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A deserção amer­i­cana e a falta que Churchill faz.

Escrito por Abdon Mar­inho

A deserção amer­i­cana e a falta que Churchill faz.

Por Abdon C. Marinho.

QUANDO cri­ança, logo após ser alfa­bet­i­zado, lia muito. Estava sem­pre com um livro ou uma revista na cara lendo. Lia tanto que os mais vel­hos diziam que acabaria cego por “gas­tar” tanto a vista com leituras. Havia até um certo incô­modo com esse meu hábito. Não raro lia escon­dido para fugir das chateações. Aquilo que hoje os pais mais pre­ocu­pa­dos dizem aos fil­hos: — menino, larga esse celu­lar! Diziam a mim em relação aos livros.

Foi por essa época que “con­heci” o termo deser­tor. Nos livros de histórias de guer­ras ou de con­quis­tas, o termo tinha um sen­tido ímpar de gravi­dade. Alguém sobre que, recaia tal acusação, se descoberto pode­ria ser morto; se preso iria à corte mar­cial podendo ser con­de­nado à morte por crimes de guerra.

Hoje, imag­ino que não seja mais assim. Mesmo no Código Penal Mil­i­tar a pena por deserção é até branda. Acred­ito que só em caso de guerra externa, con­forme pre­vista na Con­sti­tu­ição, seja admi­tida a pena de morte – mas nem por isso.

Pois bem, faço tal intro­dução para aden­trar ao ver­dadeiro tema.

Em texto ante­rior afirmei de forma bem clara que o com­por­ta­mento do gov­erno amer­i­cano em relação à guerra na Ucrâ­nia era uma des­onra – con­tinuo afir­mando isso.

O clima de polar­iza­ção política que sacode o mundo fez com que muitos me crit­i­cas­sem por tal afir­mação. Mas, como disse, isso se deve ao clima de polar­iza­ção política. Esse clima é tão danoso que as pes­soas par­tidarizadas não con­seguem enx­er­gar o óbvio. Se fulano é da minha facção política ainda que mate alguém sem motivo a culpa jamais será dele mas sim do morto.

A des­onra da Casa Branca em relação ao que se passa na Ucrâ­nia é que ela pas­sou a cul­par a vítima pela guerra. Ao dizer que a Ucrâ­nia não quer a paz e joga com a escal­ada do con­flito ignora que a Ucrâ­nia é uma nação sober­ana que foi inva­dida por outra nação sem qual­quer jus­ti­fica­tiva plausível ou vál­ida.

Não é pos­sível falar em paz sem se par­tir do pres­su­posto que as fron­teiras nacionais pre­cisam – e devem – ser respeitadas.

Abro um parên­tese ape­nas para reg­is­trar a curiosa situ­ação dos “fac­ciona­dos” brasileiros: tatos os ditos de dire­ita quanto os ditos de esquerda, estão, enver­gonhados ou não, apoiando a invasão russa. Só para reg­is­trar que no fundo não diferem muito uns dos outros.

Falar que a vítima é respon­sável pela guerra equiv­ale dizer que você, cidadão comum, é respon­sável ou “cul­pado” por rea­gir con­tra out­rem que invade sua casa, começa a destruir seu mobil­iário e a matar seus par­entes.

No patético “bar­raco” ocor­rido na Casa Branca e que motivou aquele texto foi isso que os amer­i­canos dis­seram, pelas bocas dos seus diri­gentes (pres­i­dente e vice-​presidente).

E foram além. Com a des­culpa de que a vítima não quer a paz ou seja, se deixar matar den­tro de casa, infor­maram a sus­pen­são da ajuda que prestam aquele país no esforço de guerra.

E, pode ser pior, querem cobrar dez vezes mais aquilo que já apor­taram no con­flito.

O meu entendi­mento – e não peço escusas aos que dis­cor­dam –, é que sobra ambição e falta caráter aos gov­er­nantes americanos.

Em se man­tendo a sus­pen­são de ajuda a Ucrâ­nia em guerra entendo que o termo mais ade­quado em relação aos amer­i­canos é deser­tores.

Essa sus­pen­são, quando se sabe da dependên­cia mil­i­tar da Ucrâ­nia em relação aos EUA, sig­nifica, na ver­dade, uma mudança de lado, um alin­hamento ao país inva­sor.

Essa deserção não é uma retórica política ou um arroubo. No doc­u­mento que junto ao pre­sente texto (ape­nas a ver­são em inglês), con­sta que os Esta­dos Unidos da Amer­ica se com­pro­m­e­teram a garan­tir a segu­rança da Ucrâ­nia e a garan­tir a sua sobera­nia e inte­gri­dade ter­ri­to­r­ial, esta­b­ele­ci­das e recon­heci­das no ano de 1994.

O doc­u­mento, chamado de Mem­o­rando de Budapeste, tem o com­pro­misso do gov­erno amer­i­cano, do Reino Unido e da Rús­sia em respeitarem as fron­teiras, não pro­movem vio­lação ter­ri­to­r­ial ou coesão econômica con­tra aquele país.

Não sei se é porque estou ficando velho – sou do tempo em que com­pro­mis­sos se hon­rava ape­nas com a palavra –, que acho que os amer­i­canos não têm o dire­ito de igno­rarem um com­pro­misso de gov­erno e aban­donar um país em guerra. Na minha rede social até disse que o gov­erno ucra­ni­ano pode­ria (dev­e­ria) acionar a Justiça Fed­eral Amer­i­cana cobrando o cumpri­mento do con­trato de 1994. As assi­nat­uras de Bill Clin­ton em todas as ver­sões do doc­u­mento é a com­pro­vação mais que necessária para que os amer­i­canos sejam com­peli­dos a hon­rarem a palavra dada e o acordo assi­nado. Tal acordo obriga qual­quer gov­erno, com um mín­imo de decên­cia, a hon­rar. Tratou-​se de com­pro­misso do país.

Noutra quadra, a própria Europa já deve está sentindo na “pele” o equívoco de ter deix­ado sua segu­rança em mãos amer­i­canas com base em com­pro­mis­sos que remon­tam ao tér­mino da Segunda Guerra Mundial.

A Ucrâ­nia paga o preço (alto) por ter con­fi­ado que bas­taria um con­trato assi­nado por todas as grandes potên­cias mundi­ais para ter asse­gu­rado sua inde­pendên­cia, sobera­nia e respeito aos seus lim­ites ter­ri­to­ri­ais ajus­ta­dos. Se tivesse man­tido sua capaci­dade bélica intacta, inclu­sive com armas nucleares, cer­ta­mente não estaria tão vul­nerável como se encon­tra hoje.

Con­fiou na Rús­sia, con­fiou nos EUA, con­fiou no Reino Unido… agora sofre as con­se­quên­cias enquanto os dois primeiros “tra­mam” para saber quem fica com maior fatia do butim.

Há trinta anos, por ocasião desse acordo, alguém me aler­tou da grande tolice que estava come­tendo tanto a Ucrâ­nia quando os demais países que aceitaram entre­gar suas armas para a Rús­sia.

A Europa tam­bém se ressente do fato de não pos­suir nen­huma lid­er­ança com a estatura de Win­ston Churchill, que, em deter­mi­nado período durante a Segunda Guerra Mundial, a sus­ten­tou prati­ca­mente soz­inha. A sua for­t­aleza de caráter e de princí­pios impediu que assi­nasse acor­dos e pactos com os nazis­tas.

Emb­ora se trate de uma obra de ficção, o filme “O Des­tino de Uma Nação”, acho, que de 2018, retrata muito bem a importân­cia de Churchill para o des­tino daquela guerra


Esse vazio de lid­er­ança faz com que a Europa não con­siga rea­gir de forma ráp­ida e uni­forme a qual­quer hos­til­i­dade ou das besteiras que se pro­fere desse lado do atlân­tico dia sim e no outro tam­bém.

Final­mente parece ter enten­dido que a segu­rança de cada um daque­les países não pode mais ficar longe do seu próprio con­t­role.

Para a des­graça do mundo e das futuras ger­ações, ter­e­mos que con­viver ainda durante muito tempo – ao invés de nos pre­ocu­par­mos com a sal­vação do plan­eta –, com o axioma: queres paz, este­jas preparado para a guerra.

É uma lás­tima, mas, infe­liz­mente m é o que nos resta.

Abdon Mar­inho é advo­gado.

P.S. Segue abaixo a ver­são inglesa do Mem­o­rando de Budapeste assi­nado em 5 de dezem­bro de 1994.

A des­onra da Casa Branca

Escrito por Abdon Mar­inho


A des­onra da Casa Branca.

Por Abdon C. Mar­inho.

QUANDO me pro­pus a escr­ever o pre­sente texto a primeira dúvida a assaltar-​me foi se o título seria “ a des­onra na Casa Branca” ou “A des­onra da Casa Branca”. Acabei optando pelo segundo e, ao final do texto, os leitores podem dizer se acertei ou errei na escolha.

O assunto incon­tornável do momento é o encon­tro (ou armadilha) entre o pres­i­dente da Ucrâ­nia, Volodymyr Zelen­sky e o presidente-​gângster dos Esta­dos Unidos, Don­ald Trump, ladeado pelo não menos gâng­ster vice-​presidente, J. D. Vance.

O “encon­tro” que descam­bou para uma baixaria jamais vista em uma visita de Estado, muito menos no Salão Oval da Casa Branca já gan­hou seu ingresso na história mundial.

Imag­ino que o “bar­raco” possa ser inter­pre­tado, estu­dado ou avali­ado em três gradações:

Na primeira e mais super­fi­cial pode-​se dizer que o pres­i­dente Zelen­sky foi humil­hado pub­li­ca­mente e que a Ucrâ­nia pas­sará por dias, meses ter­ríveis com o claro risco de ser re anex­ada à Rús­sia ou sim­ples­mente desa­pare­cer como nação livre ou perder grande parte de seu ter­ritório.

Na segunda e inter­mediária avali­ação, pode-​se dizer que os EUA pro­tag­oni­zaram em rede mundial a maior ver­gonha enquanto nação de toda sua história tornado-​se aquele per­son­agem de quem não se recomenda a aquisição de veículo usado por não ser con­fiável ou por não ter palavra ou por não ter qual­quer crédito a palavra empen­hada ou o con­trato fiado.

Na ter­ceira e última avali­ação podemos dizer que a humanidade saiu humil­hada e der­ro­tada no “bar­raco” da Casa Branca. O que ficou explíc­ito aos olhos do mundo é que os Esta­dos Unidos estão sendo gov­er­na­dos por gâng­sters que colo­cam os seus inter­esses mer­can­tilis­tas acima de qual­quer coisa, inclu­sive dos inter­esses da humanidade. O que restou claro é que no médio e longo prazo pas­sará a vig­o­rar no cenário mundial a “lei do mais forte” com uma clara tendên­cia para a “lib­er­ação” dos mais fortes esma­garem os mais fracos.

Em relação à humil­hação imposta a Ucrâ­nia, que luta brava­mente con­tra uma invasão russa – a segunda desde a extinção da União Soviética –, essa começou com a per­mis­são para que o vice-​presidente tivesse assento e voz na reunião de pres­i­dentes. Isso foi com­bi­nado com Trump. Tivesse o Zelen­sky a pre­sença de espírito e não tivesse tão frag­ilizado pela guerra, a primeira coisa que dev­e­ria ter feito era ter dito que estava ali para uma con­versa de chefes de estado ou seja, de pres­i­dente para pres­i­dente.

O pres­i­dente amer­i­cano “ava­cal­hou” a reunião ao per­mi­tir que um chefe de estado con­vi­dado para estar ali fosse “destratado” por alguém que sequer dev­e­ria par­tic­i­par do encon­tro. O vice-​presidente arvorou-​se de uma autori­dade que não pos­suía para destratar e desre­speitar o con­vi­dado do país – que depois, inclu­sive, foi “con­vi­dado” a deixar a Casa Branca –, que lá estava para tratar de assun­tos de inter­esse das duas nações. O “com­binemos” de gâng­sters fez-​se tão pre­sente quanto a humil­hação imposta ao con­vi­dado que Trump não ape­nas per­mi­tiu que o vice con­duzisse a baixaria como lhe deu total razão e lhe tomou as dores.

Imag­ine numa situ­ação colo­quial: você con­vida alguém para ir a sua casa e lá esse con­vi­dado é destratado. Você acharia isso correto?

O Zelen­sky, por suas próprias condições, comportou-​se como se estivesse naquele encon­tro para pedir favor quando na ver­dade dev­e­ria ter ido com o ímpeto de cobrar um compromisso.

O com­pro­misso dev­ido pelos Esta­dos Unidos a Ucrâ­nia de garantir-​lhe a segu­rança esta­b­ele­cido no Mem­o­rando de Budapeste sobre Garan­tias de Segu­rança, assi­nado pelos Esta­dos Unidos em 5 de dezem­bro de 1994.

Por tal mem­o­rando a Fed­er­ação Russa, o Reino Unido e os Esta­dos Unidos estão proibidos de ameaçar ou de qual­quer força mil­i­tar ou coerção econômica con­tra a Bielor­rús­sia, o Caza­quistão e a Ucrâ­nia, exceto em caso de legí­tima defesa ou de qual­quer outro modo em con­cordân­cia com a Carta das Nações Unidas.

Nesse con­texto os Esta­dos Unidos pro­tag­oni­zaram no bar­raco da Casa Branca sua auto desmor­al­iza­ção. Naquele dia de infâmia os EUA fin­gi­ram descon­hecer o acordo do qual foi fiador, pois desde o iní­cio da guerra dev­e­riam ter deix­ado claro que a Rús­sia estava violando aquele acordo e que isso seria inad­mis­sível, como tenta, ele próprio des­cumprir o acordo na modal­i­dade da coerção econômica.

Em 1994 os EUA fiaram um acordo que “des­cumprido” pela Rús­sia ao invés de ficarem con­tra quem o desre­speitou se coloca ao seu lado e busca tirar van­ta­gens econômi­cas em cima da vítima, a Ucrâ­nia.

O “bar­raco” da Casa Branca destruiu o mito de que os EUA são uma nação com insti­tu­ições fortes e consolidadas.

O Mem­o­rando de Budapeste mal acabou de com­ple­tar trinta anos e as autori­dades amer­i­canas agem como se ele nunca tivesse exis­tido.

Muito emb­ora os Esta­dos Unidos sejam dirigi­dos por pres­i­dente que foge da nor­mal­i­dade e tenha um vice-​presidente que não fica muito longe disso, não se viu quais­quer out­ras autori­dades amer­i­canas lem­brando que exis­tem com­pro­mis­sos do país que estão acima dos seus gov­er­nantes de plan­tão. Esse é o sen­tido do termo insti­tu­ições fortes: os gov­er­nantes pas­sam, as insti­tu­ições ficam.

Não se viu “uma insti­tu­ição” falando em cumpri­mento do acordo. Aliás, não se ouviu de ninguém a sug­estão de que o pres­i­dente ao negar apoio ao Ucrâ­nia ou usar da coerção econômica con­tra o “ali­ado” em guerra estava des­cumprindo um acordo do país com aquela nação.

Mesmo os par­tidos políti­cos amer­i­canos – exceto por algu­mas man­i­fes­tações iso­ladas –, se colo­caram con­trários a esse com­por­ta­mento ver­gonhoso e ultra­jante do gov­erno amer­i­cano.

Em 1994 o Mem­o­rando pelo qual os três países abri­ram mão de seus instru­men­tos de defesa, foram assi­na­dos pelos próprios diri­gentes dos países, não é com­preen­sível que uma nação que se diga uma democ­ra­cia descon­heça a natureza de tais compromissos.

Em 1994, Esta­dos Unidos, Reino Unido Ucrâ­nia e Rús­sia assi­naram o acordo – pos­te­ri­or­mente China e França tam­bém se mudaram dando garan­tias –, pelo qual a Ucrâ­nia, que abria mão de seu arse­nal nuclear em favor da Rús­sia não seria ata­cada e nem sofre­ria coerção econômica por parte daque­les países.

O que acon­te­ceu? Em 2014 a Ucrâ­nia foi inva­dida e teve um pedaço do seu ter­ritório (Crimeia) anex­ado a Rús­sia; em 2022, mais uma vez a Rús­sia invade a Ucrâ­nia.

O que se esper­ava era que todos os países – pelo menos aque­les que foram sig­natários do acordo –, se colo­cassem con­tra e garan­tis­sem a segu­rança da nação inva­dida.

No “bar­raco” da Casa Branca o pres­i­dente Zelen­sky errou ao pedir garan­tias de segu­rança para os Esta­dos Unidos.

Essas garan­tias a Ucrâ­nia já as pos­sui desde 1994. Um com­pro­misso assi­nado pelos Esta­dos Unidos da América.

Uma sug­estão para a Ucrâ­nia é ela entrar na justiça amer­i­cana cobrando o cumpri­mento dos ter­mos do Mem­o­rando de Budapeste. Não ape­nas as garan­tias de segu­rança mas, tam­bém, que não sofr­erá a coerção econômica que vem sofrendo do atual governo.

Seria impor­tante tal medida para saber se ao menos a justiça daquele país ainda existe.

Encerro repetindo o que já disse ante­ri­or­mente, o mundo cam­inha a pas­sos lar­gos para um retro­cesso jamais visto em sua história. O que os grandes querem travar não é ape­nas relações onde val­ham a lei do mais forte, querem mais que isso, alme­jam uma nova ordem mundial sem qual­quer con­ceito do que seja honra, dig­nidade e respeito.

No final de tudo, mais do que nunca, a humanidade é a grande der­ro­tada pela ambição dos homens.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

É pre­ciso cor­agem para fazer a coisa certa.

Escrito por Abdon Mar­inho

É pre­ciso cor­agem para fazer a coisa certa.

Por Abdon C. Marinho.

EXISTE um con­senso na sociedade: todos gosta­mos de fes­te­jar, de festa, diver­são. Os que não gostam são as exceções que jus­ti­fi­cam a regra. Existe até um sam­binha cuja letra é mais ou menos assim: “quem não gosta de samba bom sujeito não é ou está ruim da cabeça ou doente do pé…”

O prefeito de Cedral, Danilo Moraes, meu amigo e revi­sor desta col­una, prati­ca­mente, desde que ela existe – os com­pro­mis­sos da cam­panha e, agora, do mandato, o afas­tou dessa “mis­são” mas, sem­pre que pos­sível ainda con­tribui –, inte­gra a grande maio­ria dos que gostam de fes­te­jar, ainda assim, com a cor­agem de bem poucos tomou uma decisão que foi na “con­tramão” do con­senso gen­er­al­izado: decidiu que os recur­sos públi­cos do municí­pio que admin­is­tra não iriam, esse ano, custear o Car­naval local.

Esse fato faz com ele saia da posição de revi­sor para a de pro­tag­o­nista da nossa col­una de hoje.

Até onde sei, ape­nas dois prefeitos maran­henses tomaram essa ini­cia­tiva – se exi­s­tirem out­ros me avisem para que possa fazer o reg­istro –, o prefeito de Ama­rante do Maran­hão, na região sul do estado, que decidiu sus­pender o car­naval por razões san­itárias (o prefeito infor­mou a existên­cia de um surto de COVID 19 no municí­pio) e o prefeito de Cedral, no litoral norte.

O que torna a decisão de Danilo Moraes cora­josa e espe­cial é que ele, pes­soal­mente, foi para as redes soci­ais e veícu­los de comu­ni­cação e disse que deix­ava de patroci­nar o Car­naval local com ban­das e tudo mais, porque, nesse momento, as pri­or­i­dades dele, como gestor, são out­ras: é recu­perar os pré­dios públi­cos, veícu­los, mel­ho­rar os aces­sos dos povoa­dos e tan­tas out­ras coisas que o municí­pio pre­cisa resolver antes de gas­tar direta e indi­re­ta­mente quase um mil­hão dos recur­sos munic­i­pais em três dias de festa. Isso parece tão óbvio.

No seu vídeo o prefeito se com­pro­m­e­teu (e fez) em bus­car out­ros patroci­nadores para custear as brin­cadeiras locais como eram os car­navais de antiga­mente.

O que torna a ati­tude do prefeito lou­vável é que mesmo diante das incom­preen­sões, que cer­ta­mente virão, ou da explo­ração do fato pelos adver­sários, ele não se que­dou, não teve medo de fazer o certo, que é, na sua visão (e na visão das pes­soas sen­sa­tas) pri­orizar os serviços públi­cos em detri­mento das fes­tas car­navalescas.

Ao virar a chave e romper com o roteiro pre­vi­a­mente esta­b­ele­cido: tem que gas­tar com o car­naval, tem que con­tratar banda (de prefer­ên­cia a mel­hor e mais cara), ele mostra que não terá medo de fazer o que é certo, ainda que isso venha a desagradar algu­mas pessoas.

Muito emb­ora ele esteja coberto de razões para decidir não colo­car 600, 700 ou mesmo um mil­hão de reais numa festa de três dias, pois rece­beu os equipa­men­tos públi­cos sucatea­dos, con­tas para pagar e zero de recur­sos nas con­tas públi­cas, muitos são os que não com­preen­dem essa ati­tude, uns por ignorân­cia, out­ros por má-​fé e, ainda, out­ros pelo sem­pre pre­sente opor­tunismo.

É claro que muitos out­ros gestores rece­beram seus municí­pios em idên­tica situ­ação ou até mesmo em situ­ação pior, infe­liz­mente, esses não tiveram a cautela de fazer o enfrenta­mento que o prefeito de Cedral fez.

Com isso ele “inau­gura” uma nova forma de admin­is­trar: ter a cor­agem de enfrentar as críti­cas para fazer a coisa certa e cumprir com o plano de gov­erno com o qual se com­pro­m­e­teu na eleição.

Como dito, cer­ta­mente o prefeito nada tem con­tra as fes­tas car­navalescas ou qual­quer outra, mas sabe que não faz sen­tido pagar uma for­tuna para algu­mas ban­das e estru­turas em detri­mento das neces­si­dades da pop­u­lação, dos seus servi­dores, dos serviços públi­cos de qual­i­dade.


Desde muito tempo exponho a opinião de que não faz muito sen­tido um municí­pio, sobre­tudo, os pequenos municí­pios, con­tratarem com recur­sos públi­cos grandes ban­das “aliení­ge­nas” para suas pro­gra­mações de car­naval, fes­te­jos juni­nos, aniver­sários ou out­ros even­tos de seus cal­endários cul­tur­ais.

Explico os motivos: exceto pela a ale­gria momen­tânea dos cidadãos, o resto é só pre­juízo. O municí­pio tira, por exem­plo, 500, 600 mil para pagar artis­tas e estru­tura de festa, esse din­heiro deixa de cir­cu­lar na cidade e vai cir­cu­lar na cidade e/​ou no estado da sede da empresa ou da casa do artista. Jamais esse recurso é recu­per­ado com os trib­u­tos ger­a­dos pelo evento, até porque a maio­ria dos municí­pios maran­henses não pos­suem estru­tura de arrecadação de impos­tos e quando pos­sui o que con­segue arrecadar é incip­i­ente.

Tem mais de uma década que fiz um desafio: que provem que estou errado nessa assertiva. Nunca ninguém me provou. É pre­ciso que haja essa com­pro­vação téc­nica: vamos inve­stir X e vamos rece­ber em trib­u­tos XY.

Arrisco dizer que, talvez o gov­erno estad­ual – que resolveu inve­stir bas­tante nesse segui­mento –, ou os grandes municí­pios con­sigam, ao menos, “empatar” o que gas­tam com esses even­tos com a arrecadação de impos­tos, o restante dos municí­pios, arrisco dizer, mais de noventa por cento, retira din­heiro público que pode­ria ser investido em coisas mais urgentes para man­dar para out­ras cidades e esta­dos, sem qual­quer retorno.

Dá-​se, o que já alertei diver­sas vezes, uma espé­cie de Robin Hood ao con­trário: tira-​se dos pobres para dar aos ricos.

Essa é uma questão matemática: se você pega o din­heiro público e manda para out­ros municí­pios e esta­dos, sem que o mesmo cap­i­tal ou mais, retorne através de arrecadação de impos­tos, você está tor­nando seu municí­pio mais pobre e enri­cando os que recebem esses recur­sos.

Para começar, a maio­ria das pes­soas que vão para os pequenos municí­pios por ocasião do Car­naval, Sem­ana Santa, ou out­ros feri­ados, são os fil­hos da terra que retor­nam para vis­i­tar os par­entes, não são tur­is­tas de verdade.

Os pequenos municí­pios que têm vocação turís­tica, aliás, pre­cisam, antes, inve­stir na infraestru­tura local para con­seguir atrair out­ros tur­is­tas e assim jus­ti­ficar com a pre­visão de incre­mento na arrecadação, os inves­ti­men­tos na con­tratação de shows artís­ti­cos.

Essa, ainda, não é a real­i­dade da maio­ria dos municí­pios maran­henses.

O jovem prefeito de Cedral, rompeu com um par­a­digma ao preferir, acer­tada­mente, uti­lizar os recur­sos públi­cos que des­ti­naria ao paga­mento de ban­das e estru­turas aliení­ge­nas e inve­stir na recu­per­ação dos pré­dios e equipa­men­tos públi­cos. Acer­tará, ainda, mais se con­seguir con­tratar ape­nas empre­sas e mão de obra locais para real­iza­ção dos serviços, fazendo com que o din­heiro cir­cule den­tro do municí­pio.

É pre­ciso ter cor­agem para fazer a coisa certa prin­ci­pal­mente nos dias de hoje em que os con­ceitos e val­ores pare­cem ter se inver­tido. Muitos, na ver­dade, até têm ver­gonha de fazer o que é certo, preferindo ape­nas seguir o que os out­ros fazem sem qual­quer ques­tion­a­mento.

O que o prefeito de Cedral fez é o que dev­e­ria ser feito por todos os demais prefeitos e prefeitas: primeiro ver­i­ficar as reais neces­si­dades do povo e só depois “inve­stir” em out­ras coisas que não são tão necessárias e/​ou urgentes em um iní­cio de mandato.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.