mento de escravidão de out­ros povos, os africanos – e as nações da África –, foi quem mais sofreu com essa prática – e vivem com as suas con­se­quên­cias até hoje.

Aque­les que viviam da escravidão eram “cidadãos de bem”, pro­te­tores da família, da moral e dos bons cos­tumes; iam mis­sas de domingo com suas famílias e con­tavam com a sim­pa­tia de todos.

O Brasil viveu dessa prática odi­enta por sécu­los, até, pre­cisa­mente, 1888, quando foi dec­re­tada a extinção da escravidão no nosso país.

Ainda hoje per­siste práti­cas de escravidão – não ape­nas de negros, mas, tam­bém, de bran­cos –, em várias modal­i­dades de explo­ração.

A mis­éria e a fome são os novos gril­hões que apri­sionam mil­hares, senão mil­hões de pes­soas no Brasil e no resto do mundo.

Os “novos” escrav­ocratas não estão escon­di­dos nos “cafundós do Judas”, estão bem mais perto do que imag­i­namos, fre­quen­tam a “sociedade”, são tidos por cidadãos de bem, desco­la­dos, ricos, “bem suce­di­dos”, etc., o típico cidadão que se diz defen­sor da lei e dos bons cos­tumes.

Muito emb­ora a escravidão de negros tenha sido declar­ada extinta no Brasil, quase um século e meio depois, os efeitos da escrav­iza­ção con­tin­uam pre­sentes na sociedade se man­i­fe­s­tando con­tra os negros de forma velada ou escan­car­ada nas várias for­mas de racismo que assis­ti­mos diari­a­mente.

Muitas das vezes as dis­crim­i­nações soci­ais e o racismo ocor­rem de for­mas tão sutis que mesmo as víti­mas não se dão conta e acabam por aliar-​se aos dis­crim­i­nadores racis­tas.

Exis­tiu um tempo em que as mul­heres eram con­sid­er­adas cidadãs de segunda cat­e­go­ria, viviam em função do marido (e na dependên­cia dele) ou do filho (e na dependên­cia desse), não era con­sid­er­ada apta para o tra­balho, para exercer quais­quer funções fora do lar e mesmo neste, dev­e­ria cumprir o papel de “parideira” estado sem­pre a dis­posição do homem quando este a quisesse “usar” e fazer fil­hos homens sendo “cul­padas” por não engravi­darem ou por não parirem fil­hos homens.

Uma nov­ela de época tendo o grande ator José Wilker no papel prin­ci­pal na qual con­tra­ce­nava com não menos bril­hante atriz Maitê Proença retrata muito bem essa fase triste da história brasileira.

Em todo mundo a con­quista do dire­ito de voto fem­i­nino foi muito demor­ada.

No Brasil só con­quis­taram esse dire­ito a par­tir de 1932. Quase cem anos depois a par­tic­i­pação da mul­her na política brasileira e na vida pública nacional ainda é pífia. Basta ver o número de mul­heres no Con­gresso Nacional, nas Assem­bleias Leg­isla­ti­vas, nas Câmaras de Vereadores, nas Cortes de Justiça, seja estad­ual, fed­eral, nos car­gos públi­cos de relevân­cia.

Quando faze­mos essa análise em relação as mul­heres pre­tas aí sim é que não existe mesmo.

O Brasil – e tam­bém o mundo –, ainda vivem uma espé­cie de patri­ar­cado racista onde uma elite rica, mas­culina e branca se acha no dire­ito de coman­darem os des­ti­nos da sociedade mundial.

Ainda hoje em muitas nações do mundo as mul­heres não têm respeitado seus dire­itos mais ele­mentares e mesmo nas chamadas democ­ra­cias oci­den­tais sofrem toda sorte de vio­lên­cia.

Os números estão aí para serem con­fronta­dos.

A cada dia mil­hares de mul­heres sofrem vio­lên­cia física ou sex­ual, são assas­si­nadas por homens que ainda hoje se jul­gam seus donos; sofrem vio­lên­cia pat­ri­mo­nial sendo obri­gadas a tra­bal­harem para sus­tentarem rufiões e malan­dros de todo tipo, sob pena de sofr­erem mais vio­lên­cia física ou serem mortas.

Todos os dias se tem notí­cia de cri­anças sendo “ven­di­das” para a pros­ti­tu­ição ou mesmo para serem “escrav­izadas” de diver­sas for­mas.

Em maior ou menor grau, a mis­oginia e a vio­lên­cia de gênero se fazem pre­sente nos dias atu­ais.

E se man­i­fes­tam muitas das vezes das for­mas mais absur­das e tam­bém sutis.

Outro dia a Câmara dos Dep­uta­dos do Brasil colo­cou em régime de urgên­cia um pro­jeto de lei que tinha por obje­tivo crim­i­nalizar as mul­heres que prat­i­cas­sem o aborto após deter­mi­nado lapso tem­po­ral. Como no Brasil o aborto só é per­mi­tido em três casos (nos casos de estupro, risco de vida para a mãe e nos casos de anencé­fa­los) a pena assi­nada seria maior do que aquela deter­mi­nada para o cidadão que estuprou a vítima.

Um outro caso, ainda no Brasil, que com­prova o quanto ainda ter­e­mos que per­cor­rer para chegar­mos a uma sociedade min­i­ma­mente civ­i­lizada, aprovou-​se uma anis­tia aos par­tidos políti­cos que deixaram de cumprir a cota de gênero e os isen­tando de aplicar os recur­sos públi­cos nas cam­pan­has de mul­heres e negros.

Esse tipo de coisa, infe­liz­mente, não é priv­ilé­gio do estado brasileiro, agora mesmo, na cam­panha eleitoral amer­i­cana, o can­didato Don­ald Trump, desde sem­pre rico, branco, macho, disse que a can­di­data adver­sária não pode­ria tornar-​se pres­i­dente daquele país por ser mul­her e social­ista.

Como social­ismo é algo inex­is­tente para os amer­i­canos, ele não “aceita” é a can­di­datura de uma mul­her, e ao seu estilo, dev­erá atacá-​la por todos meios baixos e sór­di­dos.

Ora, onde já se viu uma mul­her pre­tender um cargo político de tanta relevân­cia e respon­s­abil­i­dade?

Outro dia vi uma declar­ação do can­didato a vice-​presidente de Trump onde o mesmo dizia que a can­di­data democ­rata não estaria apta por nunca ter dado a luz, nunca ter parido.

Como podemos perce­ber os “cidadãos de bem” não con­seguem se desvin­cu­larem do pas­sado escrav­ocrata, patri­ar­cal e dis­crim­i­natório con­tra todos aque­les que não são do seu “padrão”. Esse tipo de com­por­ta­mento encontra-​se na raiz das maiores tragé­dias da humanidade.

As vésperas das eleições no Brasil e nos Esta­dos Unidos acho de fun­da­men­tal importân­cia para a sociedade fazer esse tipo de reflexão.

Que tipo de rep­re­sen­tação política os brasileiros quer­e­mos nas prefeituras e nas Câmaras Munic­i­pais: uma rep­re­sen­tação que pro­cure res­gatar e rep­re­sen­tar toda a sociedade brasileira com um número cada vez maior de mul­heres, negros, pes­soas com defi­ciên­cia na política ou a rep­re­sen­tação do tempo dos coro­néis?

Em relação as eleições pres­i­den­ci­ais amer­i­canas vejo com extremo otimismo e bem-​querer o ingresso da atual vice-​presidente Kamala Har­ris para dis­putar o cargo de pres­i­dente.

Essa mul­her filha de um pai imi­grante jamaicano e de uma mãe imi­grante indi­ana rep­re­senta um sopro revig­o­rante para o que se entende por democ­ra­cia, um gov­erno de todos e para todos. Mostra para mil­hões (ou bil­hões) de meni­nas ao redor do mundo que elas podem chegar ou quis­erem e que não podem aceitar por serem mul­heres, negras, um papel secundário em qual­quer lugar onde se encon­trem.

O anor­mal numa sociedade é a desigual­dade. Todos pre­cisam ser iguais e trata­dos como iguais e igual­mente mere­ce­dores da atenção, respeito e opor­tu­nidades.

Não parece razoável que em pleno século XXI ainda ten­hamos que viver em um mundo com tanta desigual­dade, intol­erân­cia e desre­speito aos que querem viver suas próprias vidas.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.