AbdonMarinho - Não Alfabetizado.
Bem Vindo a Pag­ina de Abdon Mar­inho, Ideias e Opiniões, Sexta-​feira, 04 de Abril de 2025



A palavra é o instru­mento irre­sistível da con­quista da liber­dade.

Não Alfabetizado.


Não Alfa­bet­i­zado.

Por Abdon C. Marinho.

Muitos se per­gun­tam (e me per­gun­tam) sobre o meu inter­esse pela causa da edu­cação, sobre o sonho e desejo de ver cri­anças e jovens edu­ca­dos com qual­i­dade.

Já disse em diver­sas opor­tu­nidades que os meus pais eram agricul­tores, pobres e “anal­fa­betos por parte de pai, mãe e parteira”.

Emb­ora tal colo­cação tenha ares de chiste, na ver­dade sem­pre foi algo muito triste, sobre­tudo para o meu pai, já que minha mãe tinha alguns con­hec­i­men­tos primários, mas, infe­liz­mente, deixou-​nos bem cedo, mor­rendo no parto do décimo filho nascido com vida quando estava na faixa dos quarenta anos – tinha cinco anos de idade quando deu-​se a tragé­dia, a ter­ceira das mul­heres da família a “mor­rer de parto” em ter­ras maran­henses.

Outro dia minha irmã mais velha encon­trou um retratista para gravar uma foto de meu pai em uma louça para colo­car na sua der­radeira morada. Como tinha esque­cido a data exata do seu nasci­mento (?) acionou-​me atrás de tal infor­mação. Dei-​lhe mês e ano mas tinha dúvida sobre o dia, razão para acionar o irmão Mar­cell Mar­inho, filho do segundo casa­mento dele que local­i­zou e me man­dou a fotografia do seu RG.

Ao rece­ber a repro­dução do doc­u­mento vi, ao lado da foto, a expressão “Não Alfa­bet­i­zado”, grafada por máquina de escr­ever sobre o local onde dev­e­ria con­star a assi­natura do portador.

A emoção de reen­con­trar aquele doc­u­mento trouxe-​me a memória do quanto meu pai não gostava de ser anal­fa­beto, das vezes que dizia que dev­eríamos estu­dar para ser­mos alguém na vida; de que o único patrimônio que pode­ria nos deixar seria “o con­hec­i­mento” que não teve a opor­tu­nidade de ter; que gostaria de ter tido a opor­tu­nidade de ter con­hec­i­mento; não ter con­hec­i­mento era como ser um “cego”, etc.

— Ah, meu filho, o con­hec­i­mento ninguém nunca vai lhe tomar ou roubar, será seu para sem­pre. Cos­tu­mava dizer.

Lem­bro que ainda ten­tou alfabetizar-​se através do Mobral (antigo mod­elo de edu­cação de adul­tos anal­fa­betos que depois foi extinto). Não deu muito certo por motivos que ignoro.

Nascido em Angi­cos, Rio Grande do Norte, em 1929, com menos de um ano enfren­tou a primeira seca, em 1930, depois veio a grande seca de 1932/​33, depois a de 1940, a escassez dos anos de guerra, mais uma seca no final dos anos quarenta até que meu avô se can­sou, reuniu todos fil­hos, noras, gen­ros, já alguns netos, pri­mos e agre­ga­dos e resolveram migrar para Maran­hão. Era o iní­cio dos anos cinquenta.

A Saga de José Cal­heiro de Mar­inho já foi con­tada em outra opor­tu­nidade.

Conta a lenda famil­iar que o patrimônio ameal­hado por meu pai teve origem em um ovo de gal­inha que gan­hara de uma tia. Esse ovo virou uma gal­inha, depois um plantel, depois out­ros ani­mais, comér­cio e por aí a fora.

Ape­sar de pobres e anal­fa­betos, como dev­e­riam ser todos os pais, os meus tin­ham a pre­ocu­pação e o desejo que os fil­hos tivessem uma vida bem mel­hor do que aquela que tiveram.

Assim, logo que pud­eram colo­caram os mais vel­hos para estu­darem em Pedreiras e/​ou Gov­er­nador Archer, ini­cial­mente em casa de par­entes e/​ou ami­gos.

Mesmo depois da tragé­dia que foi a morte de minha mãe, deixando uma “escad­inha” de fil­hos de zero a 20 anos – o que exigiu uma reor­ga­ni­za­ção famil­iar –, meu pai insis­tiu que con­tin­uásse­mos estu­dando. Para isso alu­gou uma cas­inha sim­ples na Rua do Sossego, em Gov­er­nador Archer. E nos man­tinha, sem luxos, mais com os supri­men­tos para poder­mos nos ali­men­tar e estu­dar.

Uma vez – acho que a única vez –, deu-​me uma surra (que cer­ta­mente doeu mais nele que em mim) ao saber que eu estava fug­indo da escola. Ia para o Alde­nora Belo, saindo pelos fun­dos da casa e pas­sando por um campo de fute­bol, entrava na escola mas logo que tinha uma opor­tu­nidade saía para brin­car na rua.

Está­va­mos de férias ou em um final de sem­ana no nosso povoado quando ele tomou con­hec­i­mento do fato “dedu­rado” por um dos mais vel­hos. Já era “boca da noite” quando tirou o “cin­turão” de couro e deu-​me uma surra “con­ver­sada” sobre a importân­cia de estu­dar­mos.

Fui dormir de “couro quente” e nunca mais quis saber de fugir da escola.

Os pais que ver­dadeira­mente mere­cem tal título até quando nos dis­ci­plinam o fazem para nos aju­dar – porque faz parte da sua natureza pro­te­gerem os fil­hos.

Os anos 30 e 40 do século pas­sado não foram fáceis para o meu pai e seus irmãos, tin­ham que tra­bal­har de sol a sol e enfrentar as secas do sertão nordes­tino. Quando pensou-​se que não, já tin­ham que con­tin­uar ou a enfrentar uma labuta ainda maior para cri­arem os próprios fil­hos.

Em 1994, quando mor­reu o meu pai e alguns dos meus tios, já estava mais ou menos encam­in­hado na vida, já cur­sava Dire­ito na UFMA e já tinha pas­sado pela exper­iên­cia de aju­dar a coor­denar uma cam­panha de gov­er­nador de Estado. Já era rel­a­ti­va­mente con­hecido.

Nos anos ante­ri­ores, nas vezes que que con­ver­sei com meu pai, por ocasião de férias esco­lares ou de tra­balho, vez que aos 15 anos deixei o inte­rior para fazer o ensino médio no Liceu Maran­hense, em São Luís, meu pai sem­pre falou da importân­cia dos estu­dos e o quanto lamen­tava não ter tido essa opor­tu­nidade.

O meu inter­esse pela edu­cação é fruto dessa história de lutas da minha família que vem desde o meu avô, meus pais, que, emb­ora anal­fa­betos e pobres nos ensi­naram que através do con­hec­i­mento podemos mudar nosso des­tino e o des­tino de tan­tos out­ros que estão ao nosso redor.

Fui o primeiro da minha família a formar-​me advo­gado em 1996. Pas­sei por todas eta­pas da edu­cação pública do inte­rior, a escol­inha de “latada”, a unidade integrada, o ginasial noturno, o ensino médio, até a fac­ul­dade.

Depois de mim, muitos out­ros vieram, advo­ga­dos, médi­cos, pro­fes­sores, odon­tól­o­gos, nutri­cionistas, enfer­meiros e tan­tas out­ras áreas.

Outro dia pas­sei por uma emoção rara: vi numa rede social qual­quer ou grupo de What­sApp que o primeiro parto “cesar­i­ano” feito em Gonçalves Dias, deu-​se pelas mãos do meu sobrinho Wal­lace Andrade Mar­inho.

Para ele pode não ter sig­nifi­cado nada de espe­cial diante das cen­te­nas de par­tos que real­iza todos os meses. Mas para mim foi difer­ente, lembrei-​me que minha mãe (sua avó paterna) e out­ras duas tias min­has mor­reram de parto por falta de acom­pan­hamento médico ade­quado.

Quando falo a um dos meus clientes, gestores munic­i­pais ou estad­ual, secretários, que devem batal­har para ofer­e­cerem uma edu­cação de qual­i­dade, nada mais faço do que dizer o óbvio: qual­quer cri­ança é capaz de “fazer” o seu próprio des­tino se a ela for ofer­tada as condições para isso.

Foge a minha com­preen­são que os gestores não enten­dam que devem ofer­tar aque­les que admin­is­tram as mes­mas condições de apren­diza­gem que ofer­tam aos próprios fil­hos.

O meu pai foi um “não alfa­bet­i­zado” que teve a com­preen­são de que valia a pena edu­car os fil­hos para que estes edu­cassem os seus e rompessem o ciclo de mis­éria e dessem o mel­hor de si para a sociedade e até sal­vassem vidas.

A edu­cação é o cam­inho e a solução. A edu­cação muda e salva vidas.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.

Comen­tários

0 #1 José Machado 11-​01-​2025 12:24
Muito bom seu artigo! Emocionou-​me por tam­bém relem­brar a história da minha vida, com meus pais, 15 irmãos e a luta pela sobre­vivên­cia, no inte­rior do Maran­hão. Parabéns po remem­o­rar fatos duros, tristes, sem ressentimentos!
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