AbdonMarinho - PUTAS E PADEIROS.
Bem Vindo a Pagina de Abdon Marinho, Ideias e Opiniões, Terça-feira, 22 de Agosto de 2017



A palavra é o instrumento irresistível da conquista da liberdade.

Rui Barbosa

Escrito por Abdon Marinho

PUTAS E PADEIROS.

Os últimos dias foram tomados por mais uma daquelas falsas polêmicas que, acho, só acontecem no Maranhão. Um dos nossos candidatos declarou que só pega no batente as 9 horas da manhã. Não teria nada demais, caso o candidato não tivesse dito que para ele isso era muito \"cedo\", quando sabemos que a maioria dos trabalhadores do Brasil já estão no batente, muitas das vezes 2, 3 horas antes”, ou saíram de casa para pegar a serviço desde às 5, 6, 7 horas. Mas isso não vem ao caso, no momento.

Sempre cultivei o hábito – não sei se por necessidade – de acordar cedo. Quando criança, fiz o primário pela manhã, muito antes do U. I Castelo Branco, em Gonçalves Dias, abrir já estava na Praça Miguel Bahury esperando. O ginásio feito no mesmo colégio a noite, agora chamado Colégio Bandeirante, não me impediu de continuar acordando cedo pois tomava de conta de uma quitanda do meu pai. Acordava cedo ia para o comércio e só encerrava o expediente, por volta das 5, 6 horas, já para seguir para o colégio de onde voltava por volta  10:30 ou 11 horas 

Quando cursei o segundo grau no Liceu Maranhense, a tarde,  mantive a rotina de acordar cedo pois levava os sobrinhos para o colégio. 

A faculdade foi feita no período simultâneo ao trabalho na Assembleia Legislativa, como assessor do Deputado Juarez Medeiros, estudava a noite e trabalhava o dia inteiro. O expediente na época começava um pouco mais cedo pois Juarez apresentava um programa na Rádio Educadora e já as 7:00 horas da manhã fazíamos a primeira reunião do dia quando ele retornava da emissora. 

O hábito é mantido até hoje. Quase todos os dias chego ao escritório antes das 7 horas e quase nunca depois deste horário. Por conta disso não enfrento os aborrecimentos diários com trânsito que tanto perturba os demais cidadãos nesta cidade. 

O silêncio da manhã me faz muito bem. Aproveito essa tranquilidade para escrever, pensar ou contemplar a graça e a arte da vida. Morando em sítio os amigos costumam dizer que acordo com os pássaros. Corrijo-os, acordo na verdade antes deles. Uma meia hora depois é que eles (os pássaros) começam o seu canto. 

Como acordo muito cedo, costumo dormir também cedo. Esse hábito, as vezes, é motivo de discussão com muitos amigos que trocam o dia pela noite. Quantas vezes não ligo para algum no meio da manhã e ouço perguntar o que quero aquela hora da madrugada? São inúmeros os trocam o dia pela noite. Acham-se mais produtivos no silêncio da madrugada, quando podem ler, estudar, trabalhar, produzir…

Um dos mais famosos por isso – e talvez, por isso, dos mais produtivos –, foi o jornalista Walter Rodrigues. 

Como lia o jornal loco cedo, principalmente nos fins de semana,  costumava ligar para ele por volta das 8 ou 9 horas, para comentar as notícias do dia, muitas das vezes uma denúncia veiculada num dos seus primorosos textos. A secretária atendia e, invariavelmente,  dizia: – Dr. Abdon, o seu Walter ainda está dormindo. Quando acordava e retornava a ligação, ou eu voltava a ligar,  reclamava: – Pô, Walter, 9 horas e você ainda dormindo? Ele retrucava: – Abdon, só fui dormir as 4 horas da manhã. Dizia: – Essa hora já estava quase  levantando. Ele fechava o assunto: – Abdon, você dorme e acorda em horário de padeiro, eu  durmo e acordo em horário de puta, quando padeiro está levantando para começar o expediente, a puta está encerrando o seu. Eu não posso ir dormir em horário de puta e acordar em horário de padeiro. 

A falsa polêmica destes dias, me lembrou essas passagens deliciosas da minha vida e a convivência com os amigos. Lembrou-me mais ainda, por conta de uma nota irônica, o candidato que disse começar o expediente “cedo”, as 9 horas, se orgulha de dizer que o sucesso da sua vidas empresarial teve inicio com sua atividade de… PADEIRO. Walter deve dá sonoras gargalhadas com essa. 

 

Abdon Marinho é advogado.