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Edu­car é des­per­tar sonhos.

Escrito por Abdon Mar­inho


Educar é des­per­tar sonhos.

Por Abdon C. Marinho.

DURANTE minha última incursão pela Baix­ada com Max Harley, José André e Ali­son Fer­nando – quando fomos até Caru­ta­pera –, enquanto fazíamos o longo per­curso apre­ciando uma inusi­tada pais­agem de cam­pos desér­ti­cos em pleno dezem­bro, comen­tava sobre uma das ima­gens mais inspi­rado­ras que tomei con­hec­i­mento nos últi­mos tempos.

Falava do trans­porte de uma car­caça de avião que saindo da cap­i­tal do estado iria se trans­for­mar em uma bib­lioteca no inte­rior do estado, mais pre­cisa­mente no Municí­pio de Vargem Grande.

Max que presta serviço de con­tabil­i­dade naquele municí­pio me atal­hou: — ah, doutor, faz muito tempo que seu Car­lin­hos Bar­ros fala sobre isso, que iria trans­for­mar a edu­cação de Vargem Grande e que iria fazer “pousar” um avião por lá.

Tanto eu quanto ele tra­bal­hamos na eleição quando Car­lin­hos Bar­ros elegeu-​se pela primeira vez e, acho que, tam­bém, na segunda, mas ape­nas na parte eleitoral, Max que tra­bal­hou na cam­panha seguiu na gestão ajudando-​os com seus serviços e vas­tos con­hec­i­men­tos. Na última eleição (2024) mais uma vez tra­bal­hamos jun­tos no eleitoral.

Refleti sobre a questão do avião-​biblioteca. Achei extrema­mente curioso tal sen­si­bil­i­dade tenha par­tido não de um edu­cador, mas de um empresário que se encon­tra gestor de municí­pio.

Acom­pan­hando a “odis­seia” do avião rumo ao seu des­tino vi o brilho e olhar de curiosi­dade de cri­anças e até mesmo de adul­tos com tal engenho. Isso que é esplên­dido em se tratando de edu­cação.

O brilho no olhar de uma cri­ança é o ver­dadeiro des­per­tar de son­hos. Esse é o papel do edu­cador: fazer com que as cri­anças e jovens pos­sam des­per­tar os son­hos que cada um traz con­sigo e que muitas das vezes, pelas difi­cul­dades que car­regam por toda vida, sequer são des­per­ta­dos. Mor­rem com elas sem jamais virarem realidades.

O Municí­pio de Vargem Grande, nos últi­mos anos, operou uma ver­dadeira rev­olução na edu­cação com indi­cadores jamais vis­tos ante­ri­or­mente se tor­nando uma refer­ên­cia nessa área.

Mas, a despeito disso – que deve­mos con­sid­erar muito –, out­ros gestores, tam­bém, mel­ho­raram seus indi­cadores, talvez, não tanto quanto Vargem Grande, mas, mel­ho­raram.

A ideia do avião-​biblioteca vai além disso, vai além do indi­cadores porque sig­nifica des­per­tar son­hos e isso não pode ser quan­tifi­cado em números.

E, por isso mesmo, é curioso que tal com­preen­são e sen­si­bil­i­dade tenha par­tido de um empresário que até então não tinha con­hec­i­mento desse seu “olhar” pela edu­cação.

Digo isso com con­hec­i­mento de causa.

Há alguns anos tenho ten­tado con­cil­iar minha ativi­dade jurídica com a de empresário do setor edu­ca­cional tendo, inclu­sive, uma par­tic­i­pação em empresa que desen­volve pro­je­tos educa­tivos.

Essa empresa, a AME Mais Edu­cação é uma EDUTEC que tem por meta alfa­bet­i­za­ção das cri­anças do Brasil até o oitavo ano de vida em pelo menos duas lín­guas: por­tuguês e inglês através do pro­jeto Cidade Bilíngue.

A empresa pos­sui out­ros pro­je­tos na área de lín­guas para o ensino médio, público geral, cur­sos dire­ciona­dos ao segui­mento turís­tico, jurídico, médico, etc.

A minha origem cam­ponesa e pobre sem­pre me des­per­tou o inter­esse pela a edu­cação como uma forma efi­caz de desen­volver as poten­cial­i­dades de cri­anças e ado­les­centes e com isso fazer o país crescer. Esse foi um dos motivos que me fez apos­tar em uma empresa que tem esse propósito.

Esse adendo é feito ape­nas para pon­tuar que a edu­cação brasileira ainda é muito desigual, ape­nas para citar um exem­plo den­tro assunto ante­rior, enquanto as cri­anças da rede pri­vada começam a estu­dar lín­gua inglesa no ensino infan­til, na rede pública esse ensino só é obri­gatório a par­tir do sexto ano, são, pelo menos oito anos “rou­ba­dos” dessas cri­anças, que quando são “obri­ga­dos” a estu­darem uma segunda lín­gua encon­tram um mate­r­ial incom­patível com a sua real­i­dade e acabam desistindo, não se inter­es­sando, ou apren­dendo ape­nas o sufi­ciente para “pas­sar” de ano.

Para o estu­dioso do assunto, ex-​ministro, ex-​governador, ex-​senador, Cristo­vam Buar­que, trata-​se de um equívoco, vez que dev­eríamos já alfa­bet­i­zar as cri­anças em dois idiomas – pelo menos.

Pois bem, nessa mis­são que me impus de levar uma edu­cação de qual­i­dade e igual­itária para todas as cri­anças, desde os qua­tro anos ao ensino médio, profis­sional e até para os idosos, tenho me deparado com inúmeras situ­ações curiosas.

Muitos “edu­cadores” ainda se encon­tram pre­sos aos con­ceitos que chamo de edu­cação de “casa grande e sen­zala”.

Quem con­hece um pouquinho de história sabe do que falo. Enquanto os ricos, bem nasci­dos, os sen­horz­in­hos e sin­haz­in­has estu­dam nas mel­hores esco­las as cri­anças pobres recebem uma edu­cação de pés­sima qual­i­dade ou não recebem edu­cação nen­huma.

Isso resta claro nas vezes em que ouvi de secretários de edu­cação ou mesmo de alguns coor­de­nadores pedagógi­cos as seguintes frases: – doutor, como essas cri­anças vão apren­der inglês se não sabem por­tuguês? Ou, esse mate­r­ial é uma “Fer­rari” não vai servir para nos­sas estradas. Ou, os nos­sos pro­fes­sores não vão aceitar mais esse encargo.

Esses são ape­nas alguns exem­p­los dos diver­sos tipos que já encon­trei. As vezes os gestores se inter­es­sam em mel­ho­rar a edu­cação do municí­pio e encon­tram resistên­cias daque­les que por serem “edu­cadores” não dev­e­riam resi­s­tir, ao con­trário dev­e­riam ser os primeiros a cobrarem mel­ho­rias para a edu­cação.

Em muitas situ­ações, infe­liz­mente, aque­les que dev­e­riam explo­rar as poten­cial­i­dades das cri­anças e jovens são os primeiros a “duvi­darem” de suas poten­cial­i­dades.

Muitos fazem isso, pas­mem, por igno­rarem que qual­quer cri­ança, ado­les­cente, jovem ou pes­soa de qual­quer idade é capaz de apren­der.

Muitos fazem isso por como­di­dade: “estou recebendo o ‘meu’ todo mês por que vou querer mais tra­balho?”.

Cos­tumo dizer que com­por­ta­men­tos refratários a ofer­tar o maior número de fer­ra­men­tas pos­síveis de apren­diza­gem as cri­anças e ado­les­centes são “rou­bos” as suas opor­tu­nidades.

Ao negarem que cri­anças, ado­les­centes e jovens ten­ham uma edu­cação de qual­i­dade estão lhes roubando o futuro.

Vejam como é irônico: quem custeia a edu­cação do país são as cri­anças, ado­les­centes, adul­tos e idosos matric­u­la­dos na rede, quando os gestores de tais recur­sos neg­li­gen­ciam suas neces­si­dades estão lhes “roubando”. E, o pior, roubando-​lhes o que se tem mais impor­tante: o futuro.

Quanto vi a história do “avião do CB” (CB de Car­lin­hos Bar­ros) fiquei pen­sando: pô, cara, esse cidadão que é empresário a vida toda, a ponto de nem saber­mos sua profis­são de for­mação é capaz de com­preen­der a neces­si­dade de des­per­tar o sonho de mil­hares de cri­anças, de devolver-​lhes o brilho do olhar, que coisa mar­avil­hosa.

Que lição ele min­is­tra a tan­tos “edu­cadores” incré­du­los.

Isso mostra que nem tudo está per­dido.

Na estrada comen­tava com Max: — isso merece um tex­tão.

Viva a educação!

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

O escasso recurso da temperança.

Escrito por Abdon Mar­inho


O escasso recurso da tem­per­ança.

Por Abdon C. Marinho.

OUTRO dia um amigo que atual­mente é prefeito, con­ver­sando com um amigo comum, con­ta­dor do setor público – um dos mel­hores –, dispensou-​me um elo­gio indi­reto ao falar com ele: —você é da escola do doutor Abdon, gosta de agir com prudên­cia, é cauteloso, não gosta de arriscar-​se em dema­sia. Algo do tipo.

Ao saber do elo­gio o que me veio a mente foi a lem­brança daquele outro amigo e cliente, já fale­cido que ao ser lem­brado do meu nome para dar-​lhe uma asses­so­ria ou con­sul­to­ria no cargo de prefeito para o qual acabara de eleger-​se me descar­tou com um elo­gio: — doutor Abdon é “cert­inho demais” para o que pre­tendemos fazer nessa gestão.

Lembrei-​me, ainda, daquele antigo cliente que certa vez ao orientá-​lo a fazer a coisa certa deu-​me uma resposta descon­cer­tante: — ora, Abdon, se é para fazer a coisa de forma cor­reta para que vou pre­cisar de advogado?

Os anos de fac­ul­dade, o tempo ded­i­cado aos livros, e ainda a exper­iên­cia acu­mu­lada ao ouvir os mais anti­gos, moldaram esse ideário de cautela e a con­vicção de que em tudo deve­mos mais pre­venir do que reme­diar.

O “defeito” da prudên­cia agre­gado ao “crime” da sin­ceri­dade tem me ren­dido elo­gios demais e con­tratos de menos. Mas, é a vida e já sou velho demais para mudar.

Tenho “gas­tado” horas da minha vida refletindo sobre o sen­tido da vida e sobre a fini­tude das coisas.

Outra coisa a me chamar atenção é o clima de beligerân­cia dos dias atu­ais, tenho refletido se não falta aos agentes políti­cos um pouco de tem­per­ança para admin­is­trarem os con­fli­tos.

A política surgiu como um recurso às guer­ras que destruíam vidas e recur­sos dos povos levando reis e súdi­tos à mis­éria e a morte. Logo a primeira qual­i­dade do bom político é esgo­tar os recur­sos da diplo­ma­cia ao invés de entrar em guerra.

Quanto mais reflito sobre os dias atu­ais mais aumenta sen­sação que me faz pare­cer que cada um dos, dig­amos assim, “gen­erais” em con­flito estão escu­tando ape­nas “os seus” que, pelos motivos diver­sos, “querem apa­gar incên­dios com gasolina” ao invés de pen­sarem no con­junto da situ­ação para agirem com um pouco de prudên­cia.

Aos “gen­erais” ou líderes cabe pen­sar no con­junto da flo­resta ao invés de “se perderem” na defesa de uma ou outra árvore.

Sou amante da história antiga – ao longo dos anos acu­mulei e perdi dezenas de livros de histórias das civ­i­liza­ções –, uma das estraté­gias dos grandes con­quis­ta­dores quando par­tiam para suas guer­ras era incen­diar as pontes antecedentes aos cam­pos de batal­has não deixando espaço para deserções, mais do que uma con­quista os solta­dos lutavam pela própria vida.

O mesmo acon­te­cia quando par­tiam para a con­quista de ter­ras dis­tantes: ao aportarem para as guer­ras tratavam de incen­diar os navios.

Os sol­da­dos só tin­ham uma escolha: vencer ou mor­rer em mãos inimi­gas. Se vencessem seguiam em frente ou recon­struíam as pontes e bar­cos para retornarem para suas ter­ras.

A história é tam­bém boa con­sel­heira ao apon­tar que quando duas forças mil­itares se aniquilam ou se frag­ilizam mutu­a­mente “abre uma avenida” para que uma ter­ceira força passé a “reinar”.

Parece-​me que nas con­tendas da política atual querem reed­i­tar as guer­ras da antigu­idade quando, mesmo que a razão volte a impor-​se as pontes e os bar­cos já estarão incen­di­a­dos.

Esque­cem, entre­tanto, os tem­pos são out­ros.

Um vaso porce­lana, por exem­plo, quando se que­bra ainda que você con­siga jun­tar e colo­car todos os pedaços jamais será o mesmo vaso porce­lana. As relações humanas pade­cem das mes­mas cir­cun­stân­cias: ainda que o dinamismo da vida reaprox­ime pes­soas se as pontes foram destruí­das e os bar­cos incen­di­a­dos a reaprox­i­mação será como o vaso de porce­lana par­tido em mil pedaços.

A tem­per­ança é a trincheira der­radeira entre os ressen­ti­men­tos e os dese­jos de vin­gança.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

Carta a Flávio Dino (5 de out­ubro de 2014).

Escrito por Abdon Mar­inho

Memória

Leio que os ali­a­dos do ex-​governador e min­istro do STF, Flávio Dino, preparam um “evento” para cel­e­brar sua vitória e chegada ao poder há dez anos.

Revendo meus alfar­rábios encon­trei uma carta que escrevi a ele em 5 de out­ubro de 2014, com sug­estões para o gov­erno que iria iniciar.

Muito provavel­mente o carteiro errou o cam­inho pois nunca obtive qual­quer resposta e as sug­estões foram todas solen­e­mente igno­radas (ou não).

Leiam e tirem suas con­clusões.

CARTA A FLÁVIO DINO

São José de Riba­mar (MA), 05 de out­ubro de 2014.

Meu Caro Flávio,

Tomei a ini­cia­tiva de escrever-​te essa carta após assi­s­tir teu último pro­grama de tele­visão desta cam­panha que chega ao fim com a sua eleição.

Nele, chegava a sua casa cen­te­nas de car­tas dos maran­henses de todos os canto do estado e até de out­ras pla­gas. A leitura delas, entrecor­tadas com out­ras, falavam de son­hos e esper­anças. Não sei se aque­las car­tas exibidas no pro­grama eleitoral eram de ver­dade ou se era ape­nas um recurso de mar­ket­ing, no momento não importa. O que sei, e que não era nen­hum recurso da pro­pa­ganda, eram os olhos mare­ja­dos pelas lágri­mas de dezenas de cidadãos que apare­ce­ram no mesmo pro­grama. Aque­las pes­soas não eram atores, aque­las lágri­mas, aquela emoção era ver­dadeira.

Em nome daque­les cidadãos anôn­i­mos que deposi­taram toda a fé e esper­ança em você é que tam­bém escrevo essas sin­ge­las lin­has.

Bem sei que terás grandes desafios para não decep­cionar aque­las pes­soas, sobre­tudo, as mais humildes, aque­las que enx­ergam na tua eleição a chance de mudarem de vida, se não para elas mes­mas, para os seus fil­hos e netos. Tor­nastes assim, o depositário de toda essa esper­ança, cre­dor de todos os son­hos. Essa que era para ser ape­nas uma eleição torno-​se o divi­sor de água de mil­hares de vidas.

Acred­ito que as pes­soas olharam para ti e sen­ti­ram que pode­riam con­fiar em tuas palavras, veja a imensa respon­s­abil­i­dade que tens. Se eras ape­nas mais um can­didato, deixou de ser para tor­naste o fanal de um povo.

O exer­cí­cio de um mandato não é fácil, são muitos inter­esses. A primeira coisa que te digo é que não tro­ques as tuas con­vicções por quais­quer con­veniên­cias. Não cedas, por um min­uto que seja, às palavras ado­ci­cadas dos adu­ladores e dos este­lion­atários que cer­cam o poder. Espero que saibas identificá-​los. Eles, ao fare­jarem uma pos­sível vitória, já começaram a se aprox­i­mar, com suas men­su­ras e inter­esses mesquin­hos, querendo abo­can­har um naco de poder para si. Ficas atento as gen­tilezas e aos favores que fitem prestar.

O seu slo­gan de cam­panha diz: “50 anos can­sou”. Essa é uma ver­dade. Mostre que não vais coon­es­tar com as vel­has práti­cas desde o começo. É aquilo que ensina o cabo­clo lá do meu sertão, por onde pas­sastes, “que se deve matar o galo no primeiro dia”, senão, ainda segundo ele, não fun­ciona.

No seu caso, acred­ito, deves matar o galo até antes do primeiro dia, na escolha dos aux­il­iares. Lembra-​te, por mais que muitos aleguem tê-​lo aju­dado, não são eles os cre­dores da vitória. Essa é a vitória do povo cansado de tan­tos anos de um gov­erno de poucos e para poucos. Não começas por for­mar o teu gov­erno com aque­las pes­soas que antes de terem com­pro­misso com a causa pública, têm inter­esses pes­soais a serem sat­is­feitos. Repito: Não são difí­ceis de serem iden­ti­fi­ca­dos. São os mes­mos de sem­pre. Procuras te cer­car de bons con­sel­heiros, que não ten­ham receio de perder uma “boquinha» no gov­erno caso diga algo que te desagrades. Procuras pes­soas que ten­ham na sua ambição pes­soal o inter­esse de bem servir a comu­nidade, que antes de tudo acred­i­tam no grande poten­cial do estado e son­ham com um futuro mel­hor para ele.

Ao longo das décadas o que assis­ti­mos foi um pequeno grupo ficar rico, muito rico, mas o con­junto da sociedade ficando pobre. A riqueza que serve para ali­men­tar a pro­pa­ganda ofi­cial do gov­erno não chega a todos. O que chega são as esmo­las para man­ter parte da pop­u­lação cal­ada e res­ig­nada.

As opor­tu­nidades de tra­balho, em quase todas as áreas do estado, exis­tem para bem poucos, para os ami­gos e apanigua­dos. A eles tudo é dev­ido. Não importa a área do con­hec­i­mento ou tra­balho a ser desen­volvido, se rende alguma coisa, fica com a casta dos eleitos. Não tem que ser assim, não pode mais con­tin­uar assim. O ali­mento deste mod­elo é a cor­rupção enraizada em todo os poderes do Estado, que de tão pre­sente é recon­hecida por todos como algo nor­mal. Não é.

O gasto com a folha de pes­soal que com­pro­m­ete grande parcela do orça­mento do Maran­hão é con­sti­tuído por mil­hares de sinecuras per­pet­u­adas entre algu­mas famílias. Acred­ito que só aca­bando com elas, dando tra­balho a quem de fato, quer fazer algo rel­e­vante, e elim­i­nando os exces­sos, já se tem uma boa econo­mia. Muitos dos que estão nes­tas sinecuras, segundo dizem, sequer sabem onde é a sua lotação. Acred­ito que uma das primeiras medi­das a serem ado­tadas é recadas­tra­mento e uma reforma admin­is­tra­tiva que torne a máquina pública mais leve e funcional.

Deves ter espe­cial atenção com as obras públi­cas. Este é um setor onde faz muito tempo que deixa a dese­jar. Nos­sas obras são caras e mal feitas, basta ver as condições das estradas por onde pas­sastes. A fis­cal­iza­ção estatal não acom­panha a exe­cução das obras, como resul­tado, muitas vezes a obra se torna uma fonte ines­gotável da san­gria de recur­sos. Muitas, antes da inau­gu­ração, já care­cem de con­ser­tos e reparos. É necessário que estru­ture o setor de fis­cal­iza­ção e acom­pan­hamento, que se exija nos con­tratos clausu­las de dura­bil­i­dade e que se cobre isso com veemência.

O Maran­hão, informa a pro­pa­ganda ofi­cial, fes­teja mais um recorde na pro­dução de grãos. Comemora-​se que a nossa pro­dução chegou a dois por cento da pro­dução de grãos do Brasil. É um dado que não nos serve, nem como piada. Não aceitável que um estado com tan­tos recur­sos hídri­cos, tão extenso, com tan­tas áreas agricultáveis pro­duza tão pouco. Não sei sabes, ao longo dos anos foi destruída a assistên­cia téc­nica ao homem do campo. Isso, ali­ado a uma política pre­datória de assis­ten­cial­ismo tem pro­duzido, não pro­du­tos agrí­co­las, mas homens preguiçosos, cidadãos que entra dia sai dia, vivendo de esmo­las. O Maran­hão não pode con­tin­uar a ser uma terra onde a maio­ria da pop­u­lação viva de esmo­las. Meu pai, com sua sabedo­ria de anal­fa­beto, cos­tu­mava dizer que esmo­las só eram dev­i­das a quem não tinha condições de tra­bal­har, aos que eram cegos ou alei­ja­dos. Hoje, a esmola é dev­ida a todos, é a primeira opção do cidadão. Pre­cisamos devolver ao homem o amor pelo tra­balho, à sat­is­fação de gan­har o próprio sus­tento, a não depen­der ninguém, a ser livre. Essa é a palavra, pre­cisamos devolver ao homem a sua liber­dade cidadã.

A segu­rança tornou-​se um dos maiores desafios. O Maran­hão tornou-​se motivo de piada para os seus con­ci­dadãos e além-​fronteiras, todos dizendo que o poder estatal mudou do Palá­cio dos Leões para a pen­i­ten­ciária de Pedrin­has. Ë necessário que se resta­beleça ordem nesse caos, que se mostre que o estado não capit­ula diante do crime e que as famílias poderão ter segu­rança para sair às ruas. É pos­sível com­bater o crime, out­ros países com­bat­eram e vence­ram essa guerra. A falta de políti­cas soci­ais não é des­culpa para que se passé a mão em cabeça de ban­dido, em detri­mento da sociedade.

Acred­ito que tudo começa com a edu­cação. Esse é um desafio sério. Não passa um ano em que os indi­cadores soci­ais não apre­sen­tem os dados da nossa edu­cação como des­fa­voráveis. As difi­cul­dades são de toda ordem, esco­las sem condições, pro­fes­sores desmo­ti­va­dos, fora de suas dis­ci­plinas, a vio­lên­cia den­tro de seus muros. Grande parte dos pro­fes­sores da rede estad­ual são remanes­centes do gov­erno Castelo. Não se aposen­taram ainda porque não tiveram garan­ti­das suas pro­gressões. Minha sug­estão é faças, no curso do recadas­tra­mento, um lev­an­ta­mento cri­te­rioso disso. Após, faça con­curso, garanta as pro­moções e aposente esses pro­fes­sores. Aos que ficarem e aos novos, cobre resul­ta­dos. Sugiro, ainda, que veja algu­mas medi­das exi­tosas em alguns municí­pios, alie-​se a elas e as amplie para o resto do estado. Somando-​se a isso, com as esco­las evoluindo junto com as avanços tec­nológi­cos, ire­mos sair das últi­mas posições.

Na saúde deves man­ter a rede que está feita ampliando-​a para os demais municí­pios que não foram con­tem­pla­dos, organizando-​a para que fun­cione no Sis­tema Único de Saúde — SUS, junto a isso deves se voltar para a pre­venção de doenças, com sanea­mento básico. A maio­ria dos nos­sos municí­pios não tem um palmo de rede esgoto, tudo que pro­duzem vão para fos­sas, quando não para os rios. Até mesmo na cap­i­tal do estado é essa a prática mais comum. A Ilha de São Luís, out­rora tão rica em recur­sos hídri­cos, não pos­sui mais um rio que esteja con­t­a­m­i­nado por esgoto. É urgente que se enfrente esse prob­lema, que se con­siga aliar o cresci­mento urbano com a preser­vação do meio ambi­ente. Não é por que pre­cisamos de um con­domínio que deve­mos matar o rio.

Ainda na saúde, deves bus­car junto ao Min­istério da Saúde, a per capita/​paciente que é dev­ida aos pacientes maran­henses e que atual­mente está R$ 50,00 (cinquenta reais) abaixo da média. Os recur­sos dessa per capita/​paciente aju­dará em muito na manutenção dos hos­pi­tais da rede pública.

Muitos são os assun­tos a serem trata­dos. Tan­tos, que uma carta não seria sufi­ciente. Mas tem um que não posso deixar de tratar nessa mis­siva: A corrupção.

Ao longo dos anos, a hon­esti­dade tem sido tratada como qual­i­dade, como um difer­en­cial. Não é, a hon­esti­dade é dever de todos, sobre­tudo dos gov­er­nantes, daque­les que tem sob sua respon­s­abil­i­dade a guarda dos recur­sos públi­cos. Deves ficar atento a isso já na for­mação do gov­erno. Escol­her pes­soas que não pensem ser a hon­esti­dade uma qual­i­dade e sim dever, que tratem o recurso público com zelo, que enten­dam as neces­si­dades do estado e do povo e a importân­cia de econ­o­mizar cada cen­tavo. Ainda assim deves ter o cuidado de escol­her den­tre esses, os que sejam fortes de per­son­al­i­dade, que não se deixem deslum­brar pelos fal­sos encan­tos do poder e que não sejam covardes, traidores ou pusilân­imes. Faça enten­der que nada mais são que servi­dores públi­cos, e com uma desvan­tagem em relação aos de car­reira, pois já vêm com prazo de val­i­dade.

Encerro esta carta por aqui, dese­jando, de todo coração, que ten­has sucesso nesta nova empre­itada, que con­si­gas devolver a esper­ança que desde muito foi reti­rada do nosso povo, o seu amor próprio e a certeza que podemos ter um futuro difer­ente e mel­hor.

Esta colo­cação me remete nova­mente aos olhos mare­ja­dos e as lágri­mas que vi ver­tidas em seu último pro­grama. Lágri­mas que só entendi o sig­nifi­cado depois de uma vez que há muito tempo não as via, pois eram, a aque­las, lágri­mas de esperança.

Aten­ciosa­mente,

Abdon Mar­inho.