AbdonMarinho - A verdade de cada um passa longe de ser a verdade de todos
Bem Vindo a Pag­ina de Abdon Mar­inho, Ideias e Opiniões, Quinta-​feira, 03 de Abril de 2025



A palavra é o instru­mento irre­sistível da con­quista da liber­dade.

A ver­dade de cada um passa longe de ser a ver­dade de todos

A ver­dade de cada um passa longe de ser a ver­dade de todos.

Por Abdon C. Marinho.

ESSE é um texto para se ler desarmado.

Em 15 de março de 1985 acor­damos estu­pefatos com a notí­cia de que Tan­credo Neves o pres­i­dente eleito e por quem tanto torce­mos – antes, na cam­panha das dire­tas e depois no embate com Paulo Maluf, no colé­gio eleitoral, em janeiro do mesmo ano –, fora inter­nado na madru­gada e não mais tomaria posse naquele dia.

Naquela manhã ainda se deba­tia se seria dado posse a José Sar­ney – que ao longo da car­reira política até então dera sus­ten­tação ao régime mil­i­tar, inclu­sive, fora o pres­i­dente da ARENA até sair para ingres­sar no MDB e ser o can­didato a vice-​presidente na chapa –, ou ao dep­utado Ulysses Guimarães que fora o líder da oposição ao régime mil­i­tar durante toda vida política.

Como sabe­mos, Ulysses Guimarães foi con­tra tal arranjo e um dos defen­sores da nor­mal­i­dade democrática com a posse do vice-​presidente eleito, José Sar­ney, que assumiu interinamente.

Daquele dia até o 21 de abril seguinte o Brasil acom­pan­hou, com os olhos gru­da­dos na tele­visão ou ouvi­dos nos rádios, o calvário de Tan­credo Neves. Coube ao jor­nal­ista Antônio Brito, porta-​voz do pres­i­dente eleito – e que depois se tornaria gov­er­nador do Rio Grande do Sul –, anun­ciar a tragé­dia.

O 15 de março de 1985 teve esse misto de sen­ti­men­tos: era o fim do régime mil­i­tar – cujo o último presidente-​general, João Bap­tista de Figueiredo, recusou-​se a pas­sar a faixa a José Sar­ney, deixando-​a com um aju­dante de ordens –, mas com um amar­gor de con­tinuidade.

Ofi­cial­mente a ditadura chegara ao fim.

O restante da história todos con­hece­mos (ou dev­eríamos con­hecer). Sar­ney tirou os cinco anos de mandato sob o signo da descon­fi­ança e da ile­git­im­i­dade pop­u­lar – o povo que­ria Tan­credo –, cumpriu os com­pro­mis­sos da cam­panha, como reti­rar da ile­gal­i­dade par­tidos e enti­dades, cono­tar eleições livres e uma nova Con­sti­tu­ição Fed­eral, entre out­ros.

E o tempo passou.

Em 15 de março de 2025 comemorou-​se os quarenta anos da rein­sta­lação da democ­ra­cia em nosso país. Muitas saudações, matérias espe­ci­ais nos jor­nais para cel­e­brar os fatos de quarenta anos atrás.

Num daque­les para­doxos que só a história caberá avaliar, no dia seguinte alguns mil­hares de pes­soas foram às ruas para pedir anis­tia aos que, dois anos antes, em 8 de janeiro de 2023, suposta­mente, ten­taram “der­rubar” o gov­erno eleito.

Vejam que situ­ação inter­es­sante: em um dia comem­o­ramos quarenta anos do retorno da democ­ra­cia em nosso país; no dia seguinte, pede-​se anis­tia para aque­les que ten­taram romper com o ciclo democrático e “reim­plan­tar” um régime autoritário no país, nova­mente sob o comando de mil­itares que sessenta anos antes tomaram o poder e só o devolveram às cus­tas de muitos sac­ri­fí­cios, assas­si­natos, tor­turas, bani­men­tos, exílios, vinte e um anos depois.

O clima de polar­iza­ção política impede o cidadão comum, aquele não se encon­tra nos extremos do debate político, de enten­der o que vem acon­te­cendo no Brasil e como deve ou se deve se posi­cionar.

Algu­mas per­gun­tas são impor­tantes para serem feitas:

Quarenta anos após encer­rar­mos a ditadura mil­i­tar, vive­mos numa democ­ra­cia como a fes­te­jada no 15 de março?

Em 8 de janeiro de 2023 viven­ci­amos uma ten­ta­tiva de golpe con­tra essa democracia?

Se vive­mos em uma democ­ra­cia seria legí­timo que se ten­tasse um golpe para devolver nova­mente o poder aos mil­itares e seus aliados?

Se não vive­mos em uma democ­ra­cia o que efe­ti­va­mente se fes­te­jou no 15 de março de 2025?

Se viven­ci­amos uma ten­ta­tiva de golpe con­tra a democ­ra­cia em 8 de janeiro de 2023, os seus par­tic­i­pantes mere­cem respon­der por ela?

O tema da dis­cussão da anis­tia me parece ser uma pauta incon­tornável e quer me pare­cer urgente diante da sev­eri­dade (?) das penas apli­cadas pelo Supremo Tri­bunal Fed­eral — STF aos envolvi­dos.

Quer me pare­cer que ambas as “facções” políti­cas utilizam-​se da metá­fora do “final de campe­onato” a seu favor. Essa metá­fora é a seguinte: imag­inem um final de campe­onato impor­tante com o está­dio fervil­hando de torce­dores, todos na incon­tida emoção; o jogador marca o gol da vitória, corre para o cen­tro do campo e é abraçado, agar­rado, bei­jado por um, por dois, por três ou mais com­pan­heiros de time. Se você tirar o final de campe­onato, o está­dio lotado, os torce­dores emo­ciona­dos, o clima de eufo­ria, o gol da vitória, o terá será ape­nas dois, três, qua­tros ou mais homens se agar­rando e se bei­jando, muda total­mente o con­texto.

O que acon­tece na atual quadra política brasileira é mais ou menos isso. De um lado temos a facção que sus­tenta ter havido uma absurda ten­ta­tiva de golpe, com des­do­bra­men­tos inimag­ináveis, com mortes, assas­si­natos de autori­dades, reim­plan­tação de uma ditadura civil-​militar, é tudo que isso possa rep­re­sen­tar e de outro lado a facção política que sus­tenta não ter havido nada disso, com pes­soas sendo pres­sas por terem exer­cido ape­nas sua liber­dade de expressão e de protesto con­tra o gov­erno que acabara de se insta­lar. Em tal con­texto “pin­tam” que uma deter­mi­nada sen­hora, mãe de família, com dois fil­hos menores, foi presa e encontra-​se em vias de ser con­de­nada, tão somente por haver pichado com batom ver­melho a está­tua da Justiça, uma outra por ter ido passear na Praça dos Três Poderes por ocasião do ato; ou por ido tirar fotos e escr­ever sobre os fatos que estavam acon­te­cendo.

Ora, em tal con­texto, o Brasil seria uma das piores ditaduras do mundo, talvez com­parada a ditadura norte-​coreana que impõe penas de bani­men­tos ou de tra­bal­hos força­dos e até de morte a alguém que deixou de ado­rar o dita­dor de plan­tão ou que teve um mem­bro da família que fugiu do país.

Quem em sã con­sciên­cia não achará absurdo alguém ser con­de­nado a dura pena por haver pin­tado com batom uma está­tua? Ou mesmo um crime de dano mais grave? Quem achará razoável alguém ser con­de­nado a quase vinte anos de prisão por um crime de dano? Prati­ca­mente a mesma pena de um homicí­dio sim­ples.

Quando digo que a ver­dade de cada um passa longe da ver­dade de todos é porque acred­ito que, sim, ten­taram um golpe de estado. Golpe esse que vinha sendo ungido desde a ascen­são ao poder do ex-​presidente através dos seus ataques con­stantes aos demais poderes e insti­tu­ições da República, prin­ci­pal­mente o Poder Judi­ciário, em seus diver­sos seg­men­tos. Essa ten­ta­tiva de golpe escalou com o resul­tado das urnas des­fa­voráveis ao mesmo ex-​presidente, os diver­sos ques­tion­a­men­tos à lisura do pleito e a ordem de acam­pa­men­tos sin­croniza­dos em frente aos quar­téis como estraté­gia para forçar as forças armadas a tomarem o poder.

Nesse con­texto, o movi­mento de 8 de janeiro de 2023, não foi um movi­mento político espon­tâ­neo, pelo con­trário, foi plane­jado e exe­cu­tado no sen­tido de provo­car uma reação dos atu­ais inquili­nos do poder com pos­sível repressão vio­lenta e der­ra­ma­mento de sangue, capaz de jus­ti­ficar, em um ato der­radeiro, a equiv­o­cada inter­pre­tação do artigo 142 da Con­sti­tu­ição Federal.

Por motivos diver­sos o plano fra­cas­sou, seja porque as forças de segu­rança não rea­gi­ram (ou só foram rea­gir bem depois já no sen­tido de reduzir pre­juí­zos e reti­rar as pes­soas dos pré­dios públi­cos), seja porque, mesmo com o povo nas ruas, as forças armadas não quis­eram par­tic­i­par da falsa quar­te­lada.

A ten­ta­tiva de golpe acabou por se tornar uma espé­cie de “crime impos­sível”.

Assim, como acred­ito que houve uma ten­ta­tiva de golpe (ou uma orga­ni­za­ção política para uma sub­ver­são à ordem jurídica) acred­ito, tam­bém, que muitos daque­les cidadãos que par­tic­i­param dos even­tos do 8 de janeiro de 2023, em maior ou menor gradação, emb­ora ansi­assem pela der­rubada do gov­erno recém esta­b­ele­cido, não tin­ham con­sciên­cia de que estavam par­tic­i­pando de um golpe de estado ou da gravi­dade que tal fato tinha.

Essas pes­soas, esses cidadãos, foram lit­eral­mente usa­dos como “bucha de can­hão” dos orga­ni­zadores da falsa quar­te­lada. Imag­ino até que ten­ham tor­cido para que tivessem sido víti­mas fatais de uma reação poli­cial. Uns trinta mor­tos esten­di­dos no chão e estava pronta a des­culpa per­feita para o retro­cesso insti­tu­cional.

Acred­ito que o STF (não dis­cu­tirei sobre a com­petên­cia nesse texto) come­teu o equívoco de realizar o jul­ga­mento dos fatos ocor­ri­dos no 8 de janeiro de 2023 “de baixo pra cima” ao invés de jul­gar “de cima pra baixo”. É dizer: dev­e­ria ter ini­ci­ado por jul­gar os “grandes”, os que tra­ma­ram, plane­jaram, añuíram, con­cor­daram ou par­tic­i­param de alguma forma, inclu­sive, finan­ceira­mente e só depois, anal­isar e jul­gar as con­du­tas dos “bagrin­hos”, tam­bém, com a per­spec­tiva de que muitos são igual­mente víti­mas, foram usa­dos e ilu­di­dos pelos ver­dadeiros líderes da trama.

Essa cautela – e um jul­ga­mento justo –, evi­taria que se cri­assem nar­ra­ti­vas acerca do que acon­te­ceu e do que se ten­tou fazer no Brasil.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

Comen­tários

0 #1 Antônio Car­los Ferna 24-​03-​2025 00:05
Muito bom e opor­tuno. Parabéns.
Citar