Não Alfabetizado.
Por Abdon C. Marinho.
Muitos se perguntam (e me perguntam) sobre o meu interesse pela causa da educação, sobre o sonho e desejo de ver crianças e jovens educados com qualidade.
Já disse em diversas oportunidades que os meus pais eram agricultores, pobres e “analfabetos por parte de pai, mãe e parteira”.
Embora tal colocação tenha ares de chiste, na verdade sempre foi algo muito triste, sobretudo para o meu pai, já que minha mãe tinha alguns conhecimentos primários, mas, infelizmente, deixou-nos bem cedo, morrendo no parto do décimo filho nascido com vida quando estava na faixa dos quarenta anos – tinha cinco anos de idade quando deu-se a tragédia, a terceira das mulheres da família a “morrer de parto” em terras maranhenses.
Outro dia minha irmã mais velha encontrou um retratista para gravar uma foto de meu pai em uma louça para colocar na sua derradeira morada. Como tinha esquecido a data exata do seu nascimento (?) acionou-me atrás de tal informação. Dei-lhe mês e ano mas tinha dúvida sobre o dia, razão para acionar o irmão Marcell Marinho, filho do segundo casamento dele que localizou e me mandou a fotografia do seu RG.
Ao receber a reprodução do documento vi, ao lado da foto, a expressão “Não Alfabetizado”, grafada por máquina de escrever sobre o local onde deveria constar a assinatura do portador.
A emoção de reencontrar aquele documento trouxe-me a memória do quanto meu pai não gostava de ser analfabeto, das vezes que dizia que deveríamos estudar para sermos alguém na vida; de que o único patrimônio que poderia nos deixar seria “o conhecimento” que não teve a oportunidade de ter; que gostaria de ter tido a oportunidade de ter conhecimento; não ter conhecimento era como ser um “cego”, etc.
— Ah, meu filho, o conhecimento ninguém nunca vai lhe tomar ou roubar, será seu para sempre. Costumava dizer.
Lembro que ainda tentou alfabetizar-se através do Mobral (antigo modelo de educação de adultos analfabetos que depois foi extinto). Não deu muito certo por motivos que ignoro.
Nascido em Angicos, Rio Grande do Norte, em 1929, com menos de um ano enfrentou a primeira seca, em 1930, depois veio a grande seca de 1932/33, depois a de 1940, a escassez dos anos de guerra, mais uma seca no final dos anos quarenta até que meu avô se cansou, reuniu todos filhos, noras, genros, já alguns netos, primos e agregados e resolveram migrar para Maranhão. Era o início dos anos cinquenta.
A Saga de José Calheiro de Marinho já foi contada em outra oportunidade.
Conta a lenda familiar que o patrimônio amealhado por meu pai teve origem em um ovo de galinha que ganhara de uma tia. Esse ovo virou uma galinha, depois um plantel, depois outros animais, comércio e por aí a fora.
Apesar de pobres e analfabetos, como deveriam ser todos os pais, os meus tinham a preocupação e o desejo que os filhos tivessem uma vida bem melhor do que aquela que tiveram.
Assim, logo que puderam colocaram os mais velhos para estudarem em Pedreiras e/ou Governador Archer, inicialmente em casa de parentes e/ou amigos.
Mesmo depois da tragédia que foi a morte de minha mãe, deixando uma “escadinha” de filhos de zero a 20 anos – o que exigiu uma reorganização familiar –, meu pai insistiu que continuássemos estudando. Para isso alugou uma casinha simples na Rua do Sossego, em Governador Archer. E nos mantinha, sem luxos, mais com os suprimentos para podermos nos alimentar e estudar.
Uma vez – acho que a única vez –, deu-me uma surra (que certamente doeu mais nele que em mim) ao saber que eu estava fugindo da escola. Ia para o Aldenora Belo, saindo pelos fundos da casa e passando por um campo de futebol, entrava na escola mas logo que tinha uma oportunidade saía para brincar na rua.
Estávamos de férias ou em um final de semana no nosso povoado quando ele tomou conhecimento do fato “dedurado” por um dos mais velhos. Já era “boca da noite” quando tirou o “cinturão” de couro e deu-me uma surra “conversada” sobre a importância de estudarmos.
Fui dormir de “couro quente” e nunca mais quis saber de fugir da escola.
Os pais que verdadeiramente merecem tal título até quando nos disciplinam o fazem para nos ajudar – porque faz parte da sua natureza protegerem os filhos.
Os anos 30 e 40 do século passado não foram fáceis para o meu pai e seus irmãos, tinham que trabalhar de sol a sol e enfrentar as secas do sertão nordestino. Quando pensou-se que não, já tinham que continuar ou a enfrentar uma labuta ainda maior para criarem os próprios filhos.
Em 1994, quando morreu o meu pai e alguns dos meus tios, já estava mais ou menos encaminhado na vida, já cursava Direito na UFMA e já tinha passado pela experiência de ajudar a coordenar uma campanha de governador de Estado. Já era relativamente conhecido.
Nos anos anteriores, nas vezes que que conversei com meu pai, por ocasião de férias escolares ou de trabalho, vez que aos 15 anos deixei o interior para fazer o ensino médio no Liceu Maranhense, em São Luís, meu pai sempre falou da importância dos estudos e o quanto lamentava não ter tido essa oportunidade.
O meu interesse pela educação é fruto dessa história de lutas da minha família que vem desde o meu avô, meus pais, que, embora analfabetos e pobres nos ensinaram que através do conhecimento podemos mudar nosso destino e o destino de tantos outros que estão ao nosso redor.
Fui o primeiro da minha família a formar-me advogado em 1996. Passei por todas etapas da educação pública do interior, a escolinha de “latada”, a unidade integrada, o ginasial noturno, o ensino médio, até a faculdade.
Depois de mim, muitos outros vieram, advogados, médicos, professores, odontólogos, nutricionistas, enfermeiros e tantas outras áreas.
Outro dia passei por uma emoção rara: vi numa rede social qualquer ou grupo de WhatsApp que o primeiro parto “cesariano” feito em Gonçalves Dias, deu-se pelas mãos do meu sobrinho Wallace Andrade Marinho.
Para ele pode não ter significado nada de especial diante das centenas de partos que realiza todos os meses. Mas para mim foi diferente, lembrei-me que minha mãe (sua avó paterna) e outras duas tias minhas morreram de parto por falta de acompanhamento médico adequado.
Quando falo a um dos meus clientes, gestores municipais ou estadual, secretários, que devem batalhar para oferecerem uma educação de qualidade, nada mais faço do que dizer o óbvio: qualquer criança é capaz de “fazer” o seu próprio destino se a ela for ofertada as condições para isso.
Foge a minha compreensão que os gestores não entendam que devem ofertar aqueles que administram as mesmas condições de aprendizagem que ofertam aos próprios filhos.
O meu pai foi um “não alfabetizado” que teve a compreensão de que valia a pena educar os filhos para que estes educassem os seus e rompessem o ciclo de miséria e dessem o melhor de si para a sociedade e até salvassem vidas.
A educação é o caminho e a solução. A educação muda e salva vidas.
Abdon C. Marinho é advogado.