AbdonMarinho - Uma breve crônica para o amanhã.
Bem Vindo a Pag­ina de Abdon Mar­inho, Ideias e Opiniões, Sexta-​feira, 04 de Abril de 2025



A palavra é o instru­mento irre­sistível da con­quista da liber­dade.

Uma breve crônica para o amanhã.


Uma breve crônica para o amanhã.

Por Abdon C. Marinho.

LOGO CEDO um amigo me chamou para ir à praia. Ape­nas para olhar o mar. Como as man­hãs de domingo, no inter­valo da 8 às 10 horas, tiro para escr­ever logo vi que não teríamos a nossa crônica do fim de sem­ana.

Ape­sar de ser averso as mudanças na rotina resolvi dedicar essa manhã, ainda que por curto tempo, uma ou duas horas, a con­tem­plação da natureza.

A natureza vale muito a pena, muito emb­ora, na nossa pequenez não con­sig­amos ter essa dimen­são.

Há muitos anos, quando ainda menino, li ou ouvi uma frase nunca esqueci: “exis­tem coisas tão grandes que não con­seguimos enx­er­gar”.

Na minha cabeça de cri­ança fiquei com isso na cabeça, não con­seguia enten­der como era pos­sível não enx­er­gar as “coisas grandes”, até então pen­sava que tín­hamos difi­cul­dades de enx­er­gar só as coisas peque­nas, tão peque­nas que mesmo forçando a vista tín­hamos difi­cul­dades para enx­er­gar. Já as coisas grandes, não. Eram fáceis de serem vis­tas.

Não enten­dia nada do que sig­nifi­cava não vê aquilo que era grande.

Muitos e muitos anos se pas­saram. As min­has miopias se tornaram de out­ros jaezes.

Uma ida à praia nessa quadra da vida me faz pen­sar no quanto esta­mos erra­dos ao não enx­erg­amos a grandiosi­dade da natureza. E, talvez por isso, nos empen­hamos tanto em destruí-​la a ponto de, hoje já se falar que atingi­mos os “pon­tos de não retorno”. Ou seja, nada que façamos a par­tir de agora servirá para que as coisas voltem a ser como eram antes.

É dizer, muitas das exper­iên­cias que ainda é pos­sível viven­cia­r­mos hoje, muito, muito em breve serão ape­nas lem­branças.

Assim como já são lem­branças o que as ger­ações ante­ri­ores viveram.

Uma manhã qual­quer, pelas seis horas, horário que saio para tra­bal­har, encon­trei um sen­horz­inho que tam­bém saía para a lida, ofer­e­ce­mos uma carona até mais à frente.

Den­tro do carro ele dizia: — ah, doutor, esse Rio São João era um rio muito bonito, tinha a água trans­par­ente e uma infinidade de espé­cies de peixes. Sua faixa de areia vinha até onde hoje é essa pista por onde pas­samos. Nos finais de sem­ana as famílias se reu­niam às suas mar­gens para os ban­hos ou para piqueniques.

O Rio São João, a exem­plo de tan­tos out­ros que cor­tam a nossa ilha, sim­ples­mente deixaram de exi­s­tir, onde dev­e­ria ser o seu leito passa o esgoto de diver­sas casas ou con­domínios que foram surgindo ao lindo de suas mar­gens.

O mesmo acon­tece com o Paciên­cia, o Curu­ruca, o Cal­hau, o Bacanga, o Anil, e tan­tos out­ros.

Acred­ito que esses cur­sos d’água, tão impor­tantes para a ilha, já atin­gi­ram os seus “pon­tos de não retorno”, quais­quer medi­das, caso as autori­dades resolvessem ado­tar, difi­cil­mente teriam o condão de devolver-​lhes à pujança de outrora.

Perdemos os rios, perdemos parte da nossa história.

Em relação às futuras ger­ações, caberia, apro­pri­ada­mente a expressão: — perdeu, play­boy!

Ape­sar disso, acho que não custa apelar aos gestores que estão ini­ciando esse novo mandato em um momento tão cru­cial da história da humanidade, que se unam em um esforço comum de respeito ao meio ambi­ente.

Acred­ito que se tra­bal­harem para as futuras ger­ações ofertando-​lhes uma edu­cação de qual­i­dade aliando a isso a preser­vação de um ambi­ente sus­ten­tável já estarão fazendo algo extra­ordinário.

Esse tam­bém é um apelo para todos os demais gestores do Brasil. É pre­ciso que com­preen­dam que até para a preser­vação da memória é necessário que o “mundo exista”. Não adi­anta nada grandes real­iza­ções se as pes­soas tiverem que “brigar” diu­tur­na­mente para sobre­viverem em um ambi­ente abso­lu­ta­mente inóspito.

Faz-​se necessário que as autori­dades – e não ape­nas elas –, se pre­ocu­pem com o futuro das futuras ger­ações. Os desafios que as cri­anças de hoje terão quando atin­girem a idade adulta ou mesmo daqui a qua­tro, cinco ou seis anos.

É pre­ciso que com­preen­dam que cada fez mais os desas­tres nat­u­rais se tor­nam mais fre­quentes e desafi­adores.

O que nos espera daqui a uma década? Será que alguém se per­gunta isso? Será que esta­mos diante de algo tão grande que foge ao nosso campo de visão e de compreensão ?


A Carta da Ilha do iní­cio do século pas­sado é um chama­mento à razão.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.