AbdonMarinho - Já não se reconhecem os amigos
Bem Vindo a Pag­ina de Abdon Mar­inho, Ideias e Opiniões, Quinta-​feira, 03 de Abril de 2025



A palavra é o instru­mento irre­sistível da con­quista da liber­dade.

Já não se recon­hecem os amigos


Já não se recon­hecem os amigos.

Por Abdon C. Mar­inho.

DURANTE a última incursão pela baix­ada e litoral norte do estado o amigo Max Harley contou-​nos um fato curioso que serve de guia ao pre­sente texto.

Voltava ele com alguns cole­gas da região Tocan­tina (acho que dois) e já no enfado da viagem mis­tu­rado ao cansaço do sono noturno – vez que saíra de Imper­a­triz pelas 16 horas –, preocupou-​se com a pos­si­bil­i­dade do colega a quem pas­saram o volante na altura de Santa Inês viesse a dormir, foi quando teve uma ideia.

Do nada disse: — rapaz, se tem uma pes­soa que eu admiro nesse mundo é o Lula.

Foi o que bas­tou para o colega que estava no volante “acor­dasse” e começasse uma pre­gação con­tra o pres­i­dente da república e exal­tasse as qual­i­dades do ante­ces­sor, ini­ciando por dizer: — muito me admira, doutor Max, que você diga uma coisa dessas.

A estraté­gia de Max para que se man­tivessem acor­da­dos deu certo e chegaram sãos e salvos na ilha para me con­tarem a história, ainda que ten­ham “sofrido” até as altas horas madru­gada com um debate político sem qual­quer sen­tido.

O amigo Max disse-​nos que o colega tornou-​se de tal fanático político que fez uma fotomon­tagem dele abraçando seu ídolo.

O Brasil é um país doente.

Já disse algu­mas vezes aqui mesmo a situ­ação do Brasil no que­sito relações inter­pes­soais tornou-​se uma des­graça.

Já não nos reuni­mos para falar sobre quais­quer assun­tos, tomar um café, um vinho ou chope sem que os ditos pro­tag­o­nistas da política nacional se façam pre­sentes e estraguem o momento de con­frat­er­niza­ção das pes­soas.

São laços famil­iares abal­a­dos, amizades des­feitas por conta de dois seres humanos que não têm qual­quer inter­esse ou sen­ti­mento de empa­tia pelos seus fanáti­cos seguidores.

O cidadão hon­esto e livre das paixões que se ocupe de fazer uma “linha do tempo” desde que tais lid­er­anças ingres­saram na política verá que o que sem­pre os nor­teou foram os próprios inter­esses, os inter­esses famil­iares, de uns poucos nos seus entornos e quando muito de alguma agremi­ação.

Enquanto isso, na planí­cie, em cam­panha sem fim, a pat­uleia até se mata – no sen­tido lit­eral mesmo –, por tais lid­er­anças.

A impressão que tenho é o brasileiro pre­cisa de um divã, a carên­cia afe­tiva, a ponto de “cegá-​los” em torno de um único assunto é caso para estudo psiquiátrico.

O debate político no Brasil deixou de ser algo saudável para se tornar uma coisa raivosa, sem que ninguém respeite o ponto de vista do outro e sem que os pon­tos de vis­tas não trans­bor­dem para desavenças pes­soais.

A situ­ação chegou a tal ponto que já está difí­cil “recon­hecer” ami­gos com quem sem­pre con­viveu se har­moni­ca­mente por anos, décadas, uma vida inteira.

Muito pior que isso, as pes­soas não se dão conta do quanto esse per­ma­nente debate político as tornaram chatas, intragáveis. Tudo agora é “faz o L”, é “Bozo”, é “naz­i­fascista” e todas as demais tolices que a grande maio­ria delas não sabe o que sig­nifica.

Um debate hor­ro­roso … e sem fim.

Se já era ruim o debate político cir­cun­scrito às fron­teiras nacionais, agora temos debate­dores políti­cos transna­cionais, com as amizades divi­di­das entre trump­is­tas e não trumpistas.

Não bas­tasse “emen­dar uma eleição na outra” agora colo­caram a eleição amer­i­cana entre elas.

Uma lou­cura sem fim, uma vez que os amer­i­canos sem­pre tiveram pro­fundo desprezo por tudo e todos que esteja abaixo do Rio Grande (a divisa entre Esta­dos Unidos e Méx­ico).

Foi uma coisa ridícula de assi­s­tir os brasileiros “torcendo” como loucos a favor de Trump nas últi­mas eleições amer­i­canas e depois por ocasião da posse, como se ele tivesse qual­quer inter­esse pelos países lati­nos que não o agir como legí­timo rep­re­sen­tante do impe­ri­al­ismo ianque.

Veja todos os amer­i­canos, sejam democ­ratas ou repub­li­canos, pen­sam neles, neles mes­mos e se sobrar algum tempo em como lucrar com algo ainda que isso sig­nifique a destru­ição do plan­eta.

Em plena emergên­cia climática, muitos brasileiros cer­raram fileiras na defesa jus­ta­mente daquele que encarna como nen­hum outro a ideia do lucro pelo lucro, que não tem qual­quer com­preen­são da importân­cia de se preser­var o meio ambi­ente, e tudo mais de hor­rendo que possa existir.

Chega a ser patético ter­mos que ouvir: — ah, o Trump vai defender a liber­dade de expressão.

O Trump vai defender os inter­esses das Big Tech’s para que elas façam o que quis­erem sem pagarem ou se respon­s­abi­lizarem pelos danos que pos­sam causar as pessoas.

As pes­soas não con­seguem enten­der que a “liber­dade de expressão” que muitos defen­dem é aquela que não os con­trariem em nada.

O próprio Trump já no dia seguinte à posse fez crit­i­cas mal-​educadas e gros­seiras con­tra o ser­mão pro­ferido por um bispa que na sua pre­gação pediu clemên­cia, respeito e trata­mento digno para os imi­grantes, refu­gia­dos e gays.

O tol­er­ante Trump, defen­sor ardoroso da liber­dade de expressão (estou sendo sar­cás­tico) chegou a exi­gir que a reli­giosa, que nada disse demais, se retratasse.

Uma coisa é certa, o falso lib­ertário não enganou ninguém, faz o que disse que faria, incluindo as coisas que não pode­ria fazer do ponto de vista das leis, porque o seu obje­tivo é “jogar para a plateia” para os seus fanáti­cos seguidores.

Já no primeiro ou segundo dia de mandato disse, com toda fan­far­rice tão car­ac­terís­tica da arrogân­cia amer­i­cana, que não pre­cisa do Brasil, que o Brasil, sim pre­cisa deles.

Acred­ito que os nos­sos patri­o­tas aplaudiram.

Já na primeira sem­ana as primeiras levas de brasileiros estavam sendo depor­ta­dos para o Brasil – não dis­cuto se estão cer­tos ou erra­dos em relação a imi­gração ile­gal –, mas, a forma, esses cidadãos foram depor­ta­dos alge­ma­dos e acor­renta­dos, acred­ito que nem ani­mais se deve trans­portar de tal forma.

Acred­ito que os patri­o­tas brasileiros vibraram.

O Brasil inau­gurou a política da “sabu­jice impe­ri­al­ista” e pior, nem é por uma nação, mas por uma pes­soa.

É como se estivésse­mos diante da visu­al­iza­ção da expressão: “o escravo ama as mãos que segura o chicote que o açoita”.

Não me recordo de ter viven­ci­ado tanto com­plexo de vira-​lata, tanta “panaquice”, tanta falta de respeito e amor próprio.

Sem­pre gostei muito de política. Desde os meus doze ou treze anos que debato e estudo sobre o assunto e sem­pre gostei de falar de política.

Nos últi­mos tem­pos, diante de tudo que vive­mos, deixei de fazer isso – quando muito, deixo para a pos­teri­dade min­has opiniões escritas, como essas –, quando alguém fala de polit­ica perto de mim, olho para o tempo e digo: “será que vai chover?”; ou desvio do assunto com um outro tema; muitas das vezes até con­cordo com o que o inter­locu­tor diz ape­nas para que ele me poupe e se poupe do des­gaste da amizade; o medo do infind­ável debate político tem me feito evi­tar reuniões com os ami­gos.

Muitos desses ami­gos tornaram-​se de tal forma rad­i­cais que já não os recon­heço, e para evi­tar des­gastes evito cer­tos temas ou encontrá-​los.

Acred­ito que muitas pes­soas sen­sa­tas passem por igual drama. Somos ami­gos das pes­soas mas abom­i­namos suas con­vicções políti­cas rad­i­cais – e todos se tornaram rad­i­cais.

Isso é muito triste.

Há uma frase de Jean Mes­lier (16641729), que é a seguinte: «O homem só será livre quando o último rei for enfor­cado nas tri­pas do último padre».

O ambi­ente político brasileiro da atu­al­i­dade é tão hor­rendo que se pode­ria ado­tar, ainda que em sen­tido metafórico, a expressão: “O Brasil só será um país livre quando o último bol­sonar­ista for enfor­cado nas tri­pas do último lulista”. Ou vice versa.

Abdon C. Mar­inho é advogado.

P.S. Me poupem de quer­erem me con­vencer de algo a respeito do pre­sente texto.

Comen­tários

0 #1 Maria do Remé­dio San 20-​02-​2025 21:14
Olá, doutor Abdon.
Boa noite.
Um texto muito reflex­ivo.
Usarei nos Serões.
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