AbdonMarinho - Roteiro de filme tipo B (de Brasil)
Bem Vindo a Pag­ina de Abdon Mar­inho, Ideias e Opiniões, Domingo, 24 de Maio de 2026



A palavra é o instru­mento irre­sistível da con­quista da liber­dade.

Roteiro de filme tipo B (de Brasil)


Roteiro de filme tipo B (de Brasil)

Por Abdon C. Marinho.

Esta­mos em mea­dos de 2019, numa opu­lenta man­são à beira do lago, dois senadores con­ver­sam em um pier durante um con­vescote de final de tarde.

— E aí, “mer­mão”, como é mesmo essa “parada” de roubar os vel­hin­hos do INSS? Quero fazer parte.

— Ah, a parada é a seguinte: com os cadas­tros dos ben­efi­ciários, faze­mos parce­rias com as enti­dades de rep­re­sen­tação dos mes­mos, fic­tí­cias ou não, para que os con­vençam a autor­izar pequenos descon­tos em troca de bene­fí­cios ou seguros que nunca irão pre­cisar. Além das enti­dades, começamos através de alguns ban­cos ami­gos a fazer “emprés­ti­mos”, tam­bém, reais e/​ou fic­tí­cios. Se algum reclama ou leva para a Justiça, “damos um jeito” do processo durar mais tempo do que a sobre­v­ida do reclamante.

— “Mer­mão”, essa “parada” é da hora.

— Sim. Já esta­mos fazendo isso há mais de uma década e nunca tive­mos prob­le­mas. É só dividir dire­it­inho e ter os canais certos.

— Agora somos nós que esta­mos no poder, como é que fica a nossa parte?

— Que­ria mesmo tratar disso con­tigo. A “parada” de roubar os vel­hin­hos do INSS já está sat­u­rada, com muita gente envolvida, muita gente tirando o seu pedaço, mas quer­e­mos con­tin­uar con­tando com a colab­o­ração de vocês para não “melar” o esquema.

— Beleza, como vamos fazer para nos con­tem­plar nessa parada? Não podemos ficar de fora.

— Tem um sujeito aí, par­ceiro de uns ami­gos meus, com um “plano de negó­cios” muito inter­es­sante e que já vem operando na Bahia. A ideia é ajudá-​lo a nacionalizar sua oper­ação e assim todos nós gan­har­mos muito, coisa de bil­hões. Podemos até envolver parte da parada do INSS.

— Estou de acordo. Como podemos fazer?

— Pois bem, esse cidadão mineiro acabou de ter negado, pelo Banco Cen­tral, um pedido para trans­for­mar sua insti­tu­ição finan­ceira em banco. Se con­seguirmos resolver isso, a oper­ação vai deslan­char e será “mas­ter” para todos nós.

— Deixa que den­tro do gov­erno eu “opero”. Na hora que tro­car­mos o comando do Banco Cen­tral, uma das primeiras medi­das será autor­iza­ção para a insti­tu­ição do “nosso irmão” virar banco.

— Então esta­mos com­bi­na­dos. Na hora que o “nosso irmão” de Minas Gerais estiver por aqui, dare­mos um jeito de mar­car­mos um encon­tro dis­creto para alin­har­mos como será e qual o “pedaço” de cada um e como serão os pagamentos.

— Está certo, quanto a isso já tenho uma ideia: posso reati­var minha sociedade advo­catí­cia em parce­ria com a minha esposa, que poderá se asso­ciar com out­ras parce­rias, e assim a “muamba” entrar sem des­per­tar sus­peitas ou, pelo menos, com uma explicação.

— Sim, é uma boa ideia. Eu mesmo, emb­ora não sendo advo­gado, tenho uns par­ceiros que “operam” para mim dessa maneira. Quem poderá dizer alguma coisa se todos ou quase todos os min­istros do STF, STJ, TCU, mem­bros do Min­istério Público pos­suem escritórios de advo­ca­cia ou parce­ria com as mel­hores bancas?

— Essa sem­ana mesmo, pedi­rei ao con­ta­dor para orga­ni­zar a empresa jurídica formalmente.

— Per­feito. A história de vender choco­lates era muito amadora para o vol­ume de negó­cios que podemos fazer aqui por Brasília. A firma de advo­ga­dos com a esposa é muito mel­hor. Qual­quer bronca que apare­cer, diz que foram hon­orários por serviços presta­dos, por con­sul­to­ria, etc. Os próprios min­istros já fazem isso.

— Pois é, eu que pen­sei que aqui fosse um pouquinho difer­ente do que acon­tece no meu estado.

— Aqui é tudo igual, só é mais caro, muito mais caro.

— Estou vendo isso.

— E aí, soube que está ten­tando com­prar uma casa?

— Sim …

— Então, essa man­são já pode entrar em uma das trata­ti­vas com o “nosso irmão” de Minas.

— É mesmo?

— Claro, usa-​se um banco amigo para sim­u­lar um finan­cia­mento a perder de vista e o “nosso irmão” acabará dando um jeito de pagar. É assim que fun­ciona. Aqui ninguém tra­balha com o próprio din­heiro; é tudo din­heiro do con­tribuinte, do orça­mento, das emen­das ou desvi­ado dos menos favorecidos.

— Pois amanhã mesmo vou procu­rar o gov­er­nador para que abra os canais do banco estadual.

— Faz isso, é mamão com açúcar.

— Só tem uma coisa, para todos os efeitos, o pai ainda não pode saber do negó­cio com o “nosso irmão” mineiro nem sobre o “emprés­timo” da mansão.

— Fica tran­quilo, aqui todos sabem de tudo, mas todos fin­gem não saber. Como os out­ros cole­gas, min­istros com­pram man­sões, car­rões, vivem no luxo e em via­gens? Do salário? Cer­ta­mente que não. Fica gelo.

Caía noite à beira do lago, entre um gole ou outro do mel­hor uísque que o din­heiro público pode com­prar, as excelên­cias iam con­jec­turando sobre as mais vari­adas for­mas de afa­nar as econo­mias dos con­tribuintes incau­tos, enquanto estes, cré­du­los, acred­i­tavam em mudanças de sistema.

No dia seguinte, no azul celeste dos tapetes do Senado da República, as mes­mas excelên­cias fariam elo­quentes dis­cur­sos sobre a pro­bidade admin­is­tra­tiva e pediam penas duras para os ladrões de gal­in­has ou para aque­les que roubaram um quilo de arroz ou fei­jão para ali­men­tar a família.

Repetindo a ver­dade indi­gesta já dita por Vieira há quase qua­tro­cen­tos anos, tam­bém, no Brasil, o roubar pouco fazem os piratas ou roubar muito fazem as excelências.

Esse é o primeiro ato do nosso Roteiro de filme tipo B (de Brasil). Qual­quer semel­hança com os fatos da vida real é não mera coin­cidên­cia.

Abdon C. Mar­inho é advo­gado, escritor, cro­nista.