AbdonMarinho - A deserção americana e a falta que Churchill faz.
Bem Vindo a Pag­ina de Abdon Mar­inho, Ideias e Opiniões, Quinta-​feira, 03 de Abril de 2025



A palavra é o instru­mento irre­sistível da con­quista da liber­dade.

A deserção amer­i­cana e a falta que Churchill faz.

A deserção amer­i­cana e a falta que Churchill faz.

Por Abdon C. Marinho.

QUANDO cri­ança, logo após ser alfa­bet­i­zado, lia muito. Estava sem­pre com um livro ou uma revista na cara lendo. Lia tanto que os mais vel­hos diziam que acabaria cego por “gas­tar” tanto a vista com leituras. Havia até um certo incô­modo com esse meu hábito. Não raro lia escon­dido para fugir das chateações. Aquilo que hoje os pais mais pre­ocu­pa­dos dizem aos fil­hos: — menino, larga esse celu­lar! Diziam a mim em relação aos livros.

Foi por essa época que “con­heci” o termo deser­tor. Nos livros de histórias de guer­ras ou de con­quis­tas, o termo tinha um sen­tido ímpar de gravi­dade. Alguém sobre que, recaia tal acusação, se descoberto pode­ria ser morto; se preso iria à corte mar­cial podendo ser con­de­nado à morte por crimes de guerra.

Hoje, imag­ino que não seja mais assim. Mesmo no Código Penal Mil­i­tar a pena por deserção é até branda. Acred­ito que só em caso de guerra externa, con­forme pre­vista na Con­sti­tu­ição, seja admi­tida a pena de morte – mas nem por isso.

Pois bem, faço tal intro­dução para aden­trar ao ver­dadeiro tema.

Em texto ante­rior afirmei de forma bem clara que o com­por­ta­mento do gov­erno amer­i­cano em relação à guerra na Ucrâ­nia era uma des­onra – con­tinuo afir­mando isso.

O clima de polar­iza­ção política que sacode o mundo fez com que muitos me crit­i­cas­sem por tal afir­mação. Mas, como disse, isso se deve ao clima de polar­iza­ção política. Esse clima é tão danoso que as pes­soas par­tidarizadas não con­seguem enx­er­gar o óbvio. Se fulano é da minha facção política ainda que mate alguém sem motivo a culpa jamais será dele mas sim do morto.

A des­onra da Casa Branca em relação ao que se passa na Ucrâ­nia é que ela pas­sou a cul­par a vítima pela guerra. Ao dizer que a Ucrâ­nia não quer a paz e joga com a escal­ada do con­flito ignora que a Ucrâ­nia é uma nação sober­ana que foi inva­dida por outra nação sem qual­quer jus­ti­fica­tiva plausível ou vál­ida.

Não é pos­sível falar em paz sem se par­tir do pres­su­posto que as fron­teiras nacionais pre­cisam – e devem – ser respeitadas.

Abro um parên­tese ape­nas para reg­is­trar a curiosa situ­ação dos “fac­ciona­dos” brasileiros: tatos os ditos de dire­ita quanto os ditos de esquerda, estão, enver­gonhados ou não, apoiando a invasão russa. Só para reg­is­trar que no fundo não diferem muito uns dos outros.

Falar que a vítima é respon­sável pela guerra equiv­ale dizer que você, cidadão comum, é respon­sável ou “cul­pado” por rea­gir con­tra out­rem que invade sua casa, começa a destruir seu mobil­iário e a matar seus par­entes.

No patético “bar­raco” ocor­rido na Casa Branca e que motivou aquele texto foi isso que os amer­i­canos dis­seram, pelas bocas dos seus diri­gentes (pres­i­dente e vice-​presidente).

E foram além. Com a des­culpa de que a vítima não quer a paz ou seja, se deixar matar den­tro de casa, infor­maram a sus­pen­são da ajuda que prestam aquele país no esforço de guerra.

E, pode ser pior, querem cobrar dez vezes mais aquilo que já apor­taram no con­flito.

O meu entendi­mento – e não peço escusas aos que dis­cor­dam –, é que sobra ambição e falta caráter aos gov­er­nantes americanos.

Em se man­tendo a sus­pen­são de ajuda a Ucrâ­nia em guerra entendo que o termo mais ade­quado em relação aos amer­i­canos é deser­tores.

Essa sus­pen­são, quando se sabe da dependên­cia mil­i­tar da Ucrâ­nia em relação aos EUA, sig­nifica, na ver­dade, uma mudança de lado, um alin­hamento ao país inva­sor.

Essa deserção não é uma retórica política ou um arroubo. No doc­u­mento que junto ao pre­sente texto (ape­nas a ver­são em inglês), con­sta que os Esta­dos Unidos da Amer­ica se com­pro­m­e­teram a garan­tir a segu­rança da Ucrâ­nia e a garan­tir a sua sobera­nia e inte­gri­dade ter­ri­to­r­ial, esta­b­ele­ci­das e recon­heci­das no ano de 1994.

O doc­u­mento, chamado de Mem­o­rando de Budapeste, tem o com­pro­misso do gov­erno amer­i­cano, do Reino Unido e da Rús­sia em respeitarem as fron­teiras, não pro­movem vio­lação ter­ri­to­r­ial ou coesão econômica con­tra aquele país.

Não sei se é porque estou ficando velho – sou do tempo em que com­pro­mis­sos se hon­rava ape­nas com a palavra –, que acho que os amer­i­canos não têm o dire­ito de igno­rarem um com­pro­misso de gov­erno e aban­donar um país em guerra. Na minha rede social até disse que o gov­erno ucra­ni­ano pode­ria (dev­e­ria) acionar a Justiça Fed­eral Amer­i­cana cobrando o cumpri­mento do con­trato de 1994. As assi­nat­uras de Bill Clin­ton em todas as ver­sões do doc­u­mento é a com­pro­vação mais que necessária para que os amer­i­canos sejam com­peli­dos a hon­rarem a palavra dada e o acordo assi­nado. Tal acordo obriga qual­quer gov­erno, com um mín­imo de decên­cia, a hon­rar. Tratou-​se de com­pro­misso do país.

Noutra quadra, a própria Europa já deve está sentindo na “pele” o equívoco de ter deix­ado sua segu­rança em mãos amer­i­canas com base em com­pro­mis­sos que remon­tam ao tér­mino da Segunda Guerra Mundial.

A Ucrâ­nia paga o preço (alto) por ter con­fi­ado que bas­taria um con­trato assi­nado por todas as grandes potên­cias mundi­ais para ter asse­gu­rado sua inde­pendên­cia, sobera­nia e respeito aos seus lim­ites ter­ri­to­ri­ais ajus­ta­dos. Se tivesse man­tido sua capaci­dade bélica intacta, inclu­sive com armas nucleares, cer­ta­mente não estaria tão vul­nerável como se encon­tra hoje.

Con­fiou na Rús­sia, con­fiou nos EUA, con­fiou no Reino Unido… agora sofre as con­se­quên­cias enquanto os dois primeiros “tra­mam” para saber quem fica com maior fatia do butim.

Há trinta anos, por ocasião desse acordo, alguém me aler­tou da grande tolice que estava come­tendo tanto a Ucrâ­nia quando os demais países que aceitaram entre­gar suas armas para a Rús­sia.

A Europa tam­bém se ressente do fato de não pos­suir nen­huma lid­er­ança com a estatura de Win­ston Churchill, que, em deter­mi­nado período durante a Segunda Guerra Mundial, a sus­ten­tou prati­ca­mente soz­inha. A sua for­t­aleza de caráter e de princí­pios impediu que assi­nasse acor­dos e pactos com os nazis­tas.

Emb­ora se trate de uma obra de ficção, o filme “O Des­tino de Uma Nação”, acho, que de 2018, retrata muito bem a importân­cia de Churchill para o des­tino daquela guerra


Esse vazio de lid­er­ança faz com que a Europa não con­siga rea­gir de forma ráp­ida e uni­forme a qual­quer hos­til­i­dade ou das besteiras que se pro­fere desse lado do atlân­tico dia sim e no outro tam­bém.

Final­mente parece ter enten­dido que a segu­rança de cada um daque­les países não pode mais ficar longe do seu próprio con­t­role.

Para a des­graça do mundo e das futuras ger­ações, ter­e­mos que con­viver ainda durante muito tempo – ao invés de nos pre­ocu­par­mos com a sal­vação do plan­eta –, com o axioma: queres paz, este­jas preparado para a guerra.

É uma lás­tima, mas, infe­liz­mente m é o que nos resta.

Abdon Mar­inho é advo­gado.

P.S. Segue abaixo a ver­são inglesa do Mem­o­rando de Budapeste assi­nado em 5 de dezem­bro de 1994.