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Reflexões sobre a finitude.

Escrito por Abdon Mar­inho


Reflexões sobre a finitude.

Por Abdon C. Marinho.

ACORDEI com uma musiquinha na cabeça “Quando eu mor­rer /​Não quero choro, nem vela/​Quero uma fita amarela/​Gravada com o nome dela”, é do samba do imor­tal Noël Rosa, do qual só lem­bro a primeira estrofe e que aprendi com a música do tam­bém imor­tal Nel­son Gonçalves.

Emb­ora com diver­sos assun­tos “pau­ta­dos na mente” decidi escr­ever sobre a fini­tude da vida.

Difer­ente de muitos ami­gos e/​ou con­heci­dos que até evi­tam falar sobre a única certeza que temos – a de que ao nasce­mos, com vida, já gan­hamos o bil­hete da par­tida –, esse assunto não me é um “tabu”, devo dizer que até gosto de falar sobre ele.

A ela, com­pan­heira da qual nessa pas­sagem ninguém pode fugir, ape­nas peço que me con­ceda a graça da serenidade da par­tida, sem dores e/​ou sofri­mento – de resto está tudo bem.

Nas man­hãs de nos­tal­gia, cos­tumo con­ver­sar com o sen­hor Afrânio a cam­inho do escritório – como o cam­inho é longo e os assun­tos escas­sos –, faze­mos exer­cí­cios para o futuro dizendo um ao outro que daqui 20, 30, 50 ou 100 anos, nada do que ocupa nos­sas pre­ocu­pações terá qual­quer importân­cia, com sorte talvez sejamos um retrato na parede ou uma vaga lem­brança de algum ente querido ou de seus suces­sores.

Dando asas à imag­i­nação, Afrânio diz que os bis­ne­tos ou tatarane­tos da cri­anças que encon­tramos na estrada ao cam­inho da escola olharão para meu o meu sítio e dirão: — ah, ai onde hoje é um con­domínio – ou uma flo­resta –, meu avô (ou bisavô) disse que morou um cidadão por nome Abdon, que era uma pes­soa assim ou assada.

E seguimos rumo ao tra­balho con­jec­turando sobre o futuro dis­tante, o que será feito dos bens que tola­mente acu­mu­lamos? Quem deles usufruirão? Quem lem­brará de nós?

Mas, como disse, a fini­tude não é algo que me assuste ou me apa­vore, a ideia, inclu­sive, me parece ter uma certa poesia.

Con­heço pes­soas que são de tal forma apa­vo­radas a única certeza que temos que até evi­tam falar sobre os seus entes queri­dos que par­ti­ram antes delas – sim, todos farão a viagem.

Tratam aquele pai, aquele tio, primo, aquele mel­hor amigo que par­tiu como se nunca tivesse exis­tido. Não sei se con­seguem, mas ten­tam, a todo custo, apagar-​lhes a existên­cia.

Imag­ino que seja algo muito penoso, por medo, ten­tar apa­gar da memória pes­soas que foram tão impor­tantes (ou que tiveram alguma importân­cia) nas suas vidas.

Mas cada um sabe de si. Cer­ta­mente, muitos, sequer, terão cor­agem de ler esse texto.

Como sou de família muito grande aprendi, desde cedo, a con­viver com a morte. Lembro-​me bem daque­les par­entes que fiz­eram a viagem antes de mim. Minha tia Zefa, minha mãe, minha avó, tia Mal­fisia. Lembro-​me de como se deu cada velório e/​ou o enterro no cemitério da minha aldeia.

O final do ano de 1994 para o iní­cio de 1995 reg­is­tramos muitas par­tidas, além de meu pai, perdemos out­ros três ou qua­tro tios e tias. Foram tan­tos funerais que cheguei a “brin­car” com a situ­ação.

Naquele ano (1994) foi lançado o filme britânico “Qua­tro casa­men­tos e um funeral”, com os ami­gos próx­i­mos, prin­ci­pal­mente a amiga e jor­nal­ista Valde­rina Rocha Sil­veira, que na época fazia a cober­tura da Assem­bleia e da política em geral para “O Impar­cial”, brin­cava dizendo que comigo deu-​se o seguinte: uma der­rota (a eleição de Cafeteira) e qua­tro (ou cinco) funerais.

Era 29 de novem­bro de 1994, uma terça-​feira, estava em pleno expe­di­ente na Assem­bleia Leg­isla­tiva – onde chegava todos os dias antes das sete da manhã –, quando, por volta das dez, meu irmão Dadido (que perdemos há poucos dias) ligou para o gabi­nete: — papai mor­reu! Antes que tivesse tempo para qual­quer argu­men­tação ou mesmo para saber o que acon­te­ceu, com­ple­tou: — estou pas­sando aí para te apan­har.

Mal tive tempo de avisar os cole­gas de gabi­nete e ao dep­utado com quem tra­bal­hava e que estava em sessão que estava deixando o expe­di­ente para ir ao velório e enterro de meu pai. Meia hora depois ele estava no esta­ciona­mento dos fun­dos da ALMA, que fun­cionava na Rua do Egito, para irmos ao velório em Gov­er­nador Archer e para o enterro no Cen­tro Novo, nossa aldeia. A viagem foi em um carro com car­ro­ce­ria (uma pampa ou saveiro), lem­bro bem porque fui na parte de cima e o vento afas­tava as lágri­mas do rosto. Naquele tempo, emb­ora ache que fosse proibido, não tinha tanta fis­cal­iza­ção, fize­mos os mais de trezen­tos quilômet­ros sem qual­quer prob­lema.

Somente em Gov­er­nador Archer, durante o velório, soube que meu pai saíra de casa para “ir à rua”, como se dizia, e, não andara 30 metro saindo da sua casa, caiu vítima de um ataque cardíaco ful­mi­nante.

O meu tio Praxedes, o irmão de minha mãe é casado com minha tia Zefa (irmã de meu pai) que veio na saga dos Cal­heiros do Rio Grande do Norte para o Maran­hão, deixou-​nos em 2008.

Em agosto de 2011 perdemos o último dos “vel­hos tron­cos” dos Cal­heiros Mar­inho, o nosso tio Pedro, uma espé­cie de refer­ên­cia para toda família. Uma figura extra­ordinária que mesmo antes e, prin­ci­pal­mente, após a morte de todos os seus irmãos e irmãs pas­sou a ser nossa “bús­sola”, a pes­soa que mais de uma cen­tena de sobrin­hos tinha por hábito ouvir.

Espir­i­tu­oso dava con­sel­hos para as irmãs que ficaram viú­vas para se casarem nova­mente. Tio Pedro, ape­sar de nascido em 1930, foi uma pes­soa muito além do seu tempo.

Com sua par­tida encerrou-​se um ciclo na vida da família.

Outro dia falava com minha irmã mais velha, ela e a outra irmã ainda pesarosas com a pas­sagem de Dadido que nascera entre as duas e que fiz­era a pas­sagem de forma ser­ena enquanto dormia. Dizia-​lhes que tivessem força e con­fi­ança pois a vida é ape­nas uma breve etapa.

Com res­ig­nação ela me disse: — é, meu irmão, algum de nós teríamos que ini­ciar essa jor­nada.

Emb­ora sem sem medo ou receio, dei-​me conta que já havíamos ini­ci­ado um novo ciclo. Assim é a vida. Os cic­los vão se suce­dendo sem que ninguém possa parar ou impedir o giro da roda.

E é por ter essa com­preen­são de que tudo é pas­sageiro e que, daqui a pouco, os bens acu­mu­la­dos, os títu­los, as vaidades, os pre­con­ceitos, ape­nas serão parte do pas­sado que procuro seguir a minha vida ape­nas com o propósito de ser útil e de fazer o bem.

Pois é disso que se trata.

Mesmo o homem mais rico, mais culto, mais inteligente poderá impedir que o ciclo da vida se com­plete. Pois todos são pó e todos ao pó retornarão.

Côn­scio disso e tam­bém con­fi­ante que vou reen­con­trar os fiz­eram a viagem antes de mim, procuro man­ter viva a lem­brança de cada um.

Gosto de lem­brar e de citar as lições que aprendi com o meu pai; os con­sel­hos de tio Pedro; os aconche­gos da minha mãe; as “palestras” com os tios ami­gos, pri­mos, sobrin­hos que na inver­são da “roda” acabaram indo antes. Fra­sista gosto de lem­brar daque­las que aprendi ao longo da jor­nada dos meus ami­gos, frase tal quem disse foi o saudoso amigo WR, que deixou-​nos, em 2010; ou Bened­ito Ter­ceiro, por exem­plo. Como gosto de livros, lem­bro de quais livreiros os adquiri ou de quem gan­hei. Em 1986, meu irmão Dadido me pre­sen­teou com um livro do Nauro Machado e que em tal livro tinha a frase ou poema que dizia: “os mor­tos não lêem os epitá­fios das man­hãs”.

Quase quarenta anos e a frase não me sai da lem­brança como a dizer que para quem par­tiu já não inter­essa o que tens a dizer nos epitá­fios.

Entre­tanto, o cul­tuar, lem­brar, gostar e expres­sar o amor pelos que fiz­eram a viagem antes de mim faz com que, ao menos para mim, cada um per­maneça vivo, como, de fato, vivos estão, nas min­has memórias e no meu coração.

Um dos praz­eres que tenho é quando a minha família vem pas­sar uns dias comigo e podemos reser­var uma manhã ou começo de noite para falar­mos dos nos­sos que já fiz­eram a viagem. Ao meu irmão Armando, que tem uma memória fab­u­losa, fico inda­gando sobre um e outro, quando lem­bro algo que ele não lem­bra mais, diz que sou mais velho que ele.

A vida, para con­cluir, não tem qual­quer mis­tério: a cada um é dado um “voucher” com prazo de val­i­dade para que aproveitem a esta­dia. Cabe a cada um fazer o mel­hor proveito disso.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

Edu­cação: desafios e soluções.

Escrito por Abdon Mar­inho


Educação: desafios e soluções.

Por Abdon C. Marinho.

QUANDO assumirem, em primeiro de janeiro do próx­imo ano, os des­ti­nos de seus municí­pios os novos gestores – e mesmo os que foram reeleitos –, além de garan­ti­rem que tenha medica­men­tos e médi­cos nos hos­pi­tais; que o lixo seja recol­hido; que o ônibus esco­lar e a ambulân­cia esteja fun­cio­nando; que ruas e estradas este­jam trafegáveis, pre­cis­arão ter em mente que os seus mandatos serão deter­mi­nantes para o novo mundo que se descortina diante dos nos­sos olhos.

Em tal cenário faz-​se necessário com­preen­der o papel da edu­cação. A par­tir de agora pre­cisamos preparar as cri­anças que estão ingres­sando nas esco­las e aque­las que lá já se encon­tram para um mundo em trans­for­mação.

Esse é o prin­ci­pal desafio dos novos gestores e edu­cadores: edu­car para um mundo em trans­for­mação.

Lá pela minha infân­cia, lembro-​me bem, dizia-​se que o “anal­fa­beto era como um cego” pois ape­sar de vê não com­preen­dia nada daquilo que via.

O mundo de hoje “diminuiu” de tamanho. Vive­mos em um mundo glob­al­izado, inter­conec­tado e tec­nológico e muito mais com­plexo.

Um mundo que enfrenta, como nunca antes, os desafios do aque­c­i­mento global e de um clima cada vez mais instável, com as estações se mis­tu­rando e sem que con­sig­amos enten­der nada do que se passa.

Um mundo onde os rad­i­cal­is­mos não abrem espaços para o racional­ismo, a tem­per­ança e o bom-​senso.

Um mundo alta­mente tec­nológico e conec­tado colo­cando um cidadão brasileiro a clique de dis­tân­cia de um cidadão japonês ou core­ano ou amer­i­cano ou canadense ou sul africano, etcetera e tal.

Diante disso pre­cisamos enten­der que não é sufi­ciente o mod­elo de ensino que era prat­i­cado a cem ou mesmo cinquenta anos atrás.

Pre­cisamos de uma política de ensino que desde o infan­til I e II e mesmo nos anos ini­ci­ais do fun­da­men­tal pos­si­bilite as mes­mas condições e fer­ra­men­tas de apren­diza­gem as nos­sas cri­anças.

O ex-​ministro da edu­cação, ex-​governador e pro­fundo con­hece­dor da política edu­ca­cional brasileira, Cristo­vam Buar­que, sus­tenta desde muito tempo a neces­si­dade de se “fed­er­alizar” o ensino fun­da­men­tal brasileiro. Em recentes arti­gos sus­ten­tou ser impe­rioso que ao invés de nos pre­ocu­par­mos ape­nas em alfa­bet­i­zar as cri­anças até o oitavo ano de suas vidas dev­eríamos fazer isso já em pelo menos dois idiomas e ainda que pre­cisamos ter a tec­nolo­gia como ali­ada do processo de apren­diza­gem.

Devo dizer aos novos gestores e aos edu­cadores – que já não são tão novos assim –, que os desafios de edu­car­mos cri­anças e ado­les­centes para um mundo em trans­for­mação (e tran­sição) ofertando-​lhes as fer­ra­men­tas necessárias para um mundo glob­al­izado, tec­nológico e conec­tado não é tão difí­cil quanto parece.

Muito emb­ora setenta por cento dos recur­sos da edu­cação sejam des­ti­na­dos con­sti­tu­cional­mente ao paga­mento dos seus servi­dores, difer­ente de out­ras áreas, na edu­cação pública é pos­sível “fazer din­heiro” enquanto se investe.

Os exem­p­los mais claros disso é a polit­ica de con­traturno e a de ensino inte­gral. Na primeira já é pos­sível incre­men­tar em aprox­i­mada­mente trinta por cento a receita enquanto que na segunda pode se chegar a até cem por cento.

Imag­ino que os novos gestores devam se cer­car nessa área de pes­soas que enten­dam a política edu­ca­cional e que sejam com­pro­meti­das com a edu­cação e com o futuro desses mil­hões de pequenos cidadãos que pre­cisam ter garan­ti­dos os seus dire­itos.

Em relação aos municí­pios, é dizer: pre­cisamos que todas as cri­anças desde aque­las em idade de crèche até o nono ano este­jam na crèche/​escola o maior tempo pos­sível.

Para que isso acon­teça é necessário uma busca ativa e um con­t­role rígido da fre­quên­cia esco­lar.

Ah, mais a maio­ria dos municí­pios não pos­suem estru­tura física para acol­her os alunos em tempo inte­gral, esse é um dos prin­ci­pais argu­men­tos que escuto por onde passo e acred­ito que exis­tem muitas maneiras de resolver­mos essa situ­ação e quando vem a estru­tura.

Uma das pos­si­bil­i­dades é o con­traturno com salas mis­tas de cur­sos especí­fi­cos: inglês, espan­hol, música, teatro, artes diver­sas; ou as práti­cas esporti­vas.

Os estu­dantes dos anos finais poderão ter ativi­dades edu­ca­cionais próprias da edu­cação inte­gral sem nec­es­sari­a­mente ficarem vin­cu­la­dos à série a que estão matric­u­la­dos. Essa inte­gração, aliás, se dev­i­da­mente acom­pan­hada por edu­cadores, poderá ter um impacto sig­ni­fica­tivo no cresci­mento int­elec­tual e emo­cional desses ado­les­centes.

Estu­dantes do sexto ao nono (e até mesmo do quinto) podem inter­a­girem em ativi­dades especí­fi­cas de apren­diza­gem e/​ou esporti­vas e cul­tur­ais com acréscimo sig­ni­fica­tivo ao seu apren­dizado e for­mação.

Claro, repito, depen­derá do acom­pan­hamento dos edu­cadores e do seu com­pro­misso com edu­cação e a for­mação dessas crianças/​adolescentes.

Com isso resolve­mos, ao menos, em parte, a questão da falta de estru­tura física.

Existe no mer­cado edi­to­r­ial pro­je­tos educa­tivos com essa final­i­dade.

Uma outra forma de mel­ho­rar a receita da edu­cação com foco em um ensino de mel­hor qual­i­dade é desen­volver uma política edu­ca­cional para os jovens, adul­tos e idosos o nosso velho EJA que agora foi acrescido um I para os idosos.

Com quem falo escuto a mesma coisa, com algu­mas vari­ações: — não adi­anta, começamos as tur­mas com 40 e cheg­amos ao final do ano com 5.

É fato que muitos jovens, adul­tos e mesmo os idosos, não pos­suem muita paciên­cia para o apren­dizado ou para voltarem para as salas de aulas. Os números mostram isso.

Mas não é papel do gestor e, prin­ci­pal­mente, do edu­cador, desi­s­tir desse público.

O que se pre­cisa é de estraté­gia de ensino.

Os jovens, adul­tos ou idosos não querem ir para a sala de aula? Por que não os matric­u­lamos em ativi­dades do seu inter­esse em sis­tema de EaD?

Estu­dava que o ensino de lín­guas para os idosos tem efeitos mag­ní­fi­cos sobre os cére­bros dos mes­mos, evi­tando ou retar­dando inúmeras doenças neu­rológ­i­cas, o mesmo podemos dizer das ativi­dades esporti­vas para esse público.

Sendo o EJAI uma modal­i­dade de ensino com poten­cial para trazer bene­fí­cios edu­ca­cionais e de saúde para o con­junto da sociedade brasileira pre­cisamos ter estraté­gias para o seu fomento. Pode se ado­tar a busca ativa, acom­pan­hamento, cur­sos especí­fi­cos, áreas de inter­esse, aliar a edu­cação à pre­venção de prob­le­mas de saúde e tan­tos out­ros.

O impor­tante é que gestores e edu­cadores com­preen­dam a importân­cia de “pen­sarem a edu­cação” fora da caixa. Fun­da­men­tal que haja, da parte de todos, com­pro­me­ti­mento.

A edu­cação nunca foi prob­lema para nen­huma gestão, pelo con­trário, é a prin­ci­pal solução para todos demais prob­le­mas que acome­tem os municí­pios, esta­dos e a nação.

E, em um mundo em trans­for­mação (e tran­sição), a edu­cação é a mel­hor, senão a única solução.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

A tragé­dia fluminense.

Escrito por Abdon Mar­inho


A TRAGÉ­DIA FLU­MI­NENSE.

Por Abdon C. Marinho.

ACRED­ITO que para aque­les que banalizaram a des­graça as ima­gens mais impac­tantes dos últi­mos dias – pelo menos até o surg­i­mento de out­ras mais impac­tantes que não tar­darão a apare­cer –, foram as do tiroteio ocor­rido no horário em que os tra­bal­hadores se diri­giam ao tra­balho, os estu­dantes para as esco­las, entre a polí­cia e traf­i­cantes em plena Avenida Brasil, no Rio de Janeiro.

A pop­u­lação, em meio ao fogo cruzado, teve que descer dos veícu­los para se escon­derem atrás dos mes­mos e/​ou das mure­tas de pro­teção da via. O saldo em vidas humanas per­di­das foi de três pais de família que não voltaram vivos para suas casas. Não foi pior porque, ante a infe­ri­or­i­dade patente, a polí­cia recuou.

Emb­ora já se soubesse, esse acon­tec­i­mento com­pro­vou de forma cristalina que a polí­cia do Rio de Janeiro não estava preparada para enfrentar o “poder de fogo” dos ban­di­dos.

Diante da guerra civil insta­l­ada o gov­erno estad­ual levou doze horas para vir a público para nada dizer.

A cada dia que passa a sociedade brasileira vai percebendo que no Rio de Janeiro – e tam­bém em out­ras partes desse imenso país –, o Estado ou o que se entende por poder estatal, não passa de uma ficção, um poder vir­tual que cobra impos­tos, exerce algu­mas funções pro­to­co­lares, mas que não exerce efe­ti­va­mente o poder.

Em todas as regiões do estado e, sobre­tudo, na cap­i­tal, não existe uma em que os cidadãos não este­jam sub­meti­dos ao jugo do crime orga­ni­zado e/​ou de milí­cias. Em maior ou menor grau os cidadãos são sub­meti­dos aos “donos do poder”, que exercem suas autori­dade e explo­ram as pes­soas da forma que lhes con­vém.

Sabe-​se que em deter­mi­nadas regiões até a fé e a religião das pes­soas é deter­mi­nada por traf­i­cantes e/​ou mili­cianos.

Ainda que vio­lên­cia estar­rece­dora e capaz de fazer aque­les cidadãos diari­a­mente refle­tirem sobre a fini­tude da vida, pois saem de casa sem a certeza se voltarão ao seio dos seus famil­iares, uma outra tragé­dia retratando o caos – e com con­se­quên­cias para o futuro –, começa a se desenhar.

Quando saiu o resul­tado do último IDEB (Índice do Desen­volvi­mento da Edu­cação Básica) duas coisas me chama­ram a atenção.

A primeira, o salto extra­ordinário do Estado do Pará, que saiu das últi­mas posições para a sexta posição – e que já trata­mos aqui em tex­tos ante­ri­ores.

A segunda, a posição, que podemos chamar de vex­atória, do Estado do Rio de Janeiro.

Desde então tenho ten­tando enten­der o que fez o estado que pos­sui a segunda econo­mia do país, que já foi a cap­i­tal do Império e da República, um dos maiores cen­tros cul­tur­ais do mundo, onde se local­iza a Acad­e­mia Brasileira de Letras — ABL, etceteras e tal – poderíamos pas­sar horas descorti­nando as diver­sas van­ta­gens do estado a jus­ti­fi­carem a gravi­dade do mesmo em apare­cer na posição em que figurou.

O que mais me chamou a atenção é que, muito emb­ora os anos ini­ci­ais e finais do ensino fun­da­men­tal não sejam tão ruins, o estado fica em uma posição inter­mediária, no “meião” entre os demais, quando pas­samos a anal­isar os indi­cadores do ensino médio há uma piora sig­ni­fica­tiva, levando-​o para as últi­mas posições do rank­ing.

Vejam, são os jovens que dev­e­riam estu­dar mais para con­struírem mel­hores per­spec­ti­vas de vida para o seu futuro que se “desin­ter­es­sam” pela edu­cação levando a uma queda abrupta do indi­cador de avali­ação do ensino.

A per­gunta que se faz necessária é o que está “seduzindo” esses mil­hões de jovens para que abdiquem de um futuro com mais edu­cação, com mais for­mação, com mais con­hec­i­mento, com mais pos­si­bil­i­dades de cresci­mento pes­soal?

Trata-​se, por óbvio de uma per­gunta retórica, a resposta se encon­tra no iní­cio do texto: esses jovens sendo “ali­ci­a­dos” pelas várias modal­i­dades do crime que infesta o estado para ingres­sarem nas suas facções, que daqui a pouco – pouco mesmo –, poder­e­mos chamar de exérci­tos do crime orga­ni­zado.

O que nos resta saber é se esses ali­ci­a­men­tos de jovens que estão aban­do­nando os estu­dos ainda ocorre de maneira vol­un­tária ou se já estão ali­ciando de forma com­pul­sória, isso é, obri­g­ando essas cri­anças e ado­les­centes a virarem “sol­da­dos” do crime.

A tragé­dia está se desen­rolando à vista de todos e começa a apare­cer nos indi­cadores da edu­cação básica.

As autori­dades pre­cisam saber inter­pre­tar os números, enten­der as ori­gens dos prob­le­mas para poder enfrentá-​los.

Mais, ou fazem isso a par­tir de agora, com dis­ci­plina e seriedade ou não terão outra chance para faz­erem isso.

O Rio de Janeiro com uma econo­mia tão forte e os mil­hões ou bil­hões que recebem dos roy­al­ties do petróleo e tan­tos out­ros de out­ras fontes, com o suporte do gov­erno fed­eral, pre­cisa colo­car toda a sua edu­cação, do ensino infan­til ao médio, em sis­tema inte­gral, com os alunos entrando na escola às sete da manhã e só saindo no começo da noite.

Essa é a primeira medida para evi­tar o assé­dio do crime sobre essas cri­anças e jovens.

Outra medida é con­t­role rig­oroso da pre­sença desses jovens em sala de aula ou nas ativi­dades educa­ti­vas que os formem de acordo com suas habil­i­dades ou inter­esses pes­soais.

Os municí­pios, o estado e união pre­cisam encarar esse desafio como pri­or­i­dade número um. E se falamos isso em relação ao Rio de Janeiro não é porque a situ­ação seja difer­ente em out­ros esta­dos é que lá a tragé­dia já começa a apare­cer nos indi­cadores edu­ca­cionais.

Outro dia o gov­erno fed­eral reuniu todos gov­er­nadores com a mis­são de encon­trarem estraté­gias para com­bater o crime orga­ni­zado que se alas­tra sobre o país e que ameaça tomar o poder, inclu­sive insti­tu­cional – talvez por isso se reuni­ram –, sur­gi­ram as ideias de enfrenta­mento as mais inter­es­santes.

Urge que enfrente­mos o crime orga­ni­zado, esta­mos diante de uma emergên­cia nacional, diante de gru­pos crim­i­nosos que já agem e pos­suem o pode­rio econômico das máfias.

Entre­tanto, nessa etapa, estare­mos ape­nas com­bat­endo os efeitos do fra­casso estatal. Pre­cisamos fazer isso, com certeza, mas para­lelo a esse enfrenta­mento pre­cisamos fazer o com­bate da vio­lên­cia na sua origem com políti­cas públi­cas que assis­tam as pes­soas desde o iní­cio de suas vidas.

A prin­ci­pal política pública é a oferta de edu­cação inte­gral, de qual­i­dade e pelo menos bilíngue para todas as cri­anças e ado­les­centes, de sorte que essas cri­anças e ado­les­centes já come­cem a se prepararem para o mundo glob­al­izado e tec­nológico em que vive­mos.

Não adi­anta só com­bater os ban­di­dos “for­ma­dos” é necessário impedir que eles sur­jam, é necessário que os chefes do crime dispon­ham de um exército de pes­soas prontas para sub­sti­tuírem os que estão sendo pre­sos ou mor­tos em con­fronto com a polí­cia.

Ao meu sen­tir as autori­dades do país estão “per­di­das” nessa questão de com­bate a vio­lên­cia, ao crime orga­ni­zado, etcetera. Até onde soube, tan­tas autori­dades impor­tantes reunidas ninguém se deu conta de que não adi­anta tratar ape­nas dos efeitos, pre­cisamos com­bater as causas do prob­lema sob o risco de ape­nas “enx­u­gar gelo”.

Não soube que alguma das autori­dades pre­sentes tenha fal­ado de edu­cação para as cri­anças e jovens – e isso é fun­da­men­tal.

As autori­dades públi­cas desse país pre­cisam enten­der que é urgente uma ação assertiva com vis­tas a edu­cação inte­gral de todas as cri­anças e ado­les­centes (e mesmo adul­tos) como estraté­gia para com­bater os demais males que estão tomando de conta do país.

A tragé­dia que se desenha no Rio de Janeiro pre­cisa servir como alerta para os demais esta­dos da fed­er­ação.

O bor­dão é sur­rado mas necessário: sem edu­cação não tem solução.

Abdon C. Mar­inho é advogado.