AbdonMarinho - Cotidiano
Bem Vindo a Pagina de Abdon Marinho, Ideias e Opiniões, Quinta-feira, 03 de Abril de 2025



A palavra é o instrumento irresistível da conquista da liberdade.

Escrito por Abdon Marinho


Reflexões sobre a finitude.

Por Abdon C. Marinho.

 

ACORDEI com uma musiquinha na cabeça “Quando eu morrer /Não quero choro, nem vela/Quero uma fita amarela/Gravada com o nome dela”, é do samba do imortal Noel Rosa, do qual só lembro a primeira estrofe e que aprendi com a música do também imortal Nelson Gonçalves. 

 

Embora com diversos assuntos “pautados na mente” decidi escrever sobre a finitude da vida. 

 

Diferente de muitos amigos e/ou conhecidos que até evitam falar sobre a única certeza que temos –  a de que ao nascemos, com vida, já ganhamos o bilhete da partida –, esse assunto não me é um “tabu”, devo dizer que até gosto de falar sobre ele. 

 

A ela, companheira da qual nessa passagem ninguém pode fugir, apenas peço que me conceda a graça da serenidade da partida, sem dores e/ou sofrimento – de resto está tudo bem.

 

Nas manhãs de nostalgia, costumo conversar com o senhor Afrânio a caminho do escritório – como o caminho é longo e os assuntos escassos –, fazemos exercícios para o futuro dizendo um ao outro que daqui 20, 30, 50 ou 100 anos, nada do que ocupa nossas preocupações terá qualquer importância, com sorte talvez sejamos um retrato na parede ou uma vaga lembrança de algum ente querido ou de seus sucessores. 

 

Dando asas à imaginação, Afrânio diz que os bisnetos ou tataranetos da crianças que encontramos na estrada ao caminho da escola olharão para meu o meu sítio e dirão: — ah, ai onde hoje é um condomínio – ou uma floresta –, meu avô (ou bisavô) disse que morou um cidadão por nome Abdon, que era uma pessoa assim ou assada. 

 

E seguimos rumo ao trabalho conjecturando sobre o futuro distante, o que será feito dos bens que tolamente acumulamos? Quem deles usufruirão? Quem lembrará de nós?

 

Mas, como disse, a finitude não é algo que me assuste ou me apavore, a ideia, inclusive, me parece ter uma certa poesia.

 

Conheço pessoas que são de tal forma apavoradas a única certeza que temos que até evitam falar sobre os seus entes queridos que partiram antes delas – sim, todos farão a viagem. 

 

Tratam aquele pai, aquele tio, primo, aquele melhor amigo que partiu como se nunca tivesse existido. Não sei se conseguem, mas tentam, a todo custo, apagar-lhes a existência. 

 

Imagino que seja algo muito penoso, por medo, tentar apagar da memória pessoas que foram tão importantes (ou que tiveram alguma importância) nas suas vidas. 

 

Mas cada um sabe de si. Certamente,  muitos,  sequer, terão coragem de ler esse texto. 

 

Como sou de família muito grande aprendi, desde cedo, a conviver com a morte. Lembro-me bem daqueles parentes que fizeram a viagem antes de mim. Minha tia Zefa, minha mãe, minha avó, tia Malfisia. Lembro-me de como se deu cada velório e/ou o enterro no cemitério da minha aldeia. 

 

O final do ano de 1994 para o início de 1995 registramos muitas partidas, além de meu pai, perdemos outros três ou quatro tios e tias. Foram tantos funerais que cheguei a “brincar” com a situação. 

 

Naquele ano (1994) foi lançado o filme britânico “Quatro casamentos e um funeral”, com os amigos próximos, principalmente a amiga e jornalista Valderina Rocha Silveira, que na época fazia a cobertura da Assembleia e da política em geral para “O Imparcial”, brincava dizendo que comigo deu-se o seguinte: uma derrota (a eleição de Cafeteira) e quatro (ou cinco) funerais. 

 

Era 29 de novembro de 1994, uma terça-feira, estava em pleno expediente na Assembleia Legislativa – onde chegava todos os dias antes das sete da manhã –, quando, por volta das dez, meu irmão Dadido (que perdemos há poucos dias) ligou para o gabinete: — papai morreu! Antes que tivesse tempo para qualquer argumentação ou mesmo para saber o que aconteceu, completou: — estou passando aí para te apanhar. 

 

Mal tive tempo de avisar os colegas de gabinete e ao deputado com quem trabalhava e que estava em sessão que estava deixando o expediente para ir ao velório e enterro de meu pai. Meia hora depois ele estava no estacionamento dos fundos da ALMA, que funcionava na Rua do Egito,  para irmos ao velório em Governador Archer e para o enterro no Centro Novo, nossa aldeia. A viagem foi em um carro com carroceria (uma pampa ou saveiro), lembro bem porque fui na parte de cima e o vento afastava as lágrimas do rosto. Naquele tempo, embora ache que fosse proibido, não tinha tanta fiscalização, fizemos os mais de trezentos quilômetros sem qualquer problema. 

 

Somente em Governador Archer, durante o velório, soube que meu pai saíra de casa para “ir à rua”, como se dizia, e, não andara 30 metro saindo da sua casa, caiu vítima de um ataque cardíaco fulminante. 

 

O meu tio Praxedes, o irmão de minha mãe é casado com minha tia Zefa (irmã de meu pai) que veio na saga dos Calheiros do Rio Grande do Norte para o Maranhão, deixou-nos em 2008. 

 

Em agosto de 2011 perdemos o último dos “velhos troncos” dos Calheiros Marinho, o nosso tio Pedro, uma espécie de referência para toda família. Uma figura extraordinária que mesmo antes e, principalmente, após a morte de todos os seus irmãos e irmãs passou a ser nossa “bússola”, a pessoa que mais de uma centena de sobrinhos tinha por hábito ouvir. 

 

Espirituoso dava conselhos para as irmãs que ficaram viúvas para se casarem novamente. Tio Pedro, apesar de nascido em 1930, foi uma pessoa muito além do seu tempo. 

 

Com sua partida encerrou-se um ciclo na vida da família. 

 

Outro dia falava com minha irmã mais velha, ela e a outra irmã ainda pesarosas com a passagem de Dadido que nascera entre as duas e que fizera a passagem de forma serena enquanto dormia. Dizia-lhes que tivessem força e confiança pois a vida é apenas uma breve etapa. 

 

Com resignação ela me disse: — é, meu irmão, algum de nós teríamos que iniciar essa jornada. 

 

Embora sem sem medo ou receio, dei-me conta que já havíamos iniciado um novo ciclo. Assim é a vida. Os ciclos vão se sucedendo sem que ninguém possa parar ou impedir o giro da roda. 

 

E é por ter essa compreensão de que tudo é passageiro e que,  daqui a pouco, os bens acumulados, os títulos, as vaidades, os preconceitos, apenas serão parte do passado que procuro seguir a minha vida apenas com o propósito de ser útil e de fazer o bem. 

 

Pois é disso que se trata. 

 

Mesmo o homem mais rico, mais culto, mais inteligente poderá impedir que o ciclo da vida se complete. Pois todos são pó e todos ao pó retornarão. 

 

Cônscio disso e também confiante que vou reencontrar os fizeram a viagem antes de mim, procuro manter viva a lembrança de cada um. 

 

Gosto de lembrar e de citar as lições que aprendi com o meu pai; os conselhos de tio Pedro; os aconchegos da minha mãe; as “palestras” com os tios amigos, primos, sobrinhos que na inversão da “roda” acabaram indo antes. Frasista gosto de lembrar daquelas que aprendi ao longo da jornada dos meus amigos, frase tal quem disse foi o saudoso amigo WR, que deixou-nos, em 2010; ou Benedito Terceiro, por exemplo. Como gosto de livros, lembro de quais livreiros os adquiri ou de quem ganhei. Em 1986, meu irmão Dadido me presenteou com um livro do Nauro Machado e que em tal livro tinha a frase ou poema que dizia: “os mortos não lêem os epitáfios das manhãs”. 

 

Quase quarenta anos e a frase não me sai da lembrança como a dizer que para quem partiu já não interessa o que tens a dizer nos epitáfios. 

 

Entretanto, o cultuar, lembrar, gostar e expressar o amor pelos que fizeram a viagem antes de mim faz com que, ao menos para mim, cada um permaneça vivo, como, de fato, vivos estão, nas minhas memórias e no meu coração. 

 

Um dos prazeres que tenho é quando a minha família vem passar uns dias comigo e podemos reservar uma manhã ou começo de noite para falarmos dos nossos que já fizeram a viagem. Ao meu irmão Armando, que tem uma memória fabulosa, fico indagando sobre um e outro, quando lembro algo que ele não lembra mais, diz que sou mais velho que ele. 

 

A vida, para concluir, não tem qualquer mistério: a cada um é dado um “voucher” com prazo de validade para que aproveitem a estadia. Cabe a cada um fazer o melhor proveito disso. 

Abdon C. Marinho é advogado.