Uma breve crônica para o amanhã.
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- Criado: Domingo, 05 Janeiro 2025 23:50
- Escrito por Abdon Marinho
Uma breve crônica para o amanhã.
Por Abdon C. Marinho.
LOGO CEDO um amigo me chamou para ir à praia. Apenas para olhar o mar. Como as manhãs de domingo, no intervalo da 8 às 10 horas, tiro para escrever logo vi que não teríamos a nossa crônica do fim de semana.
Apesar de ser averso as mudanças na rotina resolvi dedicar essa manhã, ainda que por curto tempo, uma ou duas horas, a contemplação da natureza.
A natureza vale muito a pena, muito embora, na nossa pequenez não consigamos ter essa dimensão.
Há muitos anos, quando ainda menino, li ou ouvi uma frase nunca esqueci: “existem coisas tão grandes que não conseguimos enxergar”.
Na minha cabeça de criança fiquei com isso na cabeça, não conseguia entender como era possível não enxergar as “coisas grandes”, até então pensava que tínhamos dificuldades de enxergar só as coisas pequenas, tão pequenas que mesmo forçando a vista tínhamos dificuldades para enxergar. Já as coisas grandes, não. Eram fáceis de serem vistas.
Não entendia nada do que significava não vê aquilo que era grande.
Muitos e muitos anos se passaram. As minhas miopias se tornaram de outros jaezes.
Uma ida à praia nessa quadra da vida me faz pensar no quanto estamos errados ao não enxergamos a grandiosidade da natureza. E, talvez por isso, nos empenhamos tanto em destruí-la a ponto de, hoje já se falar que atingimos os “pontos de não retorno”. Ou seja, nada que façamos a partir de agora servirá para que as coisas voltem a ser como eram antes.
É dizer, muitas das experiências que ainda é possível vivenciarmos hoje, muito, muito em breve serão apenas lembranças.
Assim como já são lembranças o que as gerações anteriores viveram.
Uma manhã qualquer, pelas seis horas, horário que saio para trabalhar, encontrei um senhorzinho que também saía para a lida, oferecemos uma carona até mais à frente.
Dentro do carro ele dizia: — ah, doutor, esse Rio São João era um rio muito bonito, tinha a água transparente e uma infinidade de espécies de peixes. Sua faixa de areia vinha até onde hoje é essa pista por onde passamos. Nos finais de semana as famílias se reuniam às suas margens para os banhos ou para piqueniques.
O Rio São João, a exemplo de tantos outros que cortam a nossa ilha, simplesmente deixaram de existir, onde deveria ser o seu leito passa o esgoto de diversas casas ou condomínios que foram surgindo ao lindo de suas margens.
O mesmo acontece com o Paciência, o Cururuca, o Calhau, o Bacanga, o Anil, e tantos outros.
Acredito que esses cursos d’água, tão importantes para a ilha, já atingiram os seus “pontos de não retorno”, quaisquer medidas, caso as autoridades resolvessem adotar, dificilmente teriam o condão de devolver-lhes à pujança de outrora.
Perdemos os rios, perdemos parte da nossa história.
Em relação às futuras gerações, caberia, apropriadamente a expressão: — perdeu, playboy!
Apesar disso, acho que não custa apelar aos gestores que estão iniciando esse novo mandato em um momento tão crucial da história da humanidade, que se unam em um esforço comum de respeito ao meio ambiente.
Acredito que se trabalharem para as futuras gerações ofertando-lhes uma educação de qualidade aliando a isso a preservação de um ambiente sustentável já estarão fazendo algo extraordinário.
Esse também é um apelo para todos os demais gestores do Brasil. É preciso que compreendam que até para a preservação da memória é necessário que o “mundo exista”. Não adianta nada grandes realizações se as pessoas tiverem que “brigar” diuturnamente para sobreviverem em um ambiente absolutamente inóspito.
Faz-se necessário que as autoridades – e não apenas elas –, se preocupem com o futuro das futuras gerações. Os desafios que as crianças de hoje terão quando atingirem a idade adulta ou mesmo daqui a quatro, cinco ou seis anos.
É preciso que compreendam que cada fez mais os desastres naturais se tornam mais frequentes e desafiadores.
O que nos espera daqui a uma década? Será que alguém se pergunta isso? Será que estamos diante de algo tão grande que foge ao nosso campo de visão e de compreensão ?
A Carta da Ilha do início do século passado é um chamamento à razão.
Abdon C. Marinho é advogado.