AbdonMarinho - SEGUNDA CARTA AO GOVERNADOR FLÁVIO DINO.
Bem Vindo a Pagina de Abdon Marinho, Ideias e Opiniões, Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018



A palavra é o instrumento irresistível da conquista da liberdade.

Rui Barbosa

Escrito por Abdon Marinho

SEGUNDA CARTA AO GOVERNADOR FLÁVIO DINO
NUNCA É TARDE DEMAIS PARA FAZER A COISA CERTA. (Nicholas Sparks)
São José de Ribamar, 08 de dezembro de 2017.

Meu caro Flávio,

Aproveito a piedade deste dia dedicado a Imaculada Conceição – a Virgem Maria, que viveu livre dos pecados –, para escrever-te e faço, também, por que revendo alguns escritos, encontrei a carta que escrevi – e publiquei –, por ocasião da tua eleição em outubro de 2014.
Naquela oportunidade lançava ideias sobre como poderias enfrentar os desafios de dirigir um estado com problemas consolidados em anos de domínio, quase ininterrupto, de um único grupo político.
Infelizmente, pouco ou nada foi considerado.
Um amigo, conhecido pelo aguçado senso de humor, disse ao reler aquela carta – a republiquei outro dia nas minhas redes sociais –, que, se não lestes, certamente seus assessores leram, pois trataram de fazer justamente o contrário do que lá fora recomendado, com exagero, pontuou: as lágrimas de esperanças referidas naquela carta tornaram-se lágrimas de aflição.
Entendo, conforme disse Augusto Cury: “uma pessoa inteligente aprende com os seus erros, uma pessoa sábia aprende com os erros dos outros”.
Acredito que a larga maioria dos problemas atuais sejam frutos da imprevidência, do senso de autossuficiência ou porque aprendestes pouco com os erros dos governos anteriores e nunca teve a coragem de reconhecer, no curso da caminhada, os teus próprios.
Isso era previsível – o poder tem a capacidade de cegar-nos –, por tal razão escrevi aquela carta, com o propósito de dar uma modesta contribuição ao governo que iria iniciar. Como fiz, também, ao escrever diversos outros textos com sugestões e/ou críticas, quase sempre entendidas pelos xerimbabos de plantão como gestos hostis. Nunca foram. Sempre foram na intenção de contribuir.
Na verdade, como nunca ambicionei o poder, sempre desejei que os governos “dessem certo”. O nosso povo precisa. Esta a razão das críticas e sugestões.
Fui além, quantas vezes não recomendei que fossem feitas auditorias externas para liberar os auditores do estado para o acompanhamento da tua gestão? Diversas. Terias, de cara, sido poupado de dois problemas: as insinuações de usares o aparato estatal na perseguição de adversários e os auditores do estado teriam te poupado de dares explicações embaraçosas sobre os desacertos de tua gestão. A menos que estes sejam encarados como “questão de governo”.
Aprendi ao longo dos anos que os aliados, quase sempre, causam mais problemas aos governos que os adversários. Numa leitura livre de Vieira, no Sermão do Bom Ladrão, escrito em 1655, a certeza de que nem os reis alcançarão os céus sem levar consigo os seus ladrões, nem estes descerão aos infernos sem levar consigo os seus reis.
O teu governo é um retrato deste ensinamento. Ainda que digas estarem justificados e sejam legais aquilo que ficou conhecido como “aluguéis camaradas”, sabemos que os mesmos mais existem para atenderem este ou aquele aliado.
O mesmo se diga em relação ao nepotismo – prática nefasta das administrações públicas Brasil a fora –, tão presente no atual governo que os adversários fazem piadas ao dizerem que ao invés de um governo transparente fizestes, na verdade, um governo de “traz parentes”.
São chagas que podias passar sem, como homem de formação jurídica sólida pelos anos que atuastes como professor e/ou como juiz federal.
A incapacidade de ouvir bons conselhos gera estes dissabores.
Veja o caso da saúde. Em três anos de gestão a Polícia Federal já amanheceu pela terceira vez às portas do teu governo. Ainda que argumentem, nas duas primeiras vezes, que se tratavam de “malfeitos” da gestão anterior, nesta última a investigação está centrada na atual. E, embora a PF pareça não saber a narrativa completa, existem situações complicadas para o convencimento da sociedade, como é o caso dos pagamentos efetuados a empresas criadas ou reformuladas com propósito de fazer gestão de pessoal na rede hospitalar.
Pelas fotografias da fachada e depoimentos de vizinhos, tem-se a certeza do engodo.
A Isso se some o fato de que os profissionais não sabem, formalmente, de quem recebe, e se as verbas estão sendo pagas como devidas, o que ensejará um passivo trabalhista inimaginável para o Estado nos anos que virão.
Ainda nesta seara, em que pese as inaugurações de novas unidades hospitalares, no imaginário popular – e já ouvimos isso de diversas pessoas –, persiste a ideia de que na gestão anterior o atendimento era melhor.
Outro ponto nevrálgico da administração é a segurança pública.
Os avanços propalados pelas diversas mídias não são sentidos no dia a dia dos cidadãos que sofrem com a insegurança.
Veja este exemplo: um amigo, após muito esforço e trabalho, construiu uma casa. Por ser engenheiro, fê-la no capricho, a casa dos sonhos. Não faz muitos dias teve a casa invadida por meliantes e, humilhado, abandonou a própria casa para viver de aluguel.
Neste bairro são comuns estas coisas, tanto que chamado de Araçagy está sendo apelidado de Araçagyquistão. E como ele, temos ainda, Iraque, Faixa de Gaza...
Em diversos bairros as facções criminosas estão ditando a lei, proibindo assaltos, dizendo como os moradores devem se comportar e como os veículos devem adentrar nos mesmos.
Não é só, a Polícia Civil, precisa ser melhor equipada e treinada.
O que temos visto é que nem mesmo as estruturas físicas estão adequadas ao funcionamento de suas atividades, não sendo raras as interdições por via judicial de delegacias em todo estado. Quando não são despejadas por falta de pagamento dos aluguéis.
Se não possuem condições físicas para o funcionamento, não devemos falar em equipamentos de ponta para as investigações. Entretanto, diversas obras de construção de delegacias – iniciadas ainda no governo anterior – estão paralisadas ou andam a passos lentos, fazendo com que os policiais fiquem impedidos de prestar um bom serviço.
Esse abandono faz-nos chorar de vergonha quando nos deparamos com gaiolões medievais como aquele que ceifou a vida de um empresário em Barra do Corda.
Noutra quadra, enquanto a população se ressente da ausência de segurança, são corriqueiras as denúncias de que o aparelho estatal vem sendo usado contra adversários, inclusive, a polícia. Não foram poucas as denúncias que recebemos sobre estes fatos durante as eleições municipais do ano passado. Se verdadeiras, trata-se de algo pavoroso.
Um ponto positivo do teu governo é o programa “Escola Digna”, acho formidável a iniciativa de substituição das taperas vergonhosas por algo parecido com escolas, mas, mesmo este programa vem sendo mal executado e não tem como atender aos fins a que se destina, conforme demonstrei a seguir.
O projeto anuncia a substituição de cerca de 300 taperas por escolas.
Pelo que vi cada uma destas escolas (uma pela outra) sairá por quase R$ 600 mil reais, o que representará, nos fins das contas, um investimento de quase R$ 200 milhões de reais. Isso para eliminar as cerca de 300 escolinhas alojadas em taperas, latadas ou outras sem qualquer estrutura.
Uma experiência, neste sentido, gastando infinitamente menos, foi empreendida em Morros entre os anos 2009 e 2016, pela prefeita Silvana Malheiros. Lá, a gestão eliminou cerca de cem escolinhas que funcionavam em taperas, casas de farinha, casas de família e latadas, construindo 6 polos educacionais. Cada um destes polos possuíam (não sei se a atual gestão está mantendo), seis salas de aulas, refeitório, cozinha, biblioteca, banheiros amplos e outros instrumentos e, ainda, internet banda larga, para atender estudantes e a comunidade. Isso tudo na zona rural.
Cada um destes polos custou bem menos de um milhão de reais (na faixa de R$ 600 mil), e foram construídos – a exceção de um –, com recursos próprios.
Noutras palavras, com menos de R$ 20 milhões, com um planejamento efetivo, eliminarias a mesma quantidade de escolas indignas que vens eliminando, e com mais qualidade de ensino.
Outra experiência (apenas para citar as que conheço) foi empreendida pelo Município de Timon, onde o prefeito Luciano Leitoa já adequou quase toda rede de ensino e creches, inclusive climatizando-as.
Eu me pergunto se não teria sido mais proveitoso se tivesses chamado especialistas e, junto com os gestores municipais, fizessem um pacto pela educação a partir de experiência exitosas, como as citadas.
Ainda que se investisse R$ 5 milhões por município – dependeria da necessidade de cada um –, seria mais vantajoso para a educação a concentração em polos, teríamos um projeto de ensino, de fato, e não meras substituições de escolinhas.
Veja, embora as “Escolas Dignas” que estão sendo inauguradas tenham um excelente impacto visual, sobretudo, com a comparação feita com as taperas substituídas e os depoimentos de alunos e professores, elas estão longe de representar um avanço significativo na qualidade de ensino.
Infelizmente, o teu governo recusa-se a qualquer diálogo e com isso insiste nos erros que jurastes combater. Sem contar a já famosa intolerância à divergência e perseguição aos que pensam de modo diferente, como denunciam, diariamente, jornalistas e blogueiros.
Outra coisa que vejo como perturbadora, é a leniência no trato das invasões de propriedades privadas – e mesmo para o cumprimento das decisões judiciais –, relacionadas à matéria. Trata-se de um desserviço à organização urbana de médios e grandes centros, influenciando no aumento da violência urbana e a demanda por serviços públicos nos municípios já tão sacrificados financeiramente.
Será tão difícil assim fazer e manter um cadastro com o nome das pessoas que precisam de moradia? Por que não criar um cadastro único em parceria com os municípios? Tenho por certo que muitas pessoas, efetivamente, precisam de moradia, mas muitos estão sendo usados para enriquecer os barões da indústria da invasão. Basta ver os que sempre ficam com melhores e mais valorizados terrenos.
Outra coisa a merecer muita atenção do governo é a qualidade das obras públicas, principalmente as rodovias estaduais.
Não estão sendo bem feitas, suspeito que muitas não aguentem um inverno rigoroso. Vejo o dinheiro público, como acontecia no passado, se esvaindo.
E, ainda no assunto, recebo como estarrecedora a notícia de que parte destas obras de infraestrutura estão sendo “tocadas” por conhecidos agiotas do estado, ainda que por interpostas pessoas.
Vi a notícia e não acreditei. Como é possível que aquelas pessoas – responsáveis por grande parte do infortúnio do estado –, estejam comandando obras públicas? Enlouqueceram?
Na verdade, é como se o aparato estatal estivesse dando uma “forcinha” para que “lavem” os recursos obtidos com a prática de crimes, inclusive de homicídios.
A inteligência não avisou as autoridades que esta ou aquela empresa “pertence” a este ou aquele agiota? Será que acham normal este tipo de coisa? Será, também, “questão de governo?”.
Apesar de nenhuma autoridade ter aparecido para desmentir este tipo de notícia, espero, sinceramente, que elas não sejam verdadeiras, pois, neste caso, teria de reconhecer que este governo não tem mais jeito e, que, ainda conquistando o direito de continuares à frente dos destinos Maranhão, a degradação só tenderá a aumentar.
Poderia descortinar outros aspectos da gestão, como agricultura, meio ambiente, etc., mas ficarei por aqui.
Acredito que, por tudo isso, outro dia, um jornalista escreveu que o teu governo havia terminado. O término, não no plano material, posto que continuas firme e forte – com chances, até, de te reelegeres –, mas como uma ideia de mudança que foi vendida aos maranhenses de bem.
Não temos como desconsiderar assertiva tão forte.
Encerro com um ensinamento de Salomão: “o tolo pensa que sempre está certo, mas os sábios aceitam conselhos”.
Se puderes, pensa nisso.
Um fraterno abraço,
Abdon Marinho.