AbdonMarinho - O Centro Novo - Parte I.
Bem Vindo a Pag­ina de Abdon Mar­inho, Ideias e Opiniões, Quinta-​feira, 03 de Abril de 2025



A palavra é o instru­mento irre­sistível da con­quista da liber­dade.

O Cen­tro Novo — Parte I.


O Cen­tro Novo — Parte I.

Por Abdon C. Marinho.

QUANDO as man­hãs são chu­vosas – como essa –, assaltam-​me a mente as lem­branças do Cen­tro Novo, minha aldeia, meu tor­rão natal, o lugar onde meu umbigo foi enter­rado para todo o sem­pre e por onde vagam os dentes de leite joga­dos enquanto se pro­fe­riam as palavras mág­i­cas: “Tião, Tião, pega seu dente podre e me dê um são”. Isso ou algo bem pare­cido.

Não sei o motivo das man­hãs chu­vosas me reme­terem a tais lem­branças, talvez, como dito, por ser o lugar das min­has primeiras memórias.

Nasci no Cen­tro Novo em uma manhã enso­larada de domingo. Con­tava ape­nas com a pre­sença de minha mãe, todas as demais pes­soas da casa haviam ido ao Igarapé de Pedrin­has ou para o banho ou para lavar as roupas que seriam usadas durante a sem­ana.

Con­forme já disse em out­ras opor­tu­nidades, está­va­mos ape­nas nós dois – eu e minha mãe –, em casa. Eu, por óbvio, ainda den­tro dela. Não mais que de repente sen­tiu as dores do parto, o oitavo, até ali e, antes que ela con­seguisse chamar por alguém para que fosse atrás da parteira da família, tia Fer­reira, esposa de tio Antônio, irmão mais velho de meu pai, eu “est­reava” no Cen­tro Novo e de lá para o mundo.

O Cen­tro Novo foi o lugar escol­hido para a “assen­tada” dos meus avós, seus fil­hos, fil­has, noras, gen­ros, já alguns netos, e out­ros par­entes vin­dos na car­a­vana do Rio Grande do Norte para o Maran­hão.

Foi o tio Pedro, o caçula dos fil­hos de meu avô que fez a escolha do lugar. Um ou dois anos antes viera como “expe­di­cionário” atrás de um lugar para aco­modar a família que já não tinha como supor­tar a inclemên­cia da seca do sertão nordes­tino. Não tive a opor­tu­nidade de perguntar-​lhe como foi que chegou aquela decisão.

Durante os primeiros anos o Cen­tro Novo foi o uni­verso dos reti­rantes nordes­ti­nos que tin­ham no lugar a razão de suas existên­cias. Com a pas­sagem do meu avô, em 1965, tio Pedro e tio Chiquinho, com os seus, mudaram-​se para Pedreiras. Lá rece­biam os sobrin­hos que os procu­ravam para obterem um estudo um pouco mais avançado. Naquela época Pedreiras era a “cap­i­tal do Mearim” e uma das cidades mais impor­tantes do estado.

Vivi no Cen­tro Novo os primeiros oito anos da minha vida – e as lem­branças para um vida inteira. Foi lá que “estreie”; foi lá que com um ano de existên­cia (ou pouco mais) tive poliomielite; foi lá que perdi minha mãe – e tam­bém diver­sos out­ros par­entes, meu avô, tia Zulima, tia Zefa, minha mãe, minha avó … tan­tos out­ros.

A minha Macondo era um povoado de uma só rua entre os municí­pios de Gov­er­nador Archer e Gonçalves Dias que quando surgiu eram tam­bém povoa­dos desen­volvi­dos de out­ros municí­pios: Codó e Cax­ias.

Na minha infân­cia con­sid­er­ava como lim­ites do povoado, a estrad­inha que dava acesso ao Cen­tro dos Rosas, do lado de Gonçalves Dias; e a entrada para o Povoado Vences­lau ou Cen­tro dos Came­los, pelo lado de Gov­er­nador Archer.

Era esse o meu uni­verso, os lim­ites que pode­ria fre­quen­tar após reapren­der a andar. A nossa casa ficava em um ele­vado aos pés de uma serra a meia dis­tân­cia dos dois pon­tos extremos do Cen­tro Novo. Abaixo de casa e à beira da estrada cor­ria o igarapé de Pedrin­has; feita em pau a piqué, pos­suía, além da parte res­i­den­cial, uns depósi­tos anexos todos com assoalho em madeira uti­liza­dos por meu pai para guardar o arroz que com­prava “na folha” para reven­der depois, quando o preço estivesse bom.

Com a pro­du­tivi­dade em alta, tanto de suas roças, quanto das com­pras que fazia, man­dara fazer um outro depósito maior na frente de casa no outro lado da estrada, para armazenar o arroz.

Quando era tempo de col­heita, ainda muito cri­ança, cinco, seis anos, acom­pan­hava meu pai, mon­tado em can­galha de bur­ros, pelas veredas, até as roças dos que venderam o arroz na folha para bus­car as sacas de arroz. Chegando lá, enchíamos as sacas de estopa, cos­turá­va­mos as “bocas” com bar­bante e agul­has, colocá­va­mos uma saca de cada lado dos bur­ros e voltá­va­mos para casa onde pesá­va­mos o arroz e colocá­va­mos no depósito; pelas veredas lá iam diver­sos bur­ros car­rega­dos de arroz, meu pai, meus irmãos mais vel­hos cada em um burro, as vezes puxando out­ros con­duzindo o com­boio. Não raro um burro “desem­bestava” com a carga ou atolava e o serviço dobrava.

No fim dia, pelas 16 horas, íamos “tratar” os ani­mais, que con­sis­tia levá-​los para o banho no igarapé ou no poço e depois alimentá-​los com milho e/​ou out­ras mis­turas para prepará-​los para a lida do dia seguinte.

Como já dito, meu pai tam­bém tinha suas próprias roças onde cul­ti­vava, arroz, fei­jão, milho, abób­ora, macax­eira, melan­cia, quiabo, max­ixe e tudo mais que uti­lizamos para nos ali­men­tar e ali­men­tar os bur­ros, vacas, por­cos, gal­in­has, etc. A mão de obra era do meu pai e dos meus irmãos, exceto vez ou outra quando o tra­balho aper­tava e havia neces­si­dade de se pagar alguma diária. Eu, por conta da pólio, par­tic­i­pava levando vez ou outra a refeição na roça ou uma cabaça com água fresca para eles.

Nos tem­pos de safra, aos fins de tarde, estendia-​se uns encer­a­dos e todos se ocu­pavam da debulha do milho ou do fei­jão. A debulha era um momento de lazer, até o horário de ir dormir se ficava naquele tra­balho enquanto se con­ver­sava ou se con­tavam cau­sos. O arroz para o con­sumo, quando não pilado no pilão era lev­ado para alguma usina, mas isso era exceção.

Vez ou outra apare­cia pelo Cen­tro Novo um ou outro “repen­tista” para que­brar a rotina.

Quase em frente a nossa casa, à dire­ita, ficava a casa de tia Malfísia, a irmã mais velha de meu pai e sua con­sel­heira, já a con­heci viúva, morava com uma das fil­has, Salete, e a neta, Fátima; ao lado de sua casa morava a outra filha, Cícera (Ciça) casada com Pingo e suas fil­has, Taz­inha e Neguinha; e já próx­imo ao depósito de papai, a Família Bizunga, que não sei se tinha algum par­entesco conosco (acred­ito que não).

Quase em frente, mas à esquerda de nossa casa ficava a casa de Batista, um con­tra­parente que tam­bém viera do Rio Grande do Norte e mais à frente, o ter­reno onde ficara a casa do meu avô. Aos fundo desse ter­reno havia um enorme pomar com man­gas de diver­sas espé­cies (manga rosa, espada, mesa, fiapo, massa …) sob a som­bra do arvoredo, nos dias livres, fazíamos diver­sas brin­cadeiras.

Esses foram os primeiros anos no cen­tro do uni­verso de uma cri­ança.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado.