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Dadido partiu.

Escrito por Abdon Mar­inho


DADIDO PAR­TIU.

Por Abdon C. Marinho.

DADIDO chegou! Dadido chegou!

Era assim, na aldeia da minha infân­cia, que nos refer­íamos à chegada do meu irmão mais velho quando ele voltava nos finais sem­ana ou nas férias ou quando apare­cia por lá por qual­quer outro motivo.

Ele e minha irmã (mais velha que ele) foram reg­istra­dos com sobrenomes difer­entes do restante da família: Mar­inho de Melo ao invés de Clementino de Mar­inho. Na Assem­bleia, em um período em tra­bal­hamos simul­tane­a­mente, ele como asses­sor de Leal e eu como chefe de gabi­nete de Juarez Medeiros, não faziam essa lig­ação.

Na infân­cia, ainda bem nov­inho, tra­bal­hava na roça para aju­dar a criar os out­ros irmãos.

Mas meu pai, na hora que pode, o colo­cou pra estu­dar em Gov­er­nador Archer, municí­pio de onde nosso povoado era dis­trito, dis­tante 18 km. Como não tinha estrada tinha que ficar por lá a sem­ana toda, hospedado na casa das Leonel, um grupo de mul­heres que se afeiçoaram a minha mãe e que rece­beu Dadido e depois out­ros de nós para estu­dar, até que meu pai alu­gou uma casa da Rua do Sossego, Gov­er­nador Archer.

Ele foi o primeiro a ir e quando voltava para o povoado era uma festa.

Lá na mer­cearia de tio Dió (uma casa grande com vasto alpen­dre sobre uma calçada alta se dividia entre a parte res­i­den­cial e uma qui­tanda que tinha de tudo) as pes­soas se reu­niam.

— Dadido me paga uma dose. Pedia o velho Arthur. Sem­pre o vi como velho, mesmo quando muito jovem. Ele era par­ente de minha mãe e assi­nava como Melo (Arthur Max­imi­ano de Melo) e viera com car­a­vana do Rio Grande do Norte para as ter­ras do Mearim.

— Ô “tie” Dió, coloque uma dose seu Arthur.

Tio Dió pegava um daque­les “copos de enga­nar bêbado” e colo­cava a dose para o seu Arthur que a bebia de uma tala­gada só.

Pas­sado um tempo lá voltava Arthur: —Dadido, paga mais uma dose que te dou uma abób­ora.

Dadido autor­izava tio Dió. Depois que Arthur tomava umas três ou qua­tro sem­pre com a des­culpa de dar uma abób­ora ou um ger­i­mum ou qual­quer outra coisa e Dadido ia cobrar o velho Arthur ia pra cima dele: — vou te dar coisa nen­huma, rapaz, eu só que­ria era tomar minha dose.

E todos caiam na gar­gal­hada farta.

Uma das min­has primeiras lem­branças que tenho de Dadido é a do “rapto” para casar.

Naquele tempo, final dos anos sessenta e ini­cio do setenta, mesmo para o giná­sio (fun­da­men­tal maior) não haviam pro­fes­sores habil­i­ta­dos no municí­pio e a prefeita da época D. Mund­inha, “impor­tava” pro­fes­so­ras de out­ros cen­tros urbanos mais desen­volvi­dos para ensi­nar o povo. De Timon veio a pro­fes­sora Ori­eta; de Barão de Gra­jaú, a pro­fes­sora Socorro e out­ras de out­ros lugares.

Dadido e Socorro se “engraçaram” um com o outro, ele aluno e ela pro­fes­sora, e começaram a namorar. E depois inven­taram de fugir para casar.

Uma noite resolveram fugir a pé com des­tino ao Cen­tro Novo para “con­sol­i­dar” a relação, seguiram estrada a fora con­tando ape­nas com a clar­i­dade da lua. Dona Mund­inha, claro, não gos­tou nada disso – tinha respon­s­abil­i­dade com aque­las moças –, e man­dou o jipe da polí­cia atrás dos fujões. Na hora que estes avis­tavam o jipe cor­riam para o mato para despistá-​los. E, de despiste em despistes, não foram alcança­dos.

E assim, lá pelas tan­tas, chegaram ao Cen­tro Novo. Meu pai e minha mãe, que ainda era viva, decidi­ram que teriam de casar, como, aliás, eles que­riam.

Acho que eu tinha uns três anos, se muito, mas tenho a lem­brança desse fato.

Assim, meu irmão, o mais velho dos homens, casou-​se com Socorro e viveram um casa­mento que durou até o dia 1º de novem­bro de 2024, com seus altos e baixos cumpri­ram o man­da­mento do “até que a morte os sep­are”, mais de cinquenta anos de casa­mento.

Com a ajuda de ambas as famílias começaram a vida de casa­dos.

Depois, em mea­dos dos anos setenta, vieram para São Luís, morar na Vila Bessa, Dadido con­seguiu um emprego na COHAB, a com­pan­hia de habitação do estado, e depois foi tra­bal­har como asses­sor do dep­utado Raimundo Leal.

Depois foram para o Habita­cional Turu. Foi nessa época, já em 1985, que mudei-​me para ilha, para estu­dar e ten­tar a vida.

Na COHAB aju­dou muitos a con­seguirem sua casa própria ou mesmo enti­dades, como a igreja do Turu.

Como asses­sor de Leal per­cor­reu o Maran­hão todo aten­dendo as deman­das dos eleitores do dep­utado, de empre­gos, que na época não eram através de con­curso público, a poços arte­sianos, sis­temas de abastec­i­men­tos ou rede pública de ilu­mi­nação.

Em ambos os empre­gos sem­pre estava dis­posto a aju­dar os que pre­cisavam e a rece­ber na sua casa tan­tos seus par­entes como os de Socorro que vin­ham para a cap­i­tal para estu­dar. Foi assim comigo e meus irmãos que vieram antes de mim e com os irmãos de Socorro e, depois, com alguns sobrin­hos.

Com Raimundo Leal desen­volveu uma relação de “pai e filho” a ponto do vet­er­ano dep­utado con­fiar que lhe rep­re­sen­tasse em tudo que era evento e até mesmo “tocar” suas cam­pan­has eleitorais quando já se encon­trava doente.

Através de Leal fez amizades com diver­sos out­ros políti­cos entre os quais o saudoso José Elouf.

Quando da reforma prev­i­den­ciária, do gov­erno FHC, decidiu por aposentar-​se de forma pro­por­cional para evi­tar perder alguns de seus dire­itos.

Aposen­tado, com­prou um sítio na região do Cumbique, e voltou às ori­gens cam­pone­sas esta­b­ele­cendo uma relação quase mítica com a natureza.

Com uma mão quase “santa” para as plan­tas, cul­ti­vava de tudo: goiaba, melan­cia, abób­ora, fei­jão, milho, laranja, lima, limão, coco e tan­tas out­ros veg­e­tais.

Quando ia lá me mostrava o que tinha nessa área. Na última vez que fui mostrou-​me um fron­doso pé de canela e disse que iria pro­duzir umas mudas de “Lalita” para eu plan­tar no meu sitio. A “lalita” é uma planta que ele mesmo criou que é o cruza­mento de laranja, lima e tan­ge­rina e tem um sabor único.

Dizia que as plan­tas tin­ham sen­si­bil­i­dade e que, às vezes, quando apare­cia por lá alguém “car­regado” elas mur­chavam. Ele já sabendo evi­tava mostrar deter­mi­nadas cri­ações para algu­mas pes­soas.

Essa mesma devoção que tinha com as plan­tas tam­bém devotava aos ani­mais, notada­mente os pás­saros. Sem­pre deix­ava fru­tas nos pés para que eles se ali­men­tassem e não se inco­mo­davam se eles “destruíam” os fru­tos.

Me dizia: — meu irmão, eles pre­cisam mais desses fru­tos do que eu.

No sítio, que virou sua razão de vida e seu san­tuário favorito gostava de rece­ber os ami­gos para comer uma carne, tomar uma cerveja (sagrada para ele) e sem­pre cobrava minha pre­sença.

Emb­ora sejamos de uma família muito grande aqui na ilha éramos ape­nas nós dois de irmãos. Ele, mais expan­sivo, gostando de rece­ber nos finais de sem­ana; eu, já mais reser­vado e gostando de usar os finais de sem­ana para ler ou escr­ever.

Quando tinha algum “evento” mais impor­tante, avisava na véspera: — amanhã estou te aguardando no sítio. Só aviso agora para não da tempo de “inven­tar” uma des­culpa. Vou man­dar um dos meni­nos te bus­car. E man­dava, ou Denil­son (que perdemos há quase três anos) ou Mar­cos Viní­cius ou Assis.

Foi assim há quinze dias, por ocasião do aniver­sário de Már­cia, a filha mais velha. Quando falou que man­daria me bus­car, disse que não pre­cisava, pegaria um carro de aplica­tivo. Como fiz. Na des­pe­dida ele segurou pela última vez no meu braço para ajudar-​me a entrar no carro de aplica­tivo com uma sacola de “lal­i­tas”, que man­dou o neto col­her na hora e um galho de canela.

Quando ia, ficava por lá umas duas ou três horas, era apre­sen­tado para alguns ami­gos dele, reen­con­trava alguns par­entes e o via “tirando onda” com os mais próx­i­mos, como o Toinho, marido de nossa sobrinha-​neta Cristina ou o genro Moura, a quem botou o apelido de “Adamas­tor”. Inti­mava dizendo: —meu irmão, todo final de sem­ana o “Adamas­tor” toma de conta da chur­rasqueira e queima a carne, eu deixo na esper­ança dele apren­der um dia, e ria.

A bon­dade de Dadido fez com que Deus o pre­mi­asse com uma boa morte, sem qual­quer sofri­mento, mor­reu enquanto dormia. Era o Dia de Todos os San­tos, 1º de novem­bro.

No seu enterro, no dia seguinte, Fina­dos, os pás­saros, como em uma última hom­e­nagem, fiz­eram uma revoada sobre seu túmulo. Só sobre o seu túmulo.

Foi a con­fir­mação e a dura certeza: Dadido partiu.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

O que a bunda não prejudica.

Escrito por Abdon Mar­inho

O que a bunda não prejudica.

Por Abdon C. Marinho.

O ASSUNTO mais comen­tado nessa Ilha dos Amores, no Maran­hão e, até mesmo no Brasil tem sido a “per­for­mance” de uma pro­fes­sora (?), escritora (?), pesquisadora (?), ativista (?), etc. ocor­rida na Uni­ver­si­dade Fed­eral dos Maran­hão — UFMA, por esses dias. Isso porque a “palestrante” em deter­mi­nado momento de sua “palestra” subiu à mesa e exibiu as partes puden­das para a seleta plateia.

Pronto! Não teve mais nada de rel­e­vante acon­te­cendo no mundo que superasse o “bur­bur­inho” cau­sado pelo “evento acadêmico”.

Não inter­essa se os palesti­nos no norte da Faixa de Gaza, destruída numa guerra que já ceifou mais de quarenta e duas mil vida, setenta por cento delas mul­heres e cri­anças, estão, lit­eral­mente, mor­rendo de fome; não inter­essa, tam­bém, se o Estado Judeu voltou suas armas para o Líbano, e sua cap­i­tal, Beirute, enfrenta os maiores bom­bardeios que se tem notí­cia em décadas, inclu­sive, colo­cando em risco os mil­hares de brasileiros que moram naquele país; não inter­essa se a Rús­sia, que inva­diu a Ucrâ­nia em 2022, dia após dia, pro­move bom­bardeios naquele país, que resiste brava­mente, seques­tra cri­anças, mata e desloca cidadãos; não inter­essa se a fome na África leva mil­hares (ou mil­hões) à morte anual­mente ou que as guer­ras naquele con­ti­nente são as mais fer­ozes; não inter­essa as eleições amer­i­canas daqui a duas sem­anas; não inter­essa se o fundão eleitoral de 5 bil­hões nas últi­mas eleições foi usado para com­prar votos ou para tornar mais ricos alguns esper­tal­hões; não inter­essa a emergên­cia climática que o mundo todo vive e que ameaça da extinção da espé­cie humana nas próx­i­mas décadas e, porque não dizer, a extinção do próprio plan­eta.

O único assunto que inter­essa a uma parcela sig­ni­fica­tiva da nossa sociedade é o c* da palestrante (?) da UFMA.

Viramos um país de idio­tas? É isso?

Tenho visto debates acalo­rados em gru­pos de What­sApp, arti­c­ulis­tas fazendo arti­gos fer­ozes; dep­uta­dos prom­e­tendo o inferno para os pro­mo­tores do evento, cidadãos indig­na­dos, etcetera e tal.

Con­fesso que tenho ten­tado enten­der toda essa bal­búr­dia em torno desse assunto. E con­fesso que não tenho con­seguido enten­der razão de tanta polêmica.

Meu Deus, onde já se viu fazer esse tipo de “per­for­mance” numa uni­ver­si­dade? Numa uni­ver­si­dade pública? Usando recur­sos públi­cos? Qual o futuro da edu­cação do país? Como ficarão nos­sas crianças?

Os cidadãos, os rep­re­sen­tantes do povo estão indig­na­dos. Recebi até pedi­dos para escr­ever sobre o assunto.

Como disse, não con­sigo enten­der a razão de tanta polêmica. Noutros tem­pos isso seria um assunto dis­cu­tido com ares de “mux­oxo” durante um ou dois dias no depar­ta­mento da uni­ver­si­dade, talvez se esten­desse até um outro depar­ta­mento, e só.

O que vejo são os “cidadãos de bem” e indig­na­dos com a per­for­mance da “palestrante” acabaram dando uma “audiên­cia” que ela não teria em tem­pos normais.

Sob o argu­mento de “pro­te­gerem” a uni­ver­si­dade acabam por expor a mesma a uma injus­ti­fi­cada situ­ação de achin­cal­hamento público.

O que inco­modou tanto esses cidadãos de bem?

A palestra de con­teúdo, dig­amos, impróprio, deu-​se, pelo que vi, em uma sala ou um pequeno auditório, não deve ter con­tato com nem cem pes­soas na plateia; os que estavam lá, até onde sei, eram adul­tos; estavam lá por sua livre e espon­tânea von­tade; se aplaudi­ram ou se vaiaram foi por gosto próprio.

Qual o impacto disso na vida dos cidadãos? No preço do arroz, do fei­jão, da gasolina ou da inflação?

Ah, mas estavam em um ambi­ente acadêmico, não podem exibir “as partes” em tal ambi­ente.

Como disse, eu não con­sigo enten­der como uma “per­for­mance” que pode ou não ser con­sid­er­ada de bom ou mau gosto ganhe tanto destaque.

Foi a exibição da bunda? Foi por ser a bunda de uma mul­her trans? Foi por ser na uni­ver­si­dade? Foi por, suposta­mente, envolver recur­sos públi­cos?

Em 1987, por­tanto, há quase quarenta anos, a rede globo de tele­visão, com 80% ou mais da audiên­cia em canal aberto exibiu a nov­ela “Brega&Chique”, no horário das 7 horas. Essa nov­ela, na aber­tura, ao som da música “pelado” do grupo Ultraje a Rigor, exibia um homem total­mente nu, lit­eral­mente, pelado com as mãos no bolso, como dizia música.

Chegá­va­mos em casa, voltando do colé­gio – os que estu­davam à tarde –, e lá estava a “família brasileira” no sofá da sala, com um prato de comida na mão vendo uma nov­ela que exibia na aber­tura um homem total­mente pelado.

Foi assim de abril a novem­bro de 1987.

No iní­cio ainda ten­taram cen­surar diante da pressão de alguns seg­men­tos, mas depois lib­er­aram total­mente a aber­tura da nov­ela, que foi, inclu­sive, reex­ibida out­ras vezes na parte da tarde. Nos inter­va­los da nov­ela eram exibidas diver­sas peças pub­lic­itárias dos gov­er­nos, fed­eral, estad­u­ais e munic­i­pais.

Desde então pul­u­lam nudes em diver­sos pro­gra­mas tele­vi­sivos nas redes de tele­visões aber­tas e fechadas, cenas de sexo picantes, sem que isso des­perte a atenção ou a indig­nação de quem quer que seja.

Querem ver outra coisa? Todos os anos os gov­er­nos fed­eral, estad­u­ais e munic­i­pais des­ti­nam mil­hões e mil­hões dos orça­men­tos públi­cos para as fes­tas de car­naval no país inteiro. Me respon­dam: já viram alguma pes­soa indig­nada pelo fato homens e mul­heres se exibirem para mil­hares ou mil­hões semi­nuas e muitas vezes até nuas?

Essa sem­ana o assunto da “per­for­mance” na UFMA estava em rede nacional no Brasil Urgente ou no Jor­nal da Band com os mes­mos ares de escân­da­los que teste­munhamos nes­sas pla­gas. Aí lem­brei que quando mais jovens per­dia noites de sonos para assi­s­tir os “car­navais proibidões” da … Band.

A per­for­mance da UFMA, no ambi­ente da UFMA é mais danosa do que assis­ti­mos diari­a­mente nos vários meios de comu­ni­cação de massa, inclu­sive con­cessões públicas?

Vejam os sen­hores que muitos dos dep­uta­dos indig­na­dos e revolta­dos com o que acon­te­ceu na UFMA, de gosto duvi­doso ou não – não me cabe jul­gar –, des­ti­nam mil­hares de reais para os even­tos de con­teúdo sim­i­lar ao que repreen­dem.

Acho, inclu­sive, que dev­e­riam des­ti­nar suas emen­das para bol­sas de estu­dos.

Encerro dizendo que não sou con­tra ou a favor desse tipo de “per­for­mance” numa uni­ver­si­dade pública ou pri­vada, mas, dizendo, que se não fosse a “indig­nação” aço­dada o assunto teria “mor­rido” naquela sala e para uma plateia de 30 ou 40 pes­soas, se é que tinha esse número de pes­soas lá.

O escân­dalo trouxe uma vis­i­bil­i­dade e exposição que os indig­na­dos pro­te­tores da uni­ver­si­dade não que­riam (?). Ou será que o que que­riam, efe­ti­va­mente, era “lacrar” em cima do episódio?

Será que a exibição na UFMA cau­sou mais dano do que divul­gação feita pelos cidadãos de bem pro­te­tores da universidade?

Não deixa de ser bisonho que os mais indig­na­dos são jus­ta­mente aque­les que dia sim e no outro tam­bém recla­mam con­tra a cen­sura, a falta de liber­dade de expressão, a ditadura do judi­ciário, o Xandão …

Será que a liber­dade de expressão que tanto pregam e dizem defender não alcançaria a aquela per­for­mance também?

Se sou con­vi­dado para uma festa e ela não faz meu estilo, eu não vou. Se sou con­vi­dado para uma palestra e o assunto não tem nada a ver comigo, os pre­mio com minha ausên­cia; se a tele­visão exibe algo que não gosto, mudo de canal ou desligo a tele­visão.

Acho que é o mel­hor cam­inho.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

FRASES E SUCESSÃO.

Escrito por Abdon Mar­inho


Frases e sucessão.

Por Abdon C. Marinho*.

GOSTO muito de frases, prin­ci­pal­mente de uma frase bem feita. Gosto tanto que vez ou outra até “arrisco” a lap­i­dar alguma.

Há algum tempo um amigo me per­gun­tou: –– Abdon, tu achas que estão “fri­tando” o Camarão?

Para os leitores que não são do estado ou Brasil, a inda­gação era uma refer­ên­cia ao vice-​governador do Maran­hão e, então, secretário de edu­cação, Felipe Camarão.

Respondi-​lhe: –– Se estão “fri­tando” o camarão não sei, mas se estiverem é no “alho e no orleans”.

Uma refer­ên­cia a um prato típico da culinária maran­hense e ao nome do gov­er­nador.

Ele e out­ros para quem disse a frase não se con­tiveram e riram a valer do trocadilho.

Encer­rado o pleito munic­i­pal começaram as inda­gações sobre a sucessão de 2026. Ocu­pado e divi­dido entre as ativi­dades da advo­ca­cia e as empre­sari­ais, não tenho acom­pan­hado dire­ito. (Faz alguns anos que decidi pro­mover alguns pro­je­tos edu­ca­cionais. Será a minha con­tribuição por tudo que recebi da vida).

A falta de tempo tem me “rou­bado” o prazer do hobby da escrita – mas a causa é boa.

Uma tarde dessas recebi um amigo que que­ria saber minha opinião sobre a sucessão de 2026.

Respondi-​lhe com as frases que fui cole­cio­nando ao longo dos anos, as quais, muitas, já com­par­til­hadas com os leitores.

Disse-​lhe que o “dono da bola” do jogo da sucessão era o gov­er­nador no estado, Car­los Orleans Brandão. Ressal­vado que ele era o “dono da bola, mas não o dono do jogo”, pois sendo a política um “jogo de equipe” ele depen­de­ria de out­ros atores e con­forme a decisão que tomasse “pode­ria jogar ou não o jogo da politica”.

Tive que explicar na frase de Mag­a­l­hães Pinto 19091996 (?), politico mineiro, que a “polit­ica é como as nuvens, você olha ela estar de um jeito, olha nova­mente, ela estar de outro jeito”.

É dizer, caso o gov­er­nador decida por ficar até o fim do mandato tem todas as condições de eleger o seu suces­sor, tal o nível de hege­mo­nia polit­ica que alcançou.

Por outro lado há uma frase – não me recordo se me foi dita pelo saudoso Cafeteira (19242018), um fra­sista nato, ou se ele ape­nas a repetiu para mim –, que é a seguinte: “o Senado é bem mel­hor que o céu, pois no céu para entrar você pre­cisa mor­rer, já no Senado você des­fruta de suas van­ta­gens e benesses ainda vivo”. Cafeteira bem sabia disso pois foi senador por dezes­seis anos.

Esse é o jogo da politica.

Se sua excelên­cia quiser entrar no “céu dos vivos” a par­tir de 2027 – é quase certo que uma das vagas será dele, se dese­jar – o “dono da bola” pas­saria a ser o crustáceo, “frito ou não”, que teria oito meses de gov­erno pela frente e dois cabos eleitorais incon­tro­ver­sos: os leões que guarnecem o palá­cio do mesmo nome.

Nesse novo jogo o campe­onato – ou devo dizer a arena –, estaria aberto entre vários com­peti­dores o próprio Camarão, com seus leãoz­in­hos, o Hilton Gonçalo, prefeito de Santa Rita, a Iracema Vale, pres­i­dente da Assem­bleia, o Eduardo Braide, Prefeito de São Luís; e diver­sos out­ros agentes políti­cos da atu­al­i­dade e mesmo aque­les que ainda pos­sam se apre­sen­tar como com­pet­i­tivos pelos próx­i­mos dois anos, inclu­sive, alguém elegível da família do atual governador.

Cogitou-​se a pos­si­bil­i­dade do atual gov­er­nante con­tin­uar como o “dono da bola” man­tendo o sonho de entrar vivo no céu do Senado a par­tir de 2027.

Nessa hipótese o Camarão, que é legit­i­mado a sucedê-​lo, renun­cia­ria junto com ele, abrindo a pos­si­bil­i­dade da Assem­bleia Leg­isla­tiva eleger indi­re­ta­mente um gov­er­nador para tirar o restante do mandato, este, inclu­sive, com a pos­si­bil­i­dade de candidatar-​se a reeleição.

Mas o que levaria alguém a renun­ciar a oito meses de comando do estado com pos­si­bil­i­dade de dis­putar a reeleição no cargo?

Há uma frase de ninguém menos que Getúlio Var­gas que diz o seguinte: “os Tri­bunais de Con­tas são os lugares onde ‘arquiv­a­mos’ os nos­sos ami­gos”. Pode­ria acres­cen­tar, tam­bém, os “incô­mo­dos”.

Sabe­mos que não fal­tam vagas no TCE e mesmo que não tivesse ou não hou­vesse a pos­si­bil­i­dade de abrirem até lá, sem­pre se pode­ria con­tar com a “renún­cia” de alguém “cansado” da labuta. A questão residiria na famosa frase de um jogador de fute­bol ao rece­ber as lições do téc­nico. O téc­nico dizia como a equipe dev­e­ria jogar, que jogadas dev­e­ria armar, quando o jogador inter­rompeu e indagou: –– sim, pro­fes­sor, mas o sen­hor com­bi­nou tudo isso com os “rus­sos” tam­bém?

No caso da sucessão o “russo” seria o Camarão, e a per­gunta que se faz – ele, inclu­sive, negou tal pos­si­bil­i­dade –, é se ele estaria dis­posto ou toparia renun­ciar a oito meses de mandato para, nas palavras de Var­gas, ser “arquiv­ado” no tri­bunal.

Lem­bro que em 2013 até cog­i­taram um “campe­onato” nesses moldes. A gov­er­nadora de então, Roseana Sar­ney, renun­cia­ria, o vice-​governador iria para o TCE e o can­didato “preferido”, Luis Fer­nando, seria eleito indi­re­ta­mente pela Alema e can­didato a própria reeleição.

Até chegaram a exe­cu­tar a primeira parte da estraté­gia do jogo, o vice-​governador, Wash­ing­ton Oliveira acabou indo para o “arquivo” do TCE, o que era abso­lu­ta­mente improvável em condições “nor­mais”, mas em algum momento “erraram o ponto”, o can­didato preferido “foi desis­tido” da dis­puta, Roseana ficou até o fim e perderam para Flávio Dino.

Ape­nas para con­jec­turar, se o “campe­onato eleitoral” tivesse seguido o roteiro orig­i­nal­mente plane­jado, talvez até tivessem ganho de Flávio Dino ou a eleição teria sido mais equi­li­brada – ou menos vexatória.

Em 2006, se não me falha a memória, chegaram a cog­i­tar o mesmo tipo de jogo, mas o vice-​governador de então, Jurandir Lago, não teria topado – se é ver­dade, deve arrepender-​se até hoje –, o gov­er­nador Zé Reinaldo ficou até o fim e elegeu seu suces­sor e fez Flávio Dino dep­utado fed­eral, trazendo-​o do judi­ciário para a polit­ica ou vice-​versa.

Caso o atual gov­er­nador resolva seguir esses dois exem­p­los e ficar até o fim, pelos exem­p­los acima, estou certo que só o fará por alguém da família e de quem goste muito, pois aí, recorro a outra frase céle­bre, essa do meu pai: “sangue dói”.

É dizer, o gov­er­nador até poderá renun­ciar ao “céu onde se entra vivo”, mas se isso acon­te­cer, podem “tirar o cav­al­inho da chuva”, será por alguém “de sangue”, pois na frase imor­tal, nova­mente de Mag­a­l­hães Pinto “Gratidão em política só dura 48 horas”.

Não pre­cisa ser um gênio da política para chegar a essa con­clusão. O gov­er­nador que é inteligente – se não fosse não teria “se cri­ado” nesse ramo e não teria chegado onde chegou se não tivesse sagaci­dade.

Além do mais, tem dois exem­p­los “den­tro de casa”.

Se em algum momento lhe assaltar alguma dúvida sobre o que fazer poderá dissipá-​la com uma ou duas lig­ações: –– Zé Reinaldo, valeu a pena teres ficado até o fim para garan­tir a eleição do suces­sor e dos ali­a­dos? Ou: –– Roseana, valeu a pena ter desis­tido do “céu” em 2014?

Mas como já dizia um outro famoso homem público “a política é arte das aparên­cias”. Os mali­ciosos dizem, na ver­dade, que é “a arte da enganação”. Em qual­quer das situ­ações é necessário que se tenha “ner­vos de aço”. Não há espaço para amadores ou para os afoitos.

Nessa per­spec­tiva o pen­sa­mento aqui esboçado pode fazer sen­tido ou não. Posso está certo ou total­mente errado.

O querido ex-​deputado Mar­cony Farias me conta um “causo” deli­cioso envol­vendo o ex-​governador mineiro Bened­ito Val­adares (18921973). Conta a lenda que o autor da frase “eu não sou con­tra, nem a favor, muito pelo con­trário”, certa vez se prepar­ava para deixar o Palá­cio da Liber­dade quando chegou sua esposa, dona Odete, para irem jun­tos para casa.

Enquanto se arru­mam para sair, chega um dep­utado com uma urgên­cia: –– gov­er­nador, gov­er­nador, o sen­hor come­teu um grave erro ao nomear fulano de tal como dire­tor da escola tal. O sujeito é um “comu­nista sub­ver­sivo” que está colo­cando os jovens con­tra a gente.

Bened­ito ouviu, matutou e disse: –– é, dep­utado, o sen­hor tem razão.

Deix­avam o palá­cio quando encon­traram o dito dire­tor: –– gov­er­nador, não acred­item nesses meus detra­tores, eles não têm com­pro­misso com a edu­cação do estado e querem fazer polit­i­calha com a mesma.

Nova­mente, o gov­er­nador ouviu com tran­quil­i­dade, refletiu e disse: –– o sen­hor tem toda razão, diretor.

D. Odete que a tudo assis­tia, virou-​se para ele: –– mas, Bened­ito, você deu razão para o dep­utado, em seguida deu razão para o dire­tor, são coisas total­mente antagôni­cas, como é que pode?

Bened­ito virou-​se para a esposa e com olhar car­in­hoso respon­deu: –– é, Odete, você tem razão.

Sobre o quadro da sucessão estad­ual de 2026, encerro com frase do político maran­hense, Lis­ter Cal­das, que diria: “quem viver verá”.

Abdon C. Mar­inho é advogado.

PS. O amigo João Jorge de Weba Lobato, ex-​prefeito de Santa Helena, colab­ora com esse escriba para dizer (e provar) que frase que me foi repas­sada por Cafeteira é de auto­ria do grande brasileiro, antropól­ogo, edu­cador e que foi senador da República Darcy Ribeiro (19221997).