AbdonMarinho - Imperadores e ladrões.
Bem Vindo a Pag­ina de Abdon Mar­inho, Ideias e Opiniões, Quinta-​feira, 03 de Abril de 2025



A palavra é o instru­mento irre­sistível da con­quista da liber­dade.

Imper­adores e ladrões.


Imper­adores e Ladrões.

Por Abdon C. Marinho.

AO MEU SEN­TIR um dos pon­tos mais emblemáti­cos da obra apel­i­dada de “O Ser­mão do Bom Ladrão”, do padre Antônio Vieira e pro­nun­ci­ado na Mis­er­icór­dia de Lis­boa em 1655, e não na Capela Real, como o próprio autor expõe no ini­cio da pre­gação é aquela parte em que o pároco é o que narra o encon­tro de Alexan­dre Magno com um pirata quando esse nave­g­ava com sua poderosa armada pelo Mar Eri­teu em sua cam­panha para con­quis­tar a Índia.

Narra o pároco que tendo sido levando à pre­sença de Alexan­dre um pirata que por ali andava a roubar pobres pescadores. Alexan­dre repreendeu-​o muito por andar em tão mau ofi­cio, o pirata que não era medroso ou lerdo, respon­deu ao poderosís­simo imper­ador, o mais poderoso de todos os tem­pos com estas palavras, segundo Vieira: –– Basta, Sen­hor, que eu, porque roubo em um barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?

Vejam a pro­fun­di­dade de tais palavras. Ambos eram ladrões o que os difer­en­ci­ava era o mon­tante do roubo. Enquanto um roubava ape­nas uma pes­soa, uma residên­cia, o outro roubava nações inteiras, espo­li­ava os reinos e fazia parte de sua pop­u­lação escrava.

Ao pirata que roubava ape­nas uma pes­soa o pop­u­la­cho pedia que sofresse duras penas, que fosse morto em praça pública. Ao outro o mesmo povo ren­dia lau­tas hom­e­na­gens.

Mil­hares de anos se pas­saram desde que ocor­reu o suposto encon­tro entre o imper­ador e o pirata, quase 400 anos ape­nas que o fato foi nar­rado pelo pároco naquela manhã de domingo na Mis­er­icór­dia de Lisboa.

Qual­quer um afas­tado das paixões exam­ine os fatos da atu­al­i­dade haverá de con­cor­dar que aquilo que disse Vieira nunca esteve tão atu­al­izado: os ver­sa­dos na arte do roubo e salteiam esta­dos inteiros são fes­te­ja­dos enquanto aque­les que roubam tostões ou mesmo para sobre­viver são reprim­i­dos ou punidos. E, muitas das vezes os repres­sores e/​ou apli­cadores das sanções são aque­les que tem como prin­ci­pal ofí­cio roubo, o latrocínio de esta­dos inteiros.

E citando São Basilio Magno dizia o pre­gador: “Não são só ladões os que cor­tam as bol­sas ou espre­itam os que vão ban­har, para lhes col­her a roupa; os ladrões que mais própria e dig­na­mente mere­cem este título, são aque­les a quem os reis encomen­dam os exérci­tos e legiões, ou o gov­erno das provín­cias, ou a admin­is­tração das cidades das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despo­jam os povos”.

Mas deix­e­mos as lições de Vieira para aden­trar à cru­enta real­i­dade dos nos­sos tempos.

A primeira per­gunta que o leitor mais atento fará é que as lições de Vieira pre­gadas a exatos 370 anos tem com os nos­sos dias. E a resposta a tal inda­gação não pode ser outra senão: tudo. Seja em relação aos déspotas de agora, seja em relação as mes­mas hipocrisias.

Os exem­p­los disso estão aí, às de todos. Não pre­cisamos sequer descer aos rincões do atraso para constatá-​los.

Vejam a Europa, não faz muito tempo uma nação inva­diu outra numa clara guerra de con­quista imposto indizível sofri­mento a toda uma pop­u­lação: fome, frio, deslo­ca­mento em massa, seque­stros de cri­anças, ocu­pação ter­ri­to­r­ial e todos os demais fla­ge­los que uma guerra traz.

Muito emb­ora haja uma resistên­cia da nação inva­dida e apoio de muitos países à mesma o o país inva­sor e o seu tirano de plan­tão encon­tra quem o apoie e o saude como se fosse algo difer­ente do que é: um déspota que causa sofri­mento a pes­soas inocentes.

Vejamos um outro exem­plo: não há quem não saiba que o régime venezue­lano tornou-​se uma ditadura fraud­u­lenta e que a última eleição perderam ver­gonhosa­mente e à cus­tas da opressão se man­tém no poder.

Ainda assim, muitas nações ditas democráti­cas (inclu­sive o Brasil) lá estiveram pre­sentes como a chance­lar aquela excrescên­cia.

Vi inclu­sive “autori­dades” e lid­er­anças políti­cas faz­erem coro para o régime venezue­lano como se ele fosse um mod­elo de democ­ra­cia.

E que papelão fez o Brasil em todo esse processo.

Fruto da lou­cura de nos­sos tem­pos o grande império do norte elegeu um apren­diz de tirano para o cargo mais impor­tante do mundo. Os Esta­dos Unidos, para ficar no exem­plo de Vieira, é a Macedô­nia de Alexan­dre com muito mais pode­rio bélico.

E o que faz o Alexan­dre genérico? Antes mesmo de assumir já falava em retomar o Canal do Panamá, que inte­gra uma nação sober­ana; em “tomar” a unidade autônoma da Groen­lân­dia, que inte­gra o reino da Dina­marca desde sem­pre; e até em tornar o Canadá o 51º estado amer­i­cano.

Ah, isso não é para ser lev­ado a sério. Como não levar a sério o homem que detém o maior pode­rio bélico do mundo e que tem o poder para destruir o mundo com as decisões que toma ou que insinua tomar.

Como igno­rar o que diz um homem que pelo pode­rio que tem, usando cargo público para o qual nem tomara posse fez um oper­ação finan­ceira que lhe ren­deu lucros pes­soais de mais de 5 bil­hões de dólares?

Percebe-​se clara­mente que não haverá dis­tinção entre delírios e real­i­dade. Entre o poder público e os dese­jos de lucros pri­va­dos.

As coisas são ditas e divul­gadas com tamanha nat­u­ral­i­dade que fico com a impressão que eu sou o alienista, que eu estou errado ao não encon­trar nat­u­ral­i­dade em nada disso, ao achar um absurdo tais colo­cações ou que se uti­lize do poder público para auferir lucros pri­va­dos.

Mas se os déspotas e tira­nos pouco ou nada mudaram nos últi­mos milênios os hipócritas tam­bém per­manecem os mes­mos.

Vejam que os mes­mos que fin­gem indig­nação com o régime dita­to­r­ial venezue­lano são os mes­mos que aplau­dem e que têm orgas­mos múlti­p­los a cada lou­cura que é pro­ferida pelo topetudo amer­i­cano.

A hipocrisia parece não guardar qual­quer respeito pelas pes­soas que ousam pensar.

Não faz muito tempo o dita­dor venezue­lano (sou um dos poucos que dizem isso há mais de dez anos) anun­ciou ao mundo que iria anexar setenta por cento do Suri­name, a tal Provín­cia de Esse­quibo. O mundo quase inteiro veio abaixo diante do despautério.

Hoje vemos o líder do maior país do mundo dizer que vai retomar, com força mil­i­tar, o Canal do Panamá, que rep­re­senta quase toda a econo­mia daquele país; que vai “adquirir” a Groen­lân­dia, que inte­gra o reino da Dina­marca e que vai “anexar” o Canadá como 51º estado amer­i­cano, e os mes­mos hipócritas nada dizem.

O entendi­mento deles (hipócritas) é que o dita­dor venezue­lano teria mais chances de cumprir suas ameaças que o “imper­ador” do norte?

E se tão ciosos pela pro­bidade admin­is­tra­tiva por que silen­ciam absur­da­mente diante da con­fusão de inter­esses públi­cos e pri­va­dos que começaram a praticar?

Como bem assen­tava Vieira e que serve como uma luva para os dias atu­ais, o que difere imper­adores de piratas é ape­nas o quanto são capazes de roubar. Aquele que rouba pouco é ladrão, aquele rouba muito é imper­ador.

Abdon C. Mar­inho é advogado.